terça-feira, 23 de março de 2021

Alvitres do Prof. Renato Alves – 2

10. 
A Trova e a  tecnologia:

Evidentemente, como em todos os gêneros, o vocabulário usado pelo trovador vai, aos poucos, refletindo a realidade da vida em cada época:
 
Teu beijo, pela internet,
vem sempre com tal calor,
que qualquer dia derrete
meu pobre computador...
A. A. de Assis

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11. 
Eis o roteiro perfeito para se chegar ao coração da trovadora:
    
 Se a distância, por maldade,
tua presença me furta,
pelo atalho da saudade
torno a distância mais curta!
Maria Nascimento

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12. 
Já viu uma trova construída só com substantivos?

Pois veja esta de Domingos Freire Cardoso, de Ílhavo (Portugal),vencedora no IV Concurso Literário Cidade de Maringá – Tema: ROÇA
 
Roça: mata, fogo, chão,
força, braço, homem, dor;
Plantas, flores, frutos, pão,
terra, vida, infância, amor!!!…
Domingos Freire Cardoso

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13. 
Eis um belo exemplo de rima rica nos 1º e 3º versos  onde  se usaram  palavras de formas  iguais,  mas  de  sentido  e classes  diferentes (substantivo e verbo)                       
    
 Se abusas das tuas saias,
dos decotes, dos perfumes,
não posso impedir que saias,
mas eu morro de ciúmes!
Elisabeth Souza Cruz

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14. 
Trova com suíte:

Durante algum tempo fizemos na UBT-Rio um concurso chamado "Uma trova pra responder" que consistia em construir uma trova-resposta para uma  pergunta formulada em outra  trova. Já o site  “falando de trova” lançou, certa vez, um desafio semelhante: construir uma suite (continuação) para uma trova apresentada, do que resultou o seguinte:
 
Trova original

Que pena: o sol – ato falho –
ao lhe ofertar seu calor,
matou a gota de orvalho
que brincava sobre a flor!...
José Ouverney

    
Suíte
 
Porém, antes de matá-la
com seu fulgor deslumbrante,
houve por bem transformá-la,
com sua luz, em diamante!         
Renato Alves


15.
“Tu és pó e ao pó retornarás”:   Nesta belíssima trova de Alonso Rocha, uma reflexão filosófica sobre o Homem, sua importância e seu destino. Um exercício de humildade para ser sempre lembrado!
 
Quem se julga eterno herdeiro
de um mundo farto e bizarro,
esquece que Deus – o Oleiro –
cobra o retorno do barro.
Alonso Rocha

 
16.
Às vezes, a beleza da trova está baseada  num achado que nos leva a reflexões filosóficas, às vezes,  a um sentimento lírico etc  etc. Esta trova, porém, nos remete, primeiro,  a uma imagem física de grande beleza plástica, para depois nos fazer sentir  a profundidade afetiva que encerra este gostoso abraço.   
    
Meus netos têm me passado
com seu abraço a ilusão
que sou um coqueiro enfeitado
de orquídeas em floração.
Wandira Fagundes Queiroz

 
17.        
Na pequenina trova, às vezes basta um também pequenino detalhe para valorizar o estilo e a linguagem. Vejam como o “foi não...”, construção típica do linguajar regional, no final do 2º verso, serviu para conferir autenticidade nordestina ao que é dito, embora o autor seja mineiro de Pouso Alegre.
    
Não desprezei meu Nordeste,
desprezo, eu juro, foi não...
Foi a dureza do agreste
Que me afastou do sertão!
Alfredo de Castro

 
18.
Às vezes fico pensando se o rigor formal exigido nos concursos e jogos florais não pode nos privar de certas joias da criatividade poética na composição da trova. Reparem na beleza desta trova de rima simples que, no entanto, jamais seria premiada em concursos nos dias atuais.
 
Desconfio que a saudade
não gosta de ti, meu bem.
– Quando tu vens, ela vai...
Quando tu vais, ela vem...
Luiz Otávio

 
19.        
Esta trova apresenta três aspectos que merecem comentário:

1. É de rima simples;

2. Apresenta um “enjambement” entre os 1º e 2º versos, recurso condenado por muitos;

3. Tem uma linda metáfora para “esquecimento”!
(As ondas vão apagar o nome, assim como o trovador foi “apagado”...)
    
Gravei teu nome na areia
da praia, como castigo:
– Façam-lhe as ondas o mesmo
que tu fizeste comigo!
Corrêa Júnior

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