Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 16 de dezembro de 2018

Margaret Atwood (Poemas Diversos)



SOMOS DUROS UM COM O OUTRO 

I

Somos duros um com o outro
e chamamos-lhe honestidade
escolhendo as nossas verdades dentadas
com cuidado e apontando-as através 
da mesa neutra

As coisas que dizemos são
verdadeiras: é o nosso alvo 
retorcido, são as nossas escolhas 
que nos tornam criminosos.

II

Claro que as tuas mentiras 
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez

As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono 
de tão poucas

III

Uma verdade deveria existir
não deveria ser usada 
assim. Se eu te amo
é isso um fato ou uma arma?

O corpo mente 
ao mover-se assim, são estes 
toques, cabelos, o mármore
macio e úmido que a minha língua percorre
mentiras que me estás a dizer?

O teu corpo não é uma palavra,
nem mente 
nem fala a verdade

Apenas 
estás aqui ou não estás.

DIVAGAÇÃO SOBRE A PALAVRA DORMIR

Gostava de te olhar a dormir
mesmo que isso nunca aconteça.
Gostava de te olhar,
a dormir. Gostava de dormir
contigo, entrar
no teu sono, sentir seu fluxo suave e nebuloso
a deslizar sobre a minha cabeça

e caminhar contigo nessa floresta luminosa
ondulante de folhas fluorescentes
com um sol aquoso e três luas
até à caverna onde terás que descer,
em direção ao teu pior medo

Gostava de te oferecer o ramal de prata,
a pequenina flor branca, 
aquela palavra que te protegerá
da dor a meio
do teu sonho, do desgosto central. 
Gostava de te acompanhar
até ao cimo da longa escadaria
mais uma vez e de ser
o barco para te transportar de volta
com cuidado, uma chama
entre duas mãos em concha
onde o teu corpo se deita
ao lado do meu, e tal como nele entras
com a facilidade com que se respira

Gostava de ser o ar
que te habita  durante um breve momento. 
Gostava de ser tão imperceptível
e tão necessária.

CIRANDA

Estar contigo
aqui neste quarto

é como tatear um espelho
onde o vidro derreteu
até a consistência
de gelatina

 tu recusas ser
(e eu)
um reflexo exato, mas
não te afastas do vidro,
separado.

 De qualquer maneira, o certo
é que puseram
imensos espelhos aqui
(lascados, tortos)

neste quarto com a sua janela alta
e o guarda-roupa vazio;  até mesmo
por trás da porta
está um.

 Há gente no quarto ao lado,
discutem, abrem e fecham gavetas
(as paredes são finas)

Tu olhas para além de mim, ouves
o que dizem, talvez, ou
contemplas
o teu próprio reflexo em algum lugar

atrás da minha cabeça,
por cima do meu ombro

Voltas-te, e a cama
cede abaixo de nós, perdendo o foco

há alguém no quarto ao lado

há sempre

(o teu rosto
distante, escuta)

alguém no quarto ao lado.

HISTÓRIAS VERDADEIRAS

I

Não me peças a história verdadeira;
para que precisas tu dela?

Não é com isso que me levanto
nem o que transporto.

Aquilo com que vou navegando,
uma faca, fogo azulado,

sorte, algumas palavras boas
que ainda funcionam, e o instante.

II

A história verdadeira perdeu-se
durante o caminho para a praia, é alguma coisa

que nunca tive, esse negro emaranhado
de ramos numa luz evanescente,

as minhas pegadas apagadas
cobrem-se com sal

 água, esta mão cheia
de pequenos ossos, a matança daquela coruja;

uma lua, papéis amassados, uma moeda,
o brilho de um antigo piquenique,

as covas feitas pelos amantes
na areia, cem
 anos atrás: nenhuma pista.

III

 A história verdadeira existe
no meio das outras histórias,

uma confusão de cores, como roupa despida
amontoada ou atirada fora,

como corações em mármore, como sílabas, como
despojos de carniceiros.

A história verdadeira é viciosa
e múltipla e falsa

afinal de contas. Para que precisas
tu dela? Não me peças nunca
a história verdadeira.

Fonte:

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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