segunda-feira, 13 de abril de 2026

Asas da Poesia * 175 *


Poema de
LUCIAN BLAGA
Lancram/Romênia (1895 – 1961)

Aos leitores

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim com colmeias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre as grades
e esperam que eu fale.  ... Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões 
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso... deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.
(tradução: Caetano Waldrigues Galindo)
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Aldravia de
MARILENE BORBA
Osório/RS

Em
meus 
versos
líricos
nostálgica
saudade.
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Soneto de
RAYMUNDO DE SALLES BRASIL 
Salvador/ BA

Árvore
 
Abrigas, sem vaidade, a tantos quantos,
vindos de lutas, buscam refrigério;
não cobras um real por serem tantos,
não usas esse sórdido critério.
 
Ao que sorri feliz, ao triste, ao sério,
dás, a todos, os mesmos acalantos…
és um delubro* puro e sem mistério,
templo das alegrias e dos prantos.
 
E ainda dás o fruto ao que tem fome,
sem sequer perguntar nem mesmo o nome
ao cansado e faminto repousante.
 
Oh! Árvore! tu és, não só um templo,
és, também, um belíssimo exemplo
de bondade – frondosa e verdejante! 
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* delubro = templo pagão
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Poema de
SILVIAH CARVALHO
Manaus/AM

O Silêncio da poesia

Quem pode encher as palavras de sustento?
Se no silêncio da alma há tão pouco alimento!
O vazio das respostas inibe as perguntas
Quando nem você é aquilo que vejo ou invento
 
Se posso criar minha paz viveria eu em guerra?
O silêncio desta pergunta ecoará no tempo
E não haverá resposta, pois isso se torna um delito
Já que, há aqueles que, não vivem sem seus conflitos
 
Onde errei quando decidi acertar?
Quando ao invés de só falar de amor resolvi amar
Saio do sonho, passo a viver a realidade
Entro na vida pra vivê-la em sua totalidade
 
Quem me dirá não tendo Deus dito Sim?
Agora que este vazio encheu-se de mim
Recolho do mundo meu sentimento
Minhas palavras, meu coração...
 
Deixo minha poesia vagando pelo ar?
Sim, buscando qualquer porto a ancorar
Descomprometida e responsável
A poesia tem em si, um todo razoável.
 
Quem eu gostaria que me amasse 
Senão aquele a quem amo?
Minha vida deixou de ser só e vazia
Voltarei para escrevê-la um dia...
 
 Vim apenas deixar,
 O meu silêncio nesta poesia...
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TROVA POPULAR

Os olhos de meu benzinho
são joias que não se vendem,
são balas que me feriram,
são correntes que me prendem.
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Aquela passagem perdida

Data perdida, tempo já passado!
Dinheiro não resgata voo, mas alerta;
o novo cheque pôs destino alado,
ao salvador da pátria, em mente aberta.

As horas passam, basta ver marcado
por certo ao centro ter poltrona certa;
ponteiros voltam, checam sinal dado,
razão à AM que vê desculpa incerta.

Trânsito em aços, transporte não anda!
Aeroporto cheio! Todos clamam!
Os passageiros cobram, mais demanda...

Vários eventos não serão mais feitos!
Aeromoças testam, nem reclamam:
– A gripe mata, mostra causa e efeitos.
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Trova de
ANIS MURAD
Rio de Janeiro/RJ (1904 – 1962)

Há uma lâmpada encantada,
acesa no coração,
que tem a chama sagrada,
que se chama inspiração.
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Poema de
ELSE SANT´ANNA BRUM
Joinville/SC

Independência

Do alto de uma colina
Espalhou-se aos quatro ventos
O brado de independência.
Independência menina
Deste Brasil que a amou.
Tornou-se a linda menina
A eterna companheira
Desta terra brasileira
Que seu povo fez crescer.
Quando há difíceis momentos
Vê-se o aceno da menina
Que do alto da colina
Faz o Brasil reviver.
Porque ser independente
É o grande e maior presente
Que um país pode ter.
Quando de setembro a aragem
Envolve aquela colina
Ouve-se, então, da menina,
Uma sublime mensagem:
- Brasil, o teu povo é forte,
Teu povo sempre venceu.
Entre "Independência ou Morte"
A Independência escolheu!
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Uma Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Bendição

Em versos, sementes espalho;
meu solo é o papel, que aceita…
Entrego a Deus o trabalho
e espero pela colheita!…

Bendigo, aqui, a grandiosa obra de Deus:
o sol, a lua, estrelas – maravilhas.
Todo o ar da terra; a vida em jubileus;
montanhas, vales, rios, mares e ilhas!

Bendigo os homens – nobres e plebeus -
e os outros animais em suas trilhas;
todas as plantas que em seus apogeus
se reproduzem entre vastas milhas!

Da Natureza, assim, bendigo a lida,
com força ativa, segue destemida
a perpetuar a criação, perfeita.

Bendito o grão, que é dado a semear,
bendita a chuva, pois irá germinar…
Bendito o lavrador, pela colheita!
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* Dobradinha poética = inicia com uma trova e em seguida um soneto.
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Spina de
RICHARD ZAJACZKOWSKI
Francisco Beltrão/PR

Astro

Traçada na alma,
desenhada nas estrelas,
escrita no coração.

Nos holofotes da vida celestial,
repousam as glórias da esfera.
Mundo rotundo repleto de adoração.
Espíritos sequiosos de paz cordial,
mitigam anseios anímicos com afeição.
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Soneto de
WALDIR NEVES
Rio de Janeiro/RJ (1924 – 2007)

Minha casa

Ela é um velho chalé de toques suburbanos.
Modesta, do portão à fachada singela,
nada existe invulgar, por fora ou dentro dela,
capaz de comover sicranos nem beltranos.

Mas é a mesma onde vi, já se vão tantos anos,
pela primeira vez abrir-se uma janela
aos raios matinais da ensolarada umbela,
sublime no esplendor dos halos soberanos.

No seu mesmo aconchego acolhedor de outrora,
intensamente eu vivo, em meu “aqui e agora”,
a paz familiar e as bênçãos da amizade.

Em saudade é comum que ela more na gente;
mas Deus me deu, estranha e afortunadamente,
a ventura maior de morar na Saudade...
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Poema de
AMÁLIA RODRIGUES
(Amália da Piedade Rodrigues)
Lisboa/ Portugal, 1920/22 – 1999

Ó Gente da Minha Terra

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi.
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Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

De pai para pai:
Caro colega Noel,
só quero carinho.
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Setilha de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Vemos com grande emoção:
se aproxima a primavera,
cheia de cor e beleza;
se vai a estação severa.
Nascem novas esperanças,
ansiosas como crianças...
Terminou a nossa espera!
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Hino de 
AQUIDAUANA/ MS

Viva sempre esta terra idolatrada
Este belo torrão de Mato Grosso,
E as belezas sem fim deste colosso,
Da minha grande pátria sempre amada.

Viva sempre esta terra encantadora,
E o bom sonho de gênio altipotente,
Desta raça valente e vencedora,
Que um astro bem tirou do céu luzente.

Juntos cantemos, e alto proclamemos,
Quer aqui, quer também em toda parte,
A bravura, o trabalho, e o amor destarte,
Que, em folhas d'ouro sempre guardaremos.

Salve o Brasil, seus homens e sua história,
Que, tornando o sertão bendita terra,
Elevaram o país que tudo encerra,
Belezas naturais, grandeza e glória.

Honra e glória aos heroicos fundadores,
Desta linda Aquidauana fulgurante,
Graciosa filha do Brasil gigante,
Cheia de vida, repleta de esplendores.

Galante sob um céu risonho e azul,
Ela, a cidade, espelha-se num rio,
Que, em formosura, faz-lhe desafio,
Num calmo deslizar, de norte à sul.
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Aquidauana: Um Hino de Amor e Orgulho
O 'Hino de Aquidauana - MS' é uma celebração poética e musical da cidade de Aquidauana, localizada no estado de Mato Grosso do Sul. A letra exalta a beleza natural e a importância histórica da região, destacando o orgulho dos habitantes por sua terra natal. Desde o início, a música enaltece a 'terra idolatrada' e as 'belezas sem fim' do lugar, criando uma imagem de um paraíso natural que é parte integrante da grande pátria brasileira.

A canção também faz referência à bravura e ao trabalho dos habitantes de Aquidauana, descrevendo-os como uma 'raça valente e vencedora'. Essa descrição não só reforça o orgulho local, mas também conecta a cidade à história mais ampla do Brasil, celebrando os esforços e conquistas dos seus fundadores. A letra menciona a importância de preservar a memória e os feitos desses heróis, guardando-os 'em folhas d'ouro'.

Além disso, o hino presta homenagem ao Brasil como um todo, reconhecendo a contribuição de Aquidauana para a grandeza e glória do país. A cidade é descrita como uma 'graciosa filha do Brasil gigante', refletindo a sua beleza e vitalidade. A imagem final da cidade espelhando-se num rio sob um 'céu risonho e azul' encapsula a tranquilidade e a majestade natural de Aquidauana, reforçando a conexão íntima entre a cidade e seu ambiente natural.
https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/943187/ 
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Poetrix de
JUSSARA MIDLEJ
Ipiaú/BA

troca-se

O luar e a gente do sertão
Pelas chuvas e o verde
De outra região!
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Soneto de
DIVENEI BOSELI
São Paulo/SP

Lucidez 

Se eu te disser que sou feliz agora,
nesse momento em que a razão cochila
e, na modorra, enxerga só a mochila
que carregavas quando foste embora;

que o meu rancor, agora, não destila
o fel que dentre estas paredes mora,
e que saudade alguma hoje devora
o coração que recobri de argila;

se eu te disser que a porta do meu quarto
por onde tu partiste foi o parto
da solidão que eu quis, sem dor, sem ira,

por hoje, podes crer, mas toma tento:
È falsa a lucidez do meu tormento
e tudo o que eu disser, hoje, é mentira!... 
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Trova de
VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba/PR

O trem, na sua partida,
leva o sonho... e por maldade,
volta trazendo escondida
a bandida da saudade!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O rato caseiro e o rústico

Convida, uma vez, ratinho
Mui galante e cortesão,
Certo arganaz* montesinho
A sobras dum perdigão.

Em guedelhudo* tapete
Luzia o esplêndido talher.
São dois, mas valem por sete.
Que apetite! Que roer!

Foi folgança* regalada;
Nada inveja um tal festim.
Se não quando, na malhada*,
Pilha-os súbito motim.

Passos à porta da sala...
Param os nossos heróis.
E o terror, que pronto os cala,
Lança em pronta fuga os dois.

Foi-se a bulha*. Muito à mansa
Vêm-se chegando outra vez.
“Demos remate à folgança,
Diz o da corte ao montês.

— Nada. Mas vem tu comigo
Jantar amanhã; bem sei
Que lá me não gabo, amigo,
Desta vidinha de rei.

Mas ninguém me turba em meio
Do jantar; sobra o lazer.
Que pode aguar um receio,
E adeus. Figas ao prazer.”
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*Vocabulário: 
Arganaz = pequeno roedor parecido com esquilo.
Bulha = gritaria, desordem.
Folgança = folguedo, farra.
Guedelhudo = cabeludo.
Malhada = toca.
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Mensagem na Garrafa 171 = A escolha do Rei Arthur


AUTOR ANÔNIMO 

O jovem Rei Arthur foi surpreendido pelo monarca do reino vizinho enquanto caçava furtivamente num bosque. O Rei poderia tê-lo matado no ato, pois era o castigo para quem violasse as leis da propriedade, contudo se comoveu ante a juventude e a simpatia de Arthur e lhe ofereceu a liberdade, desde que no prazo de um ano trouxesse a resposta a uma pergunta difícil. 

A pergunta era: O que querem as mulheres? 

Semelhante pergunta deixaria perplexo até o mais sábio, e ao jovem Arthur lhe pareceu impossível de respondê-la. Contudo aquilo era melhor do que a morte, de modo que regressou a seu reino e começou a interrogar as pessoas: a princesa, a rainha, as prostitutas, os monges, os sábios, o bobo da corte, em suma, a todos e ninguém soube dar uma resposta convincente. Porém todos o aconselharam a consultar a velha bruxa, porque somente ela saberia a resposta. O preço seria alto, já que a velha bruxa era famosa em todo o reino pelo preço exorbitante cobrado pelos seus serviços. 

Chegou o último dia do ano acordado e Arthur não teve mais remédio senão recorrer a feiticeira. Ela aceitou dar-lhe uma resposta satisfatória, com uma condição: primeiro aceitaria o preço. Ela queria casar-se com Gawain, o cavaleiro mais nobre da Távola Redonda e o mais íntimo amigo do Rei Arthur! 

O jovem Arthur a olhou horrorizado: era feíssima, tinha um só dente, desprendia um fedor que causava náuseas até a um cachorro, fazia ruídos obscenos... nunca havia topado com uma criatura tão repugnante. Acovardou-se diante da perspectiva de pedir a um amigo de toda a sua vida para assumir essa carga terrível. 

Não obstante, ao inteirar-se do pacto proposto, Gawain afirmou que não era um sacrifício excessivo em troca da vida de seu melhor amigo e a preservação da Távola Redonda. Anunciadas as bodas, a velha bruxa, com sua sabedoria infernal, disse: O que realmente as mulheres querem é serem soberanas de suas próprias vidas!! 

Todos souberam no mesmo instante que a feiticeira havia dito uma grande verdade e que o jovem Rei Arthur estaria salvo. 

Assim foi, ao ouvir a resposta, o monarca vizinho lhe devolveu a liberdade. Porém que bodas tristes foram aquelas... toda a corte assistiu e ninguém sentiu mais desgarrado entre o alívio e a angústia, que o próprio Arthur. Gawain, se mostrou cortês, gentil e respeitoso. A velha bruxa usou de seus piores hábitos, comeu sem usar talheres, emitiu ruídos e um mau cheiro espantoso. 

Chegou a noite de núpcias. Quando Gawain, já preparado para ir para a cama, aguardava sua esposa, ela apareceu como a mais linda e charmosa mulher que um homem poderia imaginar! Gawain ficou estupefato e lhe perguntou o que havia acontecido. 

A jovem lhe respondeu com um sorriso doce, que como havia sido cortês com ela, a metade do tempo se apresentaria horrível e outra metade com o aspecto de uma linda donzela. Então ela lhe perguntou qual ele preferiria para o dia e qual para a noite. Que pergunta cruel... Gawain se apressou em fazer cálculos... Poderia ter uma jovem adorável durante o dia para exibir a seus amigos e a noite na privacidade de seu quarto uma bruxa espantosa ou quem sabe ter de dia uma bruxa e uma jovem linda nos momentos íntimos de sua vida conjugal. 

Vocês, o que teriam preferido? ... O que teriam escolhido? A escolha que fez Gawain está, mais abaixo, porém, antes tome a sua decisão.

ATENÇÃO:  É muito importante que você seja sincero.

O nobre Gawain respondeu que a deixaria escolher por si mesma. 

Ao ouvir a resposta, ela anunciou que seria uma linda jovem de dia e de noite, porque ele a havia respeitado e permitido ser soberana de sua própria vida.

A estória mesmo sendo direcionada a mulher, é uma verdade universal, válida a todos os seres vivos. Um desejo comum a todos é o de ser soberano de sua própria vida, ou seja a liberdade.

Nunca existirá felicidade completa para o ser vivo que seja restrito de sua liberdade. Infelizmente, assim como a saúde, muitos somente dão o devido valor após perdê-la.

Artur de Carvalho (Tá com essa cara por quê?)


Cientistas ingleses afirmaram que já é possível fazer transplantes de rosto.

É isso mesmo. Eu li a notícia numa dessas revistas de ciências, no consultório do meu médico A ideia dos cientistas é retirar a pele do semblante de um doador e reimplantá-la em outra pessoa. Afinal, eles dizem, a pele é apenas mais um órgão humano e, se já é possível fazer transplantes seguros até do coração, que é muito mais complicado, por que não da pele?

Eu fiquei abismado. Primeiro que eu nem sabia que a pele era considerada um órgão.Segundo que essa operação oferece possibilidades que beiram a ficção científica.

É, porque, embora os tais cientistas ingleses afirmem que a intenção deles é apenas recuperar pessoas desfiguradas por queimaduras, eu duvido muito que a coisa vá ficar por aí.

Você agora pode mudar de cara, entende? Quem sabe se, daqui alguns anos, a gente não vai poder escolher novas feições numa clínica ou até mesmo num supermercado ou num shopping?

A maioria das pessoas com quem comentei a notícia ficou entusiasmada. Afinal, quase ninguém é muito feliz com a cara que tem. Um reclama do nariz mais protuberante. A outra, de suas orelhas de abano. Um terceiro que tem muitas espinhas. Todo mundo quer mudar de cara.

Apenas um dos meus amigos não gostou muito da ideia. E com uma certa dose de razão.

— Eu é que não troco a minha cara. Apesar de feia, com essa pelo menos eu já estou acostumado.E, mesmo se fosse para trocar, eu ia querer a cara de quem? É uma pergunta interessante. A cara de quem você gostaria de ter? Do Silvester Stallone? Não. Acho que eu prefiro alguma coisa um pouco mais intelectual, Talvez do Woody Alien. Não, também não. Eu nunca fiquei bem de óculos. Do Tom Cruise? Não. As fãs não iam me deixar em paz. Do BilI Gates? Bem, só se, junto com a cara, viesse também seu saldo bancário. A verdade é que é muito difícil escolher uma nova cara.

— E tem outra— continuou meu amigo—, já imaginou ter a cara de outro homem ali, o tempo todo, encostadinha em você? Cai fora, sô...

Mas é claro que, apesar das dificuldades, muitas pessoas iam acabar aderindo aos transplantes de rosto. Umas por vaidade. Outras só porque é moda. E muitas por razões que a gente menos imagina.

— Mãe? Mas que cara é essa???

— Eu troquei de cara, filho.

— Mas... é a senhora mesmo?

— É claro que sou eu, meu filho.

— Mas essa cara, mãe, essa é a cara da... da...

— Joana Prado, filho, eu sei.

— Mas logo da Feiticeira, mãe! Não tinha outra cara pra você colocar?

— Pois é, filho. É que eu quis fazer uma surpresa pro seu pai. Pro meu pai?!

— É. Ele sempre vivia falando dessa Feiticeira pra cá, Feiticeira pra lá. E eu quis fazer uma surpresa pra ele e coloquei a cara dela.

— Puxa vida, mãe... Mas... e o pai gostou?

— Gostou nada. Quem é que disse que era da cara da Feiticeira que seu pai gostava?
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Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fontes:
Artur de Carvalho. E quando você menos espera... PAH!. Editora Via Lettera, 1969.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

domingo, 12 de abril de 2026

José Feldman (Sonhando ou Não?)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Hora: 21h30 da noite.

Clima: Ar-condicionado no talo, cheiro de café velho e tensão literária no ar.
 
A sala 203 do departamento de Letras Inglesas estava mais agitada que o normal. O ar condicionado parecia ter entrado em greve, e o calor tornava a discussão sobre as fadas e duendes de Shakespeare um desafio extra.

A turma estava reunida para discutir Sonho de uma Noite de Verão. A professora Léia, uma mulher que vestia tweed mesmo no calor de 30 graus, ajustou os óculos e olhou para a classe.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos desconstruir a obra-prima de Shakespeare. Quem pode começar dizendo o que entendeu da relação entre o mundo real e o mundo mágico na floresta?
 
Silêncio absoluto. O tipo de silêncio que faz parecer que todo mundo está estudando anatomia do próprio umbigo.
 
Até que o Juninho, que sentava sempre na última carteira e chegava sempre atrasado, levantou a mão devagar.
 
— Professora, posso falar?

— Claro, Juninho. Surpreenda-me.

— Bom, eu acho que o livro é basicamente uma farra que deu errado. Tipo, imagine a situação: quatro amigos vão para uma mata, todo mundo apaixonado pela pessoa errada, tem um duende que fica jogando suco de flor no olho das pessoas e... pronto, vira bagunça generalizada. É tipo o carnaval, mas com mais elfos e menos bloco da Banda Mole.
 
A turma riu. A professora suspirou, mas sorriu.
 
— Uma analogia interessante, Juninho.

— Eu simplesmente não entendo por que o Oberon não poderia ter simplesmente conversado com a Titânia - disse Brenda, uma aluna com um coque apertado que parecia prestes a explodir de tanto conhecimento reprimido. – Todo aquele drama com a flor mágica... francamente, um pouco de comunicação resolveria tudo.

— Ah, Brenda, mas onde estaria a graça? - retrucou Carlos, um rapaz com óculos de aro grosso que parecia mais interessado nos padrões do carpete. – Shakespeare não escreveu uma peça sobre 'Diálogo de Casal em Uma Tarde Quente de Verão'. Ele escreveu sobre magia, caos e... bem, um monte de gente correndo pela floresta atrás da pessoa errada.

A Professora Léia, uma mulher britânica com um olhar que já tinha visto mais sonetos do que a maioria das pessoas viu novelas, pigarreou. – Carlos tem um ponto, Brenda. A peça explora os impulsos irracionais, a natureza do amor e do desejo, que muitas vezes desafiam a lógica e a comunicação clara. A magia é um catalisador para isso.

— Mas vamos aprofundar. E sobre o amor? Shakespeare retrata o amor como algo racional ou... caótico?
 
A Márcia, a aluna destaque que sempre tinha o livro grifado em 5 cores diferentes, levantou a mão antes mesmo do professor terminar a frase.
 
— Com licença, professora. Na minha visão, a peça ironiza o amor cortês. Veja bem: Lisandro diz "O amor é um cego e um audacioso", ou seja, ele admite que a paixão anula o raciocínio lógico. É uma crítica social à forma como nos deixamos levar pela emoção ao invés da razão.
 
— Isso tudo muito bonito, Márcia — interrompeu o Pedro, que estava coçando a cabeça — mas vamos ser sinceros? O problema ali não é amor não, é má comunicação! Se o pai da Hérmia tivesse sentado e conversado como gente grande, ao invés de falar "ou casa com quem eu quero ou vai para o convento", nada disso teria acontecido. É o tipo de pai que acha que autoridade é tudo e diálogo é conversa fiada.
 
— Exato! — gritou a Bia do fundo — E a Helena então? Meu Deus, que menina carente! Ela fica correndo atrás do Demétrio tipo "me ama, me ama", e ele tratando ela mal. Eu queria entrar no livro e dar um sacode nela: "Amiga, se toca! Ele não te quer! Vamos tomar um açaí e esquecer esse boy lixo!"
 
— Mas é justamente aí que está a genialidade, Bia! — defendeu Márcia, já esquentando — Ela representa a perseverança do amor verdadeiro!

— Perseverança nada! É falta de amor-próprio! Hoje em dia ela tinha um grupo de amigas no WhatsApp dizendo "ele não te merece, amiga"!
 
A discussão estava esquentando quando o Zé, um cara mais quieto que só falava quando tinha algo realmente engraçado para dizer, resolveu dar sua opinião sobre os personagens operários.
 
— Eu quero falar daquela trupe de teatro, o Bottom e a turma. Aquilo sim é a cara da nossa universidade.
 
— Como assim, Zé? — perguntou a professora.
 
— Tipo, eles são uns amadores, sem noção nenhuma, mas acham que são os maiores atores do mundo. O Bottom então? Quer fazer todos os papéis! Quer ser o herói, quer ser a donzela, quer ser o leão! É igual aquele aluno que se inscreve em todos os projetos de extensão, quer falar em todas as bancas, mas na hora do vamos ver...
 
— ...não sabe nem recitar uma fala direito! — completou Juninho, caindo na gargalhada.
 
— Pera lá! — protestou Zé — E o melhor momento da peça inteira? Quando o duende coloca a cabeça de burro no cara! Poxa, que vingança mais shakespeariana! Imagina você tá lá, todo convencido, do nada acorda com cabeça de jumento. Que trauma, professora!
 
— É a metamorfose da vaidade, Zé. Ele se achava superior, então foi transformado naquilo que seu comportamento representava: teimosia e arrogância.

— Sei, mas que vergonha ele deve ter sentido né? Principalmente quando a rainha das fadas acordou e se apaixonou por ele com a cabeça de burro. Coitada, deve ter bebido muito suco de flor mesmo.

— Mas o Puck! - exclamou Brenda, batendo levemente na mesa. – Aquele duende é o maior causador de problemas! Ele transforma o Bottom em um burro! Um burro! E por quê? Porque ele estava seguindo ordens mal dadas. Se ele tivesse um bom senso de humor, teria transformado o Oberon em um sapo.

Um risinho escapou de Miguel, que estava esparramado em sua cadeira, fingindo tirar um cochilo. Ele se endireitou. — Ou talvez o Puck só estivesse entediado. Imagina ser um duende imortal. Você precisa de algum entretenimento, certo? E transformar um tecelão em um burro para o deleite da rainha das fadas parece um bom passatempo.

— Um bom passatempo que causa um transtorno amoroso monumental! - insistiu Brenda. – E o que dizer da Helena? Ela é praticamente uma stalker. Ela não tem um pingo de dignidade.

— Dignidade? - riu Carlos. – Amor não tem a ver com dignidade, Brenda. Tem a ver com perseguição, com loucura, com fazer coisas completamente estúpidas. Helena é a personificação do amor não correspondido levado ao extremo.

Brenda arqueou uma sobrancelha. — Você quer dizer que você perseguiria alguém pela floresta, implorando por atenção, depois que a pessoa te chamou de tudo, menos gente?"

Carlos deu de ombros. — Talvez não pela floresta. Talvez mais por mensagens de texto com muitos emojis de coração partido. A essência é a mesma.

A professora Léia sorriu. — A beleza de Shakespeare, meus caros alunos, é que ele nos permite explorar essas facetas da natureza humana – o amor, o ciúme, a confusão, o desejo – através de um lente fantástica. A floresta mágica é um reflexo do nosso próprio mundo interior, onde a lógica muitas vezes se perde e os impulsos tomam o controle.

— Então, o que você está dizendo, professora - disse Miguel, com um sorriso maroto – é que todos nós temos um pouco de Puck dentro de nós, querendo transformar alguém em um burro?"

Um coro de risadas preencheu a sala,

A discussão mudou de rumo novamente. A Carol, que estava quieta até agora, perguntou:
 
— Professora, mas uma coisa que eu não entendo é: tudo isso acontece em uma noite? Tudo isso? Casamentos, confusão, teatro, transformação... Em uma noite só?
 
— Sim, Carol. A ação se passa em menos de 24 horas.

— Nossa, que agilidade! Eu demoro três dias para decidir que roupa usar e eles resolvem toda a vida amorosa em um sábado à noite. Inspirador.
 
— É que na época não tinha Instagram, Carol. Se tivesse, o Lisandro teria postado story com a Helena, depois apagado, bloqueado, desbloqueado... ia demorar um mês para resolver — brincou Pedro.
 
A professora olhou para o relógio e viu que já eram 22h35. A aula tinha passado voando.
 
— Muito bem, turma. Vocês conseguiram transformar uma tragédia romântica... ou melhor, uma comédia romântica, em uma sessão de conselhos amorosos e críticas sociais. Mas quero deixar uma última pergunta para vocês pensarem: afinal, tudo o que aconteceu foi real ou foi apenas um sonho, como o título sugere?
 
Juninho bateu na carteira, com a resposta na ponta da língua:
 
— Professor, com toda a certeza do mundo... foi sonho!

— Por que, Juninho?

— Porque ninguém consegue ser tão louco, se apaixonar tão rápido e viver tantas aventuras assim e acordar vivo no dia seguinte sem ter sido uma alucinação coletiva! Ou então... eles tinham fumado alguma coisa naquela floresta. Shakespeare era moderno demais, professor.
 
— Cala a boca, Juninho! — gritou a turma toda rindo.
 
— Enfim — concluiu a professora, fechando o livro — A beleza da obra é que cada um vê o que quer. Para uns é poesia, para outros é confusão, para o Juninho aqui é uma festa underground. De qualquer forma, para a próxima aula quero um ensaio de duas páginas sobre "O uso da magia como elemento narrativo". E Juninho...

— Sim, senhora?

— Nada de mencionar "festa" nem "cabeça de burro" no seu texto. Pelo menos não com essas palavras.
 
— Fechado, professora. Vou escrever sobre "metamorfose zoológica e suas implicações sociais".

— Aula encerrada!
 
A turma começou a arrumar as mochilas, ainda rindo e discutindo se o Bottom merecia aquilo ou não. Lá fora, a lua brilhava, e na Sala 203, Shakespeare finalmente pôde descansar em paz... ou talvez estivesse rindo junto com eles do outro lado do espelho.
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RESUMO DA OBRA
A obra mistura o mundo real com o sobrenatural em uma trama repleta de desencontros amorosos e magia. A história se passa em Atenas e em um bosque místico nos arredores da cidade. Hérmia ama Lisandro, mas seu pai, Egeu, quer que ela se case com Demétrio. Sob a ameaça da lei ateniense, o casal foge para a floresta, sendo perseguido por Demétrio e por Helena (que é apaixonada por Demétrio). No bosque, o Rei Oberon e a Rainha Titânia estão em conflito. Oberon ordena que seu servo, o duende Puck, use o suco de uma flor mágica para fazer Titânia se apaixonar pela primeira criatura que vir ao acordar. Puck também tenta intervir nos problemas dos amantes humanos, mas acaba confundindo os casais, causando um caos generalizado onde ambos os rapazes passam a perseguir Helena. Um grupo de trabalhadores amadores ensaia a peça "Píramo e Tisbe" para o casamento do Duque Teseu. Puck transforma a cabeça de um deles, Bottom, na de um burro. Devido ao feitiço de Oberon, Titânia acorda e se apaixona perdidamente pelo homem com cabeça de burro. 
Após uma noite de confusões extremas, Oberon decide desfazer os feitiços. Puck corrige os erros com os amantes: Lisandro volta a amar Hérmia, e Demétrio permanece sob o efeito da magia, apaixonado por Helena. Todos acreditam que os eventos da noite foram apenas um sonho. A peça termina com um casamento triplo e uma apresentação cômica e desastrosa feita pelos artesãos no palácio. 
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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Geraldo Pereira (O Gordo e o Magro)


Tem gente no mundo mais do que interessante, pois que não descuida dos outros, mas não cuida de si mesma! Quando o semelhante, penitente deste mundo de Deus, engorda um pouco - o meu caso agora - é impossível livrar-se dos comentários nascidos de todos os lados. 

Vai pra lá e vem pra cá, ouve, sempre, uma observação nunca cautelosa! A mais simples de todas: “Você engordou!”. Alguns, entretanto, deixam de passar as mãos nas costas do amigo e adotam o alisar da protuberância abdominal - da emergente barriga -, como se o lugar dos afagos e dos carinhos tivesse mudado. 

Poucos são aqueles que fazem como o gazeteiro - Mané do jornal -, há muito desaparecido dessas paragens pombalinas e que voltando a gritar os jornais pelo nome, disse: “Quase não lhe conheço, de tão gordo e bonito!”. Aí, também, já é exagero!

A verdade é que às custas dos acepipes e de outras guloseimas, degustados nas recepções e nas festas que ando frequentando, por conta dos meus deveres do aqui e do agora, os do ofício, o mostrador da balança mudou de número. E, inevitavelmente, mudaram os comentários! 

Ora, sou de outros tempos, pois que nascido e criado nos meados do século, cresci ouvindo a máxima: “Saúde e Gordura!”. Menino novo, naqueles anos, tinha dobras e mais dobras e até participava de concurso nas emissoras de rádio, vencendo o mais rechonchudo. As mulheres, também, eram massudas! Na minha rua, nos idos de sessenta, andavam três irmãs de dotes assim, protundentes e a meninada, de logo, criou o apelido apropriado à época e à mesa: “As Albacoras!”. Não que se desdenhasse das moças, mas pela indiferença à rapaziada do lugar! Vingança, pois!

As madonas de avantajadas formas tinham admiradores certos e uma delas até, posta diante do prédio dos correios, esperando o marido, que fora ali postar uma carta, quase protagoniza uma briga. É que estando o cônjuge do outro lado da rua e encontrando amigo há muito distante, ouviu do velho companheiro a observação definitiva: “Olha pra ali! Vê que mulher!”. É minha esposa, respondeu, sem graça, o interlocutor de ocasião! E quase vão às turras! 

Hoje em dia, pode-se deixar, à vontade, na av. Guararapes ou noutro lugar qualquer, uma gordinha, que seja, sem risco algum de gracejos ou de sedutoras formas de verbais elogios. Ninguém presta mais atenção aos culotes, tão decantados nos meus outroras ou ninguém liga mais para as pernas volumosas, de cujas batatas nasceram tantas das fantasias pueris, naqueles pretéritos!

Contabilizo, na memória dessas sensualidades perdidas, diversas figuras femininas que marcaram época, com essas obesas características! Gente do porte de uma Marinete, que mesmo tendo um busto contido, dentro das proporções das adequações nacionais, avolumava-se daí pra baixo! Aquela mulher não tinha cadeiras, mas poltronas - Isso sim! - e guardava, nos longos e protetores vestidos, pernas tão grossas, que despertavam as tentações todas do mundo. Por essa razão, não podia ir pra casa sozinha, tal o cuidado do amante, que na garupa da lambreta transportava a Vênus do tempo, desfilando desejos nas ruas do Pombal. 

Ainda hoje, nas brumas perdidas, pairam os devaneios e os sonhos, enquanto ela, a musa encantada, cumpre o bailado sagrado da feminilidade. Vez ou outra, nas nuvens dos céus, senta-se no divã de algodão dos deuses e acomoda no colo todos os anjos. Ouve-se, então, o som das trombetas, em louvor à deusa dessas tupiniquins origens. Um ode à beleza das celulites!

Vive-se, entretanto, neste presente da globalização, um tempo diferente, o reinado dos magricelas. Se uma modelo qualquer, esquálida, que seja, desfila na telinha de casa, mostrando os ossos e as saliências, é incluída, de pronto, dentre as belas. Louva-se a caquexia e sobretudo a anorexia, desprezando-se, então, grandeza do paladar! 

Tem gente por ai que não conhece o sabor de uma “Mão de Vaca” ou de uma “Dobradinha com Feijão Branco”, que ignora o “Sarapatel” e a “Galinha de Cabidela”, que dá de ombros se chega à mesa um “Cozido a Brasileira”! Ninguém se arrisca ao caldinho da feijoada, pior o pé de porco, o paio e a charque. 

Em toda farmácia que se preza, de outra parte, há, sempre, uma balança digital, com os números em vermelho bem vivo, determinando sentenças. Se o resultado supera as expectativas, instala-se a depressão e se restringe o prato. Quando há dinheiro sobrando, o socorro está nas clínicas sofisticadas de emagrecimento. É a escravidão das verduras!

Mas, os verdureiros de outrora, que usavam balaios ou empurravam carroças, repletos de cenouras, de xuxu e de alface ou cheios de jerimum, de vagem e de tomate, que na verdade é fruta, se reaparecessem agora, fariam a festa, a feira e a féria, tal a procura nos dias que correm, céleres, como se fossem contados em minutos, apenas! E o homem do miúdo, com o tabuleiro carregado por seu auxiliar, negociando o fígado e a passarinha e entregando o miolo de boi, que garantia a inteligência e o talento de meu pai, na crença da época? Morreria de fome! Bom seria para o vendedor de laranjas, com dois sacos enormes, carregados da cítrica fruta.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. A medida das saudades. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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Humberto de Campos (Represália)


Informado da maldade com que a baronesa de São Bonifácio punira, na véspera, na chácara dos Peixoto Leroux, a tríplice viuvez da sua sobrinha, Mme. Lilita Wilson, o almirante Ribas, tão famoso pela sua malícia irreverente, resolveu tomar uma desforra da linda titular, punindo-a pela perfídia com que se referira à sua encantadora amiguinha de outrora. E o lugar escolhido para a vindita foi a segunda mesa à direita, na Lalet, onde se acharam, frente a frente, ontem, à tarde, entre o desembargador Ataulfo e Me. Carvalho Gondra, a maravilhosa Anfitrite do norte e o velho tritão dos grossos mares do sul.

A palestra decorria brilhante e amável, quando o almirante, encontrando uma oportunidade feliz, observou, rindo, à baronesa:

- É verdade; achei admirável aquela comparação da Lilita com os rios que mudam frequentemente de leito!

- Quem lhe contou isso? - estranhou a baronesa, espantada, recuando o busto soberbo.

- O desembargador Abelardo, que a ouviu dos seus lábios.

- Indiscreto... - sussurrou a fidalga, num muxoxo, retomando a xícara.

O almirante precisava, porém, de uma vingança mais positiva, mais clara, mais ferina, e, sem deixar que a presa fugisse, mudando de assunto, volveu, impiedoso:

- A baronesa sabe, porém, quando é que os rios mudam de leito?

A fidalga encarou-o, franzindo a testa magnifica, e ele, aproveitando o diálogo em que se distraíam os dois companheiros de mesa, fulminou-a, terrível, descendo os olhos pelo vestido significativamente frouxo:

- É quando engrossam... Compreendeu?

E, vendo-a empalidecer, alto, e risonho:

- V. Ex. está se sentindo mal?
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
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A. A. de Assis (Noventa e três anos)


Fico até espantado só de pensar que 7 de abril, completei 93 anos, quase um século de permanência neste planetinha. Em janeiro completei também 71 anos de residência em Maringá e 68 de casamento com Lucilla.

Nasci num lugar chamado Bela Joana, na região montanhosa do município de São Fidélis-RJ, onde meu pai cultivava café, feijão, milho, mandioca e frutas. Com 8 anos, fui mudado para a cidade, a fim de continuar os estudos iniciados numa escolinha rural, mas continuei a passar as férias na roça.

Lá eu tinha uns poucos amigos: dois sobrinhos da minha idade – Paulinho Fernando e José Augusto, e os filhos dos sitiantes vizinhos – os gêmeos Renan e Renato, o Antônio do Arquimedes, o Jacy de Dona Davina.

A gente inventava um monte de brinquedos, porém era proibido caçar passarinhos. Meu pai não nos permitia usar estilingues, nem arapucas. Para compensar, formou um pomar atrás de nossa casa e entre as árvores colocou umas caixas onde punha alpiste, canjiquinha e outros alimentos. Com isso atraía pássaros de toda espécie: azulões, sabiás, coleirinhos, melros, pica-paus, periquitos, juritis, saíras. Era o dia inteiro aquela cantoria.

Costumo pensar que os passarinhos foram meus primeiros professores de poesia. Eu ficava horas no pomar observando a movimentação deles e ouvindo os seus gorjeios. Alguns eram mais achegados, me conheciam e vinham até pousar nas minhas mãos.    

A infância e adolescência envolvidas nesse ambiente silvestre me deixaram marcas fortes. Quando vim para Maringá, nos primeiros tempos gostava de ir nos domingos ao Horto Florestal matar saudade. Era o jardinzão onde a população pioneira tomava banho de sol, fazia piquenique e as crianças se divertiam.

Mas os anos passaram, a vida rapidamente urbanizou-se, o contato com a natureza foi rareando. De vez em quando a gente escuta ainda o canto de um sabiá. Porém o cheiro e os sons primitivos da roça e do mato nunca mais serão os mesmos.

(Crônica publicada no Jornal do Povo)
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A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), (93), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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