domingo, 12 de julho de 2026

O. Henry (O hábil detetive)


Meses atrás, Thomas Keeling instalou um pequeno escritório detetivesco. Ofereceu seus serviços ao público em condições bastante modestas. Não aspirava a eclipsar a glória de Nick Carter, pois preferia trabalhar por caminhos menos arriscados.

Se um patrão desejava indagar os hábitos de um empregado, ou uma senhora queria investigar as idas e vindas de um marido um tanto alegre, Keeling era o homem indicado. Homem de princípios, tranquilo e estudioso. Lia Gaboriau e Conan Doyle[*] e esperava galgar algum posto mais elevado em sua profissão. Três dias depois de inaugurado o escritório, apareceu uma jovem de vinte e cinco anos, mais ou menos, alta, esbelta e bem vestida. Usava um véu finíssimo que tirou ao ocupar a cadeira que Keeling lhe ofereceu. Seu rosto era distinto e delicado. Tinha olhos vivos e maneiras levemente nervosas.

— Vim vê-lo, senhor — disse com uma suave (mas um pouco triste) voz de contralto —, porque é relativamente estranho nesta cidade e me seria impossível tratar de assuntos particulares com algum de meus amigos. Desejo que vigie os movimentos de meu marido. Por humilhante que essa confissão seja para mim, acho que não tenho mais o seu amor. Vivemos cinco felizes anos de casamento, mas, recentemente, uma jovem, que meu marido conhecera em solteiro, mudou-se para esta cidade e tenho razões para suspeitar que lhe dedica as suas atenções. Quero que o vigie e virei aqui saber o que descobriu. Sou a Sra. Randall. O meu marido, que é muito conhecido, é dono de uma pequena joalheria na Rua dos Álamos. Aqui tem algum dinheiro por conta dos seus honorários.

Keeling tomou o dinheiro e assegurou à jovem que cumpriria os seus desejos ao pé da letra. E pediu-lhe que voltasse dois dias mais tarde, às quatro horas, para receber a primeira informação.

No dia seguinte, realizou as primeiras investigações. Descobriu a joalheria, onde entrou sob o pretexto de mandar consertar o vidro do relógio. Randall, o joalheiro, era um homem de trinta e cinco anos, aproximadamente, e de modos tranquilos. Sua loja era pequena, mas bem sortida de relógios, diamantes e joias. Outras pesquisas permitiram Keeling verificar que Randall era um homem de bons costumes, não bebia nunca, e trabalhava continuamente na loja.

Keeling espreitou durante várias horas as proximidades da loja e recebeu sua recompensa quando viu entrar nela uma jovem morena. Aproximou-se da porta, de onde podia observar todo o interior. A jovem entrou sem cerimônia alguma e, inclinando familiarmente, falou com Randall. Por fim, o joalheiro entregou-lhe algumas moedas. A moça saiu e foi andando rua abaixo.

A cliente de Keeling apresentou-se no escritório para saber dos resultados. O detetive contou-lhe ao que assistira.

— É ela — disse quando Keeling lhe descreveu a moça atrevida que entrara na loja. — Atrevida! E Charles dando-lhe dinheiro! Nunca pensei que isso me acontecesse...

E levou um lenço os olhos para conter as lágrimas.

— Sra. Randall — disse o detetive —, o que deseja agora que eu faça?

— Quero ver com meus próprios olhos para convencer-me. Também preciso de testemunha para o processo do divórcio. Não suportarei mais esta vida.

No dia seguinte, quando ela voltou ao escritório de Keeling, este lhe disse:

— Estive esta tarde na joalheria sob um pretexto qualquer. A jovem estava lá, mas não ficou muito tempo. Antes de partir disse: “Charlie, esta noite teremos um jantar especial, como você pediu. Depois voltaremos aqui e conversaremos, enquanto você termina o trabalho deste broche de brilhantes". Esta noite, senhora Randall, lhe proporciona uma boa oportunidade para agir.

— Canalha! — gritou a jovem com os olhos relampagueando. —Disse-me que esta noite tinha que ficar fora até tarde para um trabalho importante. E é deste modo que passa o tempo longe de mim!

— Sugiro — disse o detetive — que a senhora se esconda na loja para ouvir o que disserem. Quando tiver ouvido bastante, pode chamar as testemunhas e acareá-las com seu marido.

— Muito bem. Penso que o policial que fica nas proximidades é um velho conhecido de minha família. O senhor podia explicar-lhe o assunto e, quando eu tiver ouvido o suficiente, o senhor e ele podem aparecer como testemunhas.

— Falarei com ele — disse o detetive. — Venha aqui depois de escurecer e combinaremos tudo para pegá-los.

O detetive procurou o policial e explicou-lhe tudo.

— É curioso — disse este. — Não sabia que o Sr. Randall andasse com essas coisas. Não se pode pôr as mãos no fogo por ninguém. De modo que sua esposa quer esconder-se na joalheria e ouvir o que dizem... Há um pequeno quarto do fundo, onde Randall guarda caixas e papéis. A porta está fechada à chave, naturalmente, mas se o senhor conseguir que a moça entre ali, poderá esconder-se em qualquer canto. Não gosto de meter-me nestes assuntos, mas simpatizo com ela. Conheço-a desde que era menina.

Ao escurecer, a cliente do detetive entrou apressadamente no escritório. Vestia-se de preto, com simplicidade e tinha um véu no rosto.

— Se Charlie me visse —disse —, não me reconheceria.

Foram para perto da joalheria e viram, às oito horas, a jovem entrar na loja. Imediatamente depois, saiu com Randall, de braço dado e ambos se afastaram rapidamente. O detetive sentiu que o braço da moça tremia.

— Bandido! — disse com amargura. — Julga-me em casa, esperando-o como uma boba, enquanto sai com esta mulherzinha! Ah, como os homens são pérfidos!

 Keeling levou sua cliente à porta de trás da casa. Não lhes custou forçar a porta e entrar.

— Na loja — disse a moça —, perto do banco em que meu marido trabalha, há um pano que chega até o chão. Se me escondesse ali, eu poderia ouvir tudo.

Keeling tirou o molho de chaves do bolso e, em pouco, encontrou uma que abria a porta da joalheria, onde brilhava uma luz pálida. A moça disse, entrando na loja:

— Vou fechar esta porta por dentro e quero que o senhor siga meu esposo. Veja se estão jantando e, quando regressar, avise-me com três pancadinhas na porta. Depois que eu tiver ouvido a conversa, abrirei e nós enfrentaremos os culpados. Quero que o senhor esteja a meu lado para proteger-me.

O detetive foi procurar o joalheiro e sua companheira. Viu que jantavam num tranquilo restaurante das proximidades. Quando viu que saíam, Keeling correu para a porta posterior e deu três pancadinhas.

Poucos minutos depois, o joalheiro entrou acompanhado da moça e Keeling viu que a luz brilhava mais intensamente. Voltou então à rua e pôde ver Randall, através da vitrine, trabalhando, e a jovem sentada ao seu lado.

Keeling, para dar-lhes um pouco de tempo, encaminhou-se até a esquina. Ali encontrou o policial, a quem disse que a Sra. Randall estava escondida na joalheria e que o plano ia às mil maravilhas. Voltaram juntos e o guarda lançou um olhar pela vitrine.

— Parecem entender-se muito bem — disse ele. — Onde está a outra mulher?

— Como? Sentada a seu lado, não vê?

— Pergunto pela moça que Randall levou para jantar.

—Mas não estou dizendo...

— Parece que estamos confusos — disse o guarda. — Conhece esta mulher ali?

— Pois é a mulher com que Randall foi jantar.

— Pois é a esposa de Randall. Há quinze anos que a conheço.

— Então... quem?... — balbuciou o detetive. — Deus Todo-Poderoso, quem está embaixo do pano?

Keeling bateu na porta da loja. Randall veio abrir e ele e o guarda entraram.

— Olhem debaixo da mesa, depressa, gritou o detetive.

— O policial se inclinou e tirou um vestido negro, um véu e uma peruca.

— Essa... essa senhora... é sua esposa? — Perguntou Keeling, apontando para a jovem de olhos escuros que o olhava com inexprimível surpresa.

— Naturalmente, respondeu o joalheiro. — Agora explique-me que diabo quer dizer tudo isso.

— Procure suas joias, Sr. Randall — disse o guarda, que começava a compreender a situação.

As joias e os relógios roubados importavam numa boa quantia, que, no dia seguinte, o detetive pagou com o último centavo de suas economias.

Nesta mesma noite, Keeling, no escritório, pôs-se a revistar algumas fotografias de ladrões conhecidos. Por fim encontrou uma. Sob a fotografia de um jovem de traços delicados, dizia a inscrição:

"James H. Miggles, aliás, ‘Simon’ ou ‘A Viúva Chorona’, ou ‘Himmy, o Suave’, escroque e ladrão. Trabalha geralmente com disfarces femininos. Muito agradável e perigoso. A polícia o procura em vários Estados".

Por essas razões, Keeling abandonou sua agência de detetive.
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[*] Émile Gobariou (1832 – 1873), escritor francês, foi um dos primeiros autores da ficção policial. O escocês Atrhur Conan Doyle (1859 – 1930) é o criador do célebre detetive Sherlock Holmes.
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O. HENRY é o pseudônimo literário de William Sydney Porter, um dos maiores mestres do conto da literatura mundial. Famoso por sua escrita ágil, humor sagaz e, acima de tudo, por seus finais surpreendentes e irônicos (técnica conhecida como twist ending), ele marcou profundamente a narrativa curta do século XX. Nasceu em Greensboro, Carolina do Norte (EUA), em 1862. Faleceu precocemente em Nova York (EUA), em 1910, aos 47 anos, em decorrência de cirrose hepática, complicações de diabetes e problemas cardíacos. Sua vida itinerante moldou diretamente sua obra. Passou a infância e juventude na Carolina do Norte, Mudou-se para o Texas em 1882 por motivos de saúde (para tratar uma tosse persistente), vivendo em ranchos, em Austin e em Houston. Fugiu para Trujillo, em Honduras, para escapar de acusações criminais nos EUA. Foi lá que ele cunhou a famosa expressão "República das Bananas". Cumpriu pena na Penitenciária de Columbus (Ohio). Fixou residência a partir de 1902, em Nova York, cidade que adotou como cenário para a maioria de suas histórias mais famosas, apelidando-a de "Bagdá do Metrô". Antes de viver exclusivamente da escrita, teve uma carreira profissional bastante variada e conturbada. Trabalhou na farmácia de seu tio e foi desenhista técnico no funcionalismo público do Texas. Atuou como bancário (caixa) no First National Bank de Austin. Em 1894, foi acusado de desfalque e peculato pelo banco. Em 1898, foi considerado culpado e condenado a cinco anos de prisão. Cumpriu três anos em regime fechado em Ohio devido ao bom comportamento. Na prisão, trabalhou como farmacêutico do hospital do presídio.
Começou a escrever contos de forma profissional enquanto estava na prisão para conseguir dinheiro e sustentar sua filha, Margaret. Para ocultar sua verdadeira identidade de ex-presidiário, ele criou o pseudônimo O. Henry. Embora existam várias teorias sobre a origem do nome, a mais aceita é que ele se inspirou no nome de um guarda da prisão (Orrin Henry) ou no nome do biólogo francês Étienne Omer Henry. Ao sair da prisão em 1901, sua carreira decolou. Ele se mudou para Nova York e chegou a escrever um conto por semana para o jornal New York World, tornando-se imensamente popular. O. Henry não pertenceu a Academias de Letras formais. Sua literatura era de apelo popular, publicada em jornais e revistas de grande circulação, e ele mantinha uma vida pessoal reservada e boêmia. Não recebeu grandes prêmios em vida, mas sua importância gerou o O. Henry Award (Prêmio O. Henry), criado em 1919 pela Sociedade de Artes e Ciências dos EUA. É, até hoje, um dos prêmios anuais mais prestigiados do mundo para contos publicados em revistas americanas e canadenses.
Publicou centenas de contos, compilados em livros de enorme sucesso comercial: Cabbages and Kings (1904) – Seu único romance (composto por contos interligados passados em Honduras); The Four Million (1906) – Contém suas obras-primas: "O Presente dos Magos" e "O Policial e o Hino"; The Trimmed Lamp (1907); Heart of the West (1907); The Voice of the City (1908); Options (1909); Strictly Business (1910); Sixes and Sevens (1911) – Coletânea póstuma que inclui o conto satírico "O Hábil Detetive". 
A importância de O. Henry reside na revolução da estrutura do conto moderno. Ele conseguiu capturar a essência da vida urbana do início do século XX, dando voz e dignidade aos cidadãos comuns de Nova York: balconistas, policiais, mendigos, artistas pobres e pequenos vigaristas. Sua principal marca registrada — o final com reviravolta inesperada — influenciou gerações de escritores de mistério, drama e comédia ao redor do mundo. Ele provou que narrativas curtas e de consumo rápido em jornais podiam carregar uma profunda sensibilidade humana, misturando melancolia e ironia de forma genial. Ele transformou o cotidiano em uma caixinha de surpresas e ditou o ritmo de como contar uma boa história com dinamismo e precisão.

Fontes: 
Revista “Carioca”, 07.04.1945. Publicado originalmente na coletânea póstuma "Sixes and Sevens" no ano de 1911.
Biografia = Wikipedia, Brasil Escola, Literatura Inglesa (site), Amazon, 

Mariane Veigas Pepes (O caso do frade)


Excepcionalmente na sexta-feira fui escalada para o turno noturno. Uma semana tumultuada e um dia cheio, achei que as últimas doze horas seriam silenciosas. Por certo estava enganada. Já em fins do plantão,  precisamente às 4h07 da manhã, recebi uma ligação me chamando para avaliar um óbito. Ainda no escuro, arranquei uma saia longa e uma camisa qualquer do armário. O cartório só abriria às 9h30, que família chega tão cedo?

Não demorei no percurso, não havia trânsito. E, antes que pudesse bocejar uma segunda vez, o corpo estava à minha frente sobre a fria mesa do necrotério. Era um homem idoso e magro, em hábito capuchinho, novo e limpo. Com um leve cheiro adocicado. Afrouxei o nó do cordão que prendia a cintura. Não havia quaisquer marcas de violência ou doença. 

Corri rampa acima, a que fica ao lado do cemitério e leva ao escritório. O cheiro do começo da manhã se misturava ao do hipoclorito e a briga entre a noite e dia já começava na linha do horizonte. 

Entrei, retirando minha pasta com as Declarações de Óbito da bolsa, e cumprimentei os presentes na ampla recepção. Jaques, o colega da madrugada, levantou-se chamando os dois homens sentados nas cadeiras de espera. Um em cada canto da sala.

Puseram-se de pé num instante e, de certa forma, ri-me de como se contrastavam. Aquele que ocupava a cadeira da esquerda era baixo; o da direita, alto. O da esquerda, bojudo e calvo. O da direita, esguio e de negra cabeleira. Eram elegantes em seus ternos, embora houvesse uma afetação excêntrica em ambos. 

Sentaram-se à minha frente sem se olharem. 

— Bom dia, mademoiselle — o da esquerda ajeitou o bigode.

— É ainda "boa noite", meu caro — o outro abriu um relógio de bolso.

— Já é manhãzinha.

— Não é tempo, ainda!

Mexi na papelada sobre a bancada, pasmada pelo embate àquela hora, fosse do dia ou da noite. 

— O seu — procurei pelo documento de atendimento do SAMU  —  Guilherme era parente de vocês?

— Un ami.

— Um conhecido.

— Certo — peguei uma caneta sobre a bancada. 

— Ele era da Igreja, certo?

— Creio ser óbvio pelas vestimentas.

— Meu caro — o careca repreendeu —, deixe a pobre moça trabalhar. Ele era frade.

— E, hum...  O óbito foi em casa, mesmo? 

— Depende do que você chama de casa.

— Ora, ponha as células cinzentas para funcionar, meu jovem. Ela quer dizer o local para onde se endereçam os documentos pessoais de alguém.

Astuto! Não conseguiria me expressar de melhor jeito.

— Devidamente — o magro recostou-se na cadeira, olhando-me fixamente. 

— Monsieur Guilherme residia com os monges desta sua cidade há alguns bons meses.

— Compreendo — rabisquei com força num rascunho, tentando tirar tinta da caneta. —  E vocês sabem me dizer se ele tratava alguma doença, se tomava algum medicamento?

— De forma alguma, mon ami era um homem muito vivaz.

— E vocês sabem me dizer se ele apresentou algum sintoma, alguma queixa? Se estava tratando algo?

— Pensa em morte de origem natural?

Eu senti uma gota de suor descer por minha nuca. Troquei a caneta.

— Aqui só cuido de mortes naturais. 

— Acredito ter havido um engano, minha jovem. — Um segundo de suspense. Reclinou-se para frente — Monsieur Guilherme foi assassinado.

O outro articulou em concordância.

Mas era só o que me faltava, pra fechar a tampa do baú. Àquela hora da matina?

— Bom, ele tinha 82 anos, foi encontrado no próprio quarto, sem sinais de violência...

— Besteira. Você não se atentou aos detalhes.

— Senhor — parei na área do local de ocorrência, a nova caneta borrava o papel. —  Temos um protocolo para a avaliação de mortes suspeitas. Esse não é o caso aqui.

— Desta vez, devo concordar com o monsieur Holmes. Você não percebeu os detalhes.

Detalhes? Quais? A caneta travou em algum lugar e a ponta rasgou o papel. 

— Ai, que ótimo! — Rasgar uma Declaração de Óbito é sempre uma dor de cabeça. — Com todo respeito, vocês estão me atrapalhando.

— Poirot, precisamos elucidá-la de nossas suspeitas.

Ambos levantaram-se. 

— Aonde vão? 

— Gostaria de pedir permissão para explicar nossa hipótese, ao lado do corpo.

Dirigi um olhar para os recepcionistas da madrugada, compartilhávamos o mesmo pensamento.

— Vocês já fizeram o reconhecimento do corpo, não?

— Sim, e pudemos nos atentar aos detalhes.

— Tudo bem! 

Levantei-me, a cadeira arranhou o chão.

— Acompanhem-me!

Deixei como estavam minhas coisas, saí sem me certificar se me seguiam. O barulho dos passarinhos do lado de fora me fez sentir falta da minha cama.

Descemos o mesmo corredor que eu subira mais cedo.

— Sua cidade é muito bem estruturada! O necrotério fica ao lado do cemitério. — Pobre Poirot, quis fazer sala.

— Pertence ao cemitério! — Empurrei a porta do laboratório.

— Permite? 

— Claro.

Sherlock avançou até o cadáver.

— Não, credo! — Estendi a caixa de luvas para os dois — Aqui.

— Você mexeu nas roupas, não é?

— Claro, eu preciso expor o corpo para examiná-lo.

— Percebeu como ele estava vestido?

— Roupas da Igreja.

— Não o que vestia, mas como vestia.

Passaram-se alguns minutos, somente o barulho de tic-tac do relógio.

— Sabe, minha jovem, não a culpo por não ter percebido. As coisas parecem todas no lugar certo.

— Exceto que estavam certas nos lugares errados — Poirot retirou as luvas. —  A corrente estava amarrada para a esquerda.

— E com apenas um nó. Não é muito religiosa, não é?

— Mas como isso significa que ele foi assassinado? — Agora eu fui bem ríspida. — Ele tomou banho e poderia estar desorientado.

— Roupas novas, vestidas de forma errada. Um frade que viveu seis décadas sob o comando da Ordem?

— As roupas limpas foram trocadas por alguém que não sabia o que estava fazendo.

— Mas pra quê? 

— Precisava encobrir o vômito.

— Mademoiselle, venha até aqui. Observe o canto da boca.

— Esse líquido pode sair normalmente depois da morte.

— Sinta o cheiro.

— Eu... — Não me aproximei muito, mas era o cheiro de antes. Algo doce, amendoado. — O que é?

— Cianeto.

— Meu Deus, envenenamento. — Arregalei os olhos. 

— E Guilherme lutou com o agressor — disse Holmes. — Unhas cortadas, para que não se achasse o material debaixo delas.

Havia bem ali, na unha do indicador, um corte, sem sinal algum de coagulação. 

— Feito depois da morte.

— Exatamente, minha cara. Exatamente. 

— Como é que vocês sabiam só de olhar?

— Detalhes.
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MARIANE VEIGAS PEPES é uma escritora contemporânea, pesquisadora e médica brasileira. Sua trajetória é caracterizada por uma atuação híbrida, na qual divide o tempo entre o universo da medicina/bioética e a escrita literária independente. Ela se autodescreve como uma "interiorana nascida em capital". Nasceu em Curitiba/PR, em meados da década de 1990, concluiu o ensino médio no ano de 2014. Embora tenha nascido na capital, cresceu e fixou residência na cidade de Umuarama, no interior do Paraná. Também morou temporariamente no estado de Santa Catarina (na região de Joaçaba) para a realização de seus estudos de formação acadêmica superior. Graduou-se em Medicina pela Universidade do Oeste de Santa Catarina. Atua ativamente no campo da Bioética, com ênfase no direito e autonomia dos pacientes. É coautora de artigos científicos de impacto nacional, como o estudo Diretivas antecipadas de vontade: instrumento de autonomia para pacientes oncológicos, publicado na Revista Bioética do Conselho Federal de Medicina.
Mariane transita pela escrita ficcional e crônicas do cotidiano, compartilhando suas produções principalmente por meio de plataformas digitais focadas no fomento de novos autores, como a Plataforma de Escritores. Seus textos dialogam frequentemente com as percepções de quem carrega o "ritmo e as paranoias de cidade grande" vivendo na calmaria do interior. Um de seus contos conhecidos na rede é a narrativa ficcional intitulada "O Caso do Frade".  Por integrar uma geração jovem e independente de escritores, ainda não possui livros em formato físico de grande circulação comercial, prêmios literários de nível nacional ou filiação a Academias de Letras tradicionais. Suas publicações formais de maior destaque concentram-se na literatura científica e médica.
A importância de nomes como Mariane Veigas Pepes para o cenário atual reside na democratização e descentralização da escrita por meio das mídias digitais. Ela faz parte de um crescente movimento de profissionais de outras áreas (como a saúde) que utilizam a literatura como uma ferramenta de humanização e escape criativo. Ao publicar de forma independente, autores com esse perfil ajudam a renovar o público leitor na internet e a oxigenar a produção literária do interior do estado do Paraná com crônicas e contos de forte apelo contemporâneo.

Fontes:
Biografia = Revista Bioética, Plataforma de Escritores.

sábado, 11 de julho de 2026

Asas da Poesia * 200 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Rotina

O meu ontem 
Ficou no passado
Morto, enterrado...
O meu agora,
Não existe 
Se fez acabado.
Virei vida inútil
Um sujeito vazio e fútil, ‘
“decadenciado”.
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Trova Humorística de
RENATA PACCOLA
São Paulo/SP

Rico cinquentão? Coitado!
Quisera que fosse assim!
Ele anda mais apertado
que pasta dental no fim!
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Causa Mortis
 
Todo mundo que chegava
ao velório do Candinho,
penalizado, falava:
- Morreu como um passarinho.
 
Um bebum que ali se achava,
curioso, entre o burburinho,
a cada passo escutava:
- Morreu como um passarinho.
 
Chega alguém que, comovido,
pergunta-lhe ao pé do ouvido:
- De que a morte foi causada?
 
E o bebum, em tom de prece:
- Também não sei, mas parece
que foi de uma estilingada.
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Aldravia de
MESSODY RAMIRO BENOLIEL
Rio de Janeiro/RJ

dúvidas
estremecem
relacionamentos
quando
permanecem
presentes
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Naufrágio

Neste oceano da vida, tumultuoso,
Lancei, cheio de sonhos, um barquinho.
E ele flutuou e deslizou airoso,
Vencendo os empecilhos do caminho!

Nos momentos difíceis, sem repouso,
Depressa ia ampará-lo o meu carinho
E ansiosa eu via, com secreto gozo,
Meus sonhos desafiando os torvelinhos!

E chegaste! E de pedra era tua alma!
De papel, o barquinho... e tenso e mudo,
Ficaste, quando o mar perdeu a calma!

Contra o recife, o barco soçobrou!
E os sonhos, sem guarida, ao fim de tudo,
Um a um, impiedoso, o mar levou!
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Trova Premiada de
ARTHUR THOMAZ
(Arthur Thomaz da Silva Neto)
Campinas/SP

Quando perto, o trem apita,
batem forte os corações…
Tudo na estação se agita,
provocando as emoções.
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Poema de
LUCIANA CARRERO
Porto Alegre/RS

Bloco Súbito

Eis aqui a cidade
bloco súbito de concreto
plantada na simplicidade
da paisagem - pelo arquiteto

Nela o homem-multidão
tal compacto rio
e o ídolo – destacável cidadão
que a consciência grupal pariu

Indivíduo impotente
na massa comprimido
logra êxito na corrente
que fabrica seu ídolo

Nele se satisfaz
por fim realizado (?)
Nada lhe resta mais
na multidão segregado
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Quadra Popular

Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.
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Soneto de
BERNARDO TRANCOSO
(Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso)
Vitória/ES

A Rosa Branca

Tantas púrpuras rosas no rosal;
Grosas e grosas, tão bonitas rosas;
Entre as rosas vultosas, majestosas,
Brota uma branca rosa, desigual.

Meu olhar só percebe a rosa tal;
Prefere-lhe, entre rosas mais charmosas;
Rosas pra te dizer que, em meio às grosas,
És como a rosa branca, especial.

Tens no andar que alucina novas cores;
É por ter novas cores que alucina;
És preferida, dentre mil amores.

Como a flor no rosal, tão pequenina
Que, perante outras mais formosas flores,
Difere e, o coração, logo ilumina.
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Trova de
HERMOCLYDES S. FRANCO
(Hermoclydes Siqueira Franco)
Niterói/RJ (1929 – 2012) Rio de Janeiro/RJ

Tenho um cão chamado THÉO,
grande amigo, inseparável...
Ao meu lado, está no céu
e eu me sinto invulnerável!
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Poema de
ALDA LARA
Benguela/Angola, 1930 – 1962, Cambambe/Angola

As belas meninas pardas

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...
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Haicai de
ELISSON THOMAZ SVEREDA
Irati/PR

Lembro de meu pai
Debruçado na janela.
Noitinha de outono.
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Sextilha Agalopada de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Foi voando nas asas dos condores
agarrado nas mãos celestiais,
que senti os prazeres infinitos
e a doçura dos beijos das vestais;
musas virgens da sã sabedoria
que enfeitiçam poetas imortais!
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Trova de
JORGE FREGADOLLI
Maringá/PR

Borboleta beijoqueira
dá beijos em cada flor.
Voando solta, fagueira,
vai fecundar seu amor. 
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Glosa de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

É a primavera chegando...
 
 MOTE
As flores estão voltando,
colorindo tudo... Enfim,
é a Primavera chegando,
perfumando meu jardim.
 José Feldman 
(Floresta/PR)
 
 GLOSA
 As flores estão voltando,
denunciam seus odores;
o vento chega mais brando
nos cenários multicores.
 
É a pintora Natureza
colorindo tudo... Enfim,
lindo toque de beleza
que, à mão de Deus, fica assim!
 
Meu astral se eleva quando
vejo toda essa pintura;
é a Primavera chegando,
como é linda enquanto dura!
 
Pena que, com tanto zelo,
falte uma flor para mim;
a rosa do teu cabelo
perfumando meu jardim.
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Aldravia de
REGINA COELI NUNES
Rio de Janeiro/RJ

rosto
sempre
triste
promove
rugas
subalternas
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Soneto de
NATHAN DE CASTRO
(Nathan de Castro Ferreira Júnior)
João Pinheiro/MG, 1954 – 2014, Uberlândia/MG

Soneto de setembro

Com voz de trovoada e olhos de coriscos,
o céu de cara feia afugenta o soneto.
Arrisco-me no verso livre, em branco e preto:
cantigas de setembros, chuvas e rabiscos

Sinais de tempestades, flores, borboletas?
Versos de folhas verdes nas mãos do Poeta?
Quiçá, quem sabe a terra ensinando-me as letras
das cepas dos coqueiros de praias desertas?!

Canções de erva-cidreira, picão e canela,
remédios para curar as paixões de agosto...
Sementes nos canteiros de eterno desgosto?

Verso livre com cheiro de amor - primavera -
abóbora madura (onde estão minhas feras?).
Silêncio, outro soneto, e um sorriso no rosto.
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Trova Premiada de
RITA MOURÃO 
Ribeirão Preto/SP

Seria a paz mais presente
e o porvir menos incerto
se na mão do adolescente
sempre houvesse um livro aberto!
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Poema de
ARNOLDO PIMENTEL FILHO
Rio de Janeiro/RJ

Aquarela

Eu pinto sonhos que nem sempre têm asas
Sonhos vividos
Sonhos esquecidos
Sonhos que poderão viver na minha tela
Na minha triste aquarela
Minha tela pode estar pintada de vazio
Silêncio vazio
Cores incolores que mostram meu rosto
Tela vazia incolor que inspira minhas cores
Eu pinto meus temores na madrugada
Onde a tempestade é a verdadeira tela
Onde a solidão disfarçada
Invade o meu quarto pela janela
Eu pinto a solidão do meu corpo
Pinto as cores da minha voz nua
Pinto meus olhos perdidos no infinito
Minha tela é meu próprio grito
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Triverso de
ROSÂNGELA JACINTO DA SILVA
Curitiba/PR

À beira do mar.
Como se fosse num espelho
o brilho da Lua.
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Setilha sobre o Mar de
JOSENIR LACERDA
Crato/CE

Fim de tarde, “mar” revolto
As ondas beijando a praia
No horizonte luminoso
O sol cansado desmaia
É cena da natureza
Plena de garbo e Beleza
Que um novo dia ensaia
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Trova de
CEZÁRIO BRANDI FILHO
Juiz de Fora/MG

Quanta gente gostaria
de ter a vida da gente,
sem saber que isto seria
trocar tristeza somente. 
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Hino de 
ANGELINA/ SC

1. 
Entre os montes, a verde campina
Foi o berço da Vila Mundéus,
Que mais tarde chamou-se Angelina
E cresceu com as bênçãos de Deus.

A fé na Gruta de Angelina
Este povo ensina a viver melhor,
O homem faz a trajetória, construindo a história
De um Brasil maior.

2. 
Gratidão este canto encerra
Para aquele que a Vila fundou;
O suor derramado na terra
Foi semente que frutificou.

3. 
Estudantes e agricultores
Cumprem juntos a mesma missão;
Uns cultivam dos livros as flores,
Outros tiram riquezas do chão.

4. 
Os minérios são nova mensagem
Que Angelina ao mundo traduz;
O seu rio abastece a Barragem,
Rica fonte de força e de luz.
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Poetrix de
ANA OLIVEIRA
Espinho/Portugal

o lobo mau e a sua esquizofrenia

cortaram ligações
ao tálamo,
na lobotomia.
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Poema dos Estados Unidos de
E. E. CUMMINGS
(Edward Estlin Cummings) 
Cambridge/Massachussets, 1894 – 1962, Madison/New Hampshire

O Primeiro de Todos os Meus Sonhos 

o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar (pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas; que dançam
e dançando arrebatam (e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio: em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem (bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou: e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
—onde tu e eu estamos a florescer
(Tradução de Cecília Rego Pinheiro)
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Trova Humorística de
A. A. DE ASSIS
(Antônio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Melhor idade?… Bobagem…
lorota antiga… falácia…
– Velhice só traz vantagem
para o dono da farmácia!
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Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE 
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

A Rã e o Boi

Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

- Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
- Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou:

- E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.
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Mensagem na garrafa 194 = O que faz o medo


AUTOR ANÔNIMO

Num país em guerra havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os a uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas por sangue.

Nesta sala ele os fazia enfileirar-se em círculo e dizia-lhes, então:

- Vocês podem escolher entre morrerem flechados por meus arqueiros ou passarem por aquela porta e por mim serem lá trancados.

Todos escolhiam serem mortos pelos arqueiros.

Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo servira ao rei dirigiu-se ao soberano:

- Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?

- Diga, soldado.

- O que havia por detrás da assustadora porta?

- Vá e veja você mesmo.

O soldado, então, abre vagarosamente a porta e, à medida que o faz, raios de sol vão adentrando e clareando o ambiente...

E, finalmente, ele descobre surpreso, que... a porta se abria sobre um caminho que conduzia à LIBERDADE!!!

O soldado, admirado, apenas olha seu rei, que diz:

- Eu dava a eles a escolha, mas preferiram morrer a arriscar-se a abrir esta porta.
***
 
Quantas portas deixamos de abrir pelo medo de arriscar?

Quantas vezes perdemos a liberdade e morremos por dentro, apenas por sentirmos medo de abrir a porta de nossos sonhos?

Pense nisso... sem medo de abrir novas portas!!!