sábado, 4 de outubro de 2025

Asas da Poesia * 106 *


Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/ PR

No salão
"...Mostra-me o teu rosto!"
(Ct. 2.14)

Neste dia negro
De febril pavor,
Meu desejo único
É te consolar.
Eu preciso muito
Aliviar tua dor
E as feridas d'alma
Com amor curar.

Vai o longo dia,
Vai mui lentamente,
Meu anseio é ver
Meu amor passar.
Um olhar apenas,
Um sorrir somente
Far-me-ão só bem,
Para me acalmar.

Sem estrela alguma
- Noite tenebrosa! -
Barulhenta festa
Naquele salão...
Eu quero o perfume
Da mais bela rosa,
Que podia estar
Entre a multidão.

Entro no recinto.
E, de quando em quando,
Atento palmilho
O extenso salão...
Meus olhos sedentos
Veem cada canto,
Mas, em cada canto,
Só há ilusão.

Não vejo mais nada...
Que posso fazer?!
Naquele local
Há imenso calor.
Eu fico frustrado,
Sem poder te ver,
Só resta-me o lenço
Pra enxugar meu suor.
= = = = = = = = =  

Poema de 
MARIA LUÍZA WALENDOWSKY
Brusque/ SC

Busco-te 

Busco-te como um pássaro 
ao ninho de sua ninhada, 
para nutri-lo de amor, tão sonhado. 
Meus olhos seguem rumo ao rio 
delineando os obstáculos 
para chegar à imensidão do mar. 

Busco-te no sobrevoo de cada pássaro, 
então percebo do alto a me ignorar. 
A fúria cega a visão da plenitude, 
do voo no céu azul límpido. 
Ah! Procuro respostas no teu rosto, 
nas tuas mãos, no teu corpo... 

Busco-te no jogo da sedução, 
no balanço do meu corpo de mulher 
prestes a embalar 
o perfume da paixão. 
Vejo a tua indiferença... 
cruel! 

Busco-te com lindas palavras, 
ao som arrebatador do flamenco. 
Procuro-te cativar. 
Segues impassivo. 

Busco então dentro de mim: 
Forças. 
Certeza que está deixando 
uma grande mulher partir. 
Lágrimas fluem... Naturalmente ... 
= = = = = = = = =  

Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Dia de chuva.
Ruazinhas esburacadas
pra desviar das poças d’água
o rapaz pulava amarelinha
com a namorada.
= = = = = = 

Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Grãos

A palavra tem o poder da semente,
Que às vezes não tem outra alternativa
A não ser tornar-se forte e resistente,
Para que seu conteúdo sobreviva.

Vejo plantas, que já foram frágeis grãos,
Germinarem, comprovando as escrituras,
Procurando esgueirar-se pelos vãos
Do concreto, sem nem ter semeadura...

Solos férteis são corações preparados
Para o fado de abrigar tantas sementes...
Quando os caules já não são fragilizados,

Às raízes se espalham pelo chão...
É assim com as palavras envolventes
Que alicerçam-se, criando novos grãos.
= = = = = = 

Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Gotas de luz e sombra

Em forma de conchas
Com textura
De pétalas brancas
A flor retém as gotas d’água,
Enquanto
Delicados riscos
Em tons de magenta
Mesclam-se
Nessa taça diáfana - líquida
Gerânio em gotas,
Espelhos...
= = = = = = 

Fábula em Versos
adaptada dos Contos e Lendas da África
JOSÉ FELDMAN
Floresta/ PR

A Princesa e a Serpente

Na terra de Malavi, uma princesa tão bela,
Nia, a destemida, com sabedoria singela.
Um dia, uma serpente, em seu caminho se aprumou:
“Liberte-me, princesa, e o poder eu te dou.”
Nia, com cautela, refletiu sobre a oferta,
“Prefiro meu valor, a liberdade é certa.”

A serpente, com raiva, atacou enfurecida,
mas Nia, ágil, desviou da investida.
Com um golpe rápido, a serpente caiu,
e a princesa, vitoriosa, seu caminho seguiu.
A liberdade é qual tesouro que deve ser guardada,
e Nia, a guerreira, nunca foi dominada.

O verdadeiro poder vem da liberdade,
e a coragem é a chave da felicidade.
= = = = = = 

QUADRA POPULAR

Venci! Cheguei a subir!
Nada! Ninguém me ajudou!
Mas comecei a cair,
toda gente me puxou!...
= = = = = = 

Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Doce fada

Melífico, teu beijo verte enlevo, fada
Viajo nos sabores pelo ardor cingido
No vício imerso quero a boca aveludada
Tocando os lábios meus... Delírio é garantido

Teu corpo é sinuoso, encantadora estrada
Desejo imensamente nela estar perdido
Sorver a sedução das curvas emanada
Romper as convenções, fazer o proibido

Na teia irresistível me envolvi contente
Contemplo, arrebatado, um brilho nobre, etéreo
Não posso me negar refém desse fulgor

Faceira, aprisionaste um coração carente
Tingiste de emoção aquele céu cinéreo
Grilhões nos pensamentos colocaste, amor
= = = = = = 

Poema de
VIVALDO TERRES
Itajaí/SC

Chave da vida

Mulher és a fonte de luz,
És o amor que conduz,
Através de ti que a espécie é garantida
Isto porque és a chave de vida!

És da espécie humana, a escolhida.
Para que através de ti o amor seja dissolvido,
Provado, bebido, sentido e o homem esteja onde estiver...
...nunca se esqueça que se ele aqui esta!
Deve muita a ti mulher.

És a luz que ilumina nossos dias!
Muitos deles cheio de tristeza e dor,
Mas com a tua presença, nos fortalece...
Isto porque tu és o amor

Quantas vezes no meu refúgio...
Eu começo a refletir e chego a me emocionar!
Lembrando-me daquela que me colocou no mundo!
E me ensinou a dar os primeiros passos e a caminhar.
= = = = = = 

Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Bem-querer

Meu coração calou a sua voz;
não quer mais se expressar de nenhum jeito.
fechou-se mudo dentro do meu peito,
qual indeiscente fruto, estranha noz...

E, assim, nesse ostracismo, insatisfeito,
mal-humorado e rude está feroz
porque eu lhe disse que, vivendo a sós,
nós iremos perder nosso conceito...

Francamente, não sei que mais fazer
para ver se ele assume o velho amor,
mesmo à moda de um simples bem-querer...

Então, quem sabe, volte a ser feliz
vivendo junto a quem lhe dá valor
e que outrora provou quanto lhe quis!
= = = = = = 

Soneto de
FLORBELA ESPANCA 
Vila Viçosa, 1894 – 1930, Matosinhos

Noite de saudade

A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu ouço a noite imensa soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Por que é assim tão’ scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
= = = = = = 

TROVA FUNERÁRIA CIGANA

Dizem que almas não morrem
são imortais... não têm fim...
A minha faz exceção
'stá morta dentro de mim!
= = = = = = 

Poema de 
BENJÚNIOR
(Benevides Garcia Barbosa Júnior)
Porto União/SC

Ao entardecer...
 
Às vezes fico olhando
Os raios de sol na água
Que vibram como música
Enquanto a tarde se vai...
Outras, me pego cantando
Canções sem rimas
Que surgem a esmo, sem pensar...
Têm dias que o sol não aparece
E fica um tempo triste de se ver;
Então meus passos
Seguem direções impossíveis de saber
Se o horizonte é uma mancha na penumbra
Ou se é o dia que está a morrer...
Os últimos raios tingem o lago sereno
E um vento ameno
Passa trazendo uma saudade fria.
Os primeiros sinais da noite
Chegam com a luz pálida do casario
Enquanto mais além
Com ares suaves de poesia
Uma janela se abre para o amor
Que não vem...
= = = = = = 

Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto de Lembrança Antiga

Bom dia ! pé de bugre e aroeira!
Cumprimento essas árvores nativas,
qual se fossem a ausente companheira,
de minha infância das imagens vivas...

Aquela que deixou-me, de maneira
tão bruscamente, em horas aflitivas,
hoje, surge-me à mente toda inteira,
para trazer-me flores sempre-vivas...

Busquei não recordá-la e foi em vão
meu intento sincero e imorredouro,
querendo sepultar essa ilusão...

Depois fiquei sabendo que partiu,
sem saber que pra mim era um tesouro
e nem que me deixava este vazio...
= = = = = = 

Soneto de
JOSÉ XAVIER BORGES JUNIOR
São Paulo/SP

A rosa e o lírio
 
Às horas tantas de uma tarde amena
Um lírio enfeita um prado reflorido
enquanto a rosa confessa à dracena
Antigos ais de um tempo já esquecido...
 
Ao lado canta a gentil açucena
E o prado aos poucos fica colorido
E o vento sopra, observando a cena,
Suavemente,  num doce gemido...
 
Então a rosa, rubra e cintilante
Bebe o alvor do lírio embevecido
E o Tempo para por um breve instante.
 
O lírio abraça a rosa esfuziante,
E no calor do prado florescido
Revive o amor com sua doce amante…
= = = = = = 

Poema de 
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, silente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
= = = = = = 

Hino de 
ALÉM PARAÍBA/MG

Cidade Força e Trabalho
- Grandiosa, hospitaleira -
Tu és Além Paraíba
- Glória da terra mineira! (bis)

É o teu céu de um azul muito azul
- Que o sol de prata ilumina.
E o Paraíba que histórias ensina
Sob o Cruzeiro do Sul!

Terra bendita de ordem e de paz
Terra riqueza e fartura:
Ser um teu filho que doce aventura!
É ser ditoso assaz!
= = = = = = 

Soneto de 
BERNARDO TRANCOSO
(Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso)
Vitória/ES

Micro-Sentidos

Eu queria ser bem pequenininho,
Pras curvas do teu corpo atravessar;
Grutas, vales secretos decifrar;
Escalar as montanhas, com jeitinho.

Tão logo me cansar, ir rumo ao ninho;
Num carinho, por tua boca entrar,
Buscando o coração; quando alcançar,
Me alojar dentro dele, de mansinho.

Lá, só não sei se vou ter condição
De aguentar teu calor, sem derreter;
De aceitar outro ser: mãe, pai, irmão.

Pequeno, ao ver tão grande amor nascer
Que, por maior que seja o coração,
Nem no meu, nem no teu, não vai caber.
= = = = = = 

Inglês de Souza (O donativo do Capitão Silvestre)

 
Quereis saber a história do donativo que fez o capitão Silvestre para a guerra contra os senhores ingleses? Posso contá-la, porque me achava em Óbidos nessa ocasião e fui testemunha ocular do fato.

Era no ano de 1862, e chegara do Pará o vapor Manaus, trazendo notícia circunstanciada do conflito levantado pelo ministro inglês William Dougal Christie a propósito das reclamações de súditos brasileiros e ingleses que deviam regular-se pela convenção de 2 de junho de 1858 e sob o pretexto da prisão de alguns oficiais da fragata Forte.

 A atitude arrogante e violenta de Christie indignara o povo, despertando o pundonor nacional, agitando patrioticamente os ânimos.

 Correra uma faísca elétrica do Sul ao Norte do Império e a corda do sentimento de nacionalidade, adormecida desde as sangrentas lutas da nossa integração política, posteriores à independência, vibrou sonoramente no coração dos paraenses.

 Os filhos da Amazônia ainda sentem girar-lhes nas veias o sangue de Paiquecé e de Patroni. No fundo, todos temos ainda alguma coisa dos cabanos de 1835.

 O governo imperial, receoso de uma luta armada com a Inglaterra, apelava para o patriotismo dos brasileiros, e enquanto a intervenção dos reis de Portugal e da Bélgica procurava dar uma solução amigável à pendência, tratava o gabinete de S. Cristóvão de promover o armamento do
país, e fora lembrado o meio das subscrições populares para remediar a carência de recursos no tesouro público.

 Invocava-se o nunca desmentido patriotismo dos paraenses; pintava-se o insulto do inglês com cores carregadas e os agentes oficiosos, tanto pela imprensa como pela propaganda oral, procuravam incendiar os ânimos, lançando nos corações a centelha que gera os heroísmos.

 Em Óbidos, a agitação era muito grande. O coronel Gama, chefe do partido conservador, e o juiz municipal, bacharelzinho ardente e desejoso do hábito da Rosa, eram os incumbidos de angariar donativos para o projetado armamento e não descansavam, valha a verdade, emulando um com o outro numa grande dedicação patriótica.

 Mal apontara o vapor Manaus, e já a notícia vaga, incerta, obscura, exagerada pela viva imaginação amazonense circulava com a rapidez do telégrafo. Já se julgava declarada a guerra, e os mais prudentes tratavam de reunir as suas alfaias e de pô-las a bom recado.  Os mais ignorantes tremiam de susto à ida de ver surgir no porto de cima um navio de guerra de S. M. Britânica, pejado de canhões negros e ameaçadores.

 O Eduardo Inglês, no seu sítio da outra banda, não se julgava seguro da vida, com medo do José do Monte, que prometera tirar-lhe o cacaual por demanda. 

 As listas de subscrição enchiam-se com verdadeiro delírio.

 Afluía à cidade o povo dos arredores, trazendo ovos, galinhas, bananas, cacau seco e alguns magros cobres azinhavrados com que cada um dos subscritores concorria para a compra do armamento. Desde a importante soma de quinhentos mil réis, assinada pelo coronel Gama e por dois ou três negociantes da cidade, até o produto de meia dúzia de ovos de galinha, trazidos por alguma velha tapuia, havia donativos de todos os valores, nada mais tocante do que ver a humilde fiandeira de algodão, o simples pescador de tartarugas lançarem mão do único recurso que tinham em casa, uns ovos, uma cuia pintada, um rosário de contas ou o "bacamarte" de ouro, que representava a economia de muitos meses, talvez de anos, para levá-los orgulhosamente ao coronel Gama, a fim de o ajudar a vencer os navios de guerra da rainha Vitória!

 Santo patriotismo popular, quantos heroísmos humildes e obscuros tens produzido nas épocas decisivas da nossa história!

 Alma generosa do povo brasileiro, quão mal apreciada és pelos eternos faladores da Câmara dos Deputados!

 Havia mais de 24 horas que em Óbidos ninguém se ocupava senão da Inglaterra, dos ingleses, de Christie e das eventualidades da guerra. Grupos formavam-se nas esquinas, às portas das lojas, em conversações agitadas e inquietas.

 O juiz de direito recém-chegado de Santarém saíra duas vezes da casa do capitão Severino de Paiva, que o hospedava: uma vez para ir à Câmara Municipal, onde se achavam reunidos os vereadores, e outra para conferenciar com o comandante da fortaleza.

 O delegado de polícia andava de figo verde e amarelo a tiracolo, ora muito agitado, puxando nervosamente pelos punhos da camisa e relanceando os olhos a todos os lados, ora medindo o passo com gravidade. Solene, cônscio de que desempenhava um papel conspícuo.

 O próprio vigário, o pacífico padre José, perorava nas esquinas, com gesto alevantado, a face incendiada de entusiasmo, sobraçando marcialmente a capa e teimando em chupar um cigarro apagado.  

Pairava naquele dia sobre a cidade uma atmosfera de entusiasmo patriótico que por vezes cedia a um sentimento de terror vago e inconsciente. As histórias, as observações, os comentários, as invenções sobre os ingleses abundavam.

 Alguns sujeitos tidos por avisados narravam, cercados de tapuios boquiabertos, o que haviam ouvido a viajantes sobre os costumes e a religião daquela gente que, farta de esmurrar-se em família, estava tentando reduzir-nos à escravidão e ao opróbrio para livremente e sem peias comer-nos as bananas e as laranjas dos quintais, com cascas e tudo.

 Saindo do seu mutismo tradicional, o escrivão Ferreira contava numa roda de senhoras que os ingleses não querem saber de santos, que adoram uma cabeça de cavalo e se divertem socando as ventas aos amigos, para lhes aliviar com essa amistosa operação o cérebro sujeito a congestões violentas, pelo vapor da cerveja que sobe do estômago.

 Afirmava o Marcelino que os ingleses falam atrapalhadamente para melhor esconder os seus segredos e surpreender os nossos e repisava o caso do tal que não entendia o português quando lhe cobravam uma conta.

 O José do Monte jurava por Santo Antônio que vira o Eduardo Inglês devorar queijo bichado, abacate com azeite e vinagre, e a alface crua, sem tempero, como um boi a comer capim.

 O professor Gonçalves explicava, mas sem que o acreditassem muito, que numa cidade de Inglaterra chamada Escócia os homens andavam de pernas de fora, como os caboclos do mato, com roupas de muitas cores, e a maior fidalguia da terra vivia roubando nas estradas e bebendo vinho até cair debaixo da mesa, que era essa a sua maior glória, lera-o num livro que lhe emprestara o Antônio Batista, livro escrito por um tal Walter Scott, inglês de nação.

 O que mais entusiasmava a rapaziada era ouvir o capitão Matias, valentão dos quatro costados, exclamar muito cheio de Si:

 - Pois vocês, meu povo, estão com medo dos tais ingleses "comes frangues com batates?" Pois não sabem que os ingleses só prestam no jogo do soco, e que têm à arma branca um horror dos diabos? Eles são grandes em linha, a cem braças de distância, armados de suas espingardas aperfeiçoadas. Não arredam pé, morrem como moscas, sem deixar o seu lugar. A isso deveram a famosa vitória de Waterloo... Mas corpo a corpo, braço a braço, em combate à baioneta, não valem dez réis de mel coado, afianço eu. Um herege inglês, vendo uma boa faca de ponta, uma bicudinha bonita, fica logo que nem cera, branco de meter pena. Quando eles desembarcarem aqui, é metermo-nos no mato, depois cairmos de improviso em cima deles com uma boa carga à baioneta, e não fica um só para remédio. Esses tratantes têm tanto horror ao sangue, que o rei deles, para que não desfaleçam de susto nas batalhas, manda-os vestir a todos de vermelho. São uns maricas, digo-lhes eu!  

Toda a gente ria, gozando as bravatas do Matias, os rapazes, cheios de boa vontade, antegozavam o prazer de espetar meia dúzia de ingleses na ponta de uma faca americana.

 Em outro grupo, formado pela gentinha, um ex-praça de linha, natural do Rio, carioca da gema, o Antônio da Ribeira, abundava no juízo expendido pelo capitão Matias:

 - Vocês hão de ver que os ingleses não chegam por cá. Só os capoeiras da minha terra dão cabo deles, é o que lhes digo.  Pois isso é lá gente que resista a uma rasteira e a uma cabeçada
em forma, dada com arte? E mais, pelam-se de medo das navalhas!...

 E em apoio da sua opinião, o Antônio da Ribeira narrava com entusiasmo:

 - Uma vez um camarada meu, ele era dos Permanentes da Corte, que é minha terra. Esse meu camarada levou dois ingleses para a estação, sem desembainhar o terçado. Os ingleses atacavam a murros e "goddemes", e o Permanente era só rasteiras e cabeçadas, e zás! trancafiou os "beefs" no xilindró. Pois se eles estão sempre bêbedos como se para eles a festa da Penha fosse todos os dias!

 A animação e o entusiasmo patriótico cresciam. A tarde, as listas de subscrição continham mais de duzentos nomes.

 O coronel Gama estava contentíssimo, e o juiz municipal sentia uma emoção crescente, mirando de soslaio a lapela do casaco, com visões de hábito da Rosa.

 Na botica do Anselmo, discutiam-se os fatos. Uma pessoa lembrou que não estava nas listas o capitão Silvestre.

 - Já temos nove contos de réis - dizia o coronel Gama. - O capitão Silvestre há de inteirar a dezena.

 - Eu me incumbo de lhe falar, de convencê-lo com jeito – adiantou o juiz municipal.

 - Não há de custar muito a convencê-lo - observou secamente o Gama. - O Silvestre não recusa o seu concurso, tratando-se de desafrontar a honra nacional.

 - Vocês o dizem... - resmungou azedamente o boticário.

 - Tenha paciência, Anselmo - retorquiu o coronel. - Você tem lá suas razões de zanga com o Silvestre; mas o homem é um patriota às direitas, provou-o muito bem na cabanagem. Vocês lembram-se do que ele fez quando os rebeldes quiseram entrar em Óbidos?

 - Quem se não lembra?

 - O capitão Silvestre, ao tempo em que era um simples negociante, fez o que todos sabem. Que não fará agora que é o homem mais rico de Óbidos?

 - Bem lembra a cabanagem - disse o padre José, desfazendo um cigarro. - O Silvestre e os filhos carregaram à cabeça pedras para as fortificações. Correra que os rebeldes estavam a poucas léguas da cidade, e o terror era geral. A maior parte das famílias preparou a fuga para Manaus. O capitão Silvestre fechou a loja, saiu para a rua, animou os timoratos e convenceu a todos de que era melhor resistir do que abandonar a povoação a meia dúzia de tapuios tontos. E para juntar o exemplo à palavra, ele e os filhos, as crianças inclusive, carregavam à cabeça as pedras necessárias para fortificar a cidade, que a sua energia salvou do saque.

 Por entre as baforadas de fumo dos cigarros, tendo por principal assunto o capitão Silvestre, a palestra prolongou-se. Gabaram a sua generosidade, a sua riqueza e o seu patriotismo.

 Silvestre era um dos mais abastados negociantes e fazendeiros do município.  A sua incrível atividade, que contrastava com a indolência geral, a sua inteligência ilustrada pela leitura constante de bons livros fizeram-no um industrial progressista que sabia aproveitar os elementos postos à sua disposição pela soberba natureza do Amazonas.

 Não cessavam elogios de amigos e censuras encapotadas de invejosos, quando, mesmo a talho de foice, contou alguém que passava, que o capitão acabava de abeirar ao porto de baixo na sua grande galeota de negócio.

 Entre o Gama e o juiz municipal, formou-se o acordo de irem juntos à casa do homem, apresentar-lhe a lista de subscritores.  

O capitão, à vista de seus precedentes, não assinaria menos de trinta "bacamartes" para tão patriótico fim.

 O "bacamarte" era uma moeda de ouro dos Estados Unidos que corria então com abundância no interior do Pará. Valia pouco mais ou menos trinta e seis mil réis da nossa moeda.

 Com a subscrição do Silvestre, as somas obtidas em Óbidos passariam de dez contos. Obtidos, o Gama e o juiz municipal fariam um figurão.

 O capitão Silvestre acabava de chegar à sua grande casa da rua de Bacuri. Os baús ainda estavam espalhados na sala térrea que dá para a travessa da rua do Porto, e sobre um deles sentara-se negligentemente o fazendeiro, à espera de que viessem iluminar a sala ainda escura.

 Era um homem de cerca de sessenta anos, de estatura meã, nervoso e seco. Os cabelos grisalhos, cortados à escovinha, davam-lhe à fisionomia um ar severo. Exprimia-se bem, mas todas as suas palavras tinham um tom autoritário, proveniente do hábito de mandar.

 Nas suas grandes fazendas de cultura e de criação, uma ordem sua era obedecida sem réplica, não só pelos escravos e agregados, mas ainda por todos os vizinhos que ele protegia, mas que o respeitavam como a um superior.

 Tendo-o visto chegar, fui vê-lo.  Recebeu-me familiarmente, sem levantar-se do baú em que se
assentara. Conversávamos alegremente sobre a colheita do ano, quando avisaram a visita do coronel Gama e do juiz municipal.

 Acendeu-se um lampião de azeite. As visitas foram recebidas na mesma sala em que nos achávamos.

 O Gama e o juiz municipal entraram com ar solene e sentaram-se gravemente.

 - Senhor capitão - começou o juiz pausadamente, - Vossa Senhoria já sabe talvez o motivo da nossa visita, e julgo que nada teremos a acrescentar a fim de pelo que viemos à sua casa.

 O juiz estava enganado. O capitão não sabia do que se tratava.

 - Pois então vamos pô-lo ao fato de tudo! – prometeu com ênfase o coronel Gama.

 Mas o bacharel não lhe deu tempo para cumprir a promessa. Endireitou-se na cadeira e com um acionado brando, medido, elegante, expôs:

 - Os brios nacionais, sr. capitão, acabam de sofrer uma sangrenta afronta de um representante oficial da velha Albion.

 - Da Inglaterra... - explicou o Gama, complacente.

 - Não me admira isso - murmurou o Silvestre com os lábios meio fechados. - E o governo?

 - Aí é que pega o carro! - exclamou o coronel Gama, dando uma forte palmada na perna direita.  - Eis aí a questão, "that is the question", como dizem os tais ingleses, ou "hoc opus hic labor est", como diziam os romanos do outro tempo.

 E o juiz municipal, tendo assim mostrado a sua erudição em línguas, continuou:

 - O governo não podia conservar-se indiferente ao insulto do Bretão à dignidade nacional, mandando aprisionar navios brasileiros em plena paz e dentro da formosa baía de Guanabara. Entretanto, as circunstâncias eram críticas. O inglês ameaçava a cidade do Rio de Janeiro, que não está preparada para a defesa, e o nosso país, como todos nós sabemos, não pode lutar de frente com as hostes da soberana dos mares. Daí a necessidade da prudência, como muito bem compreendeu o gabinete imperial. O governo brasileiro apesar de ter carradas de razão, pois se escudava numa convenção solene e no direito das gentes, limitou-se à via diplomática.

 - Satisfações pelo insulto recebido! - exclamou o capitão Silvestre com um relâmpago no olhar.

 - Que quer? - desculpou o Gama, - o país não estava preparado...

 - E não o está ainda - corrigiu o juiz. - Demais, não foram propriamente satisfações que deu o Brasil, mas explicações sobre a demora dos processos arbitrais, e, enquanto isso, tratou o governo de preparar o país para uma luta possível. E como as finanças.., o estado pecuniário não é lisonjeiro, resolveu recorrer ao nunca desmentido patriotismo dos brasileiros...

 - Ah! - fez o capitão Silvestre, sentando-se pesadamente no baú.

 E com orgulho:

 - O presidente da província há de se convencer que vale muito ter amigos dedicados. O governo não pode ser indiferente às provas... sim, a tudo que temos. Eu, o Vitorino, o Figueiredo, o Nunes e o Machado assinamos quinhentos mil réis cada um! O Antônio Batista, aquele forreta, dez bacamartes de ouro!

 E o coronel Gama mostrava as listas cheias, que sacara da algibeira interna da sobrecasaca de pano fino, lustrosa e grave com passadeiras de cordão de seda.

 Mas o astuto bacharel não perdeu a ocasião de lhe dar um "xeque-mate". Tirou do bolso do fraque um papel que desdobrou com elegância, dizendo: - No alto da minha lista, ficou um lugar destinado a assinalar a generosidade e o patriotismo do capitão Silvestre, o mais abastado fazendeiro do município...

 Ergueu-se o capitão Silvestre, denunciando no rosto uma resolução enérgica. 

O juiz puxou o lápis da carteira e ofereceu-lhe graciosamente, todo curvado, antegozando o prazer de alcançar um donativo valioso que mostrasse a sua influência e o seu prestígio no lugar em que exercia a judicatura. 

Recusou Silvestre o lápis com um gesto galhardo:

 - Escreva Vossa Senhoria mesmo, "senhor doutor Silvestre José Rodrigues de Sousa"...

 - Silvestre... José... Rodrigues.. de Sousa – repetiu o juiz, pronunciando cada nome à medida que escrevia no alto de uma lista, curvado sobre uma pequena mesa de cedro onde estava o lampião.

 Quando acabou de escrever os nomes todos, voltou-se risonho de esperanças para o capitão Silvestre, perguntando:

 - Com quanto subscreve?

 - Escreva - tornou o capitão. - Escreva Vossa Senhoria ... cem bacamartes...

 - Cem "bacamartes" de ouro! - exclamaram Uníssonos o juiz e o coronel, transportados de
admiração e de inveja, pela generosidade da dádiva principesca, que deixava a perder de vista os faustosos quinhentos mil-réis do Figueiredo, do Machado, do Nunes, do Gama e do Vitorino.

 - Cem "bacamartes" de ouro! - repetiram num aturdimento cheio de miragens de condecorações.

 - Cem bacamartes - afirmou o capitão Silvestre com indignação concentrada.

 E logo bradou numa explosão de cólera que acaçapou os dois amigos, metendo-os pelo chão abaixo:

 - E quinhentos cartuchos embalados para guerrear esse governo que barateia os brios da Nação.
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Herculano Marcos Inglês de Souza foi um renomado escritor e político brasileiro, reconhecido por introduzir o Naturalismo na literatura brasileira e por sua atuação como político e jurista. Nascido em Óbidos/Pará, em 1853, ele se formou em Direito na Faculdade de São Paulo em 1876 e foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897. Sua obra, marcada por uma profunda conexão com a Região Amazônica, retrata com detalhes a vida local e a relação entre o homem e a natureza. Introdutor do Naturalismo no Brasil, influenciado por escritores europeus como Émile Zola. Sua obra se destaca pela abordagem da vida amazônica, com detalhes regionais e a influência do ambiente na vida das pessoas. Publicou seus primeiros romances sob o pseudônimo de Luís Dolzani. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão O Cacaulista (1876), História de um pescador (1876), O Coronel Sangrado (1877) e Contos Amazônicos (1893). Ocupou cargos políticos, como presidente das províncias de Sergipe e Espírito Santo. Também atuou como jornalista, advogado, banqueiro e professor de direito comercial e marítimo. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1918.

Fontes:
Inglês de Souza. Contos amazônicos. Publicado originalmente em 1893. Disponível em Domínio Público.  
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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Asas da Poesia * 105 *


Soneto de
MANUEL BANDEIRA
Recife/PE, 1886 – 1968, Rio de Janeiro/RJ

A Camões

    Quando n’alma pesar de tua raça
    A névoa da apagada e vil tristeza,
    Busque ela sempre a glória que não passa,
    Em teu poema de heroísmo e de beleza.

    Gênio purificado na desgraça,
    Tu resumiste em ti toda a grandeza:
    Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
    O amor da grande pátria portuguesa.

    E enquanto o fero canto ecoar na mente
    Da estirpe que em perigos sublimados
    Plantou a cruz em cada continente,

    Não morrerá sem poetas nem soldados
    A língua em que cantaste rudemente
    As armas e os barões assinalados.
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Soneto de
ANTONIO ROBERTO FERNANDES 
São Fidélis/RJ, 1945 – 2008, Campos dos Goytacazes/RJ

Sem medida

Quem diz que ama muito ou pouco, mente
ou não conhece o amor, na realidade,
pois não se mede o amor em quantidade,
se ama, ou não se ama, simplesmente.

Quem ama, embora sonhe com a eternidade,
ainda assim não sonha o suficiente
e em nada modifica o amor que sente,
seja na dor ou na felicidade.

Não há um meio olhar ou um meio beijo.
Ninguém tem dez por cento de um desejo
nem existe carícia desmedida.

E o amor, sem ter tamanho, é tão profundo
que podemos achá-lo num segundo
ou procurá-lo, em vão, por toda a vida.
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Sextilha do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

No momento da triste despedida
todo mundo que fica se apavora,
fica  alguém soluçando na calçada,
na janela, quem fica também chora;
é o instante mais triste desta vida
quando alguém diz adeus e vai embora!
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Carnaval Fantasia

MOTE:
Meu carnaval mais risonho,
foi aquele em que eu vesti
as fantasias de um sonho
que até hoje eu não vivi…
Elizabete Souza
(Nova Friburgo/RJ)

GLOSA:
Meu carnaval mais risonho,
cheio de felicidade,
eu lembro hoje entressonho,
numa forma de saudade.

Foi um tempo de alegria,
foi aquele em que eu vesti
a minha alma de poesia…
Disso, nunca me esqueci!

A todos, hoje eu proponho
viver muitas fantasias…
as fantasias de um sonho
não deixam as mãos vazias…

Quisera realizar
tudo aquilo que senti
e a grande emoção de amar
que até hoje eu não vivi…
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Soneto de
DANTE MILANO
Rio de Janeiro/RJ, 1899 -1991, Petrópolis/RJ

O espectro

O canto não imita a realidade
Como as palavras. Fica sobrevoando,
E da boca feroz se libertando,
Como o voo de um pássaro, se evade.

Desaparece sem deixar saudade,
Perde-se na existência, como quando
A água de uma carranca borbotando
Se irisa em trêmula diafaneidade.

Não quero o sentimento que da treva
Do ser traz qualquer coisa de aflitivo,
Que quer ser voz e a voz profunda eleva,

Despertando um espírito latente
Que estilhaça os cristais num vingativo
Riso de espectro lívido e estridente.
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Triverso de
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro/RJ, 1923 – 2012

Não tem nexo
Tudo é apenas
Reflexo
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA A.T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Fuga

De mim mesma eu quis fugir,
deixar a vida desdita,
mas sem saber aonde ir
curvei-me à sorte prescrita…

Fugir de insípida vida
por não ver outra saída,
quantas vezes desejei...
Fugir da espera sofrida,
do desamor, da partida,
aos quais não me acostumei.

Fugir, mas fugir de tudo,
do sofrimento desnudo,
do amor que em mim acordei..
Fugir da infelicidade,
deixar atrás a saudade,
que, sem querer, preservei.

Fugir de alguém que não vem,
que embora seja o meu bem,
nem sabe o quanto eu o amei.
Fugir da desesperança,
apagar toda lembrança
que em minha mente gravei.

Fugir desta solidão,
da amarga desilusão,
dos segredos que guardei.
Fugir do tempo inclemente,
do meu destino incoerente,
mas para onde?!... Não sei.

(Ninguém consegue fugir de si mesmo, 
nem da própria sorte.)
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Soneto de
EDY SOARES
Vila Velha/ES

A dor de um poeta

A dor de sentir a perda de alguém
é feito arrancar pedaços da gente…
Ferida profunda e tão permanente,
que não se conhece a cura em ninguém.

É tão singular em cada vivente
que não se compara a dor que se tem
àquela que fere o peito de quem
consegue escondê-la inerte e latente.

Quisera que o tempo andasse ao contrário,
nascer bem velhinho e rumo ao berçário
rejuvenescer, viver sem as pressas…

E a vida, ao final de um ciclo fraterno,
quem sabe voltasse ao corpo materno!…
Quisera viver a vida às avessas…
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Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Solitude ad aeturnus 
(teu silêncio em mim)

Só posso entender...
O teu silêncio como recusa
Do meu amor que declaro a ti!

Nessa hora de dor extrema
Fico a pensar nos beijos
Que ainda não te dei.
Penso no sofrimento
Que me condenas
Na vida vazia que tenho...
Sem a tua presença ao meu lado
Sem tu aqui e para sempre ao meu lado

Ouço o teu silêncio com angústia
Que me constrange
 
No meu desespero 
Penso no resplendor do teu sorriso
No teu belo rosto emoldurado 
Pelos longos e trigais cabelos.
São frutos dourados do sol
Nos teus belos olhos postados em mim
Que alegra os meus trágicos dias
Amenizam os dias cruéis
Sem a tua doce presença 
Ao meu lado.
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QUADRA POPULAR

Após um dia tristonho
de mágoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim todos os dias.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto à mulher morena 

Linda manhã radiosa me convida
a prosseguir nos passos rumo ao mundo,
porque sonhar amando é tão profundo,
que mais e mais, também prolonga a vida!

Mas se eu pudesse ser um vagabundo,
sem conhecer a estrada percorrida,
com certeza, conceberia a lida
de procurá-la até em um submundo…

Eu sei que vou lhe amar a todo o instante,
com seu sorriso límpido e brilhante,
qual se fosse de Alencar – ´´A Iracema´´!…

E para consagrar meu preito à bela
morena, que não sai da minha tela,
eis o soneto que ainda é o poema!
= = = = = = = = =  

Poema de
OLIVER FRIGGIERI
Floriana/ Malta

Uma Estrofe Sem Título

Dá-me as palavras de teus olhos, a noite escreve
Uma estrofe purpúrea sobre teu bonito rosto,
Brilha o orvalho, tuas bochechas um branco universo
De onde nada dá um passo descalço sem dor,
Toca estas mãos e sente o despedaçado coração
E nota o sangue quente, o pranto solene.
Pomba, não voes distante  come de minhas mãos,
Este é o grão que não mata, água pura.
Monótono o sino que dá a hora
Para que te vás desta janela entreaberta
Por mim para ti, monótono o suspiro
Gravado como ilusão que vem e vai.
Não voes distante, e diga comigo esta oração:
“Há raios de luz de lanterna enfocados em mim,
Há uma humilde estrela que brilha só para mim,
Há uma flor selvagem que se abre em meu peito,
Há uma chama de vela vacilante só para mim.”
(Tradução:  José Feldman)
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Setilha de
NEMÉSIO PRATA 
Fortaleza/CE

Somos três 
(Ao Francisco Pessoa+ e José Feldman, sobre a “mardita” diabetes)

De doce todos gostamos, 
seja de leite ou goiaba,
de caju, mamão ou coco,
até banana e mangaba;
para completar a vez,
agora somos os três, 
"doces" vítimas da "diaba"!
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Luís da Câmara Cascudo (O Espelho Mágico)

O rapaz, órfão de pai e mãe, saiu pelo mundo para ganhar a vida. Ia por um caminho quando viu uma pedra tapando a boca de um formigueiro e as formigas lutando para arredá-la. O moço, que tinha bom coração, abaixou-se e tirou a pedra com cuidado para não matar as formigas. 

Quando acabou, uma formiguinha falou: – Se você se encontrar em dificuldades, diga: Valha-me o Rei das Formigas.

O rapaz seguiu sua estrada e adiante encontrou um carneiro com uma pata enganchada num arame. Soltou o bichinho. 

O carneiro disse: – Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Carneiros!

Lá mais longe o rapaz viu um peixe dentro duma poça d’água rasa, quase se acabando. O peixe estava com o lombo de fora, morrendo. O moço tirou-o da poça e sacudiu numa lagoa perto. O peixe mergulhou, foi embaixo, veio em cima, e falou: – Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Peixes.

Quase avistando o reinado, o rapaz encontrou um gavião deitado no chão, seco de sede. Levou-o, deu-lhe um banho, deixou ele beber água e soltou. O gavião voou para um galho de pau e disse: – Quando você tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o Rei dos Pássaros!

Chegando no reinado, o rapaz soube que a princesa tinha um espelho mágico que mostrava todas as coisas escondidas. O espelho só tinha forças de meia-noite até o primeiro cantar do galo. Quem se escondesse, e a princesa não descobrisse, casava com ela e, se ela achasse, perdia o homem a vida. O rapaz foi se oferecer para essa aventura.

Na primeira noite, procurou um canto fora do reinado e disse: Valha-me o Rei dos Carneiros! O carneiro apareceu e o rapaz disse o que queria.

– Monte nas minhas costas! 

O rapaz montou e o carneiro largou-se correndo, de mato a dentro, para umas brenhas fechadas onde havia uma gruta. Deitou o rapaz na gruta e encheu os arredores de carneiros, uns por cima dos outros, que ninguém via outra coisa afora carneiro.

À meia-noite a moça puxou o espelho e procurou o rapaz, por todos os lados. Tanto virou que deu com a gruta, e o espelho mostrou o rapaz deitado no chão, coberto de carneiros. A princesa tomou nota e foi dormir.

No outro dia o rapaz se apresentou.

– Onde eu estava escondido?

– Deitado no chão, dentro de uma gruta, rodeado de carneiros!

– Era isso mesmo!

Na segunda noite, o rapaz apelou para o peixe. Foi à beira-mar e chamou: Valha-me o Rei dos Peixes! 

O peixe riscou na praia. O moço contou sua dificuldade. O Rei dos Peixes mandou um tubarão engolir o rapaz e uma baleia engolir o tubarão e foi para o fundo do mar.

Na meia-noite, a princesa foi consultar o espelho. Caçou na terra e nos ares e procurou nos mares, com tanto cuidado que descobriu onde o rapaz estava dormindo. 

Na manhã, o moço apareceu e perguntou:

– Onde eu passei a noite?

– Dentro de um tubarão, este numa baleia, no fundo do mar!

– Era isso mesmo!

Na outra noite, o rapaz chamou o gavião e contou sua agonia. O gavião levou-o nas costas até em cima das nuvens e lá apareceu outro gavião ainda maior que cobriu o Rei dos Pássaros com suas asas.

À meia-noite a princesa procurou o rapaz nas águas e na terra e não achou. Procurou nos ares e não viu. Tanto olhou e olhou que enxergou um pontinho escuro por cima das nuvens. Botou reparo e descobriu tudo. O rapaz, quando veio ao palácio, perguntou:

– Onde dormi a noite passada?

– Em cima de um gavião, coberto por outro, em cima das nuvens!

– Era isso mesmo!

Como era o terceiro dia, o rapaz foi condenado à morte, mas a princesa ficou com pena dele e pediu ao rei para deixar o moço experimentar uma vez mais. 

O rapaz ficou contente e foi valer-se do Rei das Formigas. Esse ouviu a conversa toda e disse:

– O espelho descobriu você na terra, no mar e nos ares. Mas o espelho não pode ver a própria princesa. Eu vou virar você numa formiga e você suba para cima do vestido dela e esconda-se bem.

Dito e feito. O rapaz virou formiga, entrou no palácio, foi ao quarto da princesa e subiu pelo vestido acima, bem devagar para ela não pressentir, e escondeu-se na bainha da camisa.

À meia-noite a princesa procurou o rapaz em toda parte, virou e mexeu, e nada de ver onde ele estava dormindo. Passou-se a hora das forças do espelho encantado e ela não viu coisa alguma. 

Amanheceu o dia e o rapaz voltou a ser gente e veio perguntar onde tinha dormido.

– Não sei onde você dormiu! Onde foi?

– Não digo enquanto não me casar com você!

Fizeram o casamento com muita festa e só depois de casado é que o moço disse onde tinha passado a sua última noite de solteiro.
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Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal/RN, em 1898 falecendo na mesma cidade em 1986. Foi um historiador, sociólogo, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista, professor, advogado, jornalista e escritor brasileiro. Passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo do folclore e da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cujo Instituto de Antropologia leva seu nome. Deixou obra volumosa e de grande relevância, em particular sobre história, folclore e cultura popular. Recebeu o Prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, em 1956, pelo conjunto de sua obra.

Fontes:
Luís da Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil. Publicado originalmente em 1946. Disponível em Domínio Público.
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