quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 30 *


 A renúncia corresponde,
muita vez, a muito amar;
como quando o Sol se esconde
para que brilhe o luar!
A. A. de Assis
Maringá/PR
= = = = = = = = =

Lá, muito além das estrelas,
moram minhas ilusões,
e eu, por medo de perdê-las,
transformei-as em canções.
Abia Dias
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Nos poemas encontrei
a real identidade
dos vazios que deixei
nos meus versos de saudade!
Agnes Izumi Nagashima
Londrina/PR
= = = = = = = = =

Trovadores, versejando,
em dom divino e fecundo,
e suas mãos derramando,
Beleza e paz pelo mundo...
Almir Pinto de Azevedo
Rio de Janeiro/RJ
= = = = = = = = =

Na mesa do meu irmão,
toda noite e todo dia,
haja café, haja pão,
muita prosa e poesia!
Antônio Rosélio Nunes Pacheco
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Se o filho, na luta ingente
da vida, vence com brilho,
o pai o triunfo sente
igual ao que empolga o filho.
Barreto Coutinho
Limoeiro/PE, 1893 – 1975, Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Caminha com segurança
quem leva à vanguarda, erguida,
a bandeira da esperança
que impulsiona a sua vida!
Carolina Ramos
Santos/SP
= = = = = = = = =

Não tema a estação de agora,
não tema o inverno, querida.
Que importa o frio lá fora
se dentro a alma está aquecida?
César Augusto Sovinski
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Discreta, naturalmente,
minha ternura se trai,
ante um tiquinho de gente
que me chama de “Papai”!
Cesídio Ambrogi
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP
= = = = = = = = =

Porque o tempo vem, não tarda,
não espera, não vacila,
quem nasce para vanguarda
chega sempre antes da fila.
Cipriano Ferreira Gomes
São Paulo/SP
= = = = = = = = =

Um tesouro brasileiro
é feijoada e caipirinha.
E se houver samba e pandeiro
vira festa na cozinha.
Denivaldo Piaia
Campinas/SP
= = = = = = = = =

Se teu rosto, pai, confessa
o cansaço das jornadas,
quanta ternura se expressa
em tuas mãos calejadas!
Elen Novais Félix
Barra do Piraí/RJ, 1946 - 2015, Niterói/RJ
= = = = = = = = =

Neste momento, calado,
de gestos e olhar bisonhos,
penso em você ao meu lado
nos “amanhãs” do meu sonho.
Ester Figueiredo
Rio de Janeiro/RJ
= = = = = = = = =

Mundo cheio de emoções
é o que desperta o artista,
mexendo com corações
indo além do que se avista.
Fátima Almeida
Recife/PE
= = = = = = = = =

Será um manancial
de fraternidade e amor,
viver a paz mundial
e extinguir todo rancor.
Flora Malta Carpi
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

O artista traz alegria
traz riso, felicidade
traz ao mundo poesia
e gera bela irmandade.
Giselda Camilo
Recife/PE
= = = = = = = = =

Um belo sonho que eu tive
foi ser uma professora,
grande desejo eu obtive,
na profissão sou doutora.
Giselda Pereira
Recife/PE
= = = = = = = = =

Sonho que estou visitando
o lugar que desejei
e ficar só relembrando
foi tudo como esperei
Idalina Felix
Recife/PE
= = = = = = = = =

Na imensa feira da vida,
as barracas da ironia:
a das culpas - concorrida!...
a dos remorsos - vazia...
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP
= = = = = = = = =

O pesar desaparece,
no romper de cada aurora,
quando elevo a minha prece...
Deus abranda a dor de outrora!
Janete Francisco Sales Yoshinaga
São Paulo/SP
= = = = = = = = =

Uma coisa muito boa
numa só frase resumo:
andar com você à toa
sem objetivo e sem rumo.
Janske Niemann Schlenker
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Movimentos de vanguarda
mudam textos na aparência,
mas todo artista resguarda,
quando escreve, sua essência.
Jerson Lima de Brito
Porto Velho/RO
= = = = = = = = =

Bem-te-vis cantando estão ,
a enfeitar o amanhecer...
Regozijo ao coração,
e inspiração ao viver.
José Luiz Ribeiro
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Todos sentados à mesa,
com histórias a tecer,
é o cultivo e a riqueza
da amizade a florescer.
Kamila Hecht
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Os horrores de uma guerra,
têm as cores da tristeza;
enchendo de sangue a terra,
é um tormento com certeza.
Karem dos Santos da Silva
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Eu gosto de comer pão
também como vatapá
vez por outra o bom feijão
mas, bom mesmo é mungunzá.
Leices Xavier
Recife/PE
= = = = = = = = =

Sem saber quem era eu,
sem norte, luz ou guarida,
teu amor me devolveu
a identidade perdida.
Lilia Souza
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Nesta manhã, chega o inverno
nos renovando a esperança
e mostrando que de eterno
temos só nossa lembrança.
Lucas Bisoni
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Aos que com delicadeza
trazem os grãos da ternura,
ofertamos gentileza
e as benesses da brandura.
Luciana P. Pires
Rio de Janeiro/RJ
= = = = = = = = =

Perdi-me nesta saudade
dos rastros, que atrás deixei,
mas preservo a identidade
nos sonhos que realizei!
Lucilia A. T. Decarli
Bandeirantes/PR
= = = = = = = = =

O que sou, ou quero ser,
não é fruto de barganha.
No meu simples entender,
é sombra que me acompanha.
Lucrécia Welter
Toledo/PR
= = = = = = = = =

Vanguarda é estar mais à frente
do próprio tempo... e insistir
em trazer para o presente,
o semblante do porvir!
Luiz Antonio Cardoso
Taubaté/SP
= = = = = = = = =

Me recordo com saudade
do meu tempo de criança,
eu tinha felicidade,
amor e muita esperança.
Madalena Castro
Recife/PE
= = = = = = = = =

No inverno de noite fria,
tem ares de eternidade;
sem você, sem alegria,
bebo o vinho da saudade.
Madalena Ferrante Pizzatto
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

O amor não tem estação,
Vem no inverno ou primavera,
Num outono ou no verão...
Sorte dessa, quem me dera...
Maria do Rocio Vaz
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Oxalá a identidade,
das nações e os povos seus,
comprove que a humanidade
é filha... do mesmo Deus!
Maria Lúcia Daloce
Bandeirantes/PR
= = = = = = = = =

Neste Dia da Cultura,
venho aqui homenagear
com esperança futura,
artistas deste lugar.
Maria Lúcia Spadarotto Neves
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Assim é a simplicidade
do homem lá do sertão
que exibe, com vaidade,
os calos da sua mão.
Maria Lúcia F. Rockall
Rio de Janeiro/RJ
= = = = = = = = =

Nossa cidade revela
cultura sem restrição;
seu legado é bela tela
sempre exposta em cada ação.
Marina Caraline de Almeida Carvalhal
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

O inverno se faz presente,
anda o vivente na rua.
E receba o abraço quente,
calor de Deus perpetua.
Marli Voigt
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Sem o pão, a vida é breve,
seu tempero é a poesia,
ao tecer, bem mais de leve
a beleza que extasia.
Marly Aparecida Carvalho de Mattos
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Em qualquer fase da vida,
sempre que a incerteza ocorre,
sem que a fé seja perdida
a esperança nos socorre.
Nei Garcez
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

O mundo é uma grande escola
e a vida, mestra exigente;
não seja aluno que enrola,
nem, na lição, displicente.
Nilsa Alves de Melo
Maringá/PR
= = = = = = = = =

Que dolorosa ironia:
a terra muito pisamos,
mas a morte chega um dia...
E sob a terra ficamos!
Paulo Roberto Oliveira Caruso
Niterói/RJ
= = = = = = = = =

Inverno com belo dia,
tem um céu azul brilhante
traz para mim alegria,
fico mesmo radiante.
Pedro Henrique Schewinski Pereira
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Levem-me tudo, no entanto
não levem minha viola;
que essa voz dela, é meu canto
e esse canto me consola!
Professor Garcia
Caicó/RN
= = = = = = = = =

Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser um poeta!
Renato Alves
Rio de Janeiro/RJ
= = = = = = = = =

As "batidas" de emoção,
vêm dos versos sonhadores;
tocam fundo o coração...
Meus irmãos, os Trovadores!
Rô Caron
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

O amor quando é verdadeiro
no peito em que faz guarida
principalmente o primeiro
deixa marca em nossa vida.
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
= = = = = = = = =

Colibri em seu labor,
competente bailarino,
com um beijo suga a flor,
depois segue o seu destino.
Sebastião Zulmair Pires
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Quando a aurora colorida
prenuncia um dia quente,
tal o parto de uma vida
nasce o sol resplandecente.
Silvio Romero Tavares
Campinas/SP
= = = = = = = = =

Somos almas garimpeiras
nessa vida de perigos,
onde em lavras rotineiras
valem ouro os bons amigos.
Sônia Maria Nuss Teixeira Nogueira da Gama
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Tal qual uma joia rara,
toda trova é singular,
a tristeza ela repara,
faz a alegria voltar.
Talita Batista
Rio de Janeiro/RJ
= = = = = = = = =

Envergonhado e sem jeito,
meu coração sonhador
conserta o ninho desfeito
enquanto espera outro amor!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
= = = = = = = = =

Peço a Deus por meus irmãos,
que Ele cure toda dor.
Ergo em trova as minhas mãos:
— Piedade, meu Senhor!
Valber Meireles
Itaperuna/RJ
= = = = = = = = =

Um currículo não diz
das dores, dos sacrifícios,
nem da luta a cicatriz...
Só relata os benefícios.
Vânia Figueiredo
Campinas/SP
= = = = = = = = =

Ao longo da caminhada
em que a vida nos conduz,
vão-se alternando, na estrada,
luz e treva, treva e luz!
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
= = = = = = = = =

Silmar Bohrer (Croniquinha) 167


Eram tempos de efervescência nos Campos de Cima da Serra.  A madeira, especialmente o pinheiro, fazia pulsar as serras de corte, movimentar os caminhões transportando tábuas, e enchia a guaiaca dos donos de dezenas de serrarias na região. 

Na Fazenda do Matemático as manhãs de inverno eram geladas mesmo com sol. Geadas cobriam de branco os campos, as canhadas, os campitos ralos onde os pinheiros reinavam altaneiros. E eram costumeiras as nevascas naqueles julhos. 

Por estes caminhos Manuel passava todos os dias em busca do ouro verde para as serrarias. Mas no final daquela tarde o chefe da madeireira lhe ordenou a levar carga de tábuas para um depósito a mais de uma centena de quilômetros na manhã seguinte.

E assim o fez, mas havia a demora com as estradas ruins daqueles tempos.  Anoiteceu. Manuel teve que dormir fora do hotel que abrigava dezenas de operários da empresa.

No dia seguinte chegou para o almoço na serraria. Foi logo em busca da companheira, sua Maria, que trabalhava na cozinha do hotel. 

Cadê a Maria, indagou?! Ela foi embora sem dizer para onde. O mundo ruiu sobre Manuel. Retornou ao trabalho pela tarde. 

De manhã pulou cedo da cama, tomou o café e saiu para a rua. Eis que olhou para o chão e viu um daqueles grandes, imensos estercos de vaca com marca de um pé, de um passo humano. E reconheceu - é da Maria! 

Juntou a peça e levou para o seu quarto no hotel. E por um bom tempo lamentava: só sobrou o rastro da Maria! 

Passaram-se dias, meses empurrando o tempo, quando numa tarde quente de janeiro, Manuel volta do trabalho, chega ao hotel e vê Maria ao lado dum gurizinho de talvez dois anos. Não se conteve. Abraçaram-se, beijaram-se como dantes o faziam.  

Na manhã seguinte a notícia estava em todas as bocas - a Maria voltou para o Manuel. Passado o almoço um curioso de plantão perguntou a ele:

- Então, mano, recolheste de volta a Maria com o gurizinho?

- Por que não?! Quem recolhe a vaca também recolhe o terneiro.  
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

(Texto enviado pelo autor)

Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) O Desafio do Vento Negro


Antes de iniciarmos a nossa jornada, é preciso conhecer o maior herói das lendas romenas: Făt-Frumos (cujo nome significa "Belo Menino" ou "Príncipe Encantado") é o herói arquetípico por excelência do folclore da Romênia. Nascido muitas vezes de forma milagrosa — como de uma lágrima derramada pela Virgem Maria —, ele cresce em poucos dias o que um homem normal levaria anos para crescer. Destemido, puro de coração e dotado de uma força sobre-humana, Făt-Frumos cavalga um cavalo alado mágico (Calul Năzdrăvan) que se alimenta de brasas vivas. Ele é o eterno defensor da justiça, cuja missão é combater os monstros devoradores de homens, como os dragões (Zmei) e as bruxas da floresta.
------------------------------

O sol mal havia nascido quando os cascos de fogo de uma montaria mística tocaram o solo de Valea Verde. Făt-Frumos desembarcou de seu cavalo alado, com sua armadura de prata brilhando sob a luz da manhã e uma espada dourada presa à cintura. O príncipe herói não vinha em busca de glória pessoal, mas sim para atender ao clamor de socorro que ecoava pelas montanhas. O terrível Zmeu (dragão) do Vento Negro havia roubado a colheita sagrada da região, condenando o povo à fome antes do inverno.

No centro da aldeia, Moșneagul já o esperava, apoiado em seu velho cajado. O sábio ancião olhou para o jovem guerreiro e sorriu, reconhecendo a pureza em seu olhar, mas também a impetuosidade típica dos heróis.

— Seja bem-vindo, Făt-Frumos — saudou o Moșneagul. — Sua espada é formidável, mas o Vento Negro não pode ser cortado pelo aço comum. Para derrotá-lo, você precisará de mais do que força; precisará honrar o solo que pisa.

— Sábio Moșneagul, minha força nunca falhou e meu cavalo corre mais rápido que o próprio tempo — respondeu o príncipe com confiança. — Diga-me onde fica o covil da fera e trarei a justiça de volta a este vale.

Moșneagul assentiu lentamente e entregou ao herói três objetos simples: um punhado de terra da colina sagrada amarrado em um lenço, uma garrafa com água pura da fonte dos Cárpatos e um pedaço de pão de trigo amanhecido.

— Quando o monstro parecer invencível, lembre-se: a força de um herói não vem de seus braços, mas da terra que ele defende. Use esses presentes com sabedoria e respeito às nossas origens — aconselhou o velho.

Făt-Frumos guardou os itens, montou em seu cavalo e partiu em direção às Cavernas Sombrias da Montanha Alta. Ao chegar lá, o céu escureceu e um redemoinho de fumaça preta emergiu das profundezas. Era o Zmeu, uma criatura gigantesca com escamas de pedra e hálito de tempestade.

— Quem ousa me desafiar? — urrou o monstro, lançando lufadas de ar cortantes que rachavam as rochas.

— Sou Făt-Frumos, e vim libertar a vida que você roubou deste povo! — gritou o herói, avançando com sua espada.

A batalha foi feroz. Făt-Frumos desferiu golpes precisos, mas cada vez que cortava o vento, a criatura se regenerava, tornando-se ainda mais violenta. O cansaço começou a abater o príncipe, e o Zmeu, rindo com escárnio, lançou uma rajada que derrubou o herói de seu cavalo, prendendo-o contra a parede de pedra. A espada de prata voou longe.

Prestes a ser esmagado, Făt-Frumos lembrou-se das palavras de Moșneagul. Ele enfiou a mão no bolso e retirou o lenço com a terra da aldeia, jogando-a aos pés do monstro. No mesmo instante, o solo sob o Zmeu tremeu, e raízes profundas emergiram da rocha, agarrando as patas da criatura. Em seguida, o herói derramou a água da fonte sobre as raízes, fazendo-as crescer com uma força indestrutível que paralisou o monstro.

Por fim, Făt-Frumos pegou o pedaço de pão amanhecido — o símbolo do trabalho e da partilha do povo — e o colocou sobre o peito de pedra do Zmeu. Uma luz dourada e avassaladora brotou do alimento, representando a energia acumulada de gerações de camponeses honestos. 

A fera vnão aguentou o peso daquela pureza ancestral; ele rugiu uma última vez e desfez-se em uma brisa suave de primavera, libertando os grãos roubados que voltaram voando para os celeiros de Valea Verde.

Făt-Frumos recuperou sua espada e montou seu cavalo, retornando à aldeia sob os aplausos do povo. Ele aproximou-se de Moșneagul e curvou-se diante do velho sábio.

— Você tinha razão, Moșneagul — disse o herói com humildade. — Minha espada apenas iniciou a luta, mas foi a força da terra e o respeito aos que nela trabalham que venceram o mal.

O velho sorriu e colocou a mão no ombro do príncipe.

— Vá em paz, Făt-Frumos. Enquanto houver heróis que escutam a sabedoria da terra, a escuridão nunca vencerá.

Moral:
A verdadeira força e o heroísmo não residem apenas no poder físico ou nas armas que carregamos, mas na profundidade de nossas conexões com nossas origens, nossa comunidade e os valores que defendemos. A arrogância cai diante das tempestades, mas a humildade combinada com o respeito às tradições é capaz de imobilizar até o mais terrível dos inimigos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link

(Texto enviado pelo autor)

Interlúdio * 18 *


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da Seção Bandeirantes de entidade trovadoresca, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a ALCAB e a entidade brasileira de trovas, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Arthur Thomaz (A temperamental fonte dos desejos)


Em uma grande e decadente propriedade em um bairro afastado de um pequeno vilarejo, situado no Sul do país. No jardim havia uma diminuta fonte formada por águas que provinham de uma mina situada no sopé de um morro nas cercanias da área.

Lilian, descendente de uma família outrora muito abastada, mas cujos negócios ruíram com as sucessivas guerras pelas quais o país atravessara, herdou-a, porque todos os outros parentes não a quiseram pelo gasto que teriam em reconstruí-la.

Desde pequenina, cuidava da mina d’água, limpando e cuidando da pequena mata ciliar. Havia saído de casa apenas para concluir os estudos, mas sempre lembrava com carinho daquela pequena fonte de cristalinas águas, nem sempre cuidada com esmero pelos familiares em sua ausência.

Ainda na juventude, em inúmeras noites, sempre acompanhada de seu violão, cantava românticas canções e notava um alvoroço das águas, que pareciam dançar os diferentes ritmos que tocava.

Anos depois, ao retornar dos estudos em outro continente, já com a posse definitiva do local, observou que, ao passar pela fonte, as águas se agitaram, como um convite para que ela se aproximasse.

Assim o fez, desejando em pensamento, que seus pés parassem de doer pela extenuante caminhada que empreendera desde a rodoviária. Ao tocar nas límpidas águas, notou um intenso alívio das dores que sentira. Imputou o fato à uma mera coincidência, talvez pelo frescor da água.

Nesta noite, após jantar e contar aos familiares detalhes de sua temporada de estudos, afinou seu velho violão e foi até o jardim. Cantou com a emoção que a saudade imprimiu em sua alma, acompanhada por um suave rumorejar das águas.

Desejou ter uma linda voz, e sem perceber, passou a cantar maravilhosamente, sendo acompanhada em segunda voz pelo murmúrio emanado da fonte. Cantaram em coro por horas, ainda sem conscientizar-se do que estava ocorrendo.

Acariciando levemente a superfície das águas, despediu- -se, prometendo retornar na noite seguinte. Ouviu um “até breve” vindo das serenas águas.

Na outra noite, enquanto entoava um magnífico dueto, uma soturna tia aproximou-se sorrateiramente e repreendeu a moça por estar falando com a fonte. Frisou que isso era comportamento de gente maluca.

Ato contínuo, as águas agitaram-se e borrifaram muitas gotas no rosto da velha, que, assustada, saio correndo.

Lilian, nesse momento, tomou consciência do que estava acontecendo, mostrando-se ainda temerosa da verdade. Talvez para testar o que julgava estar acontecendo, desejou em seu íntimo, reformar a casa, mesmo sabendo que não possuía economias para tal.

No dia seguinte, foi surpreendida com a visita da secretária de Cultura da prefeitura, que fez uma proposta para tornar a propriedade patrimônio histórico, em troca de uma reforma, transformando-a em biblioteca pública e construindo uma confortável residência ao lado, para moradia da família.

Seu desejo seguinte foi aproveitar as terras para plantações, cujas safras fossem destinadas às famílias carentes da região. Alguns dias depois, o secretário de Agricultura sugeriu a seguinte oferta: explorar meio a meio as terras da propriedade, com o intuito de abastecer o restaurante popular da cidade.

Desejava também que houvesse um local adequado para o desenvolvimento das artes, principalmente da música e do canto.

Com o dinheiro arrecadado, construiu um local apropriado e equipado para tal finalidade. Em pouco tempo, tornou-se um centro de referência, sendo formada uma orquestra filarmônica e um coral que a acompanhava nas apresentações.

Mesmo tendo todos os desejos atendidos, Lilian ia todas as noites até a fonte, onde entoava canções acompanhada pelo murmúrio das águas, local em que se sentia realmente feliz.

Entretida no canto, Lilian não notou o surgimento de um homem que se aproximava com intenções de abordá-la. Rapidamente, as águas encresparam-se e atingiram com violência seu rosto, repelindo a pérfida tentativa.

Seguiram-se anos em que a prosperidade e a serenidade imperaram na propriedade. Conheceu um músico da orquestra, enamorou-se e levou-o para apreciação de sua amiga e confidente fonte. As águas realizaram uma dança alegre de aprovação e todos cantaram juntos até a madrugada.

A criança, fruto desta união, foi batizada na fonte, recebendo o nome de Désirée, em justa homenagem. Nessa hora foram lançadas ao ar miríades de gotas d’água em forma de pequenos e coloridos balões, em uma saudação à pequena menina.

A lua não querendo ficar alijada dessa felicidade, enviou sua branca luz até a superfície da água, que retribuiu, formando com os raios, um largo sorriso, refletindo e iluminando o negror da noite.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

(Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor)

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 6)

curso ministrado por José Feldman
 6.. ESTILO DE ESCRITA

A escolha do estilo de escrita ideal para cada gênero literário é fundamental, pois influencia como a narrativa é recebida pelos leitores. Aqui estão orientações sobre estilos que funcionam bem em contos de suspense, policiais, críticos, filosóficos e românticos, além de estilos a serem evitados.

6.1. CONTOS DE SUSPENSE

6.1.1. Estilos a Usar:

6.1.1.1. Prosa Breve e Direta: 
Frases curtas e impactantes ajudam a criar tensão e ritmo acelerado.

6.1.1.2. Descrições Detalhadas: 
Use descrições que evoquem sentimentos de medo e incerteza. Ambientes e personagens devem ser vívidos e evocativos.

6.1.2. Estilos a Evitar:

6.1.2.1. Prosa Lenta ou Expositiva: 
Um estilo muito detalhado pode diminuir a tensão. Evite divagações que não contribuem para o suspense.

6.1.2.2. Formalidade Excessiva: 
A linguagem deve ser acessível e emocional, não excessivamente técnica ou distante.

6.2. CONTOS POLICIAIS

6.2.1. Estilos a Usar:

6.2.1.1.Narrativa Objetiva: 
Uma abordagem clara e lógica, com foco na razão e na dedução.

6.2.1.2. Diálogos Naturais: 
Diálogos que reproduzem a fala real, facilitando a conexão aos personagens e às investigações.

6.2.2. Estilos a Evitar:

6.2.2.1. Excessiva Emotividade: 
Evite linguagem excessivamente dramática que possa distorcer o foco da investigação.

6.2.2.2. Complexidade Excessiva: 
Não use jargões ou estruturas complicadas que possam confundir o leitor.

6.3. CONTOS CRÍTICOS

6.3.1.Estilos a Usar:

6.3.1.1. Prosa Persuasiva: 
Um estilo que provoque reflexão, utilizando argumentos claros e incisivos.

6.3.1.2. Ironia e Sarcasmo: 
Elementos que ajudam a criticar de forma sutil, tornando a mensagem mais impactante.

6.3.2. Estilos a Evitar:

6.3.2.1. Imparcialidade Excessiva: 
Um tom muito neutro pode falhar em transmitir a urgência da crítica.

6.3.2.2. Linguagem Vaga: 
Evite ser excessivamente abstrato; a clareza é fundamental para efetuar a crítica.

6.4. CONTOS FILOSÓFICOS

6.4.1. Estilos a Usar:

6.4.1.1. Reflexivo e Introspectivo: 
Um estilo que permita longas reflexões e questionamentos profundos.

6.4.1.2. Simbólico: 
Uso de metáforas e simbolismos que enriquecem a narrativa e as questões filosóficas.

6.4.2. Estilos a Evitar:

6.4.2.1. Narrativa Superficial: 
Evitar uma abordagem simplista que não explore as complexidades do tema.

6.4.2.2. Formalidade Excessiva: 
Linguagem densamente acadêmica pode afastar o leitor; busque um equilíbrio.

6.5. CONTOS ROMÂNTICOS

6.5.1. Estilos a Usar:

6.5.1.1. Prosa Sensual: 
Um estilo que evoca emoções e sensações, usando descrições ricas e vívidas.

6.5.1.2. Diálogos Emocionais: 
Conversas que revelem sentimentos profundos e crie conexões autênticas entre os personagens.

6.5.2. Estilos a Evitar:

6.5.2.1. Estilo Frios ou Secos: 
Uma escrita distante pode tornar as emoções dos personagens irreais e difíceis de conectar.

6.5.2.2. Clichês Românticos: 
Evitar frases e situações clichês que possam tornar a narrativa previsível.

6.6. CONSIDERAÇÕES

A escolha do estilo de escrita é crucial para a eficácia de cada gênero literário. Ao adotar estilos que respeitem as particularidades de cada tipo de conto e evitar os que podem prejudicar a narrativa, os escritores podem criar histórias mais poderosas e envolventes. A prática e a leitura crítica são essenciais para aprimorar essas habilidades.
= = = = = = = = = = = = = =  
Continua…
= = = = = = = = = = = = = =

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 212 *

Imagem: IA Microsoft Bing

Trova de 
ADILSON DE PAULA
Joaquim Távora/PR

Saboreando a lembrança
das artes de um meninote,
me sinto outra vez criança
roubando doces de um pote.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
RACHEL DOS SANTOS DIAS
Campinas/SP

As palavras de um poeta

 As palavras de um poema
levam junto os sentires do poeta...
Não importa qual seja o seu tema
É como se fosse uma carta aberta...

Até nas entrelinhas o poeta conta
Suas mágoas, sua vida, seus amores...
Se recebeu sorrisos ou afronta,
Coisas sem valor ou com valores...

O poeta fica desnudo quando escreve
A verdade nua e crua ou só de leve,
Sem medo de se expor à multidão!

O poeta é doce, real e corajoso,
É a um tempo humilde e vaidoso!
Ele é o que é com todo o coração!
= = = = = = = = = = = = = =  

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Caridade

Desfolha-se a rosa
parece até que floresce
o chão cor-de-rosa.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de 
ADRIANO GAMA
Campinas/SP

A rosa que te dei

Tomas esta rosa
singela e perfumada que feriu
com teus espinhos os tatos
de quem a extraiu

Não aceites como ofensa
visto que o sangue na cor
que contemplas evanesce
para te acolher

Viver este Amor eterno
flor da minha intenção
há mero segredo plantado
aos genes semearão

E se perguntas onde guardei
está na rosa em tuas mãos.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de 
OCTÁVIO VENTURELLI
Rio de Janeiro/RJ

Um dia a mão branca e forte
de uma mulher decidida
deu às mãos negras a sorte
de serem livres na vida.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
FRANCISCO UBALDO VIEIRA
Campinas/SP

A garça

Uma ave graciosa pousou em minha cabeça,
Cor rosa, garça rosada, pés delicados.
Queria meu coração fosse um rio,
cheio de peixes coloridos
que a prendesse para sempre.
Entardecia,
Nossa sombra refletia-se no espelho d’água
de um lago no meio de praça.
As garças sempre voam para outros lagos,
Juntam-se a outros bandos
E não voltam aos antigos corações
Outras garças virão?…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
J. CABRAL SOBRINHO
Olinda/PE

Apesar da longa idade,
eu vivo sempre contente,
porque a minha saudade
faz do passado… o presente.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MARINA TSVETAEVA
Moscou/Rússia, 1892 – 1941

Do ciclo , o aluno

Pelos montes - túmidos e úmidos,
Sob o sol - potente e poento,
Com a bota - tímida e humilde -
Atrás do manto - roxo e roto.

Pelas areias - ávidas e ácidas,
Sob o sol - candente e sedento,
Com a bota - tímida e humilde -
Atrás do manto - rasto e rasto.

Pelas ondas - rábidas e rápidas,
Sob o sol - idoso e iroso,
Com a bota - tímida e humilde -
Atrás do manto - que mente e mente…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
HÉRON PATRÍCIO
Ouro Fino/MG, 1931 – 2018, Pouso Alegre/MG

A gente vê, de manada,
estrela...lua...e planeta...
Basta uma boa topada
numa quina de sarjeta!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
DIOGO BERNARDES
Ponte da Barca/Portugal, 1520 – 1605

As plantas rindo estão, estão vestidas
De verde variado de mil cores;
Cantam tarde e manhã os seus amores
As aves, que d'Amor andam vencidas.

As neves, já nos montes derretidas,
Regam nos baixos vales novas flores;
Alegram as cantigas dos pastores
As Ninfas pelos bosques escondidas.

O tempo, que nas cousas pode tanto,
A graça, que por ele a terra perde,
Lhe torna com mais graça e formosura.

Só pera mim nem flor nem erva verde,
Nem água clara tem, nem doce canto,
Que tudo falta a quem falta ventura.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Discussão para ele é pouco,
tem fama de arruaceiro;
muitos dizem que ele é louco,
mas nunca rasgou dinheiro...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Óbito de vida

1
Meu coração
Coitado, veio a óbito
por conta de umas batidas
Mais fortes e eu,
eu não estava preparado...

Assustado, me deparei
com o sorriso da morte.
Contudo, por pura sorte
acordei transformado
foi, de fato, uma grande emoção...

Desse sonho insano
meu morrer,
graças a Deus, foi engano...
no meu lugar levaram o Trajano
e eu voltei pra Terra, ressuscitado

2
Quase ressuscitado
A fumaça do meu
Passado
Ofusca o meu agora
E me faz um ser
atormentado...

Ao meu redor,
Imagens carbonizadas
Destroem  o meu melhor.
Continuo só,
Só e desesperado.

Para meu azar
Minha alma se fez vazia
de lembranças despedaçadas...
Estou preso num  chão de terra fria,
Sem  conseguir  me levantar
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
FRANCISCO NEVES DE MACEDO
Natal/RN, 1948 – 2012

Bateu na porta da frente
e correu para a de trás.
Desta forma inteligente,
pegou dez “sócios” ou mais!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Cinzas

Foi pisando nas cinzas do passado
que entre as cinzas dos sonhos tropecei!
Tantas cinzas de sombras ao meu lado,
que aos encantos das cinzas me abracei!

Sobre as cinzas do chão já castigado,
eu nem sei quantas sombras eu beijei;
mas ao ver, de saudade, o chão bordado,
a tristeza da infância, eu disfarcei!

Ante as cinzas do tempo envelhecendo,
meu passado distante foi morrendo
como quem diz adeus, à primavera...

E eu sozinho, naquela solidão,
vi nas cinzas tristonhas do meu chão,
minha infância, nas cinzas da tapera!
= = = = = = = = = = = = = =  

Quadra Popular de
SERRO/MG

Na verdade nunca sonhei
quem tanto assim me quisesse,
mas também nunca encontrei
quem mais trabalho me desse.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Lágrima de uma mulher 

Por que essa chuva salgada que
Cai do céu dos teus olhos, Mulher?
Não! Assim não pode ser!
Porque, em ti, tudo é ternura sem par,
Símbolo nobre dos sonhos,
Centro cativante do romance real,
Razão maior do caminhar do homem,
Começo, Meio e Fim da vida humana sobre a Terra...
Este cálice transbordante
É motivo de veneração incontida,
Porque , Mulher, és o santuário da criação,
A deusa visível deste contraditório Planeta!
Portanto,
Diante da tua realidade,
Devemos, todos, refletir!…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
NEI GARCEZ
Curitiba/PR

Escrever é um simples conto
que não é grande epopeia:
maiúscula, mais o ponto
e, no meio, só a ideia!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
ZALKIND PIATIGÓRSKY
Rio de Janeiro/RJ, 1935 – 1979

Ciclo do amor (IV)

Vieram, com a primavera, as novas flores
e o bando de amistosos passarinhos.
E houve a festa do sol jogando cores
nas sombras preguiçosas dos caminhos.

E a meiga alacridade e os sons vizinhos
das folhas balouçadas nos verdores...
E o riso tagarela e a voz sem dores
talvez de igarapés e ribeirinhos.

O céu tornou-se azul. E de repente,
com ele a natureza e toda gente
tornou-se mais afável, mais cortês.

Tudo cantava. Terminara o inverno.
Somente o coração, num gelo eterno,
chorava ainda por ti mais uma vez.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Creio na força do amor, 
creio na força do exemplo. 
Um credo com tal teor 
nem necessita de templo. 
= = = = = = = = = = = = = =