Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Caio Porfírio Carneiro (Terceiro Cavaleiro: A vingança)

Por isto ele tinha aquela grande tristeza,
Que ele nunca disse bem que tinha...
Fernando Pessoa


As patas do animal deslizaram no barro e a mão susteve a rédea para manter o equilíbrio. A chuva caía persistente e encharcava a longa crina castanha.

Olhos tristes, faces encovadas, aproximou-se da calçada alta e em rápida laçada prendeu o animal ao poste. Chegou-se ao balcão deserto, coberto de moscas:

– Uma dose. Forte. Bem forte.

O homem flácido embrulhou-se e recuou tímido antes de atendê-lo.

– Este frio que não passa...

O homem flácido entregou-lhe a bebida. Examinou o conteúdo do copo, onde pequenas borbulhas explodiam como pérolas.

– Da melhor.

– Obrigado.

Sorveu o líquido de uma vez e sentiu a sensação morna espalhar-se por todo o corpo. Enfiou as mãos nos bolsos do capote e deteve-se à porta. Circulou a vista pela praça deserta:

– Apenas o senhor vive neste lugar?

O homem escorou-se ao balcão e balbuciou palavras ininteligíveis.

– Todos se foram?

O homem flácido continuava a atropelar palavras.

– E se eu estivesse aqui para matá-lo?

O homem abria desmesuradamente os olhos e fazia gestos confusos com as mãos.

– Pensarei nisto, homem. Pensarei nisto.

Aproximou-se do animal e enxugou-lhe, com a aba do capote, o focinho gotejante. A vista caiu então no vulto, encolhido no banco tosco, no centro da praça. Voltou ao balcão e bateu muitas vezes com os nós dos dedos na madeira:

– Ele lá. Está vendo? Lá, no banco da praça. Persegue-me há anos. Sabia?

O olhar do homem flácido procurava compreender. O braço continuava apontando:

– Lá. No banco da praça.

O homem encolhia-se e mostrava-se mais balofo. E tinha medo dos olhos tristes.

– Persegue-me sempre, sem parar. Um tormento.

Voltou à porta, decidido. A praça mostrava-se deserta. Circulou pela calçada, olhos vigilantes e mais tristes. As casas, iguais e cinzentas, acachapadas sob o aguaceiro, cercadas de carrapicho. A igreja, ao centro, coberta de lodo e descascada, crescia monstruosa e ele teve uma ponta de medo. A água, em riachos, gorgolejava em muitas direções.

Recuou em passos lentos, levantou a aba do capote, desceu a do chapéu, para impedir que o vento continuasse a lhe navalhar o rosto.

O homem, debruçado ao balcão, disforme e pesado. Foi necessário que o suspendesse pelas axilas, acumulando o máximo de forças, e o jogasse sobre sacas. Então pulou o balcão e se serviu sucessivamente de doses douradas, até se sentir perfeitamente aquecido. Com esforço, transpôs uma das sacas sobre o balcão e aproximou-a do animal:

– Farte-se.

Apanhou, nadando no enxurro, o pedaço de madeira com muitos nós, e sopesou-o. Ao erguer-se, os olhos abriram-se surpresos e depois semicerraram-se desconfiados para estudar, com cuidado, o vulto ali encolhido no banco tosco, meio enfiado na lama, no centro da praça.

Voltou rápido e bateu o pedaço de madeira com tal violência no balcão que o homem deslizou pela parede como enguia.

– Persegue-me sempre! Não me deixa em paz.

Pegou o homem pelo braço, decidido:

– Venha.

Trouxe-o por sobre o balcão, as pernas gordas a atrapalhar.

– Venha!

Empurrou-o porta afora e juntos percorreram a calçada. Estacou. O banco estava deserto, lá sozinho no centro da praça, meio encoberto pelo mata-pasto, e cresceu-lhe por isto um começo de ódio e decepção.

– Volte, homem, para a sua venda. Não preciso mais de você.

Sentou-se na ponta da calçada, junto ao animal, que focinhava o conteúdo da saca, na pressa de comer. O capote aberto, indiferente ao vento frio, não afastava os olhos do banco tosco e deserto. Demorou-se ali longamente. Depois levantou-se, abotoou-se até o pescoço, voltou a descer as abas do chapéu e a subir a gola do capote. Firmou na mão o pedaço de madeira e saiu, blote, blote, a mergulhar as botas no barro mole, disposto a uma inspeção. O animal, farto, escorou-se ao poste, sonolento, indiferente à chuva.

Aproximou-se do velho banco de madeira carcomida, derreado na lama e no mato crescido. As casas pareciam vigiá-lo. A igreja bem plantada e disforme no meio do capinzal que alcançava os peitos.

Parou diante da porta e pensou em abri-la em encontrão rápido. O sentimento de respeito fê-lo apenas encostar os dedos. Surpreendeu-se ao vê-la ceder sem esforço e escancarar-se par em par. A nave pareceu-lhe imensa, sem fim e deserta. Os passos reboaram e ele passou a mudá-los com prudência. A abóbada, lá no alto, e o crucifixo, lá distante, deram-lhe conta de que estava sozinho. Voltou sobre os próprios passos e se deteve à porta escancarada para o tempo. O vulto estava no banco, encurvado e solitário. O ódio e o desespero crisparam-lhe os dedos no pedaço de madeira.

Aproximou-se pisando em tufos de capim. Viu-se às costas do vulto, que se tornara mais impreciso, envolto que estava na espessa neblina. O braço subiu e caiu em pancadas violentas e sucessivas, até sentir-se exausto e descobrir que o pedaço de madeira se partira em farpas miúdas.

Voltou para junto do animal. Estirou-se na calçada, abriu o capote, jogou o chapéu para o lado, desabotoou a camisa e recebeu no peito, como um bálsamo, a água fria que caía em cortina cerrada. Poderia dormir profundamente e deixar o tempo passar.

Então aproximaram-se e seguram-lhe os pulsos. A multidão fechava o círculo e o homem flácido mostrava-se ainda apavorado:

– Entrou aqui na venda, tirou-me do sono, bebeu e espancou-me.

O homem fardado olhou-o nos olhos e o homem flácido ampliou os gestos:

– Arrastou-me aqui fora, por cima do balcão. Aqui fora.

O dedo gordo, igualmente flácido, apontou trêmulo para a saca:

– E tudo aquilo, de muito valor e de minha propriedade, para o cavalo dele. Prejuízo grande.

O homem fardado ordenou que se afastassem. Austero e silencioso, examinou o animal. Depois, encurvado, mãos nos joelhos, estudou o homem de faces encovadas estirado na calçada:

– Encapotado como está, e com este sol, de onde terá vindo?

Voltou ao animal. Verificou sela, arreios.

– Coberto de suor. Estafado. Vê-se logo.

A voz cansada e catarrosa de um velho tão velho que não tinha mais o que envelhecer se destacou por entre as muitas cabeças:

– Muitos se foram, amargurados e tristes, no tempo das chuvas e das pestes na Lagoa Grande. Lembram-se? Parece um deles.

O homem fardado encarou o velho bem velho, com ar de incredulidade:

– Muitos e muitos anos já se passaram, velho. Anos e mais anos.

Depois, mostrou-se revoltado:

– Ninguém surgiu, da multidão tão grande, a passear na praça ou a rezar na igreja, para segurar-lhe o braço e impedir que desse cabo daquele pobre coitado, que apareceu por aqui e ninguém sabe também de onde veio.

Voltou a examinar, detidamente, o homem encapotado, estendido na calçada, e sentiu por ele, inexplicavelmente, muita pena.

– Dorme profundamente.

Pensou um instante e concluiu:

– Melhor assim.

E olhou na direção do morro, para os lados da serra do Catolé:

– Levem-no e julguem-no.

(Caio Porfírio Carneiro, Chuva: Os dez cavaleiros)

Fontes
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.
Imagem = Cavaleiro da Morte, de Lúcio Mota

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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