À MINHA MULHER
Lembranças do nosso amor
Da morte o sopro gelado,
Não me apagando a existência,
No coração com veemência
Sinto seu passado apressado.
Ai quando, bem adorado,
Minha alma daqui se for,
Disfarça teu dissabor,
Resiste à força veemente,
Mas nunca risques da mente
Lembranças do nosso amor.
Nada tenho que deixar-te
De fortuna nem de glória,
Nada me aponta a memória
Que possa morto legar-te;
Se nada deve ficar-te
Mais que saudades e dor,
Bálsamo consolador
À dolorosa ferida
Hão de ser-te nesta vida
Lembranças do nosso amor.
Lembrar um bem adorado
Na dor da saudade ausente,
É mesmo sê-lo presente,
Inda que seja passado.
Ser por ti sempre lembrado,
Como em vida morto for,
Por influxo encantador
Deste mistério profundo,
Hão de ser-te nesse mundo
Lembranças do nosso amor
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =
ANGÚSTIA
Quando morta a f’licidade,
A fé expira também!
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros, que alvo têm?
Morta a fé, vai-se a esperança;
Como pois, viver pudera
Saudade que não tem crença,
Saudade que desespera?
Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O ceticismo nos brada,
Foi mentira, engano tudo?
Em nada creio do mundo:
Ludibrio da desventura,
A felicidade me acena
Só de um ponto — a sepultura.
Morreram minhas saudades,
E nem suspiros calados
Dentro d’alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados.
= = = = = = = = = = =
O QUE FAZ MINHA DOR
Lembranças do nosso amor
Da morte o sopro gelado,
Não me apagando a existência,
No coração com veemência
Sinto seu passado apressado.
Ai quando, bem adorado,
Minha alma daqui se for,
Disfarça teu dissabor,
Resiste à força veemente,
Mas nunca risques da mente
Lembranças do nosso amor.
Nada tenho que deixar-te
De fortuna nem de glória,
Nada me aponta a memória
Que possa morto legar-te;
Se nada deve ficar-te
Mais que saudades e dor,
Bálsamo consolador
À dolorosa ferida
Hão de ser-te nesta vida
Lembranças do nosso amor.
Lembrar um bem adorado
Na dor da saudade ausente,
É mesmo sê-lo presente,
Inda que seja passado.
Ser por ti sempre lembrado,
Como em vida morto for,
Por influxo encantador
Deste mistério profundo,
Hão de ser-te nesse mundo
Lembranças do nosso amor
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ANGÚSTIA
Quando morta a f’licidade,
A fé expira também!
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros, que alvo têm?
Morta a fé, vai-se a esperança;
Como pois, viver pudera
Saudade que não tem crença,
Saudade que desespera?
Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O ceticismo nos brada,
Foi mentira, engano tudo?
Em nada creio do mundo:
Ludibrio da desventura,
A felicidade me acena
Só de um ponto — a sepultura.
Morreram minhas saudades,
E nem suspiros calados
Dentro d’alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados.
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O QUE FAZ MINHA DOR
Um pensamento de morte,
Uma lembrança de amor,
Uma esperança perdida,
Eis o que faz minha dor!...
Uma lembrança de amor,
Uma esperança perdida,
Eis o que faz minha dor!...
Tive no mundo da mente
Formosos dias serenos,
Como os do céu sempre amemos
Em doce paz inocente.
Dos desgostos a torrente
Em um rápido transporte,
Por má vontade da sorte,
Me fizeram num momento
Do meu feliz pensamento
“Um pensamento de morte!”
A minha alma escureceu-se
Do pensamento nublada,
E a mente desnorteada
Em negro caos converteu-se!
Um mar de pranto — estendeu-se
Naquele mundo de horror;
E no medonho fragor
Da tormenta desabrida
Vaga nas ondas, perdida,
“Uma lembrança de amor!”
Cresce a celeste batalha,
E na vasta escuridade
Sem cessar, da tempestade
O raio o manto retalha
A flutuante mortalha,
Vaga sempre! Convertida
Aquela ideia de vida
Num sudário desta sorte,
Retrata, emblema da morte
“Uma esperança perdida.”
Em pé firme e solitária,
Minh’alma fora insensível
À tempestade terrível,
Contínua, crescente e vária!...
Mas a veste mortuária,
Que das ondas vai na flor,
Mortalha do meu amor,
Dantes saudosa lembrança...
Hoje perdida esperança...
“Eis o que faz minha dor!...”
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Mote
Ainda no mar do ciúme
Fervem centelhas de amor.
Glosa
Do amor o ardente lume
Eterno nunca se apaga
Arde por baixo da vaga;
Da suspeita o azedume
Ainda no mar do ciúme.
Não lhe dissipa o fulgor,
Tanto que quando o amador
Chora da ingrata o quebranto,
Por entre as bagas do pranto
Fervem centelhas de amor.
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Mote
Dois corações que se amam,
Sem falar se comunicam.
Glosa
A freira, que madre chamam,
E o frade, que é frei Carvalho,
Sustentam com seu trabalho
Dois corações que se amam.
E tão bem se verificam
Com manobras tão seguras
Que, trabalhando às escuras,
Sem falar se comunicam.
Fonte:
Laurindo Rabelo. Poesias completas. Ministério Da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional
Laurindo Rabelo. Poesias completas. Ministério Da Cultura. Fundação Biblioteca Nacional
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