sábado, 11 de abril de 2026

Asas da Poesia * 174 *


Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

– Minha filha, tens certeza?
– Tenho, mãe, é gravidez!
– Se vais dizer: “foi fraqueza”,
já não cola, é a quarta vez!
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Poema de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Tradução

Cada verso teu traduz a tua história;
Solta em cada linha livre que tu traças
Quando tu te expressas, da tua memória
Nascem tantas formas onde tu te enlaças.
 
Cada vez que leio cada fragmento
Dos teus sentimentos, no meu coração,
Um amor sublime faz desse momento
Mais que um sentimento de admiração...
 
Parece que há muito eu já te conhecia
E deixo  meu ser voar qual passarinho
No rumo sutil da tua poesia
Onde a fantasia cria o seu caminho.
 
Ando-te sem pressa, sem preocupar-me
Com a vida,  o tempo... e a ti me dedico,
Quero encontrar-te e busco encontrar-me
Na tua emoção com a qual me identifico.
 
Tu és minha irmã... eu sou o teu irmão
Quando tua doce alma me convida
A eternizar-te no meu coração
E a compreender um pouco a tua vida.
 
E assim que te vais após cada leitura,
Deixas no meu peito a doce sensação
Que tua palavra cheia de ternura
Cura as amarguras do meu coração.
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Aldravia de
SUZANA PEIXOTO
(Suzana Maria Cruz Peixoto)
Belo Horizonte/MG

mãos
carinhos
danças
bailes
saudosas
lembranças
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

As palavras perfumadas da confidência
(Maria Goreti Andrade Carneiro Dias in “Textos de Amor", p. 40)

“Palavras perfumadas de confidência”
Dizias tu baixinho ao meu ouvido
E eu, delas tão sedento e atrevido
Ia perdendo, aos poucos, a inocência.

O amor ardia em nós com tal urgência
E como quase nada era proibido
Sem saber o caminho percorrido
Quase demos às portas da demência.

Dormem os nossos corpos saciados
Perdidos nos lençóis amarrotados
Envoltos numa paz que nos aquece.

Em redor tudo é calmo e é perfeito.
E eu sinto em mim que o mundo é o nosso leito
Como se nele nada mais houvesse.
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Trova de
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH
Porto União/SC, 1945 – 2020, Curitiba/PR

Até hoje, na velhice,
lembro as canções de ninar
que mamãe, pura meiguice,
cantava pra me embalar!
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Dobradinha Poética de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Cidade Natal

Ao procurar as raízes,
tem o meu sonho tal ânsia,
que ao buscar dias felizes
volto à fazenda da infância.

Seu pai era jardineiro
e ele era um menino arteiro,
que só queria brincar.
Mas, quando a mãe o chamava,
as flores, logo abraçava
e o pai ele ia ajudar.

Cresceu… deixou a cidade.
Longe de tudo, a saudade,
quase que o fez regressar.
Mas, sabendo o que queria,
formou-se em agronomia
depois de muito estudar.

Já casado e com família,
passou anos em vigília
e por trabalhar assim,
formou dois filhos doutores
mas, nunca mais plantou flores
e nem cuidou de um jardim!

Ao perder a companheira,
sua ilusão derradeira,
já tendo bastante idade,
procurou suas raízes
lembrando os tempos felizes
lá, na pequena cidade.

Voltou à morada antiga,
ouviu a velha cantiga,
foi à igreja e ao botequim.
E, na praça da cidade,
onde dói mais a saudade,
plantou flores no jardim!
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TROVA POPULAR

Infeliz me considero 
em todos os meus intentos:
Quando penso achar venturas,
não acho senão tormentos.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Delírios da aurora

Quando a aurora bem cedo, abre a cortina,
ante os raios do Sol, o orvalho chora,
pestaneja no céu, a luz divina
e resplende, na terra, a luz da aurora!

Basta o olhar dessa aurora peregrina,
passageira que, ao longe, o céu decora,
e, aos pouquinhos, dos braços da campina,
o silêncio da noite vai embora!

Sobre as copas de antigos arvoredos,
lindas aves revelam seus segredos,
dando vivas, à luz do Sol nascente...

E entre coros, canções, ressurge a vida,
despertando essa paz adormecida,
que adormece de novo, ao sol poente!
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Trova de
ANTONIO BISPO DOS SANTOS
São Cristóvão/SE, 1917 – 2010, Niterói/RJ

Não quero louro ou riqueza.
Nada além do amor perdura.
Em minha feliz pobreza
Deus me cobre de ternura.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Sol eterno

Há mais alegria na procura que no encontro
A poesia da vida está na surpresa das esquinas
Em liberdade as diferenças se fazem divinas
Não se toma água limpa em fonte suja
Quem não garimpa dentro de si mesmo
Enferruja com seu toque tudo que amanhece
Não se conhece nem se doa ao próximo
É como canoa que temesse a festa da correnteza
A Natureza acontece na candura da simbiose
Ao horizonte do amor basta a luz da ternura
O sabor da fruta não depende da semente
Vem do calor da mão calejada do plantador
Pôr-do-sol que não se põe no peito da gente!
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Soneto italiano

    Frescura das sereias e do orvalho,
    Graça dos brancos pés dos pequeninos,
    Voz das manhãs cantando pelos sinos,
    Rosa mais alta no mais alto galho:

    De quem me valerei, se não me valho
    De ti, que tens a chave dos destinos
    Em que arderam meus sonhos cristalinos
    Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?

    Também te vi chorar... Também sofreste
    A dor de ver secarem pela estrada
    As fontes da esperança... E não cedeste!

    Antes, pobre, despida e trespassada,
    Soubeste dar à vida, em que morreste,
    Tudo, — à vida, que nunca te deu nada!
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Trova de
ANDRÉ RICARDO ROGÉRIO
Arapongas/PR

Quando, então, do céu descer
um brilho no seu olhar
é porque no entardecer 
meus sonhos vão te buscar.
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Spina de
ANA MEIRELES
Belém/PA

O pescador 

Pesqueiro do a(m)ar 
- Lançador de redes,
um eterno sonhador. 

Lança sua tarrafa com fé,
espera a maré, sob ondas
sente sua alma, terno ardor,
conhece o amor, vê águas 
de beijar praias, o pescador.
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Trova de
EVA YANNI GARCIA
Caicó/RN

Sei que me esperas, suponho,
te sinto além do infinito;
se és a musa do meu sonho,
és meu sonho mais bonito!
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Sublimação

Tento louvar a beleza do universo,
cantar o céu, o infinito, o sol, a flor.
No silêncio existe som que escuto em verso,
do matiz inexistente vejo a cor.

Numa gota d’água posso ver, submerso,
do gigante mar azul todo o esplendor.
Penso em rosas onde o espinho mais perverso
cresce, banindo a alegria e impondo a dor.

A solidão povoei, o peito imerso
nos meus sonhos enfeitados com o verdor
da esperança, alado aroma ao céu disperso.

A viver concebo o Bem. Em meu fervor,
sonhando a Paz, quando há guerra, quão diverso
vê-se o mundo no altar-mor do meu Amor!...
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Trova de
TIAGO
António José Barradas Barroso
Paredes/ Portugal

O amor ia no cartão,
a rosa era o meu presente,
agora, anda pelo chão
pisada por toda gente.
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Poema de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Linha do Tempo! 

Corre o tempo, sem dar tempo 
de ver que o tempo passou, 
agora, passado o tempo, 
passado no tempo estou; 
porém não me importa o tempo 
passado, pois este tempo 
passado, já se passou! 

Olho o tempo no presente 
e vejo quão bom é o tempo, 
pois o tempo, simplesmente, 
me dá tempo de ter tempo 
pra gastar tempo com gente 
que por não ter tanto tempo 
não vive o tempo presente!

Mais um dia amanheceu, 
mais um dia se passou, 
mais um dia anoiteceu, 
mais uma noite chegou, 
mais uma noite passou, 
mais uma noite se foi, 
e mais um dia se foi, 
e se foi todo meu tempo, 
sem ter um pingo de tempo, 
pra notar que o tempo foi 
embora, sem perder tempo, 
pois o tempo não tem tempo 
pra quem também não tem tempo, 
por isso não perca tempo, 
tire um pouco do seu tempo 
tão pouco, sem perder tempo, 
antes que o dia anoiteça, 
antes que você se esqueça, 
antes que você pereça, 
e viva todo este tempo 
que lhe resta, dando tempo 
para quem já não tem tempo 
de ver o tempo passar; 
não é tempo de esperar, 
vamos, pois, remir o tempo, 
antes de o tempo findar!
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Triverso de
JOSÉ APARECIDO BOTACINI
São Paulo/SP

Espelho cruel 
Refletindo janeiros: 
Rugas na face. 
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Sextilha de
MILTON SEBASTIÃO SOUZA
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

No entrevero, metido, que alegria,
deixo a chuva molhar meu coração,
pois eu sei, esta chuva que desliza
traz na seiva esta paz de cada irmão,
e a palavra precisa que preciso
para ser bom aluno na lição.
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Trova de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

Uma lágrima reluz
numa pétala dourada.
Orvalho cheio de luz,
clareando a madrugada.
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Hino de 
COLORADO/ PR

Sou filho de Colorado
Tenho orgulho do meu torrão
Amo tanto este berço adorado
Que hei de tê-lo sempre em meu coração.

Colorado és a terra de esplendor
Tudo em ti me encanta e seduz
Aqui o sol tem mais vida e calor
E as estrelas têm mais brilho e mais luz.

Neste solo onde existe tanto amor
Há um desejo perene de sucesso
Onde a prece altiva é o labor
E o caminho palmilhado é do progresso.

Tua gente lutadora e varonil
O teu nome sempre guardará
Colorado terra amada e gentil
Filha altiva do gigante Paraná.

Honra e glória aos seus descobridores
Que anteviram os caminhos da vitória
Para eles este hino de louvores
Por nos legarem este templo de glória.
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Poetrix de
ROMILDO AZEVEDO 
Brasília/DF

obstáculos

São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
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Soneto de
EDIVAL PERRINI
(Edival Antonio Lessnau Perrini)
Curitiba/PR

Proa

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Que venham as tormentas, que venha o que vier,
tenho o sonho comigo, o sonho é meu pastor.

O mundo da aparência não me engolirá.
Conheço bem suas manhas, meu ofício é interior:
girassol que é girassol tem proa pro amanhecer.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.

Ou eu busco a verdade ou ela não me achará.
Minha verdade, o sonho, é pomar e é brasão.
Seu universo, os versos, fio do sim e do não.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Encontro nele a luz, meu alimento e cor.
Que escorra a ampulheta, o sonho é meu pastor.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Tire as trovas da memória
do seu bom computador. 
Deixe que façam história
indo em livros ao leitor.
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Conto em Versos de
ARTHUR DE AZEVEDO
(Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo)
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

As festas

Era o Alfredo casado
Com formosa mulher, nova e sadia,
Mas não a merecia:
Andava enamorado,
Como um velho babão lascivo e tolo,
De uma reles corista
Com pretensões a artista,
Que trabalhava no teatro Apollo.

Fazia versos maus o pobre diabo,
E era empregado num pequeno banco:
Não podia dar-se ares de nababo,
Não podia mostrar-se muito franco,
Pois o que ali ganhava
Para os gastos da casa mal chegava;
Mas o parvo supunha
Que do Apollo a corista lhe quisesse
Não por vil interesse,
E o seu carnal desejo em versos punha,
Convencido de que ela
Com tal moeda se satisfizesse.

Escusado é dizer que ele da bela
Nada mais conseguira,
Tangendo a sua lira,
Senão coisas vulgares,
Sorrisos ternos, lânguidos olhares,
Porque já não há musa
Que às coristas seduza...
Já lá se vai o tempo em que um soneto,
Embora não tivesse chave de ouro
No último verso do último quarteto,
Tinha a chave que abria,
Depois de longo e pertinaz namoro,
O duro peito da mulher mais fria.
A mísera poesia,
Por tantos explorada,
Hoje é moeda desvalorizada.

O visionário Alfredo
Vai uma noite ao teatro muito cedo
E faz chegar às mãos da semi-artista,
Dentro de um ramalhete,
Perfumado bilhete,
Pedindo uma entrevista.
E no dia seguinte, à hora do ensaio,
Vai ter com ela e diz: — Daqui não saio,
Enquanto uma resposta não me deres,
Ó tu que és a mais linda das mulheres,
Flor das musas do Apollo!

Abre a tipa uma bolsa de veludo
Que traz a tiracolo,
Dessas em que as madamas guardam tudo:
Lencinhos, luvas, pó de arroz, bilhetes,
Pentinhos, alfinetes,
E dinheiro miúdo;
Dois retalhos de seda
Tira de dentro, sorridente e pronta,
E do Alfredo aos atônitos ouvidos
Estas palavras múrmura segreda:
— Qual mais te agrada destes dois vestidos? —

Ele o melhor aponta,
— Pois vai compra-lo e traz-me-o. A resposta
Terás então daquele bilhetinho
À cálida proposta…

Encontras a fazenda no Godinho.
Catorze metros bastam. Adeusinho! —
E a corista fugiu que nem um raio,
Porque a estavam chamando para o ensaio.

Após ligeiro pasmo,
Perdeu o Alfredo todo o entusiasmo,
Por ver, naquele instante,
Que, para a amada se tornar amante,
O metro dos seus versos
Não era ainda bastante:
Ela exigia metros bem diversos:

Metros de seda cara,
Que custar deveriam...
Quanto? — os olhos da cara!
E os lábios seus tremiam!
Para a ingrata o Parnaso era o armarinho,
E o Apolo era o Godinho!

Meteu, desiludido, na algibeira
Os retalhos. Saiu. Foi para o banco,
E, inspirado, nervoso, num arranco,
Passou a mais feroz descalçadeira
Na exigente corista em verso manco.
À noite, em vez de lhe mandar fazenda,
Na forma da encomenda,
Mandou-lhe a versalhada.
Leu-a a corista e deu muita risada.
Andou de mão em mão a poesia,
E foi lida por toda a companhia.
Alfredo, esse dormiu tranquilamente,
Aliviado e contente,
Durante a noite inteira.

Foi a esposa a primeira
Que da cama se ergueu. Eu cá duvido
Haja no mundo uma mulher casada,
Embora muito honrada,
Que não reviste os bolsos ao marido,
Quando este ainda se acha recolhido...
Tinha do Alfredo a esposa tais trabalhos,
E por isso encontrou os dois retalhos.
Quando ele despertou, ela, sorrindo,
Rosto sereno, olhar sereno e lindo,
Lhe disse: — Finalmente,
Alfredo, minha vida,
Vais dar-me de presente
Um vestido de seda! Agradecida!
Que belas festas de princípio de ano!
Não imaginas como estou contente!
Ter um vestido assim era o meu plano!
Duas amostras vêm — naturalmente
Para escolher: pois bem... esta prefiro…

Depois daquele triste desengano,
O Alfredo enveredou no bom caminho,
E a senhora, modelo das honestas,
Teve esse ano de festas
Um vestido de seda... Mal sabia
Que a uma corista reles o devia!
(Contos em versos. Publicado em 1909. Disponível em Domínio Público)

Mensagem na Garrafa 170 = Pessoas Especiais

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AUTOR ANÔNIMO 

Um dia uma professora pediu para seus alunos listarem os nomes dos amigos de classe em um papel, deixando um espaço na frente para escrever alguma coisa.

Então ela mandou eles pensarem na coisa mais bonita que eles podiam dizer sobre cada um dos colegas da classe e escrever ali neste espaço.

Isso tomou todo o tempo restante da aula até que todos acabassem a tarefa, e quando eles saíram da sala, cada um entregou seu papel à professora.

Depois a professora escreveu o nome de cada aluno em um pedaço de papel separado e listou o que todos os outros tinham dito sobre aquele aluno em especial.

Na aula seguinte ela entregou para cada um a sua lista, e em pouco tempo, a classe inteira estava sorrindo.

"Verdade" ela ouvia. "Eu nunca soube que significava alguma coisa para alguém!" outro dizia..."Eu não sabia que os outros gostavam tanto de mim"...

Foram muitos os comentários. Mas, ninguém mencionou esses papéis na aula novamente. A professora nunca soube se eles discutiram sobre isso entre eles ou com os pais, mas isso não importava. O exercício atingiu seu objetivo. Os alunos ficaram felizes com eles mesmos e com os outros.

O tempo passou, aqueles alunos cresceram e cada um iniciou uma nova vida ali mesmo ou em outra cidade. 

Quis o destino que um dos alunos perdesse sua vida em uma guerra. Todos os amigos e a professora foram no funeral daquele aluno especial. Ela nunca tinha visto um homem num caixão militar antes. Ele parecia tão bonito e tão maduro. 

Seus amigos encheram a igreja e um por um, daqueles que o amavam deram seu Adeus... A professora foi a última a abençoá-lo. 

Mas enquanto ela estava lá, um dos soldados que atuou como acompanhante do funeral veio para ela e disse: "Você era a professora de matemática do Mark?" ele perguntou. Ela mexeu com a cabeça em gesto afirmativo, "Era.”

"O Mark falava muito sobre você." Logo após o funeral enquanto todos ainda estavam tristes por aquele amigo que não poderiam ver de novo, a professora foi chamada pelos pais de Mark 

"Nós queremos lhe mostrar uma coisa", o pai disse, tirando a carteira do bolso e disse: "Encontraram isso no bolso das roupas do Mark, nós achamos que você deveria reconhecer."

Abrindo a carteira, ele cuidadosamente retirou dois pedaços de papel, que obviamente tinham sido lidos e relidos muitas vezes. A professora soube imediatamente que aquele papel era a lista feita há muitos anos atrás em uma de suas aulas, com todas as coisas boas que os colegas de Mark tinham escrito sobre ele.

"Muito obrigado por fazer isso" disse a mãe do Mark. "Como você pode ver, Mark o guardou como um tesouro.”

Todos os colegas do Mark começaram a reunir-se em volta e Charlie sorrindo timidamente falou: "Eu também guardo minha lista. Ela está na parede do meu quarto".

A esposa do Chuck falou que a lista deles estava no álbum de casamento.

"Eu tenho o meu também", falou Marilyn. "Está no meu diário".

Então Vicki, outra colega, pegou sua agenda na bolsa e mostrou, gasta e velha, sua lista para o grupo. " Eu a carrego comigo o tempo todo", disse ela e continuou, "Acho que todos nós guardamos nossas listas.”

Foi quando a professora finalmente sentou e chorou. Chorou por Mark e por todos os seus amigos que não o veriam nunca mais e por ver que um pequeno gesto há muitos anos atrás fez uma diferença enorme na vida daqueles alunos. 

A quantidade de pessoas na sociedade é tão grande que nós esquecemos que a vida acaba um dia. E nós nunca sabemos que dia será. Então por favor, conte para as pessoas como você as amam e o quanto você se importa com elas, e principalmente como elas são especiais. Antes que seja tarde demais.

Aparecido Raimundo de Souza (Pensamentos fúteis como coca cola sem gás)


DO NADA
As chamas se erguem, 
os corpos dançam no relâmpago, 
a noite em combustão.

NATUREZA
Trovão na montanha, 
o choque de duas pedras, 
eco sem descanso.

AVASSALADOR
Um olhar que devora, 
o vento rasga o silêncio, 
a pele em tempestade.

CONTURBADO
Noite sem sossego, 
os ventos rasgam pensamentos, 
o silêncio quebrado.

NO FINAL, O BOBO SOU EU
Risos que escapam, 
na roda todos dançam. 
O bobo sou eu!

LENTIDÃO
O mar em fúria ruge, 
as espumas devoram a praia 
e o céu perde o sossego.

QUE LOUCURA!
Final das contas… 
o meu adeus ficou no bilhete.

VAZIO 
Vida oca soa como tambor sem batida, 
eco sem ninguém.

MIRAGEM ÀS AVESSAS
Olhos sem luz, 
o oásis vira deserto, 
a verdade se esconde.

FIM DA ESTRADA
Morri sem saber, 
o segredo ficou na bruma… 
silêncio eterno.

SERÁ VERDADE?
Um amor prometido, 
uma flor guardada no tempo, 
o vento anuncia um romance.

SOLIDÃO SEM CAUSA
Sinto o vento frio em casa abandonada, 
eco sem razão.

ATÔNITO 
Mudo eu fiquei, 
na boca o vento calou… 
Meu olhar disse demais.

COCA COLA SEM GÁS
Copo sem gelo, 
bolhas sobem apressadas, 
como verão sem frescor.

POR FAVOR, ALGUÉM ME TIRE DAQUI...
Socorro! Me salvem! 
Ondas engolem meu fôlego, 
o céu não responde.

INEXPLICÁVEL                                            
Um sopro invisível, 
um silêncio que move o mundo… 
Luz sem fronteiras.

CREDO!
A voz se ergue, 
um relâmpago corta o céu, 
a alma se assusta.

DO LADO CONTRÁRIO 
Te esperei na esquina, 
sem destino… 
O tempo me esqueceu.

FINALMENTE...
Então o sol abriu caminhos, 
te achei no acaso...

SEM SENTIDO 
Um grito abafado, 
paredes guardam segredos… 
Eco que se cala.

MEU PEDIDO
Mamãe, cadê você? 
A brisa leva minha voz, 
só o silêncio responde.

REFLEXO ESQUISITO
Eu não me achei, 
um espelho vazio me olha, 
virei sombra sem dono.

ESPAÇO VAZIO
Porão de ausências, 
teias guardam o nada… 
Tempo empoeirado.

TEMPORARIEDADE
Fugaz, como estrelas, 
algo risca o céu por um instante… 
Memória de luz.

BREU
Um escuro sereno, 
o colo da noite me envolve… 
Descanso profundo.

ELA PARTIU DE VEZ
Meu amor se foi, 
o vento levou o que restou…
Silêncio em mim.

COMO CACHORRO SEM VOZ
Tiraram a minha coleira. 
Fiquei sem dono, 
os olhos choram em silêncio, 
fiel me quedo sem latidos.

EU E ELA
Nós dois juntos, 
um vento suave nos envolve… 
Tempo suspenso.

COM UMA MÃO NA FRENTE, A OUTRA TAMBÉM
Parti sem alarde, 
a porta fechada no vento… 
Eco de ausência.

GRITO DE SOCORRO
Meus filhos, onde vocês estão? 
O vento leva minha pergunta, 
as dores não.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com IA Microsoft Bing usando a foto do autor 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

José Feldman (A Identidade Perdida)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Aula: Literatura Inglesa.

Hora: 19h00.

A sala 203 fervilhava com uma energia caótica que, de certa forma, espelhava a peça em discussão: "A Comédia dos Erros", de Shakespeare. O ar estava pesado, não apenas pelo calor que teimava em entrar pelas janelas fechadas, mas pela confusão gerada por dois pares de gêmeos idênticos separados ao nascer.

A professora Léia abriu o livro com um sorriso malicioso. Hoje o clima era de puro caos.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos analisar A Comédia dos Erros, considerada a peça mais curta e... caótica de Shakespeare. Quem aqui já leu e pode resumir a trama sem ficar tonto?
 
A turma se entreolhou. O Juninho, que já tinha chegado com uma latinha de refrigerante escondida na mochila, levantou a mão na hora.
 
— Professora, eu posso! Resumindo: é uma bagunça generalizada baseada em DNA!

— Como assim, DNA, Juninho? — perguntou a professora, ajustando os óculos.

— Tipo assim: tem dois irmãos gêmeos idênticos, chamados Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa. E para piorar, cada um tem um servo que também são gêmeos idênticos, chamados Dromio. Ou seja, temos dois Antífolos e dois Dromios. Todo mundo igual, todo mundo com a mesma roupa, mesma cara. É o pesadelo de quem tem problema de rosto!

— Eu acho que o Dromio de Siracusa deveria ter batido mais forte no Dromio de Éfeso - declarou Clara, uma estudante com uma energia que parecia prestes a incendiar a sala. – Se alguém me confundisse com um ladrão e me batesse, eu não ia ficar só reclamando, ia revidar!

— Mas, Clara, o ponto é justamente a confusão! - argumentou Léo, o eterno cético do grupo, que parecia ter nascido com uma sobrancelha arqueada. – Se eles começassem a se bater de volta, a peça acabaria em cinco minutos. O humor vem da exasperação, da total falta de lógica que a situação impõe.

A professora, com seu habitual ar de quem viu tudo (e provavelmente já escreveu um artigo sobre isso), ajustou os óculos. – Léo está certo. A genialidade de Shakespeare aqui reside na exploração do absurdo. A identidade, a percepção, a realidade... tudo se desintegra quando você tem duas pessoas idênticas em locais diferentes, vivendo vidas paralelas, mas interligadas pelo acaso. E excelente síntese, Juninho. É exatamente isso. Uma comédia de equívocos baseada na semelhança física.

A Márcia, já com as canetas coloridas na mão, interveio:
 
— Na minha análise, professora, a peça questiona a própria identidade. Veja bem: quando todos confundem o Antífolo A com o Antífolo B, ele começa a questionar sua própria sanidade. Ele pensa que enlouqueceu! É uma crítica filosófica: "Eu sou quem eu penso que sou, ou sou o que os outros veem?"
 
— Que viagem, Márcia! — disse o Pedro — Mas vamos para a realidade. Imagina o stress: o cara chega na cidade, a mulher do irmão dele vem e abraça ele chamando de marido, leva ele para jantar, dá presentes... e ele pensando "meu Deus, eu namoro sério ou eu sou farra mesmo?"

— E o melhor — gritou a Bia do fundo — É que o Antífolo de Éfeso estava casado, né? Aí ele chega em casa, a porta está trancada, a família está dentro jantando com o outro ele! Ele bate na porta, grita, e o pessoal de dentro fala "mas como assim? Você já está aqui dentro!" Ele ficou louco da vida, né? Imagine a frustração! "Eu sou eu! Abra a porta!" E eles: "Não, você não é você, o você está aqui!"
 
— Isso é coisa de filme de terror psicológico! — riu o Zé — Eu ia chamar o exorcista na hora. Ou ia achar que estava drogado.
 
A professora aproveitou o gancho:
 
— E sobre os servos, os Dromios? O que acham da relação deles com os patrões?
 
O Zé se animou:
 
— Ah, esses dois são sofredores! Os patrões vivem mandando eles fazer coisa, brigando com eles, e os coitados só tentam sobreviver. Tem uma hora que o Dromio fala sobre uma cozinheira gorda que quer casar com ele, e ele diz que ela é tão grande que ele poderia se perder dentro dela tipo um mapa! Shakespeare tinha humor negro, hein?
 
— E as confusões amorosas? — perguntou a Carol — Tem uma cortesã lá, certo? Ela dá um anel de presente para um Antífolo, e depois vai cobrar do outro. O cara fica "que anel minha filha? Eu nunca te vi na vida!" E ela achando que ele está querendo queimar o filme. É o tipo de situação que termina na delegacia hoje em dia.
 
— Ou no Tinder! — completou Juninho — "Nossa, você é idêntico ao cara que eu saí ontem!" "Mas eu não saí com ninguém!" "Para de mentir, perfil falso!"
 
— A situação chega a um ponto crítico — explicou a professora — onde todos acham que há magia negra, que a cidade está cheia de bruxas e fantasmas. Até que no final, os dois pares de gêmeos se encontram frente a frente.
 
— Aí sim o bicho pegou! — disse Pedro — Imagina a cena: dois caras idênticos olhando um para o outro. "Você é quem?" "Não, você é quem?" E os servos do lado também iguais. Deve ter sido o primeiro encontro de clones da história da literatura!
 
— E a solução? — perguntou Márcia — Eles separam as vidas?

— Basicamente, cada um segue com a sua realidade. O Antífolo que foi confundido fica com a grana e os presentes que ganhou, o outro volta para a sua esposa, e os Dromios... ah, os Dromios decidem que são como duas gotas d'água e vão sair por aí explorando a semelhança.
 
— E a Adriana!- suspirou Sofia, a romântica incurável da turma, que passava mais tempo suspirando pelos personagens do que anotando. – Ela é tão desesperada! Confundir o Antipholus de Siracusa com o marido dela? E ainda por cima, ficar furiosa porque ele não a reconhece? Se meu marido agisse assim, eu chamaria a polícia, ou um exorcista!

— Exatamente! - concordou Clara. – E o Antipholus de Éfeso, o 'marido', coitado. Ele só queria um casaco e acabou sendo expulso de casa, acusado de loucura e traição. Imagina a cena: você chega em casa, sua esposa te acusa de ter um caso com você mesmo, e seu 'servo' te chama de louco. Eu estaria mais perdida que um peixe fora d'água num deserto."

Juninho bateu na mesa, indignado:
 
— Professora, mas uma coisa me incomodou muito nessa história.

— O quê, Juninho?

— Ninguém usava roupa diferente? Não tinha camisa de time? Não tinha corte de cabelo diferente? Tudo igual! Até o nome igual! Que mãe é essa que coloca o nome dos dois filhos de Antífolo? Para quê? Para dar problema na vida adulta?
 
— É justamente o erro cômico, Juninho. A convenção teatral.

— Se fosse hoje, teria solução fácil. Era só pedir o CPF! "Tá, você diz que é Antífolo? Mostra o documento! Vamos ver a data de nascimento!" Acabava a peça em cinco minutos.
 
A turma riu muito. A professora olhou para o quadro e escreveu: Identidade X Aparência.
 
— Muito bem, turma. Enquanto em Sonho de uma Noite de Verão a confusão era causada por magia, aqui é pura genética e má gestão de identidade. A lição que fica é: nunca confie apenas na cara de alguém, e sempre verifique se a pessoa que está te respondendo é realmente a mesma que você mandou fazer o serviço… A peça nos força a questionar o que é real e o que é percebido. Os personagens estão presos em suas próprias realidades, incapazes de ver a verdade óbvia que está bem na frente deles – ou, neste caso, bem ao lado deles.

— Ou pelo menos, o quão facilmente os personagens de Shakespeare podem ser enganados - corrigiu Clara, com um sorriso. – Ainda acho que o Dromio de Siracusa merecia um prêmio por aguentar tudo aquilo.

— E principalmente, professora — concluiu Bia — se você chegar em casa e tiver um outro você jantando a sua janta... corre! Ou pede um pedaço também, porque já que deu tudo errado...
 
— Exato! — disse a professora — Para a próxima aula, quero que vocês pensem: e se vocês tivessem um sósia perfeito aqui na universidade? O que poderia dar errado?
 
— Para mim daria certo, professora! — gritou Juninho — Eu mandava ele vir aqui na aula de Literatura e eu ficava em casa jogando videogame!
 
— Ideia anotada, Juninho. Mas na prova quem vai ter que ir é você mesmo. Aula encerrada!
 
E assim, a turma saiu da Sala 203, cada um olhando para o próprio reflexo na vitrine do corredor, meio desconfiados se eram realmente eles mesmos.
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RESUMO DA OBRA

A Comédia dos Erros, escrita por volta de 1594, é baseada em farsas da Antiguidade Clássica. A história gira em torno de dois pares de gêmeos idênticos que foram separados em um naufrágio quando bebês: Antífolo de Siracusa e seu servo Dromio de Siracusa; Antífolo de Éfeso e seu servo Dromio de Éfeso. 
Anos depois, os gêmeos de Siracusa chegam a Éfeso, sem saber que seus irmãos vivem lá. A partir daí, instala-se uma confusão generalizada: A esposa de Antífolo de Éfeso confunde o estrangeiro com seu marido e o leva para jantar. Dívidas são cobradas dos irmãos errados. Joias são entregues a quem não as pediu. Os servos são espancados por seus respectivos senhores por "não cumprirem ordens" que, na verdade, foram dadas ao outro gêmeo. A situação aumenta até que os personagens acreditam estar sob feitiços ou sofrendo de loucura. O nó só é desatado quando todos se encontram simultaneamente diante de uma abadia. A verdade aparece, os irmãos se reconhecem e o pai deles, Egeu (que estava condenado à morte por entrar ilegalmente em Éfeso), é perdoado, reunindo toda a família. 
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL) e vice-presidente da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (CLBT). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo; Minhas irmãs de quatro patas (crônicas sobre gatas e cadelas).
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

Arthur Thomaz (O caminhãozinho de madeira)


Ele acordou, e em frente ao espelho, notou um velho a mirá-lo fixamente. Passado o susto, percebeu que era ele mesmo a olhá-lo.

Sentiu necessidade de desabafar sozinho, e o fez em voz alta.

– Que contraste! Ainda ontem recebi uma fotografia em que eu, criança, brincava com um caminhãozinho de madeira. Estava risonho, inocente e totalmente embevecido pelo brinquedo.

Continuou olhando a imagem no espelho, e ela envelhecida, fitando-o, sem sorrir, e impassível. Ligeiramente irritado, falou:

– Aliás, respondendo a todos os que hoje perguntam-me por que eu não sorrio nas fotos como antes, basta devolver-me o caminhãozinho de madeira, que voltarei a sorrir novamente.

Prosseguiu:

– Também é interessante o fato de poder, nessa idade, falar sozinho, sem que pensem que estou maluco. Senil, podem pensar, mas doido, não.

Emendou outro pensamento:

– Mais um fato marcante é notar que tornei-me um alguém solitário, que fala sozinho, porque nenhum dos amores em minha vida soube sequer igualar o intenso êxtase que eu tive em brincar com meu caminhãozinho de madeira.

A imagem no espelho tentou falar.

– Amigo…

Interrompeu-o bruscamente:

– Espere um pouco. Não creio que você possa chamar-me de amigo, pois acabei de conhecê-lo.

E prosseguiu:

– Na última vez que o vi no espelho, você era mais jovem, com bigode negro e muito sorridente.

A imagem tentou novamente falar:

– Sim, mas…

Aparteou-o outra vez:

– E tem mais, você era otimista, uma outra pessoa, totalmente diferente.

Seguiu falando sozinho:

– E pensar que a simples perspectiva de um dia seguinte, e tudo o que com ele viria, já era motivo, naquela época, de expectativa e otimismo. Hoje, os dias transcorrem exasperantemente idênticos e monótonos.

Lamentando, continuou:

– Ah! Tão efêmera é essa vida, que nem notei a distância entre a brincadeira com o caminhãozinho de madeira e hoje, aqui, olhando você nesse espelho. Tudo foi reduzido a lembranças e fatos esquecidos, sabe-se lá onde.

Permaneceu pensando:

– Tenho muito a agradecer pelo fato de ter envelhecido, isso não posso negar, e poder olhar aquele velho refletido no espelho. Mas muitos amigos foram ficando pelo caminho, impedidos de brincar com os próprios caminhõezinhos, o que causou em mim uma sensação de abandono. Onde estão vocês, meus amigos?

Terminou, solitário, em frente ao espelho, olhando para o alto, quase em uma súplica:

– Devolvam-me o querido caminhãozinho de madeira, eu quero voltar a brincar.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Texto e imagem do livro: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. 
Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

Antônio Maria (Romance dos pequenos anúncios)


Dinheiro — Preciso 35 mil cruzeiros – empréstimo - boas referências.
Pago no vencimento 50 mil - 30 dias.

— Mas, a gente vai separar por quê? — perguntou o marido. A conversa começou cerca da meia-noite, e eram oito da manhã. Marilda só dizia que ia separar e que não ficava mais nem um dia. Na hora de explicar o motivo, se trancava. A pergunta "você tem um novo alguém", Jaribe lhe fizera umas mil vezes. Marilda se arrepiava da cabeça aos pés, com a forma "um novo alguém". Foi quando Jaribe levantou, foi no armário e, de urna malinha da Varig, trouxe um Smith & Wesson 38, carga dupla.

— Fala, Marilda. Se não falar eu me mato aqui mesmo.

Marilda não sabia daquele revólver. Nunca vira, antes, alguém com um revólver na mão. Sentiu uma náusea. A violência, qualquer espécie de violência, lhe nauseava. Pediu:

— Guarde o revólver que eu falo.

Jaribe atirou o revólver, de qualquer maneira, no armário.

— Vai, fala.

Marilda ergueu metade do corpo e recostou no espaldar da cama. Tinha que falar. Um homem nunca se conforma em separar-se sem ouvir, bem direitinho, no mínimo 500 vezes, que a mulher não gosta mais dele, por que e por causa de quem. Já mulher, não (pensava). Basta que o homem lhe diga uma vez que quer ir embora, nasce-lhe um brio, um ódio poderoso, uma espécie de soberba, tão grande, que ela se veste toda, pega um telefone, pede um táxi e sai. Mulher (pensara Marilda, a noite inteira) pode não ter muita vergonha nos outros lugares. Mas, na cara, tem. Mulher não se importa de vestir o menor dos biquínis e deixar que a vejam, horas. Mas não consente que o homem que a despreza lhe olhe a cara, um só minuto.

Mas tinha que falar, porque homem, enquanto não sabe do pior, não sossega. E começou, Marilda, sem um segundo de sono (seis "dexas"), recostada no espaldar.

— Escuta, bem. Você sabe que eu tenho minhas coisas, não sabe? Fala. Sabe ou não sabe?

— Mas conta.

— Você vai dizer que eu sou louca, se eu disser que, no terceiro mês de casada, não aguentava ouvir ou dizer seu nome. Nós estamos casados há dois anos e três meses, não é? Pois bem, qual foi a última vez que você me ouviu chamar você pelo nome?

Jaribe fez uma rápida busca no tempo e só lembrou de Marilda a chamá-lo de "meu bem". Ou, então, quando não havia ninguém perto, falar assim: "hei"!... e dizer o que queria.

Marilda continuava:

— Tentei o seu sobrenome. Você se lembra que, de junho a agosto do ano passado, eu passei chamando você de Carvalho? Mas não podia continuar. Mulher chamar marido pelo sobrenome é humilhante demais.

— Mas meu nome é tirado da Bíblia — ... apelou Jaribe.

Marilda continuou:

— Mas não é só isto. Você fala umas coisas que não há mulher que aguente.

Houve uma pausa, que Jaribe se apressou em quebrar:

— Por exemplo?

Marilda preferia não dizer. Ajeitou-se no espaldar da cama, puxando o lençol acima dos seios, pois naquela posição a camisola não estava dando conta. Mulher não diz nada sério, não assume mesmo a mínima dignidade, se houver qualquer de suas pudícias à mostra. Marilda puxou o lençol até o pescoço.

— Eu estou esperando — insistiu Jaribe.

E Marilda falou o resto:

— Outra coisa: você fala "menas".

— Como assim?

— Você diz muito: "menas gente".

Jaribe a amava como um louco. Sentia, por dentro, uma dor enorme. Aquela dor da falta de ginásio. Mas queria saber tudo:

— E você tem um novo alguém?

Marilda botou o rosto dentro das mãos e começou a chorar. Chorava e falava, ao mesmo tempo:

— Me manda embora! Me manda um mês para fora pra ver se a gente conserta! Deixa eu ficar dois meses no Paraná com a família da minha madrasta! Vai, arranja um dinheiro e me manda! Depois a gente acerta.

Jaribe o que queria era esperança. Como todo homem que sente perder a mulher, queria a esperança de ainda retê-la. Tivesse ou não "um novo alguém", ele queria Marilda. Honra? O que é honra? Em que parte do corpo está localizada?

Com a lucidez dos enganados, Jaribe descobria todas as verdades da vida.

Pobre Jaribe! Iria arranjar o dinheiro, custasse o que custasse. Com uns 35 mil cruzeiros, solucionaria o problema. Qualquer agiota lhe emprestaria 35 por cinquenta, em trinta dias. Qualquer um. O próprio contador da Importadora. Se falhasse, era só botar um anúncio no Jornal do Brasil. Naquela efusão de suas esperanças, pensou: "Por que será que a Condessa comprou a Tribuna?". Pôs-se de pé.

— Olha, Marilda. Você vai para o Paraná, sim. Depois de amanhã. Fica lá, descansa, passa o tempo que quiser e depois volta.

— Faz uma coisa — pediu Marilda —. Você me escreve, tá?

— Claro. Você vai para descansar.

E Jaribe foi para o banheiro, alentado por todos os maus alentos. Vigiar-se-ia dali por diante quando falasse.

Precisava de Marilda. Retê-la-ia, custasse o que custasse. E, coitado, em tudo o que pensava, não estava mais que estruturando sobre o absurdo.
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Antônio Maria Araújo de Morais, cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fontes:
"Com vocês, Antônio Maria". SP: Editora Paz e Terra, 1994.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing