sexta-feira, 29 de março de 2024

Luiz Damo (Trovas do Sul) LIX


Desde a aurora ao fim do dia
a vida floresce e inflama,
esparramando a harmonia
que, de Deus, a luz emana.
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A planta expele dos galhos,
frutos que à flor teve a causa,
não colherá sonhos falhos
quem ao labor não der pausa.
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As luzes que às madrugadas
desfilam no firmamento,
são grinaldas ancoradas
nas águas do pensamento.
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No mastro, um manto sagrado,
que alado ao vento desfralda,
cobre o dorso desgrenhado
no anteparo da grinalda.
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Faze do teu sonho a ponte
que aponte para o saber
e da busca, outro horizonte,
fonte, onde possas beber.
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De um encontro ocasional,
os nativos se encantaram,
quando Caminha e Cabral
na nova terra aportaram.
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Tem o sono a semelhança
da morte, porém sem causa,
no sono existe a esperança
mas à morte não tem pausa....
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Não faças do teu passado
um celeiro de saudade,
nem do sonho fracassado
razão de infelicidade.
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Quem tem às mãos o poder
nem sempre sabe calar,
agindo expressa o seu ser
mesmo com nada a falar.
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Abri meus olhos. Senhor
e as portas do coração!
Para enxergar vosso amor
sob a luz da conversão.
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Não deixe que as diferenças
suplantem as semelhanças,
nem as rudes desavenças
maculem as esperanças.
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Na mansão de uma amizade
pode haver alguém chorando,
com a mesma intensidade
de quem chora caminhando.
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Dos ramos que se aninharam
partiram os passarinhos,
muitos, não mais retornaram,
para reverem seus ninhos.
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A água pura e cristalina
vinda à mão pela chaleira,
passa pela serpentina
de uma cuia hospitaleira.
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Na vida há quem sonhe ilhado
em ser mar, forte e valente,
mas ignora que ao seu lado
tem um grande continente.
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Servindo a vários Senhores,
o homem mostra as evidências,
que ao prestar os seus favores
prioriza as preferências.
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Por impulso o incauto insulta,
com desdém ouve e responde,
revelando a mágoa oculta
que na sua alma se esconde.
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Ao plantares fica esperto,
nunca esperes colher, já,
porque no momento certo
a planta produzirá.
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Quem afirma, não fiz nada.
sem querer erra o conceito,
pois na forma declarada
diz que algo teria feito.
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Nunca aciones o gatilho
para um alvo depredares,
só porque perdera o brilho
pela corrosão dos ares.
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Estão no fundo dos mares
joias raras, sob os lixos,
umas, servindo de altares,
outras, meramente uns nichos.
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Luta sem um vencedor
só tem na literatura,
pois nos campos do labor
quem labuta tem fartura.
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Nunca temas, se o que tens,
pouco tem mudado a vida,
sempre trazes donde vens
muita esperança vivida.
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Há muitas mães esquecidas,
sem lar, semiabandonadas,
outras, tão desconhecidas,
mas todas, por Deus lembradas,
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Mesmo que à vida prescinda
de um duradouro sentido,
nenhuma flor é mais linda
que inteiro, o jardim florido.

Fonte> Luiz Damo. As faces da trova. Caxias do Sul/RS: Ed. Do Autor, 2021. Enviado pelo trovador.

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