Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Moacir Costa Lopes

Moacir Costa Lopes (Quixadá, 1927 – Rio de Janeiro, 2010) ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1942. Viajou, em vários navios, por toda a costa brasileira, em patrulhamentos de guerra. Deixou a Marinha em 1950, fixando-se no Rio de Janeiro. Estreou em 1959, com o romance Maria de Cada Porto. Seguiram-se diversos romances, traduzidos para idiomas como russo, checo, inglês. Em 1969 fundou a Editora Cátedra. Em 1971 organizou e editou a Antologia de Contistas Novos. Seu primeiro livro de histórias curtas é O Navio Morto e Outras Tentações do Mar, de 1995. Moacir C. Lopes não costuma ser mencionado em livros de história e crítica literária cearenses. Também de geração muito anterior à daqueles que estrearam nos anos 1970.

Compõem O Navio Morto e Outras Tentações do Mar nove peças longas, quase novelas, nas quais é o mar, se não o tema, o ambiente das tramas. Em “O mar devolverá o corpo de Clarissa”, narrado ora na primeira pessoa do feminino, ora na terceira pessoa, a poesia impregna todas as páginas. Clarissa é poeta e elabora a narração com metáforas: “Saía pela noite a engravidar-me de estrelas, meus poros transpirando vaga-lumes”. No desenlace da narrativa, confessa: “Sinto que me engravidei. Dentro de alguns meses nascerá um poema”.

                Os mistérios do mar e das pessoas que vivem dele – os pescadores, suas mulheres e filhas, a urbana Clarissa – são o principal ingrediente desse conto. E, sobretudo, o estranho homem que aparece de repente, não se sabe de onde, ergue um casebre e passa a viver na colônia de pescadores.

                Os temas do mar estão presentes em muitas outras narrativas, como indica o próprio título do livro. E isso se explica pela vivência de Moacir no mar, marinheiro que foi por alguns anos.

                Em outra inusitada composição, “Do corpo de Marisa brotarão orquídeas”, o ambiente é o de uma chácara. No entanto, o mistério também envolve os personagens. E mais uma vez uma mulher assume papel de protagonista. História em que o incesto é visto por outro ângulo, porque arquitetado pela filha, com objetivos puramente materiais. As cenas de lubricidade explícita dão um toque de realismo à peça. No entanto, no desfecho “poético” pode-se vislumbrar um quê de fantástico: “Cuidado, maninho, ao se mexer, para não esmagar os botões de rosas e orquídeas que brotarão de nossos corpos enquanto dormimos. E o pólen que brotará dos meus seios”.

                Em “A alma e a aura da corveta Jaceguai” a ação se transporta da praia para uma embarcação misteriosa e sua proprietária, a bela Rosana. Em “O navio morto” se narra outra lenda do mar. Belona, a nau fantasma, carrega a morte, mortos que ressuscitam, para, no final, inexplicavelmente, atravessar outro navio e nada acontecer. Narrativa de aparente realismo (uma epidemia ou peste, uma poeira desconhecida, a fuga das pessoas da cidade para o navio), que, aos poucos, vai tomando ares de história de suspense e horror, para, no final, se mostrar como exemplo de composição fantástica.

                Moacir conhece os meandros das técnicas de narrar e, por isso, compõe suas histórias – sempre entremeadas de mistério – de diversas maneiras, sem se deixar levar pelo encanto do malabarismo verbal. Simplesmente muda de ponto de vista de uma frase para outra. No conto de Clarissa, não usa travessões nos diálogos. Aspas aparecem somente nas falas dos personagens secundários. Entretanto, a diversidade de ações o leva a se estender na narração e a segmentar o tempo. Por outro lado, há no contista, ainda, uma preocupação desnecessária com a informação histórica, misturada à memória.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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