sábado, 18 de julho de 2026

Mensagem na Garrafa 197 = O executivo e o pescador


AUTOR ANÔNIMO 

Um executivo de férias na praia observava um pescador sobre uma pedra fisgando alguns peixes com equipamentos bastante rudimentares: linha de mão, anzol simples, chumbo e iscas naturais.

O executivo chega perto e diz:

- Bom dia, meu amigo, posso me sentar e observar?

O pescador:

- Tudo bem, doutor.

O executivo:

- Poderia lhe dar uma sugestão sobre a pesca?

- Como assim? - Respondeu o pescador.

- Se você me permite, eu não sou pescador, mas sou executivo de uma multinacional muito famosa e meu trabalho é melhorar a eficiência da fábrica, otimizando recursos, reduzindo preços, enfim, melhorando a qualidade dos nossos produtos. Sou um expert nessa área e fiz vários cursos no exterior sobre isto - disse o executivo, entusiasmado com sua profissão.

- Pois não, doutor, o que qui o senhor qué sugeri? - Perguntou calmamente o pescador.

- Olha, estive observando o que você faz. Você poderia ganhar dinheiro com isso. Vamos pensar juntos. Se você pudesse comprar uma vara de pescar com molinete, poderia arremessar sua isca para mais longe, assim pescaria peixes maiores, certo? Depois disso, você poderia treinar seu filho para fazer este trabalho para você. Quando ele se sentisse preparado, você poderia comprar um barco motorizado com uma boa rede para pescar uma quantidade maior e ainda vender para as cooperativas existentes nos grandes centros. Depois, você poderia comprar um caminhão para transportar os peixes diretamente, sem os intermediários, reduzindo sensivelmente o preço para o usuário final e aumentando também a sua margem de lucro. Além disso, você poderia ir para um grande centro para distribuir melhor o seu produto para os grandes supermercados e peixarias. Já pensou no dinheiro que poderia ganhar? Aí você poderia vir para cá como eu vim, descansar e curtir essa paz, este silêncio da praia, esta brisa gostosa...

- Mas isso eu já tenho hoje! - respondeu o pescador, olhando fixamente para o mar.
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A ambição cega pode nos fazer criar caminhos complexos e exaustivos para alcançar objetivos que já possuímos. Nem todo processo precisa ser otimizado se o resultado final já traz satisfação e paz de espírito.

José Feldman (Paz e Sossego?)


A alvorada de domingo rompeu com o céu azul e a promessa de um silêncio celestial. Gervásio, setenta e dois anos de pura exaustão após uma semana infernal descarregando caixas no depósito do genro, acordou com um sorriso raro. Ele calçou os chinelos de feltro com a solenidade de um rei vestindo a coroa. Seu plano era milimetricamente sagrado: caminhar até a poltrona reclinável, ligar a televisão e vegetar até a noite. Sem conversas, sem esforço, sem humanidade.

Ele preparou o café, sentou-se na poltrona que já tinha o formato exato de suas nádegas e ligou o aparelho. Um documentário sobre a migração das tartarugas marinhas começava. Perfeito.

Dindom.

Gervásio congelou com a xícara a meio caminho da boca. O relógio marcava sete e quarenta da manhã. Ele respirou fundo, tentando convencer-se de que era o vento.

Dindom. Dindom.

Ele se levantou, arrastando os pés com o peso de uma bigorna. Ao abrir a porta, deu de cara com uma explosão de dentes brancos e energia juvenil. Era Cleiton, seu sobrinho de vinte anos.

— Tio Gervásio! Que bom que o senhor já tá acordado! Vim tomar um café com o senhor e usar o Wi-Fi, porque a internet lá de casa caiu e eu preciso baixar uns vídeos de dancinha. Que que tem de comer?

— Cleiton, meu filho… Eu estava assistindo às tartarugas. Elas andam devagar. Eu queria andar devagar também, hoje.

— Que tartaruga o que, tio! Olha essa batida aqui! — Cleiton entrou invadindo a sala, ligando o celular no volume máximo.

Gervásio fechou a porta, a veia da testa já pulsando de leve. Mal sentou-se novamente na poltrona.

TOC TOC TOC!

Desta vez bateram com força. Gervásio abriu a porta num solavanco. Era o Tio Onofre, um octogenário surdo como uma porta e com hálito de cachaça de alambique.

— Gervásio! — berrou Onofre. — Vim ver o jogo! Minha televisão pifou! Cadê a velha?

— A Odete foi viajar, Onofre! E o jogo é só às quatro da tarde! Agora são oito da manhã!

— Quem tá na cabana? — Onofre entrou, empurrando Gervásio com o ombro. — Ô Cleiton, me arruma um café!

Antes que Gervásio pudesse fechar a porta para conter o hospício, um vulto perfumado a alfazema barata surgiu no corredor do prédio. Era a prima Zulmira, trazendo três potes plásticos vazios de tamanhos variados.

— Gervásio, meu primo querido! Soube que a Odete viajou e vim te fazer companhia para você não morrer de solidão! Trouxe os potes para levar um pouco daquela sua rabada que sobrou de ontem. Nossa, que cheiro de mofo é esse aqui dentro? Abre essas janelas!

— Zulmira, não tem rabada. Eu comi tudo. E eu quero a solidão. Eu imploro pela solidão, pelo amor de Deus!

— Deixa de ser ranzinza! — Zulmira já entrava na cozinha, abrindo a geladeira. — Menino Cleiton, abaixa esse telefone! Onofre, tira o pé do sofá! Gervásio, o filtro de água tá com gosto de barro, tem que trocar o carvão!

Gervásio sentia o estômago queimar. O domingo de paz tinha se transformado em uma central de reclamações e caos doméstico. Ele tentou voltar para as tartarugas marinhas, mas Onofre já tinha pegado o controle remoto e sintonizado num programa de leilão de gado de corte.

— Olha que bezerro gordo, Gervásio! Esse dá uma ponta de peito boa! — gritava o velho.

Dindom. Dindom. Dindom.

A campainha agora parecia um código morse de tortura psicológica. Gervásio abriu a porta com os olhos arregalados, as mãos trêmulas. Era o primo Vanderlei, a esposa dele, as três filhas pequenas e um cachorro pinscher que tremia como se estivesse ligado na tomada de 220 volts.

— Primo! — exclamou Vanderlei, entrando sem pedir licença. — O almoço vai ser aqui hoje? A Zulmira mandou mensagem no grupo da família dizendo que você ia fazer um churrasco de comemoração!

— Comemoração de quê, Vanderlei?! — urrou Gervásio, a voz subindo dois oitavos.

— Sei lá, ela disse que você tava com saudade de ver o povo! Meninas, entrem, brinquem com o cachorro do tio!

— Eu não tenho cachorro! — Gervásio gritou.

— Agora tem, o bicho adora correr! Solta ele, meninas!

O pinscher foi solto e imediatamente começou a morder o calcanhar do Tio Onofre, que não sentia nada por causa da má circulação, mas chutava o ar achando que era uma mosca varejeira. As três meninas começaram a correr ao redor da mesa de centro, gritando e derrubando os porta-copos que Gervásio tinha alinhado simetricamente.

— Cleiton! — berrou Zulmira da cozinha. — Vai lá no mercado comprar duas caixas de cerveja e três quilos de asa de frango! Seu tio Gervásio vai pagar!

— Eu não vou pagar nada! — Gervásio esgoelou-se, subindo num banco de madeira para tentar ser ouvido acima do clamor popular que se instalara em sua sala de estar. — Saiam da minha casa! Todos vocês! Eu trabalhei setenta horas esta semana! Eu só queria ver minha TV em paz!

Ninguém ouviu. Vanderlei já estava na varanda tentando improvisar uma churrasqueira com uma lata de tinta velha que achara na área de serviço. O pinscher agora roía o fio do abajur de Gervásio. Cleiton dançava com Zulmira na cozinha enquanto ela batia panela para acompanhar o ritmo da música do celular.

O estopim da sanidade de Gervásio estourou. Uma calma fria, perigosa e psicótica tomou conta de suas feições. Ele desceu do banco devagar. Caminhou até o corredor. Entrou no quarto de despejo. Voltou segurando uma antiga buzina de ar comprimido, daquelas usadas em estádios de futebol na década de oitenta.

Ele se posicionou no centro da sala, respirou fundo e apertou o gatilho da buzina.

FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

O som ensurdecedor ecoou pelas paredes do apartamento, fazendo os vidros vibrarem. As meninas pararam de correr e começaram a chorar. O pinscher se apavorou. Onofre achou que a guerra civil tinha começado e se jogou atrás do sofá. Cleiton derrubou o telefone. Zulmira quase cortou o dedo com a faca de cortar cebola.

Gervásio soltou o botão. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo zumbido nos ouvidos de doze pessoas.

— Escutem aqui, seus parasitas de folga — disse Gervásio, a voz baixa, mansa e aterrorizante. — Se em trinta segundos eu vir um único rastro de colônia barata, uma única dancinha de internet ou um único par de brincos nesta sala, eu vou trancar a porta e ligar o gás da cozinha com todo mundo dentro.

Vanderlei olhou para a esposa. Zulmira olhou para os potes plásticos vazios. Cleiton guardou o celular no bolso com movimentos lentos, com medo de ativar o idoso.

— O almoço… foi cancelado? — perguntou Vanderlei, a voz trêmula.

Gervásio apenas ergueu a buzina novamente, o dedo indicador posicionado no gatilho.

A debandada foi um espetáculo de agilidade humana. Em menos de quinze segundos, a sala estava vazia. Zulmira esqueceu os potes. Vanderlei esqueceu a lata de tinta. Onofre foi arrastado pelo colarinho por Cleiton, ainda achando que estava sob ataque aéreo. A porta da frente bateu com força.

Gervásio caminhou até a porta. Passou a chave. Deu três voltas. Passou a tranca de segurança. Colocou um cabo de vassoura embaixo da maçaneta. Cortou o fio da campainha.

Voltou para a sala, recolheu o pinscher do chão, que agora acordava e o olhava com profundo respeito e submissão, e sentou-se na poltrona. Colocou o cachorrinho no colo. Ligou a televisão. Para seu desespero, o que estava assistindo já tinha acabado faz tempo. 

O domingo estava quase acabando, o silêncio era absoluto e a paz, finalmente, tinha sido conquistada na base do terror familiar.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra (SP), Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011.
Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito máximo “Euclides da Cunha” na Academia de Letras Brasil-Suíça, em Berna/Suíça; título máximo das Letras na Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Pertence também à Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal, Ordo Equitum Calami et Calicis, Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, União Hispano-Americana de Escritores, Sociedade Poetas Del Mundo. 
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

(José Feldman. Pergola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026)

H. G. Wells (A Maçã)


 Tenho de me livrar disto — disse o homem a um canto do compartimento, quebrando de súbito o silêncio.

O Sr. Hinchcliff ergueu os olhos. Não entendera bem as palavras de seu companheiro de viagem, tão absorvido estava na contemplação extática da borla acadêmica atada por um barbante à alça de sua mala, sinal exterior e manifesto de sua posição pedagógica recentemente alcançada, e entregue às agradáveis ideias que tal vista provocava. Com efeito, o Sr. Hinchcliff acabava de matricular-se na Universidade de Londres e ia, como segundo assistente, para o Colégio de Holmwood, situação bem invejável. Encarou com o olhar distraído o seu companheiro de viagem.

— Por que não dá-lo a alguém? — perguntou este. — É isso mesmo. Por que não dá-lo?

Era um homem alto, moreno, queimado de sol, mas de tez pálida. Mantinha os braços cruzados, apoiados os pés na banqueta à sua frente. Alisando um pequeno bigode preto, examinava atentamente a ponta dos pés.

— Por que não? — indagou mais uma vez.

O Sr. Hinchcliff tossiu.

O desconhecido levantou os olhos — olhos estranhos, cinzento-escuros — e fitou-o durante quase um minuto talvez, com ar inexpressivo, que só aos poucos veio a animar-se.

— Pois é — disse lentamente. — Por que não? Acaba-se de uma vez com isso.

— Perdão — retorquiu o Sr. Hinchcliff, tossindo de novo. — Não o entendo muito bem.

— O senhor não me entende? — perguntou o desconhecido, quase mecanicamente, enquanto seus olhos curiosos iam do Sr. Hinchcliff à mala com a borla ostensivamente exposta e dali voltavam às suas faces penugentas.

— O senhor é algo lacônico — disse o Sr. Hinchcliff, desculpando-se.

— E não o deveria ser? — retrucou o desconhecido, seguindo o curso de seus pensamentos. — O senhor é estudante? — indagou depois, voltando-se para o seu interlocutor.

— Sim, senhor, por correspondência, da Universidade de Londres — respondeu o Sr. Hinchcliff com irreprimível orgulho, ajeitando nervosamente a gravata.

— Anda então à procura da sabedoria — lançou o desconhecido.

E retirou os pés do assento, pôs as mãos sobre os joelhos e voltou a fitar o Sr. Hinchcliff como se nunca tivesse visto um estudante.

— É isso mesmo — acrescentou, erguendo uma das mãos, com um dedo em riste.

Pôs-se de pé, tirou da prateleira a sua maleta e abriu-a. Sem dizer palavra, puxou dali algo redondo, embrulhado numa porção de papéis prateados, e desembrulhou-o cuidadosamente, apresentando-o ao Sr. Hinchcliff. Era uma fruta pequena, de um belo amarelo dourado.

O Sr. Hinchcliff olhava para ele boquiaberto, sem estender a mão para apanhar o objeto que o
outro lhe oferecia — se é que o oferecia.

— Isto aqui — disse o estranho desconhecido, muito vagarosamente — é a Maçã da Árvore da Ciência. Olhe como é linda, brilhante, maravilhosa... É a ciência que lhe estou oferecendo.

O cérebro do Sr. Hinchcliff teve um instante de penoso esforço, mas depois lhe ofereceu explicação satisfatória: o homem era doido. Isto esclarecia toda a situação. Um doido com senso de humor. O Sr. Hinchcliff curvou a cabeça um pouco de lado.

— A Maçã da Árvore da Ciência, hem? — disse examinando-a com ar de interesse, assumido por esperteza, e encarando depois o seu interlocutor. — Mas por que é que o senhor mesmo não quer comê-la? Aliás, como a conseguiu?

— Ela nunca murcha. Faz três meses que a tenho comigo. E continua sempre linda, brilhante, madura e apetitosa, assim como o senhor a vê.

Descansou a mão no joelho e examinou a fruta com expressão cismativa. Depois, como se tivesse renunciado à ideia de dá-la de presente, pôs-se a embrulhá-la de novo.

— Mas como foi que o senhor a obteve? — indagou o Sr. Hinchcliff, que tinha pendor para discussão. — E como soube que era esse o fruto da Árvore?

— Adquiri esta fruta — respondeu o desconhecido há três meses, por um gole de água e uma côdea de pão. O homem que me deu, por eu ter-lhe salvado a vida, era armênio. Armênia, país maravilhoso, o primeiro de todos, onde a Arca de Noé permanece até hoje, presa nas geleiras do Monte Arará! Esse homem, fugindo dos curdos, que o surpreenderam a ele e a seus companheiros, chegara a uma região deserta no meio das montanhas, uma região desconhecida dos homens, fugindo sempre dos inimigos, alcançaram entre altos picos um declive, coberto de gramíneas verdes e cortantes como lâminas de faca, que estraçalhavam impiedosamente quem ali penetrasse. Os curdos estavam bem perto: os fugitivos tinham de mergulhar entre elas. E o pior é que os caminhos abertos por eles à custa do próprio sangue serviram de passagem aos seus perseguidores. Todos os armênios foram mortos, salvo esse de quem falo e mais um. Ele ouvia os gritos de dor e os gemidos dos amigos, e o silvar da grama em volta dos inimigos. Uma grama alta, que chegava acima da cabeça. Depois, berros, outros berros em resposta... e quando, afinal, parou, tudo era silêncio. Voltou a avançar, sem compreender, deitando sangue por muitas feridas, até que desembocou numa rampa íngreme, sob um despenhadeiro. Então viu que a grama toda estava em chamas e a fumaça se erguia como um véu entre ele e os inimigos. 

O desconhecido parou.

— Sim? — perguntou o Sr. Hinchcliff. — E depois?

— Ei-lo, estraçalhado pelas lâminas das gramíneas, entre os rochedos a arder ao sol da tarde e um céu de latão fundido, e a fumaça do incêndio a aproximar-se. Não se atrevia a ficar ali. Não temia a morte, mas as torturas. Atrás do fogo, bem longe, ouvia choro e gritos, gritos de mulher. Então foi subindo e galgou um desfiladeiro, entre moitas com galhos secos que feriam como espinhos, e por fim alcançou um cume cuja crista o escondeu. Lá encontrou o companheiro, um pastor que também escapara. Como o frio, a fome e a sede, comparados aos curdos, não lhes causassem o mínimo temor, foram subindo por entre a neve e o gelo. Marcharam assim três dias.

“No terceiro dia veio a visão. Sem dúvida, homens famintos frequentemente têm visões; mas, no caso em apreço, há esta fruta — e levantou o globo embrulhado. — Aliás, ouvi falar nisso a outros montanheses, igualmente conhecedores da lenda.

“Foi à noite, quando as estrelas crescem, que os dois companheiros desceram por um rochedo polido e em declive, num enorme vale escuro, todo plantado de estranhas árvores retorcidas, das quais pendiam glóbulos amarelos, brilhantes como vaga-lumes.

“De repente o vale se iluminou ao longe, a uma distância de várias milhas, e uma chama dourada veio avançando. Enegrecida as retorcidas árvores de envolta, e envolvia os contornos do vale num ouro ardente. Conhecedores das lendas das montanhas, logo os dois chegaram à evidência de que tinham diante dos olhos o Éden ou o vestíbulo do Éden; e caíram de bruços, como fulminados. Quando se atreveram a levantar o nisto, o vale fez-se escuro por algum tempo; depois a luz voltou, e vinha como âmbar quente.

“O pastor ergueu-se e, com um grito, entrou a correr em direção à luz; mas o outro, de medroso, não o seguiu. Lá estava ele, paralisado, atônito, a olhar o companheiro que avançava no rumo da luz. Mal, porém, este deu alguns passos, ouviu-se um ruído como de trovão, um bater de asas invisíveis percorreu o vale, e um medo terrível apoderou-se do homem que me deu esta fruta, e ele virou-se para ver se escapava. E, enquanto corria precipitadamente para o declive com todo aquele tumulto atrás de si, tropeçou em uma das árvores retorcidas e uma fruta madura veio ter-lhe à mão. Esta fruta. Imediatamente, o trovão e as asas rolaram sobre ele. Caiu e desmaiou. Ao recobrar os sentidos, estava entre as ruínas enegrecidas de sua própria aldeia, onde eu e outros cuidávamos dos feridos. Era uma visão? Mas a sua mão continuava a apertar a fruta de ouro. Outros havia, ali, que conheciam a lenda e sabiam que fruta podia ser aquela.”

Parou um instante e concluiu; — É esta.

Era uma história deveras extraordinária para um carro de terceira classe da linha de Sussex. Ali o real servia apenas de véu para o fantástico, que aparecia a cada passo.

— É mesmo? — foi tudo quanto o Sr. Hinchcliff conseguiu articular.

— Segundo a lenda — continuou o desconhecido — aquelas moitas de árvores retorcidas provêm da maçã que Adão trazia no momento em que ele e Eva foram expulsos. Sentiu algo na mão, viu a maçã meio comida, e jogou-a fora com petulância. E as árvores vingaram e cresceram no vale desolado, rodeadas de neve eterna e das espadas de fogo que montam guarda até o Juízo Final.

— Pois eu pensei que tudo isso — declarou o Sr. Hinchcliff com hesitação — eram simples fábulas... digamos parábolas. O senhor quer dizer então que na Armênia... O desconhecido respondeu à pergunta inacabada exibindo a fruta na palma da mão.

— Mas o senhor não pode saber — disse o Sr. Hinchcliff que é esse o fruto da Arvore da Ciência. O homem pode ler tido, digamos, uma espécie de miragem. Façamos de conta...

— Veja-a — disse o desconhecido.

Era, de fato, um globo esquisito, bem diverso de uma maçã, e brilhava de uma curiosa luz incandescente, a qual parecia vir da própria substância. Ao examiná-la, o Sr. Hinchcliff tinha a impressão de ver o vale desolado entre as montanhas, as espadas de fogo que lhe vedavam o acesso, as estranhas reminiscências da história antiga que acabava de ouvir. Esfregou os olhos com o nó dos dedos e disse:

— Entretanto...

— Está assim, bonita e fresca, há três meses. Aliás, três meses e tanto. Não seca, não murcha, não apodrece.

— E o senhor mesmo acredita realmente que...

— É o Fruto Proibido.

Não podia haver dúvida quanto à seriedade do homem, nem quanto à sua perfeita saúde mental.

— É o Fruto da Ciência — insistiu.

— Façamos de conta que o seja — ponderou o Sr. Hinchcliff, após uma pausa, sem despregar os olhos da fruta. — Mesmo assim, não é a espécie de ciência que me falta. Quero dizer que Adão e Eva já a comeram.

— Herdamos-lhes os crimes, não a ciência — disse o desconhecido. — Comendo-a, tudo voltaria a tornar-se claro. Veríamos o fundo de tudo, o âmago de todas as coisas.

— Por que então o senhor não a come? — perguntou o Sr. Hinchcliff, numa inspiração súbita.

— Adquiri-a com essa intenção. O homem já caiu em tentação uma vez. Comê-la uma segunda vez não poderia...

— A ciência é o poder — disse o Sr. Hinchcliff.

— Mas será também a felicidade? Eu sou mais velho que o senhor, tenho mais que o duplo da sua idade. Muitas vezes tive isto nas mãos, mas faltou-me coragem, à ideia de tudo o que a gente acabaria sabendo, daquela terrível lucidez... Imagine o senhor que de repente o mundo inteiro se torna impiedosamente claro.

— Parece-me que seria ótimo — declarou o Sr. Hinchcliff — em princípio, pelo menos.

— O senhor enxergar o coração e a alma de todas as pessoas em seu redor, até aos recantos mais escondidos; das pessoas de quem gosta, a quem tem afeição...

— Veria, então, mentiras — disse o Sr. Hinchcliff, surpreso com a perspectiva.

— Pior ainda, conhecer-se a si mesmo, despojado de suas ilusões mais caras. Ver-se a si mesmo com os olhos de outro. Tudo o que deixou de lazer por vício ou fraqueza. Nenhuma probabilidade de melhorar.

— Nem assim deixaria de ser bom. “Conhece-te a ti mesmo” — não é o que dizem? — O senhor é moço — disse o desconhecido.

— Pois bem, se o senhor não quer mesmo comê-la e se ela o incomoda, por que não a joga fora?

— Talvez o senhor não me compreenda, mais uma vez. Como é que a gente pode jogar fora uma coisa destas, tão esplêndida, tão admirável? Quem a possui tem obrigações. Dá-la a alguém, isto seria outra coisa. A alguém sedento de ciência, que não se aterrasse à ideia de uma percepção clara...

— Afinal de contas — observou o Sr. Hinchcliff — poderia muito bem ser alguma fruta venenosa.

A essa altura o seu olhar foi atraído por algo imóvel — uma tabuleta branca com letras negras, fora da janela do carro. ...MWOOD — eis o que via. Pulou convulsivamente.

— Santo Deus! — exclamou. — Holmwood!

E o presente tangível apagou de golpe as imaginações fantástica que entravam a envolvê-lo. Mais um momento — e abria a porta do carro, de maleta na mão. Já o guarda agitava a bandeirinha verde. O Sr. Hinchcliff saltou.

— Olá! — gritou uma voz atrás dele.

E viu os olhos escuros do desconhecido fuzilando, e a fruta de ouro, brilhante no ar, estendida pela porta. Tomou-a instintivamente, enquanto o trem abalava.

— Não! — bradou o desconhecido com um gesto para retomá-la.

— Cuidado! — gritou um carregador, fechando a poria com um empurrão.

O desconhecido soltou outro grito, com a cabeça e os braços fora da janela, numa grande agitação; mas o Sr. Hinchcliff não o entendeu, e a sombra da ponte o cobriu. Num abrir e fechar de olhos desapareceu. O Sr. Hinchcliff deixou se ficar, espantado, a olhar atrás do último carro, que se sumia na curva. Continuou segurando na mão a fruta maravilhosa, com o espírito perturbado por mais alguns segundos. Depois, notou que na plataforma duas ou três pessoas o fitavam com inicies se. Não era ele o novo professor do Colégio? Ocorreu-lhe que a fruta podia dar-lhes a ideia de que ele ia ingenuamente refrigerar-se com uma laranja. Corou e escondeu-a no bolso lateral do paletó, onde fazia um bojo inconveniente. Mas não havia remédio: tinha de aproximar-se dos desconhecidos e, escondendo desajeitadamente o seu embaraço, perguntar-lhes o caminho do Colégio e o meio de levar até lá a mala e as duas latas que tinha na plataforma. Ao diabo todas aquelas lorotas fantásticas!

Informaram-no de que a bagagem podia ser levada num caminhão por seis pence, e que ele podia precedê-los, a pé. Parecia-lhe notar um matiz de ironia nas vozes. Sentia-se pouco à vontade, incomodado pela impressão que devia dar.

A curiosa seriedade do homem do trem e o encanto da narrativa distraíram por algum tempo o curso das ideias do Sr. Hinchcliff, erguendo como que uma névoa ante os seus interesses imediatos. Ora, tolices! Mas as preocupações de sua nova situação, a impressão que causaria a Holmwood em geral e à gente do Colégio em particular, apoderaram-se dele outra vez, antes que saísse da estação, e esclareceram-lhe a mente.

É, porém, uma coisa extraordinária o mau efeito que o acréscimo de uma fruta mesmo linda e dourada, de menos de três polegadas de diâmetro, pode provocar na aparência de um rapaz sensível. O bolso do paletó preto bojava, estragando-lhe inteiramente a linha. Passou por uma velha senhora de preto e sentiu-lhe o olhar cair, de pronto, sobre aquela excrescência.

Como tivesse uma das luvas calçadas e segurasse a outra juntamente com a bengala, era-lhe impossível levar a fruta na mão. Em determinado trecho do caminho, suficientemente deserto, tirou do bolso aquele estorvo e procurou colocá-lo no chapéu. Mas era grande demais, e o chapéu pôs-se a dançar de maneira cômica; justamente quando ele ia retirar a fruta, o empregado de um açougue apareceu na esquina.

— Peste! — exclamou o Sr. Hinchcliff.

Teria comido aquilo, e conseguido imediatamente a onisciência; mas daria uma impressão engraçada entrar na cidade comendo uma fruta sumarenta — pois não podia deixar de ser sumarenta. Se um dos alunos passasse por ali, isso podia prejudicar seriamente a disciplina que lhe caberia manter. Além do mais, o sumo podia tomar-lhe o rosto pegajoso e cair-lhe sobre os punhos — ou talvez fosse ácido, como o limão, e neste caso lhe desbotaria completamente a roupa.

Passando por uma volta do caminho, viu diante de si duas lindas figuras de moças iluminadas pelo sol. Iam à cidade devagar, tagarelando. A qualquer momento podiam voltar-se e veriam atrás de si um rapaz de rosto aceso a carregar uma espécie de tomate amarelo e fosforescente. Isso daria numa gargalhada.

— “Vai para o inferno” — pensou o Sr. Hinchcliff, e com um gesto rápido atirou aquele empecilho por cima da cerca de pedra de um pomar. Quando a viu desaparecer, sentiu um leve remorso, mas que não durou mais de um segundo, e depois, espigado, teso, seguro de si, ajustando a luva e a bengala, foi passar pelas moças.

Porém nas trevas da noite o Sr. Hinchcliff teve um sonho, e viu o vale e as espadas de fogo e as árvores retorcidas, e soube que era, na realidade, a Maçã da Árvore da Ciência que ele tinha jogado fora tão levianamente. Acordou muito infeliz.

Durante a manhã, o arrependimento passou; mas em seguida voltou a perturbá-lo. De qualquer maneira, não vinha enquanto ele estava feliz ou ocupado. Por fim, numa noite de luar, por volta das onze horas, quando toda Holmwood se achava imersa no sono, os remorsos retomaram com redobrada força, e empurraram-no para a aventura. Saiu do Colégio às escondidas, por cima da parede do campo de jogo, atravessou a cidade silenciosa e, na estrada da estação, pulou para dentro do pomar onde jogara a fruta. Dela não encontrou, porém, o mínimo vestígio na grama molhada de orvalho, entre os glóbulos tímidos e intangíveis dos dentes-de-leão.
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HERBERT GEORGE WELLS, conhecido universalmente como H. G. Wells, foi um escritor, historiador e biólogo britânico, amplamente consagrado como o "pai da ficção científica" ao lado de Júlio Verne. Nasceu em 1866, em Bromley/Kent/Inglaterra e faleceu em 1946 (aos 79 anos), em Londres/Inglaterra. Passou a infância em Kent, viveu e estudou em Chichester e Londres, residiu por períodos em Folkestone (na famosa casa Spade House que ele construiu) e passou temporadas no sul da França (Grasse) antes de retornar definitivamente a Londres, onde faleceu em sua casa em Regent's Park. Filho de lojistas e jogadores profissionais de críquete, trabalhou na juventude como aprendiz de tecelão e balconista. Ganhou uma bolsa para a Normal School of Science (atual Imperial College London), onde se formou em Zoologia e Biologia. Foi aluno de Thomas Henry Huxley, famoso defensor da teoria da evolução de Darwin, o que moldou profundamente sua visão de mundo. Antes de viver exclusivamente da escrita, atuou como professor de ciências, tutor acadêmico e jornalista de artigos populares.
Wells foi um autor extremamente prolífico, escrevendo mais de 100 livros de diversos gêneros. Em 1895, publicou seu primeiro grande sucesso, estabelecendo os pilares da ficção científica moderna. Suas obras iniciais previram avanços tecnológicos e dilemas éticos que se tornariam realidade décadas depois. Além da ficção científica, escreveu sátiras sociais, romances realistas sobre a classe média britânica e defendeu ativamente o socialismo utópico.
Dedicou grande parte de sua vida madura a tratados políticos, livros de divulgação científica e à análise da história da humanidade. Nunca foi um acadêmico tradicional de Letras, mas era membro ativo da Fabian Society (organização política socialista voltada a reformas graduais). Foi um dos fundadores e o segundo presidente internacional do PEN Club International (associação mundial de escritores), lutando pela liberdade de expressão e direitos autorais. Não recebeu prêmios literários formais de grande porte em vida (como o Nobel), mas foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em quatro anos diferentes (1921, 1932, 1935 e 1946).
Principais livros publicados: A Máquina do Tempo (1895) – Introduziu o conceito de viagem no tempo por vias mecânicas; A Ilha do Dr. Moreau (1896) – Debate sobre vivissecção, bioética e a linha entre humanos e animais ; O Homem Invisível (1897) – Exploração psicológica sobre o poder absoluto e a falta de moralidade; A Guerra dos Mundos (1898) – A obra-prima pioneira sobre invasão alienígena e colonialismo; Os Primeiros Homens na Lua (1901) – Viagem espacial utilizando substâncias antigravitacionais; A Forma das Coisas que Virão (1933) – Ficção especulativa em formato de crônica histórica futura; Breve História do Mundo (1920) – Um monumental best-seller que narra a história do mundo desde a pré-história.
A relevância de H. G. Wells ultrapassa o entretenimento. Ele transformou a ficção científica em uma ferramenta de crítica social, filosófica e política. Antecipou com precisão a criação da bomba atômica, tanques de guerra, aviões de combate, lasers e a própria internet (que ele chamava de "Cérebro Mundial"). Suas histórias de ficção serviam como espelhos para a sociedade de sua época; por exemplo, A Guerra dos Mundos era uma crítica direta ao imperialismo britânico na África e na Tasmânia. Sua obra política ajudou a moldar debates globais importantes, influenciando diretamente a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU de 1948.

Fontes:
Publicado originalmente em 1896 na revista The Idler. Em 1897 no livro do autor: A História de Plattner e Outras.
Biografia =sites consultados: Wikipedia, Operamundi, O Estadão, Editora Landmark, Compasso dos Ventos, Darkside, Amazon, Antígona.pt, etc.

Irmãos Grimm (O mestre ladrão)


Certo dia, estavam sentados, em frente de pobre casinha, um homem e sua esposa, descansando do trabalho. Nisto chegou uma bela carruagem, atrelada com quatro cavalos pretos, e dela apeou um senhor luxuosamente vestido. O campônio levantou-se e foi ao encontro do senhor, perguntando o que desejava e em que podia servi-lo. O desconhecido apertou-lhe a mão e disse: - Desejo, apenas, saborear um prato dessa boa comida do campo. Preparai algumas batatas à vossa maneira, sentar-me-ei à mesa convosco e as comerei com imenso prazer.

O campônio sorriu e disse:

- Vós sois, sem dúvida, conde ou príncipe, talvez mesmo duque; os grandes fidalgos costumam ter desses desejos! E o vosso será satisfeito.

A mulher foi para a cozinha e começou a lavar e descascar as batatas, querendo fazer um bom prato de "nhoques," desses que os camponeses tanto apreciam. Enquanto ela cuidava dessa tarefa, o campônio disse ao desconhecido:

- Enquanto esperamos, vinde comigo até à horta; ainda tenho de terminar um pequeno serviço lá.

Na horta, ele havia aberto algumas covas onde pretendia plantar mudas de árvores.

- Não tendes nenhum filho que vos possa ajudar? - perguntou o desconhecido.

- Não! - respondeu o campônio, e acrescentou: - Na verdade tive um mas, há muito tempo ele nos deixou para correr mundo. Era um rapaz viciado, inteligente e malicioso, mas não tinha vontade de aprender coisa alguma; só sabia pregar-me as piores peças. Um dia, fugiu de casa e nunca mais tive notícias dele.

Assim dizendo, o campônio colocou uma muda dentro da cova o enfiou uma estaca ao lado; depois de socar bem a terra em volta, amarrou a haste ao pau, embaixo, no meio e no alto, com um cipózinho.

- Dizei-me uma coisa, - disse o desconhecido, - por que não amarrastes uma estaca também àquela árvore torta ali do canto, àquela contorcida e nodosa que está vergada quase até ao chão?

O velho sorriu e disse:

- Senhor, falais como todos os que não entendem do assunto; bem se vê que nunca lidastes com uma horta. Aquela árvore contorcida já está velha e ninguém poderá mais endireitá-la. As árvores devem ser endireitadas quando são novinhas.

- Tal como o vosso filho! - disse o desconhecido; - se o tivésseis educado quando era pequenino, não teria fugido de casa. Agora ele, também, se terá endurecido e contorcido.

- Naturalmente! - respondeu o campônio. - Já faz tanto tempo que se foi, deve estar bem mudado!

- Se ele se apresentasse agora, ainda o reconheceríeis? - perguntou o desconhecido.

- Pela cara, dificilmente! - respondeu o campônio, - mas o reconheceria por um sinal em forma de feijão que tem no ombro.

Quando ele disse isto, o desconhecido despiu o paletó, descobriu o ombro e mostrou o sinal em forma de feijão.

- Senhor Deus meu! - exclamou o velho: - então és o meu filho!

E o amor paterno agitou-lhe o coração; mas acrescentou:

- Como é possível que sejas meu filho, se és fidalgo e vives na opulência e na fartura? Por quê caminho chegaste a tal altura?

- Ah, meu, pai! - respondeu o filho – a arvorezinha tenra não foi amarrada à estaca, no tempo devido, e cresceu torta! Agora está velha e não endireita mais. Como ganhei tudo isto? Tornei-me ladrão. Oh não te assustes, eu sou um mestre ladrão! Para mim, não existem fechaduras ou ferrolhos que resistam; quando quero alguma coisa, tomo-a. Não creias, porém, que me reduzi a roubar como gatuno vulgar; eu apodero-me, somente, do supérfluo dos ricos; os pobres podem ficar descansados, a eles prefiro dar do que tomar. Assim como não me interessa o que me possa vir ás mãos sem trabalho, astúcia ou habilidade.

- Ah, meu filho, - disse tristemente o pai, - de qualquer maneira teu ofício não me agrada; ladrão é e será sempre ladrão, e nunca acaba bem, digo-te eu!

Conduziu-o à presença de sua mãe e, quando esta soube que ele era seu filho, chorou de alegria; e quando ficou sabendo que ele era ladrão mestre, as lágrimas corriam-lhe das faces como caudais. Entretanto, assim que conseguiu falar, disse:

- Mesmo que se tenha tornado ladrão, é sempre meu filho, e meu olhos tiveram a graça de vê-lo ainda uma vez!

Depois, foram para a mesa e ele comeu em companhia dos pais a modesta comida caseira, que há tanto tempo não comia. O pai lembrou:

- Se nosso amo, o conde lá do castelo, souber quem és e o que fazes, creio que não te pegará no colo e não te ninará como quando te levou à pia batismal; acho que te mandará balançar na ponta da corda de uma forca.

- Não te preocupes, meu pai; ele não me fará nada; pois sei bem como são as coisas. Hoje mesmo irei visitá-lo.

Ao cair da tarde, o ladrão subiu na carruagem e foi ao castelo. O conde recebeu-o amavelmente, julgando que fosse um grande fidalgo. Mas, assim que ele se deu a conhecer, o conde empalideceu e, durante alguns minutos, perdeu a fala. Depois disse:

- Tu és meu afilhado, por isso serei clemente e te tratarei com toda a indulgência. Como, porém, te gabas de ser ladrão mestre, quero pôr à prova tua habilidade. Mas, se fizeres fiasco, eu te mandarei dançar na ponta da corda pelo espaço e, como música de acompanhamento, terás o doce crocitar dos corvos.

- Senhor conde, - respondeu o ladrão, - inventai três empreendimentos difíceis quanto quiserdes, se eu não os levar a cabo, fazei de mim o que vos aprouver.

O conde pensou durante alguns minutos e depois disse:

- Está bem! Em primeiro lugar, deves roubar da cavalariça meu cavalo predileto; em segundo lugar, quando minha mulher e eu estivermos dormindo, tens de tirar o lençol que temos debaixo do corpo sem que possamos perceber; também tens de tirar a aliança que minha mulher traz no dedo; por fim, tens que raptar da igreja o padre e o sacristão. Toma nota de tudo direito, porque é a tua vida que está em jogo.

O mestre ladrão despediu-se e foi à cidade vizinha. Lá adquiriu a roupa de uma velha camponesa e vestiu-se. Pintou o rosto de cor bronzeada, desenhando algumas rugas. de maneira a ficar irreconhecível; em seguida, comprou um barrilete de velho vinho da Hungria, misturando-lhe forte narcótico. Meteu o barrilete num cesto. que pôs às costas e, com passos trôpegos e arrastados, voltou ao castelo do conde.

Quando chegou lá, já era escuro. Sentou-se numa pedra que havia no terreiro, pôs-se a tossir como uma velha asmática e a esfregar as mãos como se estivesse morrendo de frio.

Em frente à cavalariça, havia um grupo de soldados, deitados ao pé de uma fogueira; um deles, vendo aquela velha a tossir, gritou-lhe:

- Ei, avozinha, chega aqui perto, vem aquecer-te conosco. Cama para dormir não tens mesmo e deves aceitar o que te oferecem, vem pois aquecer-te aqui!

A velha aproximou-se com passinhos miúdos e pediu que lhe tirassem o cesto das costas; depois sentou-se junto deles ao pé do fogo.

- Que tens aí nesse barrilzinho, velha bruxa? - perguntou um dos soldados.

- Tenho um dedo de excelente vinho, - respondeu ela; - preciso vender alguma coisa, se quero viver! Dinheiro e boas palavras, com isso poderás ter um copo.

- Vamos lá, dá-me um copo, então! - exclamou o soldado e, depois de provar o vinho, disse: - Quando o vinho é bom, gosto de beber mais de um copo! - e pediu mais. Os outros seguiram-lhe o exemplo.

- Olá, camaradas! - gritou um deles aos que estavam dentro da cocheira. - Está aqui a vovozinha oferecendo um vinho tão velho quanto ela mesma; tomai um copo que isso vos aquecerá o estômago melhor que o fogo.

A velha levou o barrilete dentro da cachoeira. Um dos soldados estava montado no cavalo predileto do conde; outro o estava segurando pelo freio, e o terceiro pelo rabo. A velha pôs-se a distribuir o excelente vinho tanto quanto lhe pediam e, assim, foi até esvaziar o barrilete.

Não demorou muito, o soldado que segurava o freio largou-o e rolou pelo chão, onde se pôs a roncar deliciosamente; o outro largou o rabo, caiu deitado e roncou mais alto ainda; o que estava montado, permaneceu na sela, mas pendeu o corpo para a frente até tocar com a cabeça no pescoço do cavalo; ferrou no sono e assoprava como um velho fole.

Lá fora, os demais dormiam há muito, deitados no chão e imóveis como se fossem de pedra.

O ladrão, ao ver que tudo lhe saíra às mil maravilhas, colocou uma corda na mão daquele que segurava o freio; ao que segurava o rabo, pos-lhe na mão um punhado de palha; mas que devia fazer com o que estava montado no cavalo? Não queria botá-lo para baixo com receio que despertasse e fizesse um escarcéu. Finalmente, descobriu um expediente: desafivelou a correia que prendia a sela, passou umas cordas nas argolas que havia nas traves, prendeu a sela com o cavaleiro montado e suspendeu-a, depois amarrou firmemente as cordas num pau. Feito isto, foi facílimo subtrair o cavalo; mas para sair montado, o barulho das ferraduras poderia chamar a atenção, então enrolou alguns trapos nos cascos do cavalo, levou-o para fora da cocheira e, montando nele, disparou a todo galope.

Na manhã do dia seguinte, o ladrão dirigiu-se a rédeas soltas para o castelo, todo pimpão no cavalo roubado. O conde acabava de levantar-se e estava à janela.

- Muito bom dia! - gritou de baixo o ladrão. - Eis aqui o cavalo, que tirei com a maior facilidade da cavalariça. Ide ver como dormem os vossos soldadas, como bem-aventurados estão lá deitados no chão, e podeis ver, também, na cavalariça como se acomodaram os vossos guardas!

O conde não pôde conter-se e, dando uma risada, disse:

- Da primeira vez te saíste bem, mas na segunda não te será tão fácil. A divirto-te, entretanto, que, se te apanho como um ladrão qualquer, trato-te como tal.

A noite, quando marido e mulher foram deitar-se, a condessa fechou a mão bem apertada, segurando firmemente a aliança, e o conde disse-lhe:

- As portas estão todas trancadas; eu ficarei acordado e, se o ladrão tentar entrar pela janela, dou-lhe um tiro.

Entretanto, em meio às trevas da noite, o ladrão foi ao local das forcas, cortou a corda de um pobre enforcado e carregou-o às costas até ao castelo. Em seguida, colocou uma escada sob a janela do quarto e, com o morto sentado sobre os ombros, foi subindo. Ao chegar à altura em que a cabeça do morto aparecia na janela, parou. O conde, que da cama estava espreitando, apertou o gatilho e deu-lhe um tiro; o ladrão soltou, imediatamente, o defunto, pulou da escada e correu a esconder-se num canto. A noite estava tão claramente iluminada pelo luar que o mestre pôde ver, perfeitamente, o conde saindo pela janela; depois desceu pela escada e levou o morto até ao jardim. Uma vez lá, deu-se ao trabalho de abrir uma cova para o enterrar.

- Agora é o momento azado! - disse de si para si o ladrão.

Deslizou, mais que depressa, do esconderijo, trepou pela escada e foi direitinho ao quarto da condessa.

- Minha cara mulher, - disse ele imitando a voz do conde: - O ladrão está morto, mas de qualquer maneira era meu afilhado, mais velhaco do que malvado. Portanto, não quero expô-lo à vergonha pública, mesmo porque tenho pena daqueles pobres pais; vou enterrá-lo, eu mesmo, no jardim, antes que amanheça, para que ninguém venha a saber de coisa alguma. Dá-me o lençol para amortalhá-lo, assim não será enterrado como um cão.

A condessa entregou-lhe o lençol.

- E, sabes? - prosseguiu o ladrão - terei para com ele um rasgo de generosidade; dá-me, também, tua aliança, afinal de contas esse infeliz arriscou a vida por causa dela; que a leve consigo para a sepultura.

A condessa, embora a contragosto, não quis opor-se à vontade do conde e, tirando o anel do dedo, entregou-lhe. O ladrão, tendo em poder as duas coisas, tornou a sair pela janela e chegou na casa sem inconvenientes, antes que o conde tivesse terminado o trabalho de coveiro no jardim.

Imagine-se, agora, que cara fez o conde na manhã seguinte, quando o mestre ladrão apareceu levando-lhe o lençol e a aliança!

- Possuis acaso uma varinha mágica? - perguntou-lhe - quem te desenterrou da cova onde com minhas próprias mãos te coloquei? Quem foi que te ressuscitou?

Rindo-se, o ladrão respondeu:

- Não foi a mim que enterraste! Foi àquele infeliz que estava na forca. E narrou, detalhadamente, como se passaram as coisas. O conde teve que admitir que era um ladrão hábil e inteligente.

- Mas não terminaste ainda, - disse-lhe; - falta levares a cabo o terceiro empreendimento; se nesse não tiveres êxito, tudo o mais não te valerá de nada.

O ladrão sorriu e não respondeu nada.

Quando caiu a noite, dirigiu-se à igreja da aldeia, levando um comprido saco nas costas, um embrulho debaixo do braço e uma lanterna na mão. Dentro do saco havia uma porção de caranguejos e, no embrulho, outras tantas velinhas de cera. Penetrou no cemitério junto à igreja, sentou-se no chão, pegou um caranguejo e grudou-lhe uma velinha nas costas; acendeu-a e soltou o bichinho. Fez o mesmo com outros e continuou assim até acabar com todos os que estavam no saco. Em seguida, vestiu uma túnica preta, parecida com burel de frade, grudou longa barba branca no queixo e ficou completamente irreconhecível. Depois, pegou o saco no qual trouxera os caranguejos, encaminhou-se para a igreja e subiu no púlpito. O relógio da torre acabava justamente de bater o último toque das doze horas; então ele gritou com voz tronitroante:

- Ouvi-me, pecadores! Chegou o fim de todas as coisas; o dia do Juízo está próximo! Ouvi! Ouvi! Quem quiser subir comigo para o céu, entre neste saco! Eu sou São Pedro, o que abre e fecha as portas do céu; olhai lá fora, no cemitério, os mortos já estão recolhendo seus ossos. Vinde! Vinde depressa! Entrai neste saco! Chegou o fim do mundo!

Aqueles brados repercutiram por toda a aldeia. O padre e o sacristão, que moravam mais perto da igreja, foram os primeiros a ouvir o estranho apelo; e, quando viram todas aquelas luzinhas caminhando pelo cemitério, convenceram-se de que algo de extraordinário estava sucedendo e foram correndo para a igreja. Durante alguns momentos, ficaram escutando o sermão, depois o sacristão deu uma cotovelada no padre o disse:

- Não seria nada mau se aproveitássemos a oportunidade e juntos fôssemos, confortavelmente, para o céu, antes que chegue o dia do Juízo!

- Naturalmente, - respondeu o padre, - também penso assim; se estás disposto, ponhamo-nos a caminho.

- Sim, - disse o sacristão, - mas vós, reverendo, tendes direito de precedência; eu vos seguirei.

Assim o padre foi o primeiro a subir até ao púlpito, onde o ladrão o acondicionou dentro do saco; em seguida foi a vez do sacristão. O mestre, mais que depressa, amarrou fortemente a boca do saco e arrastou-o pela escada do púlpito abaixo; cada vez que as cabeças dos dois malucos batiam nos degraus, ele gritava:

- Agora estamos atravessando as montanhas.

Dessa maneira levou-os através da aldeia e, quando passavam dentro de alguma poça d'água, ele gritava:

- Agora atravessamos as nuvens molhadas.

Finalmente, quando iam subindo a escadaria do castelo, dizia:

- Agora estamos subindo as escadas do Céu, em breve chegaremos ao vestíbulo.

Chegando lá em cima, ele empurrou o saco para dentro do pombal e, quando as pombas assustadas começaram a bater as asas, disse:

- Estais ouvindo como os anjos se alegram e batem as asas de contentamento?

Então, puxou o trinco da porta e foi-se embora.

Na manhã seguinte, apresentou-se ao conde e comunicou-lhe que se havia desincumbido, também, do terceiro empreendimento e raptara da igreja o padre com o sacristão.

- Onde os puseste? - perguntou meio incrédulo o conde.

- Estão dentro de um saco, lá no pombal, e julgam que estão no céu!

O conde, foi pessoalmente, verificar e convenceu-se de que o outro dissera a verdade. Libertou o padre e o sacristão e depois disse ao mestre:

- Tu és um super-ladrão e ganhaste a tua causa. Por esta vez, escapas com a pele inteira, mas trata de sumir das minhas terras; e, se te mostrares outras vez por aqui, podes contar que serás dependurado na forca.

O mestre ladrão, foi despedir-se dos pais e voltou a correr mundo; nunca mais ouviu-se falar nele.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Minhas Trovas Premiadas * 1 *

 

Chafariz de Trovas * 19 *


A empregada de hoje em dia
quando vai para o fogão,
cozinha em banho-maria
as "cantadas" do patrão.
ADELIR COELHO MACHADO 
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Todo rio na corrente
busca um lago, um rio, um mar.
Mas o destino da gente
quem sabe onde vai parar?
ADELMAR TAVARES 
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Tem cão que mora no morro,
outro morando em mansão;
porque nem todo cachorro
leva uma vida de cão.
ADEMAR MACEDO 
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Realejo, lembrança forte
que a memória não embaça,
você passa, e a minha sorte
nunca mais deixou a praça!
ALBA CRISTINA CAMPOS NETO
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O tolo sempre se engana,
ao julgar o seu saber;
o sábio nunca se ufana
e passa a vida a aprender.
ALBA HELENA CORRÊA 
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Uma batalha perdida
jamais nos deve abater;
cada experiência vivida
é uma fonte de saber.
ALMERINDA LIPORAGE 
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Na velha praça, embalado
por lindo sonho vadio,
apalpo o banco ao meu lado
mas meu lado está vazio.
AMÁLIA MAX
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Onde a esperança?... Eu explico:
    - Ela está no fiapinho
que as aves levam no bico,
quando estão fazendo ninho!...
ARCHIMIMO LAPAGESSE
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Olhos tristes ou risonhos
vejo entre a gente do povo
dos restos dos velhos sonhos
fabricando um sonho novo…
BASTOS TIGRE 
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Bondade não tem medida,
mas tem a grandeza e o porte,
de quem agrada na vida,
os deserdados da sorte!...
CAMPOS SALES 
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Melhor o mundo seria,
se no horizonte se lesse
a palavra AMOR... E, um dia,
nesse AMOR ... o mundo cresse!
CAROLINA RAMOS
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O que me intriga e fascina,
nesse mundo do saber,
é a vida, escola que ensina
a quem não quer aprender!...
CLENIR NEVES RIBEIRO 
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Aposentados na praça
jogam as cartas, sem pressas,
matando o tempo que passa,
ladrão de tantas promessas...
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
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"Voltarei" dizes depressa
num agrado à despedida;
fica comigo, a promessa
e em tuas mãos, minha vida!
DOMITILLA BORGES BELTRAME 
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Que bela seria a vida
se acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!
DOROTHY JANSSON MORETTI 
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Naqueles tempos de antanho,
de escribas e fariseus,
um Homem do meu tamanho
tinha o tamanho de Deus!
DURVAL MENDONÇA 
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A esperança é o quem-me-dera,
o Deus-te-ouça, a oração;
une a vida ao que se espera,
como um traço de união.
EDGAR BARCELOS CERQUEIRA
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Revela sabedoria
quem, ante a ofensa do irmão,
acende a luz da harmonia
e, humilde, lhe estende a mão!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA 
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Na praça dos desalentos,
pobres meninos de rua
que só têm por aposentos
os frios quartos da lua.
F. LUZIA NETTO
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Seja cobrado... ou de graça,
num paradoxo profundo,
por melhor que algo se faça,
não se agrada a todo mundo!
HELOÍSA ZANCONATO PINTO 
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As flores, na primavera,
desabrocham sem pudor,
se eu pudesse, quem me dera
desabrochar sem temor.
HENRIETTE EFFENBERGER
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Somente para agradar-te
e não ficares sozinha,
a minha alma se reparte
e é mais tua do que minha!
HÉRON PATRÍCIO 
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Enquanto faz uma jarra,
canta, o oleiro, uma cantiga
que lhe agrada ser cigarra,
sem deixar de ser formiga!
IZO GOLDMAN
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Avisto já no horizonte,
em pleno declínio, o sol;
mas não me abato, ergo a fronte
e aguardo um novo arrebol.
JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO
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Quantas pedras removidas
e quantas por remover.
Provações em nossas vidas
que só nos fazem crescer!
JOÃO BATISTA XAVIER DE OLIVEIRA
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Sei da magia e poder
do amor que edifica impérios,
mas não sei de algum saber
que lhe decifre os mistérios!
JOÃO FREIRE FILHO  
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Bate o relógio sisudo,
mede a vida com rigor,
e o tempo, que vence tudo,
não vence a força do amor.
JOSÉ LUCAS DE BARROS 
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Parece imenso, e é restrito
o SABER que o Homem cultua:
quer conquistar o infinito
e, apenas, pousou na Lua,
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO  
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Não falar de coisa triste
com muito agrado eu queria...
Porém, depois que partiste,
como falar de alegria?...
JOSÉ TAVARES DE LIMA 
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Quem não se importa onde pisa,
na escalada desta vida,
sobe muito mas desliza
e escorrega na descida.
LUIZ HÉLIO FRIEDRICH
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A noite desfez, em contas,
o seu colar de cristal
e fez agrados nas pontas
da grama do meu quintal!...
MARINA BRUNA 
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Há de rir quem encontrar
a luz da felicidade.
Mas quem não sabe chorar,
nunca vai rir de verdade.
NISKIER DÀMASO
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Minha razão distraída
por teus agrados sem fim
deixa outra vez iludida
que a emoção fale por mim!
RITA MARCIANO MOURÃO 
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Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
     inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI
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Ao vento não lances praga,
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
VANDA ALVES DA SILVA
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Praça limpa... Todo dia.
Há tanta gente que passa
e quase nem vê Maria
que varre o lixo da praça...
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
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Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO
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Se eu perdesse, de repente,
tudo o que a vida me deu,
tendo a Esperança, somente,
- bem pouco perdera eu!...
WALDEMAR SOARES CARNEIRO
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Muito saber que deslumbra,
e cujo brilho norteia,
vem do estudo na penumbra,
à luz frouxa da candeia...
WALDIR NEVES 
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