Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 22 de dezembro de 2018

Herman Hesse (O Jovem Apaixonado: Uma Lenda)


Esta história aconteceu no tempo de Santo Hilário. Na terra natal deste santo, em Gaza, vivia um casal humilde e crente, a quem o Senhor abençoara com uma linda e esperta menina. Para alegria de todos, a menina cresceu em recato, modéstia e temor a Deus, guiada pelos pais para a prática do Bem. Tanta pudicícia e suavidade de modos eram comparáveis às de um anjo do Senhor. Os cabelos escuros e sedosos esvoaçando em torno dos ombros, os olhos modestamente baixos, que longas pestanas sombreavam, caminhava ela sob as palmeiras com movimentos graciosos, esbelta e leve como uma gazela. Não tinha olhos para homem algum, pois aos catorze anos de idade, após grave doença, foi prometida por seus pais, no caso de salvar-se, como noiva de Deus. E Deus aceitara a oferenda.

Foi por essa moça pura que um jovem da mesma terra se apaixonou. Também ele era formoso e  esbelto, filho de pais abastados que o haviam criado e educado com esmero. Mas desde que se apaixonara pela linda donzela não pensava em outra coisa senão buscar oportunidades para vê-la e dirigir-lhe olhares ansiosos. Mas nos dias em que não lograva encontrá-la ficava triste e pálido, recusando alimentos e passando horas a fio entre suspiros e lamentos.

O jovem recebera uma boa educação cristã, era de índole delicada e religiosa, mas essa paixão avassaladora tornara-se dona absoluta de sua alma. Já não conseguia rezar e, em vez de elevar o pensamento para as coisas santas, recordava apenas, obsessivamente, os longos cabelos pretos da donzela, seus belos e tranquilos olhos pestanudos, a cor e os contornos delicados de seu rosto e lábios, o alvo e fino colo, os pequenos e ágeis pés. Temia, porém, comunicar seu grande amor, pois bem sabia que ela não tencionava aceitar homem algum e pretendia devotar seu amor somente aos pais e a Deus.

Por fim, consumindo-se de desejo dirigiu-lhe extensa e fervorosa carta, na qual falava de seu grande amor e lhe implorava encarecidamente que o aceitasse para que, num futuro não muito distante, pudessem gozar uma vida conjugai feliz e abençoada por Deus. Perfumara essa missiva com finos pós da Pérsia, enrolara-a com um cordão de seda e ordenara que a entregassem à donzela, em segredo, por intermédio de uma velha criada.

Quando ela leu a carta, seu rosto fez-se escarlate, como se tivesse sofrido um ataque de rubéola. Em sua confusão inicial, inclinara-se a rasgar a carta ou mostrá-la imediatamente à mãe. Não o fez, porém, não só por conhecer o jovem desde criança e gostar dele mas também por notar que suas palavras eram repassadas de delicadeza e bondade. Decidiu então devolver a carta à velha, com as seguintes palavras:

— Devolve esta carta àquele que a escreveu e diz-lhe que nunca mais me dirija semelhantes palavras. Diz-lhe também que fui prometida a Deus por meus pais, não podendo jamais dar minha mão a um homem, e que devo e quero permanecer em meu estado virginal para servir e honrar a Deus, cujo amor é infinitamente superior e mais valioso do que qualquer afeto humano. E diz-lhe ainda que, enquanto eu não encontrar alguém cujo amor seja superior e mais valioso do que o amor a Deus, permanecerei fiel aos meus votos de castidade. A ele, porém, que escreveu esta carta, desejo que viva na paz do Senhor. E agora vai, e faz-lhe saber que nunca mais aceitarei mensagem alguma.

A criada, surpreendida por tanta firmeza, voltou a seu amo com a carta e lhe pôs a par de tudo o que a donzela lhe dissera. Apesar das palavras de consolo da velha, o moço apaixonado entregou-se a ruidosas lamentações, rasgando as roupas e espalhando cinza e terra sobre a cabeça. Não se atrevia mais a procurar a donzela, em seus passeios, limitando-se a segui-la com olhares à distância. À noite, em sua alcova, não conciliava o sono, murmurava o nome da amada e dirigia-lhe milhares de carinhosas e doces palavras, chamando-a de sua luz, sua estrela, sua gazela, sua palmeira, sua pérola e seu consolo... e quando despertava de tais fantasias, e via-se só em sua alcova, tinha acessos de raiva, maldizia o nome de Deus, rangia os dentes e batia com a cabeça nas paredes.

Por causa dessa paixão terrena, o temor a Deus toldara-se e acabara por se extinguir de seu coração, onde apenas o demônio tinha agora acesso, dominando o jovem ao sabor de seus desígnios tenebrosos. Foi assim que, certo dia, o tresloucado rapaz jurou que possuiria a donzela, nem que para tanto tivesse que recorrer à força. Viajou para Mênfis e ingressou na escola do sacerdote pagão Asclépio, tomando com ele lições de feitiçaria. Dedicou-se com afinco, durante um ano, a tais estudos e voltou em seguida a Gaza.

Começou então a gravar signos mágicos e palavras de sortilégio em placas de cobre com infalíveis poderes de feitiço. Durante a noite, ia furtivamente colocar essas placas sob a soleira da porta onde morava a donzela. Já no dia seguinte à aparição da primeira placa a donzela parecia mudada: seu recatado olhar cabisbaixo tornou-se mais franco, mais animado; soltou os cabelos, deixando-os ondear ao vento; desleixou as orações e serviços religiosos; e ouviram-na cantar uma serenata de amor que ninguém lhe ensinara. Esta conduta tornava-se mais escandalosa com o passar dos dias, e de noite, remexia-se nas almofadas do leito, gritando o nome do jovem, chamando-o de seu bem-amado e confessando desejos carnais.

Essa mudança na donzela enfeitiçada não podia, evidentemente, passar despercebida a seus pais. Cientes de tão estranhos modos e palavras, ficaram vigilantes, espiavam-na discretamente e tanto se apavoraram com o que ouviram uma noite que o indignado pai logo quis expulsar de casa a depravada filha. A mãe, contudo, implorou paciência; era preciso examinar bem o caso e reconhecer que a filha fora levada a tão estranho comportamento certamente por algum feitiço.

Como a donzela continuasse possessa, proferindo até blasfêmias e gritando cm altas vozes que desejava seu amado, lembraram-se os pais de um santo eremita, Hilário, que vivia há longos anos fora da cidade, em pleno deserto, e tão perto de Deus que todas suas preces eram ouvidas. Curara tantos enfermos e exorcizara tantos demônios que bem podia ser tido na conta — ao lado de Santo Antônio — do mais poderoso agente de Deus daqueles recuados tempos. 

A donzela foi então  levada por seus pais a Hilário, a quem contaram tudo o que estava acontecendo e imploraram ajuda. Hilário acercou-se da donzela e assim falou:

— Quem fez de ti , serva de Deus, um receptáculo de maus desejos?

A moça, encarando aquele que tinha o corpo esquálido e a pele queimada, começou ridicularizando-o, chamando-o de espantalho sarnento e entoando em voz dolente:

— Vede minha pele branca e macia, meu corpo liso, meus apetitosos seios!

Aterrorizados, os pais caíram de joelhos e esconderam a cabeça entre as mãos, tomados de vergonha. Mas Hilário sorriu, e reconhecendo o Diabo que se apossara da donzela, fustigou-o tanto que, sentindo-se acossado por uma força superior à sua, acabou dizendo seu nome e confessando todas as suas artimanhas. O santo expulsou violentamente o demônio, que opunha a maior resistência na alma da donzela, e esta acabou tombando sem sentidos. Quando acordou, como de um sono febril, reconheceu e saudou os pais, que choravam, pediu a Hilário sua bênção e, dessa hora em diante, voltou a ser a boa serva de Deus.

Entrementes, o jovem esperava que os feitiços de amor fizessem efeito na donzela e a levassem a seus braços ávidos. Passava os dias acalentando essa esperança, certo de um desfecho propicio, ao mesmo tempo ern que a donzela, depois das provações acima narradas, reencontrava o caminho da virtude e, curada, voltava à cidade. O jovem, ao passar por uma rua, viu-a surgir ao longe e encaminhar-se na sua direção. Quando já estavam perto um do outro, ele viu que no rosto da donzela refulgia a antiga pureza e que toda ela irradiava uma beleza tranquila, como se tivesse acabado de descer do Paraíso. Surpreendido, o jovem estacou e, envergonhado de sua malfeitoria, teve um súbito impulso de afastar-se. Mas dominou-se e, como ela se acercasse bastante, presumiu que o feitiço tivera algum efeito. Chegou perto da donzela e, tomando-lhe as mãos, disse:

— É certo, pois, que me tendes amor?

A donzela, sem enrubescer, ergueu os olhos para que ele pudesse contemplá-los como se contempla uma estrela pura e distante. Uma indescritível bondade resplandecia em seu rosto suave. Reteve entre as suas mãos a mão do jovem e respondeu:

— Sim, meu irmão, eu vos amo. Amo a vossa pobre alma e vos rogo que a liberteis do Mal. Entregai-a a Deus para que readquira a pureza e a formosura de outrora.

Uma mão invisível tocou o coração do jovem. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele exclamou:

— Ah, devo então renunciar ao vosso amor para sempre? Pois ordenai-me que o faça. Quero unicamente fazer aquilo que for de vosso agrado.

Ela sorriu como um anjo e disse:

— Não deveis renunciar a mim para sempre. Chegará o dia em que todos estaremos irmanados diante do trono de Deus. Tratemos pois de proceder de modo a que possamos olhá-lo sem temor e passar em Seu Juízo. Quero ser vossa amiga. Será por pouco tempo que vivereis separado de mim.

Soltou lentamente suas mãos e, sorrindo, prosseguiu em seu caminho. O jovem ficou imóvel, como que fascinado. Depois dirigiu-se para casa, fechou-a e foi para o deserto servir a Deus. Sua formosura dissipou-se, emagreceu, a pele escureceu; dividia seu tugúrio com os animais do campo. Quando se sentia exausto e dúvidas o assaltavam, seu único consolo era repetir centenas de vezes as palavras da donzela: "Será por pouco tempo..."

Embora o tempo se alongasse, os cabelos encanecessem e ele ficasse neste mundo até à idade de oitenta anos, o eremita pensava: Que são oitenta anos? Os anos vêm e morrem como se tivessem as asas de um pássaro. A Eternidade me espera, após este voo breve pelo mundo. 

Desde os recuados tempos em que viveu esse jovem, muitas centenas de anos já transcorreram e com que rapidez serão também esquecidos os nossos atos e os nossos nomes, e não ficará outro vestígio de nossa vida senão, talvez, uma pequena e incerta lenda...

Fonte:
Herman Hesse. O Livro das Fábulas. 

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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