Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Carlos Drummond de Andrade (A Visita Inesperada)


A empregada correu na frente, para avisar:

— Me desculpe, madame, mas a campainha tocou e mal eu fui abrindo a porta, essa madame aí foi entrando e dizendo que precisava falar com o doutor.

Atrás vinha uma senhora de porte altaneiro, que se plantou diante da mesa onde jantavam quatro pessoas e disse:

— Boa noite. Vim aqui buscar meu marido.

Os comensais entreolharam-se, em conferência muda de espantos que não encontravam expressão verbal, nem mesmo um oh!

A dona da casa, refazendo-se, quebrou o silêncio:

— Não quer sentar-se?

— Obrigada. Não pretendo me demorar nesta casa.

E voltando-se para um dos homens sentados:

— Agenor, vamos embora?

Agenor, sem levantar o rosto, respondeu:

— Estou jantando.

— Peça licença para interromper o jantar e vamos para casa.

— Estou jantando, já disse, e não costumo interromper minhas refeições.

— O lugar de você fazer refeições é a nossa casa, e não me consta que esta seja a nossa casa.

— Com licença, Heleninha — disse o outro homem. — Agora me lembrei que tenho de visitar um doente no Grajaú antes das dez. Vamos embora, Teresa?

— Não, Euclides — disse a dona da casa. — Prefiro que vocês fiquem. Não vejo nenhum inconveniente em que este assunto seja tratado em mesa-redonda, tanto mais quando Teresa é minha irmã e você é meu cunhado. E então, Agenor?

— Gosto de jantar tranquilo — respondeu Agenor. — Além do mais, não acho correto que pessoas estranhas entrem em domicílio alheio sem serem convidadas.

— Perdão, Agenor, essa pessoa estranha é sua mulher legítima, e a pessoa em cuja casa você está jantando é que é realmente um elemento estranho à nossa sociedade conjugal — objetou a recém-chegada.

— E se o diálogo fosse desenvolvido no salão, depois do jantar? — propôs Heleninha, ríspida.

— É mesmo — aprovou Teresa. — Você não acha, Lucrécia, que tudo pode ser conversado daqui a pouco? Estamos quase acabando.

Lucrécia transigiu:

— Bem, eu espero quinze minutos, não mais.

— Nesse caso, aceita um café? — sugeriu Heleninha, com um meio sorriso de circunstância (ou de vitória prévia?).

A invasora pensou um instante para responder:

— Aceito.

O dr. Euclides levantou-se e ofereceu-lhe uma cadeira, que Lucrécia, antes de sentar-se, recuou um pouco, a significar que absolutamente não participaria da mesa da amante de seu marido.

Voltando o silêncio, coube a Teresa realimentar a conversa, dizendo para a irmã:

— Heleninha, este seu Bianco é espetacular. Um nu tão sensual, e ao mesmo tempo tão casto.

— Pois eu ainda gosto mais dos trigais do Bianco, todo aquele esplendor da terra, que ilumina a parede em redor — disse o dr. Euclides.

— Se é Bianco, é sempre bom — comentou Agenor, saindo do mutismo em que mergulhara após a última estocada de sua mulher.

Entraram a falar de pintura, em sobremesa lenta.

— Aprecio os seus conhecimentos em matéria de arte, Agenor, mas não podia andar mais depressa com essa mousse de chocolate que está no seu prato? — agrediu outra vez Lucrécia.

Agenor continuou brincando com o talher na orla do prato, enquanto discorria sobre o fim da arte conceitual.

— Está se esgotando o tempo regulamentar — continuou ela — e eu não saio daqui sem você.

— Vamos tomar o café na sala — atalhou Heleninha, um pouco nervosa.

Levantaram-se todos.

— O meu cliente não pode esperar, o estado dele não é bom — disse Euclides. — Você vai permitir que eu me retire com Teresa.

— Não, querido, você e Teresa vão ficar aqui. O cliente inclusive terá vida mais longa, e é falta de educação se despedir logo depois da comida — objetou Heleninha.

Dirigiram-se todos para o salão.

— Muito bem — disse Heleninha, sentando-se como os demais, enquanto se servia café. — Agora podemos examinar calmamente a situação.

— Concordei em tomar café mas não concordei em examinar nenhuma situação — ressalvou Lucrécia. — Aliás, ela é muito clara. Agenor é meu marido e eu vim buscá-lo, simplesmente.

— Que é que você diz a isso? — perguntou Heleninha, virando-se para Agenor.

— Não preciso de guia para me levar a essa ou àquela parte — respondeu ele, olhando para o teto.

— Talvez precise, Agenor. Você saiu de casa às sete e meia da manhã, prometendo voltar para o almoço, e até agora. Todos os dias a mesma coisa. Concluo daí que lhe faz falta alguém para reconduzir você ao lar conjugal.

— Sou maior de vinte e um, tenho minhas pernas.

— Eu sei, ninguém está negando isso.

— Quando me sinto bem num lugar, satisfeito, relaxado, prefiro ficar mais tempo nele.

— Até certo ponto é razoável, meu caro. Mas se você se sentir bem no Regine’s, por exemplo, será que vai passar o resto da vida lá?

Heleninha atalhou:

— Dada a natureza do diálogo, não seria melhor vocês ficarem à vontade, sem estarmos presentes? Nós iremos lá para dentro, enquanto vocês conversam.

— Não. É ótimo que você esteja presente — disse Lucrécia — porque você é exatamente o motivo feminino pelo qual Agenor não para mais em casa. Quanto a Euclides e Teresa, até é bom que eles fiquem sabendo, se é que não sabem.

— Você está me responsabilizando pelo fato de seu marido não parar em casa?

— Claro, queridinha. Não é aqui que ele janta praticamente de segunda a domingo? E quando não janta aqui, não é com você que ele janta fora de casa? Com você que ele vai ao cinema, ao teatro, a Cabo Frio, passeia de lancha, faz não sei mais o quê?

— Admito que nós fazemos juntos uma porção de programas sociais, mas você também me fará a fineza de admitir que ele não faz nada obrigado, faz porque quer, porque gosta de fazer. Eu não administro Agenor.

— É possível. Em todo caso, e sem querer aprofundar esse ponto, convido Agenor a sair comigo para passar uns tempos em nossa casa.

— Estou bem aqui — respondeu Agenor, examinando atentamente as unhas.

— Você pode ir, eu vou mais tarde.

— Procure ser gentil, meu bem. Se não quer que sua mulher o acompanhe, pelo menos acompanhe sua mulher até a casa. Parece que ainda estamos casados.

— Parece — confirmou Agenor. — Você disse a palavra certa. Parece, mas não é verdade.

— Como? No civil, no religioso, você põe em dúvida?

— Os papéis, não. Mas a realidade atrás dos papéis. Eu me sinto solteiro.

— Escute aqui, Lucrécia — disse Teresa. — Não quero me meter na vida de vocês, mas quem sabe se um desquite não pegava bem? No meu caso deu certo, não foi, Euclides?

— É — confirmou Euclides. — No meu também. Nosso casamento vai navegando em mar azul.

— Agradeço o seu conselho, Teresa — disse Lucrécia. — Mas desquite não é vitamina C, que se receita para todo mundo. Eu não quero me desquitar de Agenor.

— Está vendo? — exclamou Agenor, com um gesto desalentado, de mãos abertas, na direção de Heleninha.

— Então, permita que eu também meta a colher no assunto, embora não seja do meu feitio — aparteou Euclides. — Se você não quer o desquite é porque lhe tem amor. Se lhe tem amor, procure reconquistá-lo, ou aceite-o como ele é.

Heleninha repeliu a lição, antes que Lucrécia o fizesse:

— Essa não, Euclides. Ele é quem tem de decidir. Vamos, Agenor, não fique com essa cara de habitante de outro planeta, que não tem nada com a gente.

— Querem saber de uma coisa? — bradou Agenor. — Vou-me embora, mas não é para casa. Vou sozinho, recuso companhia. Não aceito discussão coletiva dos assuntos de minha vida particular. Ciao para todos.

Levantou-se e ia sair, quando as duas mulheres o travaram pelo braço:

— Não, Agenor, você vai é comigo, que sou sua mulher.

— Agenor, você não vai sem decidir esta parada — disse Heleninha. — Se você sair, não precisa mais voltar. Exijo que fique e resolva de uma vez por todas esta situação.

— Com que direito você estabelece restrições ao livre-arbítrio de meu marido? — protestou Lucrécia. — Ele quer sair, eu também quero. Vou sair com ele, e está resolvida a situação.

Agenor continuava irritado:

— Se vocês começam a brigar, eu desapareço e ninguém mais terá notícias minhas. Sumo! Viro fumaça!

— Nãããão! — exclamaram as litigantes em uníssono.

— Viro sim! Chega de competição em torno da minha pessoa!

Heleninha, por sua vez, estranhou:

— Que é isso, Agenor? Então você me coloca em nível de competição com Lucrécia? Por acaso eu fui à sua casa tirar você dos braços dela? Pois bem, pode sair, não serei eu que implore a você a graça de ficar comigo.

— Não é isso — respondeu Agenor —, eu não quis ofender você, eu estou nervoso, eu…

— Viu? — disse Lucrécia. — Viu o que você fez com ele? Agenor, um homem tão calmo, tão forte, de repente sua estrutura psicológica desmorona diante dos ataques desferidos por você, que não o compreende. Ninguém resiste à incompreensão.

— Quem fala em incompreensão, se a presença de Agenor em minha casa prova justamente que ele não é compreendido em casa de você?

— Quer um tranquilizante, nego? — propôs Teresa docemente, dirigindo-se a Agenor, que, com a cabeça, respondeu: sim.

— Primeiro vamos tratar do nervoso de Agenor, depois vocês discutem — disse Euclides, lembrando-se da sua condição de médico.

As duas calaram-se.

Com as mãos na cabeça, e a cabeça baixa, Agenor virara estátua.

— Acho melhor pôr ponto final nesta discussão — disse Lucrécia.

— Também acho — concordou Heleninha.

Uma brisa de paz circulou pelo salão.

— Você fuma? — perguntou Lucrécia, estendendo o maço de cigarros a Heleninha.

— Aceito — respondeu ela. E acrescentou: — Obrigada.

Teresa e Euclides acenderam seus cigarros. O fumo tornou o ambiente ainda mais apaziguador.

Ingerido o tranquilizante, Agenor deixou-se estar em serena passividade. Ninguém ousava perturbar-lhe o repouso.

— Sabem da última do Lulu Blake? — indagou Euclides. — Tocou fogo na mansão da Isolda Schnitz para exorcizar um lobisomem. Que não era lobisomem, era o motorista da Isolda, que fazia barulho de madrugada para assustar o Lulu.

— Lulu é muito impulsivo — comentou Lucrécia. — Uma ocasião, na piscina do Copa…

— É, eu me lembro — confirmou Heleninha. — Atirou n’água, com vestido e tudo, a duquesa de Armenonville, que dissera para ele: “Vous êtes un drôle de pantin, monsieur”.

Entraram a recordar demasias de temperamento de Lulu Blake, nas quais Agenor não parecia interessado. Guardava silêncio nobre e distante, de olhos cerrados.

— Não fale alto, Euclides — ponderou Heleninha. — Assim você acorda Agenor.

— Isso mesmo — apoiou Lucrécia. — Vamos falar baixinho.

Mas Agenor abriu espontaneamente os olhos, já recuperado, e todos se felicitaram pela sua reação pronta.

— Desculpem o incômodo que lhes dei — disse ele calmamente. — Não dormi a noite passada, com esse calor, e necessito invariavelmente de oito horas de sono para manter o equilíbrio.

— Incômodo nenhum, ora — disseram todos, expressamente ou pela fisionomia.

— Quantas horas são?

— Passa um quarto de meia-noite.

— Vamos embora, Lucrécia?

— Vamos, meu bem.

— Cuide bem dele, Lucrécia — recomendou Heleninha. — Você volta amanhã?

— Fique tranquila — prometeu Lucrécia.

— Volto — prometeu Agenor.

— Depois a gente resolve tudo — disse Heleninha.

— Tá — disse Lucrécia.

Ciao. Ciao. Ciao. Despediram-se cordialmente.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. 70 Historinhas.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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