sexta-feira, 24 de abril de 2026

Asas da Poesia * 180 *


Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Diz “Não” à sogra e à cunhada.
- é astuto e não cai na rede –
“Família, aqui, só a Sagrada
e pregada na parede!”
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Poema de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Tempo de magia
(Dedicado a Luciano Pavarotti – In Memoriam)

Não há ninguém na velha rua suja!

Havia magia no ar
Entre as árvores quentes e sussurrantes

Em um rio de sons
Através do espelho
A magia da música
Ilumina o caminho
Projetando nossas imagens
No espaço e no tempo,
A música tocando nossa alma...
A música do espírito.

Beber sonhos
Nos córregos,
Andar sobre o arco-íris
Como os duendes!

Está na hora
De abrir asas e voar
Viajar para algum lugar
Distante, bem longe
Levado pelo vento
Numa estrela cadente
Como uma borboleta
Solta no alto -
Espírito errante!
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Aldravia de
MESSODY RAMIRO BENOLIEL
Rio de Janeiro/RJ

Saudade
bandoleira
sem
ontem
hoje
amanhã
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Soneto de
RAUL DE LEONI
Petrópolis/RJ (1895– 1926)

Legenda dos Dias

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não veio hoje, virá na outra jornada…”

Ontem, hoje, amanhã, depois, e assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera…

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia… 
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA 
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Meus cabelos cor de prata,
que o luar pintou em mim,
são marcas de serenata
nas madrugadas sem fim.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

À espera...

Aqui me pego, à tua saudade, esperando
que venhas e traga ternura em teus traços...
Porém, passam-se as horas... E já desanimado
Cismo que não chegarás até meus braços

E meus anseios vão se arrastando
em tua ausência c’os meus embaraços...
Tão depressa as horas foram passando,
Que até ouço a saudade e seus tristes passos...

Perto de mim, uma pá de gente segue cruzando 
indiferente ao anseio de que desejo ver-te
e que aos poucos estou me definhando...

Esgotou-se o tempo...  Esperar-te foi em vão.
Mas a angústia louca de amanhã rever-te,
faz regressar feliz este meu coração!...
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Poema de de
HERBERTO HELDER
Funchal/Ilha da Madeira/Portugal

Se Houvesse Degraus na Terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
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TROVA POPULAR

Aqui tens meu coração
e a chave para o abrir;
não tenho mais que te dar
nem tu o que me pedir!
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Gravatas italianas evocam amor

Beleza nata, digna de uma tela
o nu impecável traz valor ardente!
Bem escondido, o corpo da donzela
vem na gravata e encanta a toda gente.

Atrai o sonho ao ver figura bela,
agita o mar que explode em cada mente...
Como se fosse a escuna vejo nela
perigo à vista! Sou mulher carente!

Vejo o naufrágio deste puro amor
que enfim proíbe dar um simples beijo,
que o vento leva e faz cair a flor.

Por um momento, juro que pensei
ter encontrado a paz que tanto almejo...
sei que sonhei... agora já acordei.
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Trova de
JESSÉ NASCIMENTO
Angra dos Reis/RJ

Sinto uma grande alegria 
e o alvo sempre persigo: 
conquistar a cada dia 
um novo e leal amigo.
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Poema de
PEDRO CÉSAR BATISTA
Brasília/DF

Candeeiro do tempo

Olhos cerrados não veem a manhã
Sustentam-se na escuridão do medo e do passado
Bocas enganam ouvidos
Alegram fantasmas que submergem em mentes
Bailam em cantos iludidos com o brilho das luzes
Voos arrastam almas em frágeis desejos supérfluos
Ouvidos se animam ao tilintar de 30 moedas
Falam em suas crenças
Cantam desilusões e dores
Nada creem no amor e em Iris brilhantes
Acham que todos os olhares são cinzentos
Todos os abraços falsos
A manhã se suicida com medo do dia
Prefere a escuridão da solidão do poder
Desiste de receber a luz das flores e dos pássaros
O dia se vai
Nem noite vem
Deixa-se inebriar no tempo de dor
Onde estou que ainda sonho
Preciso acordar e voar ao infinito
Retirar as folhas que abafam meu canto
Pássaros não alimentam mais sonhos
A dor de quem não sonha
Passos sobrevoa oceanos
Desejam ser brilho nessa escuridão
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Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE (1862 – 1935) Aracati/CE

Mariposa

Incauta mariposa em torno à luz
Viceja pela chama fascinada,
Até que enfim examine, crestada
Cai em meio do fogo que a seduz.

A chama que dos olhos teus transluz
Tem minha alma em desejos torturada
E aii tento fugir mais abrasadas
Me sinto neste amor que cresce a flux.

Oh! Fecho os negros olhos sedutores,
Não me queimes nos férvidos ardores
De uma louca paixão voraz e forte

Receio que minha alma caia exausta
Neste abismo de luz como a pirausta*
Que buscam o prazer e encontra a morte.
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* Pirausta = inseto de quatro patas com asas transparentes. Vivia no fogo como uma salamandra e morria se afastasse do fogo.
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Shopping Center de Trovas

 MOTE:
Se a inspiração me emitir
todo dia, ideias novas
brevemente irei abrir
um Shopping Center de Trovas!
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

GLOSA:
Se a inspiração me emitir
o que eu mais gosto de ter,
eu vou, das musas, ouvir
sobre o que, devo escrever!

É bom ganhar de presente,
todo dia, ideias novas,
pois isso, faz bem à gente,
nos lançando a belas provas!

Não vou mesmo resistir...
Sendo assim, então garanto,
brevemente irei abrir
um novo e belo recanto!

Quero o seu consentimento:
Diga, amigo, se me aprovas!
Abrirei com sentimento,
um Shopping Center de Trovas!
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ

Meditando sobre a morte,
digo aos crentes e aos ateus:
a bondade é o passaporte
que nos conduz para Deus.
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Soneto de
MARTINS FONTES
Santos/SP, 1884 – 1937

Soneto

Antes de conhecer-te, eu já te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?
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Poema de
ANDRÉ CARNEIRO
Atibaia/SP, 1922 – 2014, Curitiba/PR

As reticências

Anseio manobrar a língua
dos fatos sólidos
e a outra,
do sentimento abstrato,
explosiva no ódio até
a úmida ternura do beijo.
Palavras com cores diversas,
cinzas e vermelhos
marcando sangue na página.
Haverá um teclado
medindo a tensão de cada dedo,
a mágica apaga versos frouxos,
letras borboletas voam
e pregam mensagens
no teto dos amores fugidios.
Tenho só um dicionário roto,
dedos hesitantes e o
sorriso do humor necessário.
Meu diário é suposto,
foto desfocada da
vida em movimento.
Tento transmitir
apelo, medo, desejo,
nas palavras alinhadas,
tímidos soldados
antes da luta.
É raro saber o gosto alheio
pelo abstrato alimento.
Depois de algumas linhas,
o fim vale como vírgula
para o futuro ignoto
das reticências.
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Triverso de
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro/RJ (1923 – 2012)

Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.
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Setilha de
DELCY CANALLES
Pedro Osório/RS, 1931 – ??? Porto Alegre/RS

Chega setembro e os odores
perfumam nossas estradas!
A Primavera sorrindo
embeleza as madrugadas,
e há flores pelos caminhos,
e há convites de carinhos
em noites enluaradas!
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Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Se não tens muito, não faças
pouco do pouco que é teu,
que... esses “pouquinhos” são graças
que a vida te concedeu!
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Hino de 
SOROCABA/ SP

I

Saudamos-te, querida Sorocaba,
Com muito júbilo e acendrado amor;
desde a selva selvagem, o índio e a taba,
teus feitos cantaremos teu valor.

Às fraldas norte da Paranapiacaba,
tu te elevas Rainha d'esplendor,
e ao pé do morro d'Ouro, o Araçoiaba,
és pioneira paulista do interior.

Ó' Sorocaba, cantamos triunfantes,
bravos, heróis, cantamos teus pioneiros;
Cidade, és filha e mãe de bandeirantes,
com muito orgulho, a "Terra dos Tropeiros".

Tu és, ó Sorocaba, uma das molas
deste grande São Paulo glorioso,
cidade do Trabalho e das Escolas,
dos Liberais de brio belicoso.

Com teus arranha-céus, ao alto evolas
todo o ideal de um povo laborioso,
e o potencial fabril que hoje controlas
é o signo de um Brasil mais poderoso.

II

Tu, Sorocaba, marchas, "pari-passu"
com tuas irmãs, ao lado das primeiras,
Marchas tu com São Paulo no compasso,
Já desde os áureos tempos das bandeiras.

Foste terra de peões, campeões do laço;
Com suas tropas, com suas famosas feiras;
hoje és comércio, indústria, torres de aço,
Tudo é teu sangue, nas veias brasileiras.

Ó' Sorocaba, cantamos triunfantes,
bravos heróis, cantamos teus pioneiros;
Cidade, és filha e mãe de bandeirantes,
com muito orgulho, a "Terra dos Tropeiros".

Pela alvorada, a orquestra dos apitos,
O operário marcha ao seu mister fabril
e os homens da palavra e dos escritos,
da ciências, em teu progresso atuantes mil;

às escolas a colher frutos benditos,
a juventude marcha varonil,
O Saber e Labor marcham contritos,
em prece a Deus, pela Pátria - Brasil.
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Sorocaba: Um Hino de Orgulho e História
O 'Hino de Sorocaba - SP' é uma celebração vibrante e emotiva da cidade de Sorocaba, localizada no interior do estado de São Paulo. A letra exalta a história rica e o desenvolvimento da cidade, desde os tempos dos indígenas e das tabas até sua ascensão como um importante centro urbano e industrial. A referência à 'selva selvagem' e ao 'índio e a taba' remete às origens pré-coloniais da região, enquanto a menção à Paranapiacaba e ao morro de Araçoiaba destaca a geografia local e a importância histórica desses locais.

O hino também presta homenagem aos bandeirantes, figuras históricas que desempenharam um papel crucial na expansão territorial do Brasil. Sorocaba é descrita como 'filha e mãe de bandeirantes', sublinhando seu papel central na história paulista e brasileira. A cidade é celebrada como a 'Terra dos Tropeiros', um título que remete à sua importância no comércio e no transporte de mercadorias durante o período colonial. A letra também destaca o desenvolvimento industrial e educacional de Sorocaba, com menções aos 'arranha-céus' e ao 'potencial fabril', simbolizando o progresso e a modernidade.

A segunda parte do hino reforça a ideia de progresso contínuo e de marcha conjunta com outras cidades paulistas. A referência às 'famosas feiras' e ao 'comércio, indústria, torres de aço' ilustra a transformação de Sorocaba em um polo econômico dinâmico. A letra também celebra o trabalho e o saber, com imagens do operário e dos homens da ciência e da palavra contribuindo para o progresso da cidade. A juventude é vista como herdeira desse legado, marchando com vigor e determinação. O hino conclui com uma prece a Deus pela pátria, reforçando o sentimento de patriotismo e devoção à cidade e ao Brasil.
(https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/473067/significado.html) 
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Soneto de
MÁRCIA SANCHEZ LUZ
São Paulo/SP

Sonho Alado

Ele fugia a cada passo dado
por mim em direção ao seu encontro;
quando por vezes eu lhe dava os ombros,
voltava a me chamar para o seu lado.

Ele dizia estar apaixonado,
eu respondia assim, logo de pronto,
que parecia mais um reencontro
de duas vidas, de um sonhar alado.

Logo passamos a nos convencer
que o que deixamos era pra ficar
entre nós dois, como um selado pacto

de confidências sobre o abstrato,
eterno e transcendente renascer
de corações e flores a brilhar.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

A saudade é a companhia 
mais doce que Deus nos deu. 
Sem ela, o que restaria 
aos velhinhos como eu?... 
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O lobo e o cão

Não tinha um lobo mais que a pele e o osso.
Sinal é que, de orelha arrebitada,
Bem vigilante andava a canzoada.
Encontra o lobo um dogue forte, grosso,
Nutrido, luzidio, uma beleza!
Que distraído abandonara a estrada.
Sorri-lhe a nédia presa.

Saltar-lhe logo ali, fazê-la em postas
O seu desejo fora. Dura empresa!
A luta era infalível! Voltar costas
Não usam perros quando são valentes,
E, mais, os brutos! dão às vezes cabo
Do fero contendor! Diabo! diabo!
Então aquele, com aqueles dentes!

Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
Chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
Puxa conversa; diz que folga em vê-lo,
Que deixe que ele admire, que ele aplauda
Topá-lo assim... e com tão bom cabelo!...
E rijo! e gordo! Um frade! uma abadessa!
«Esplêndido senhor, — o cão responde —
De vós depende o ter igual gordura.
Fugi dos bosques, onde
Por teima da desgraça,
De fome e frio só achais fartura,
Vós, senhor lobo, e a vossa pífia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
E lá por festas raras, esquecidas,
Um petisquinho conquistado, à espada,
Tragado às escondidas!
Aí é certa a morte!
Furtai-vos a seus braços!
Segui... segui meus passos;
Tereis outro destino e melhor sorte.
— Mas como? volve o lobo.
Fazer então que devo? — Bagatela:
Nem morte de homem, nem de igreja roubo;
Simplesmente estas coisas: não dar trégua
À santa gente rota, mendicante,
Bordão numa das mãos, noutra a tigela,
Que vem ainda a distância duma légua
E já tresanda a essência de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...
Dar coca — é o termo próprio — ao dono e a todo
Quanto bicho careta houver em casa.
Salário apanhareis que vos apraza:
Ossos das aves, rodas de chouriço,
Restos vindos da mesa, e tudo a rodo!
Até uns tagatés em cima disso!»

Tendo prestado ao cão atento ouvido,
O lobo, coitadinho!
Com perspectiva tal enternecido,
Não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho!
Iam caminho já do povoado,
Quando o lobo notou que no pescoço
O cão era pelado!
«Que tens aí? — pergunta em alvoroço.
— Nada, que eu saiba. — Nada?! — Frioleira!
— Mas afinal o que é? — Ora!... a coleira.
Com que à noite me prendem junto à porta...
— Prender-te?! — o lobo exclama. Não sais fora,
Não corres livre pela terra inteira
Quando te dá na gana, e a toda a hora?
— Nem sempre. Isso que importa?
— Tanto importa, que toda a trincadeira
Com que me acenas, um tesouro embora,
Por tal preço não quero!» O lobo finda,
Põe-se logo na perna, e corre ainda!
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Mensagem na Garrafa 176 = O Céu


AUTOR ANÔNIMO

Um homem, um cavalo e um cão, caminhavam por uma estrada, quando ele se deu conta de que haviam morrido. Numa curva do caminho avistaram um portal magnífico que conduzia a um jardim cinematográfico com uma fonte central de água fresca e cristalina. O homem então se aproximou do guardador do portal dizendo:

- Que lugar maravilhoso é este?

- Aqui é o céu, respondeu o guardião.

- Que bom, vamos poder matar a sede, disse o homem.

- O senhor pode entrar e beber à vontade, mas animais não são permitidos.

O homem ficou desapontado, pois tinha muita sede, mas não deixaria seus amigos e assim prosseguiu sua jornada. 

Lá pelo entardecer, exaustos, chegaram a um sítio com uma pequena porteira entreaberta. Logo à entrada, havia uma árvore com um sujeito recostado em tranquilo cochilo.

O viajante despertou-o indagando sobre onde poderiam matar a sede.

- Há uma fonte ali dentro, disse o estranho apontando a direção. – Podem beber à vontade.

O homem e seus amigos saciaram então a sede.

Na volta, o andarilho agradeceu ao sujeito e perguntou:

- A propósito, como se chama este lugar?

- Céu, respondeu o estranho.

- Céu? Mas o guardião do portal lá atrás disse que lá que é o céu!

- Lá não é céu, meu amigo! Lá é inferno. 

O caminhante ficou perplexo e exclamou:

- Mas essa informação deve causar grandes confusões!

- Pelo contrário, amigo, na verdade eles nos prestam um grande favor, por que lá ficam aqueles que são capazes de abandonar seus amigos.

Alexandra Niculescu (Insula lui Arturo, de Elsa Morante)

(tradução do Romeno por JFeldman)


Há livros que são lidos sem fôlego e há livros pelos quais passamos especialmente devagar, não porque sejam chatos, mas pelo contrário, porque gostamos tanto deles que gostaríamos que não terminassem, e até 450 páginas nos parecem poucas. Para mim “Ilha de Arturo” pertence à segunda categoria.

A Ilha – Procida – é e não é apenas uma decoração. É o lugar onde Arturo nasce e cresce, tem paisagens mediterrânicas específicas e as pessoas não são nada acolhedoras. Para Wilhelm (o pai de Arturo) é mais o ponto de onde ele sai e ninguém sabe para onde.

Para a criança, a ilha está intimamente ligada à imagem do pai. Ela sente que existe um encanto que a mantém ali: "Eu sabia que não teria gostado tanto da ilha se ela não fosse dele, impossível de separar do seu ser.”

Arturo cresce quase sozinho – com um servo e só de vez em quando com um pai a quem adora justamente pelas curtas visitas. Tudo o que o pai faz parece à criança estar no reino do milagre, e, de fato, cria a imagem de um pai com todas as qualidades, que enriquece como quer. Quando Arturo se torna adolescente, o pai aparece com uma nova esposa nos braços, muito perto da idade do filho. Vou fazer um parêntese e dizer que aqui há um erro na apresentação do livro, tirado de “The New York Times”, onde os temas do livro dizem ser incesto, misoginia, narcisismo, homossexualidade. Não há qualquer indício de incesto, visto que o caso amoroso (que culmina num beijo e nada mais) ocorre entre Arturo e sua madrasta, Nunziata.

Se a ilha não é realmente uma personagem, a Casa de Junilor consegue ser, através da sua história, através da marca deixada pelo Amalfitano que a habitou no início, através da atmosfera e dos estados em que mantém os seus inquilinos.

Há muito amor no livro, talvez por isso atraia tanto: antes de tudo, é o amor de Arturo pelo pai, é um sentimento exacerbado, uma fantasia, uma ilusão, é o amor por um pai que é excepcional porque é assim que a criança o constrói, quanto menos ele o tem, melhor, mais bonito, mais especial ele pensa que é: “cada gesto dele, cada frase teve uma fatalidade dramática para mim. Ele era a imagem da certeza, e tudo o que disse ou fez foi a resposta à uma lei universal da qual deduzi as primeiras regras de conduta da minha vida.  A verdade é que não conseguia imaginar que o poder dele pudesse ter limites. Se eu tivesse acreditado em milagres, certamente teria acreditado que ele era capaz de fazê-los”.

É um mundo de homens onde Arturo cresce, só conhece as opiniões do pai e de Amalfitan, o homem que lhes deixou a Casa de Juni, e todos são contra as mulheres, que não têm valor em sua concepção: “e se eu pensar bem, qualquer feiúra me pareceria linda se eu comparasse com a feiúra das mulheres”.

Tudo muda na vida de Arturo com a aparência de sua madrasta. Assim como uma criança, primeiro ele olha para ela com ciúmes, mesmo com ressentimento, ele sente que roubou o pai dela, que não terá mais sua atenção ou amor, que já nada é igual. No entanto, há uma proximidade entre ele e a mulher, Nunziata, no primeiro dia, e ele se abre, conta seus sonhos e fantasias, ele realmente tenta impressioná-la e se mostrar o mais corajoso possível. Então, na noite de núpcias, ele ouve o grito dela e isso o leva embora. Ele não sabe o que acontece entre um homem e uma mulher, ninguém lhe disse, mas algo intui e ele não pode mais olhar para sua madrasta da mesma maneira, ele até faz o possível para ficar longe dela, e quando ele tem que ficar sozinho, ele se comporta tão mal quanto pode: “e o olhar, que me lembrei de tão lindo, parecia nublado, animalesco e miserável”.

Desde o início, o pai pergunta como ele pensa Nunziata, e ele quer agradá-lo, mas também para ser honesto e diz: “Eu não acho que ela é feia”, mas o que ele pensa é um pouco mais matizado: “para essa mulher, apesar de sua inegável feiúra, eu, de acordo com meu gosto, a considerava extraordinariamente graciosa!”.

Convivendo com a mulher, nas longas ausências do pai, Arturo começa a ansiar por amor, por ser amado, mas não de forma morna e comum, mas quer amor total: “A ideia de uma pessoa que ama apenas Arturo Gerace, excluindo qualquer outro ser humano, e para quem Arturo Gerace representa o sol, o centro do universo era uma ideia da qual não gostava nada”.

Mesmo depois de conhecer Nunziata, Arturo percebe que ele nunca foi beijado e o primeiro que ele quer um beijo é seu pai, é claro: “Eu gostaria que meu pai me desse um beijo, mesmo sem acordar completamente, assim, no barulho do sono ou na náusea, ou pelo menos eu mesmo queria beijá-lo, mas não me atrevi.”

O que é muito característico do estilo de Elsa Morante é a presença abundante de adjetivos, nenhum substantivo escapa: se EU aleatoriamente tomar uma única página EU me deparo com uma caverna profunda e escura/belo ramo/luz súbita/ expressão ausente e sincera/respiração silenciosa/resfriamento úmido e sensível/respiração ingênua/expressão fabulosa/esboço delicado/cílios longos e piedosos.

Elas são evocadas e descritas de tal forma que os cachos da mulher se tornam uma personagem real; movem-se como querem, perturbam ou incomodam Nunziata, embelezam-na ou a desfiguram, grudam-se nela, desarrumam-na, são calmos ou rebeldes.

Arturo luta contra o amadurecimento e os sentimentos pela madrasta. Ele nega-os até a noite em que ela tem que dar à luz e ele percebe que ele não podia suportar perdê-la. Há uma reconciliação consigo mesmo, com a ilha e com a mulher: “Voltei a me apaixonar pela minha ilha e tudo que gostei gostei agora novamente.

A imagem de Nunz, vivo, saudável novamente e cheio de vida, sorrindo por entre seus cachos apenas para mim, de repente me pareceu uma celebração milagrosa, como se a ilha tivesse sido povoada por deuses.

Seu bom humor, porém, não dura muito, pois logo surgem o ciúme e a inveja em relação ao recém-nascido: "Não disse qual inveja era a mais difícil de suportar. Era a de que ela o beijava. Ela o beijava demais". Toda a atenção que Nunziata lhe dedicava antes, agora ela dedica ao filho, e Arturo não aceita isso, chegando a tomar medidas extremas para reconquistar seu lugar na vida da mulher.

Com este livro, Elsa Morante conquista novos admiradores de seu estilo e nos convence a desejar que outras de suas obras sejam traduzidas para o romeno.

Elsa Morante, “Ilha de Arturo”, traduzido do italiano por Gabriela Lungu, Editora Pandora M, 2022
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ALEXANDRA NICULESCU, escritora, autora dos volumes “Baked Apples Week” (2012) e “No, thank You” (2014), Alexandra tem especialização em cultura espanhola e publica frequentemente prosa curta.
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SOBRE A REVISTA
Literomania é uma plataforma literária independente, dedicada à literatura e ao diálogo cultural. A revista é publicada online desde 2017. Na Literomania, escrevemos e falamos sobre livros de todos os tempos e lugares (geográficos e ideológicos), movidos pela paixão por tudo o que a literatura representa. Continuamos a acreditar no poder da literatura para nos moldar humana, social e até politicamente, para nos oferecer o mais belo espaço de liberdade, ação e também de sonho possível.

Fonte:
Revista Romena Literomania. n. 267. 23/10/2022.
https://www.litero-mania.com/arturo/

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A. A. de Assis (O futuro já começou)


Pena que não estarei aqui para ver em que vai dar tudo isso; porém os prolegômenos do futuro, que estamos vendo hoje, são suficientes para dar uma ideia do que virá por aí. Aliás, muita maravilha antes prevista para o próximo século já está acontecendo. 

Quem não ficar atento será atropelado pelo turbilhão dos fatos. A política está mudando, o modo de exercer as profissões está mudando, os esportes estão mudando, as artes estão mudando, até as práticas religiosas estão mudando. Então a gente ou se enquadra na modernidade ou fica para trás.

Outro dia ouvi na televisão um analista cogitar sobre a reviravolta que poderá ocorrer na maneira de fazer política já na eleição do sucessor de Donald Trump.    

Segundo sua “bola de cristal”, o próximo líder da mais poderosa nação do planeta será produto de um projeto fantástico pilotado por uma equipe de “nerds”, com auxílio da Inteligência Artificial. Será provavelmente uma pessoa jovem (homem ou mulher) que surgirá e crescerá vertiginosamente durante a campanha eleitoral, destacando-se por três diferenciais: ficha limpíssima, capacidade de comunicação bem acima da média e altíssimo Q.I.

Já ouvi também especulações sobre a utilização da IA nos esportes. É possível que a Copa do Mundo deste ano seja a última à moda antiga. Na Copa de 2030, com toda a certeza, as seleções serão montadas com base em algoritmos. Os preparadores dos times, que ainda chamamos de “técnicos”, serão “tecnólogos” superavançados e os jogadores serão escolhidos em laboratórios. Só não sei como ficará o torcedor no meio dessa história toda.

Se eu tivesse escrito essas coisas há uns vinte anos, pareceria ficção científica. Hoje isso não causa mais espanto a ninguém, porque na verdade o futuro já começou. A IA está nas escolas, nos escritórios, na mídia, na medicina, nos serviços públicos, na religião, nos estúdios de arte, na culinária.

Nós poetas estamos até meio assustados, com medo de que logo-logo a IA comece a fazer trovas e haicais bem melhores que os nossos...
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá )

Texto obtido no facebook do autor. 22.04.2026
Imagem criada com IA Microsoft Bing usando a foto do autor 

Monsenhor Orivaldo Robles (Receita para criar um marginal)


O texto é conhecido. Vez por outra, com pequenas variantes, aparece numa ou noutra publicação. Não há registro do nome do autor. Encontrei-o, última vez, há alguns anos, num jornal católico publicado em Fátima, Portugal. Fiz algumas adaptações, em vista da diferença no modo de falar de Portugal e Brasil.

É oportuno refletir sobre ele nesta época em que se volta a falar de limites, que pai e mãe “bananas” não sabem impor aos filhos. Pais para quem o filhinho querido não tem defeito. É um verdadeiro anjo, que caiu do céu por descuido.

São dez atitudes dos pais que, quase com certeza, farão do seu filho um delinquente:

Comece, desde a infância, a dar à criança tudo o que ela pedir. Assim, ela  crescerá convencida de que o mundo inteiro lhe pertence e de que os outros só existem para fazer-lhe as vontades.

Quando ela começar a dizer palavrões, mostre admiração, faça elogios ou, simplesmente, ria. Isso fará com que ela se considere muita engraçadinha.

Nunca lhe dê ensinamentos espirituais. Menos ainda, exemplos de prática religiosa, que acabariam cerceando sua liberdade. Deixe-a crescer. Quando tiver vinte e um anos, ela que decida por si mesma.

Recolha tudo o que ela deixa pelo chão: material escolar, roupas, calçados, brinquedos. Não lhe permita fazer esforço, para que se acostume a encarar os outros como seus empregados. Com isso, ela criará o costume de transferir aos outros a culpa de tudo o que está fora do lugar.

Brigue com seu cônjuge sempre na frente dela. A criança precisa encarar a vida como a vida é. Assim, não sofrerá demais no dia em que os pais se separarem.

Dê-lhe todo o dinheiro que exigir, sem perguntar como será gasto. Nunca lhe permita que seja ela a ganhá-lo. Por que fazer a pobrezinha passar pelas dificuldades que você enfrentou na sua infância?

Satisfaça a todos os seus caprichos sobre comida, bebida, roupa, luxo, diversão e prazeres. A psicologia ensina que a privação poderia causar-lhe traumas perigosos, não é?

Dê-lhe sempre total apoio em qualquer discussão que ela tiver. Seja com vizinhos, com colegas, fornecedores, professores, polícia... Imagine se o seu filho iria cometer algum deslize! Os outros é que têm raiva ou inveja do coitadinho.

Quando for obrigado a admitir que ele está numa enrascada, desculpe-se com a frase: “Eu sempre fiz tudo por ele, mas nunca pude com esse menino”. Ou repita, com ar dramático, a surrada pergunta: “Onde foi que eu errei?”

Prepare-se para uma vida de amargura e remorso, pois o mais provável é que a culpa tenha sido toda sua.

É claro que dói ler coisas desse tipo. Mas nada dói tanto quanto a verdade.

Fontes:
Recanto das Letras do autor. 12.12.2011
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3384257
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Dicas de Escrita (O ato de escrever)


É fácil escrever? O que precisamos fazer para escrever bem? Leiam as reflexões a seguir sobre o ato de escrever e tirem suas conclusões.

1. –  Escrever é uma habilidade que pode ser desenvolvida e não um dom que poucas pessoas têm.

- Há fatores que determinam nosso grau de familiaridade com a escrita, tais como:

a) o modo como aprendemos a escrever;

b) a importância que o texto escrito tem para nós e para nosso grupo social;

c) a intensidade do convívio estabelecido;

d) a frequência com que escrevemos.

2. – Escrever é um ato que exige empenho e trabalho e não um fenômeno espontâneo.

- Escrever é uma das atividades mais complexas que o homem pode realizar, pois impõe rigorosas exigências à memória e ao raciocínio. A agilidade mental é imprescindível para que todos os aspectos envolvidos na escrita sejam articulados, coordenados, harmonizados de forma que o texto seja bem-sucedido.

- É necessário que o redator utilize simultaneamente seus conhecimentos relativos ao assunto que quer tratar, ao gênero adequado, à situação em que o texto é produzido, aos possíveis leitores, à língua e suas possibilidades estilísticas. Portanto, escrever não é fácil e, principalmente, escrever é incompatível com a preguiça.
 
3. – Escrever exige estudo sério e não uma competência que se forma com algumas "dicas".

- Fórmulas pré-fabricadas de textos e "dicas" isoladas apenas contribuem para a montagem de um texto defeituoso, truncado, artificial, em que a voz do autor se anula para dar lugar a clichês, chavões, frases feitas e pensamentos alheios.

- A autoria vem das escolhas pessoais dentro das possibilidades da língua e do gênero. Escrever bem é o resultado de um percurso constituído de muita prática, muita reflexão e muita leitura.

- Uma redação por mês, alguns exercícios esporádicos de produção de pequenos trechos não formam um bom redator. É necessário escrever sempre, escrever todos os dias, escrever sobre assuntos diversos, escrever com diversos objetivos, escrever em diversas situações.
 
4. –  Escrever é uma prática que se articula com a prática da leitura.

- É improvável que um mau leitor chegue a escrever com desenvoltura. É pela leitura que assimilamos as estruturas próprias da língua escrita.

- Além de ser imprescindível como instrumento de consolidação dos conhecimentos a respeito da língua e dos tipos de texto, a leitura é um propulsor do desenvolvimento das habilidades cognitivas. Envolve tantos procedimentos intelectuais e exige tantas operações mentais que leva o bom leitor a adquirir maior agilidade de raciocínio.

- Há ainda a considerar que a leitura é uma das formas mais eficientes de acesso à informação. Seu exercício intenso e constante promove a análise e a reflexão sobre os acontecimentos, tornando a pessoa mais crítica e mais resistente à dominação ideológica.

5. – Escrever é necessário no mundo moderno.

- Hoje tudo está muito automatizado e as relações humanas por intermédio da escrita estão reduzidas ao mínimo (mensagens pelo celular).

- Paradoxalmente, o complexo mundo contemporâneo está cada vez mais exigente em relação à escrita. Tudo o que somos, temos, realizamos ou desejamos realizar deve ser legitimado pela palavra escrita. Nossa habilidade de escrever é exigida, investigada, medida, avaliada, sempre que nos submetemos a qualquer processo seletivo em sociedade.

6. – Escrever é um ato vinculado a práticas sociais.

- Todo ato de escrita pertence a uma prática social. Não se escreve por escrever. A escrita tem um sentido e uma função.

- Saber escrever é também compartilhar práticas sociais de diversas naturezas que a sociedade vem construindo ao longo de sua história. Essas práticas de comunicação em sociedade se configuram em gêneros de texto específicos a situações determinadas. Para cada situação, objetivo, desejo, necessidade temos à nossa disposição um acervo de textos apropriados.

- O produtor de texto não apenas precisa ter conhecimentos sobre as configurações dos diversos gêneros, mas também saber quando cada um deles é adequado, em que momento e de que modo deve utilizá-los. Um relatório é próprio para prestar contas de uma pesquisa científica, de uma investigação, de uma tarefa profissional, mas não serve para contar uma viagem de férias para os amigos, por exemplo.

Fontes
GARCEZ, Lucília H. do Carmo. Técnica de redação: o que é preciso saber para bem escrever. São Paulo, Martins Fontes, 2004, 2a. edição. Disponível em Escola de Contas e Gestão de TCE-RJ
https://www.tcerj.tc.br/portalecg/pagina/dica_n_10_o_ato_de_escrever
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Hans Christian Andersen (O besouro)


Acabavam de ajustar ferraduras de ouro às quatro patas do cavalo do imperador. De ouro, como eram as esporas do seu dono.

Mas por que ferraduras de ouro?

Era um animal magnífico, de pernas esbeltas, olhos suaves e inteligente e uma crina flutuava como  uma juba. Tinha carregado o amo por entre o fumo dos canhões e a chuva de balas que silvavam de todos os lados. Tomara parte na batalha, resistindo com singular denodo à acometida do inimigo, e salvara não só a coroa imperial como a vida do próprio imperador, saltando por cima do cavalo prostrado do mais pertinaz inimigo. Isto, por certo, valia mais que todas as riquezas. Merecera, pois, as ferraduras de ouro.

Mas eis que um besouro se adianta, dizendo:

- Primeiro foram os grandes; agora chegou a vez dos pequenos - ainda que o tamanho nada signifique.

E espichou as patinhas secas.

- Que queres aqui? - perguntou o ferrador.

- Ferraduras de ouro!

- Estás louco? - gritou o homem. - Também queres calçado de ouro?

- E por que não? Acaso não valho tanto como esse aí? E ele precisa que o sirvam, o escovem e lhe ponham diante do focinho a comida e a bebida, para que pareça bem, Não pertenço tanto como ele aos estábulos imperiais?

- Não sejas maluco! - replicou o ferreiro. - Então não compreendes por que ferramos de ouro este cavalo?

- O que eu compreendo muito bem é que isto é um insulto pessoal que me fazem! - retrucou o besouro. - Não suporto semelhante humilhação, e vou sair a correr mundo!

- Pois boa viagem!

- Insolente! - disse o besouro.

E, alcançando as asas, saiu do estábulo e foi parar em um jardim muito lindo, cheio do perfume das rosas e das alfazemas.

Esvoaçava por ali uma joaninha, de asas vermelhas, mosqueadas de negro, que logo lhe foi dizendo:

- Que lugar delicioso, não achas? Como cheira bem, e que lindo é tudo aqui!

- Estou habituado a coisas melhores - disse o besouro. - É a isto que chamas deliciosos? Mas se aqui não há sequer uma esterqueira!

E lá se foi embora, para a sombra de uma moita de goivos. Uma lagarta subia por um talo acima, e dizia:

- Que belo é o mundo! O sol é tão agradável e tão quente! E tudo sorri de felicidade! Afinal hei de acabar por adormecer e morrer, como dizem; mas depois despertarei convertida em uma borboleta!

- Mas que ideia! Tu, voando como uma borboleta! Pois olha: venho das cavalariças do imperador, e lá ninguém, nem mesmo o cavalo favorito de Sua Majestade, que calçou os meu sapatos de ouro, nem esse tem ideias tão idiotas! Criar asas! Voar! Ora essa! Agora vais ver na verdade o que é voar!

E, desdobrando as asas, saiu voando, e murmurando pelos ares:

- Quero fugir dos insultos, e é só o que ouço!

Foi cair em um gramado e fingiu-se adormecido; mas dali a pouco estava dormindo de verdade.

Não dormiu por muito tempo: começou logo a cair uma chuva copiosa, e o ruído da água batendo no chão despertou-o. Procurou esconder-se dentro da terra, e não o conseguiu, porque a água o arrastava; lá foi indo, primeiro de bruços, depois nadando de lado: não podia sequer pensar em voar, e daria graças se saísse daquela torrente com vida. Resolveu resignar-se, entregando-se à sorte; e quando cessou a chuva e, de tanto esfregar os olhos, conseguiu tirar deles toda água, viu que ali perto brilhava uma coisa branca: um camisa, que enxugava ao ar , estendida na grama. Manejou de modo a alcança-la e escondeu-se entre as dobras. Não era tão quentinho como no meio do esterco da cavalariça, é claro: contudo, não havia coisa melhor por enquanto, e ali ficou o besouro, o dia inteiro, e ainda toda a noite. A chuva continuava a cair por intervalos. Ao amanhecer saiu dali, indignado e amaldiçoando o clima.

Sobre o linho alvo descansavam duas rãs, em cujos olhos brilhava a alegria. E uma dizia:

- Que tempo magnífico! Tão fresquinho! E esta camisa junta água que é um gosto! Tenho cócegas nas patas, de vontade de nadar!

- Eu gostaria de saber - disse a outra - se a andorinha, que voa tão alto e tão longe, já achou nas suas viagens pelo estrangeiro outro clima melhor que o nosso. Que agradável, que úmido! Eu me sinto tão bem aqui, como se estivesse em um charco! Quem não está contente e não se sente feliz assim é que certamente não tem patriotismo!

- Bem se vê que vocês nunca estiveram nos estábulos do imperador! - interveio o besouro. - Aquela umidade, sim, é morninha e cheirosa - o melhor clima para meu gosto! É isso que estou habituado, mas é claro que quando a gente viaja não pode levar essas coisas... Não haverá neste jardim alguma esterqueira, onde uma pessoa de alta linhagem como eu possa fixar residência e viver à vontade?

Mas as rãs não o entenderam - ou fingiram não o entender.

Depois de repetir três vezes a pergunta, sem obter resposta alguma, exclamou o besouro, indignado:

– Eu nunca pergunto uma coisa duas vezes!

Afastou-se, irritado, e chegou a um sítio onde encontrou um bom abrigo contra a chuva e a ventania: era uma tampa da vasilha de barro, já quebrada. Seu lugar não era ali, certamente; mas era um  abrigo providencial, e debaixo dela moravam algumas famílias de rapelhas - um bichinho que também se chama fura-orelhas; era gente pobre, mas viviam contentes. As fêmeas era todas um modelo de amor maternal: cada mãe exaltava o seu filho, que considerava o mais belo e o mais inteligente de todos.

- O nosso rapazinho - dizia uma - já tem noiva, e não tardará muito em casar. É um inocentinho! Sua maior ambição neste mundo, é chegar algum dia a entrar na orelha de alguém. É tão bonzinho, tão amável! E com o casamento certamente há de assentar o juízo, não é? É o maior prazer que pode ter uma mãe!

- Pois o nosso - acudia outra - mal saiu do ovo e já queira viajar pelo mundo! É a vivacidade e a destreza em pessoa! Já sabe retorcer as antenas. É o maior prazer que pode ter uma mãe, não acha, senhor Escaravelho?

Tinham reconhecido logo a sua espécie pelo corte das asas.

- Ambas tem razão - respondeu o besouro.

Convidaram-no a entrar: podia passear até onde quisesse - debaixo da tampa quebrada. Mas já outras mães lhe gritavam:

- Olhe aqui! Veja o meu filho!

- E o meu!

- E o meu! Já viu crianças melhores, ou mais alegres? Os nossos nunca desobedecem a não ser quando sentem alguma cólica - coisa frequente, aliás, nas crianças, não é?

E assim cada mãe falava no seu filho. As crianças foram se aproximando sem se intrometer na conversa. Mas, com as pinças da cauda, iam puxando as barbas do besouro.

- Estão sempre a fazer diabruras, estes marotinhos! - diziam as mamães.

Mas a repreensão vinha em uma voz que mais parecia uma carícia animadora de novas estrepolias. O besouro não gostou da brincadeira: sentiu-se ofendido, e indagou se o esterqueiro ficava muito longe.

- Fica, sim! Muito longe: do outro lado do vale - disse uma das mães. - É tão longe, que se um de meus filhos fosse até lá eu morreria. Espero, porém, que jamais aconteça semelhante coisa!

- Não é a mim que as distâncias metem medo! - retrucou o besouro.

E saiu sem se despedir: era esta, na sua opinião, a maior prova de cortesia.

Junto ao vale encontrou muita gente: todos besouros, como ele. E, disseram-lhe:

- Pois moramos aqui. E vivemos magníficamente! Não queres espojar-te um pouco, no lodo macio? Trazes cara de cansado! Há de ser da viagem...

- Estou mesmo, disse o besouro. Apanhei uma chuva grossa, e tive de me refugiar em uma camisa lavada; e já sabes que a limpeza não é bom para a minha saúde. Além disso, dói-me uma asa, desde que fiquei desabrigado debaixo de um caco de barro. Mas é um consolo encontrar-se a gente entre os seus semelhantes!

- Vens, talvez, do monte de esterco? - perguntou o mais velho.

- Não! Venho de lugar muito mais alto! Venho da cavalariça do imperador, onde nasci já com sapatos de ouro. Viajo em uma missão secreta, e está claro que não posso dizer o que é.

Desceu então para se reunir aos outros na lama. Achavam-se ali três mocinhas, que riam à socapa, por que não sabiam o que haviam de dizer.

- As três são solteiras, e não estão ainda noivas - disse a mãe.

E as três donzelas tornaram a rir às escondidas, mas desta vez foi de envergonhadas.

- Não vi nenhuma tão linda nos estábulos do imperador - disse o viajante - sentando-se.

- Não gabe assim minhas filhas para me lisonjear - observou a mãe. - E não lhes dirija a palavra, a não ser com intenções sérias. Vejo, porém, que assim é, e desde já os abençoo.

- Viva! - gritaram todos os outros besouros.

E desse modo ele ficou noivo.

Seguiu-se imediatamente o casamento, pois não havia razão para demoras.

O dia seguinte passou-se perfeitamente: era a lua de mel; o segundo quase não fez diferença - mas no terceiro já é preciso pensar em ganhar com que sustentar a mulher, e quem sabe se algum filho. E o besouro pensou:

- Uma vez que me deixei enganar assim por esta gente, não tenho outra coisa a fazer, senão enganá-la também.

E dito e feito! Foi embora, deixando ali a esposa sozinha todo o dia e a noite toda: era agora uma viúva!

- Esta foi boa! - diziam todos os besouros. Aquele sujeito que recebemos na nossa família não passa de um grandessíssimo vagabundo! Lá se foi embora, e ainda por cima deixa-nos este fardo: temos de lhe sustentar a mulher!

- Paciência! - disse a mãe besoura. - Ela voltará  a usar o nome de solteira, e viverá aqui conosco. Aquele canalha! Abandonar assim a minha filha!

Enquanto isso lá se ia o besouro, viajando muito  descansado. Embarcou em uma folha de couve, que a corrente de um canal ia levando à deriva. Passaram dois cavalheiros, apanharam-no e ficaram a dar-lhe voltas e mais voltas, falando como eruditos, principalmente o mais jovem.

- Alá vê o besouro negro na encosta negra da montanha negra - disse ele. - Pois não está escrito isso no alcorão?

E disse o nome do besouro, mas em latim. O outro, que era estudante, queria levá-lo, mas o companheiro dissuadiu-o, dizendo-lhe que possuía exemplares iguais àquele. Achou o besouro que aquilo era uma grande impertinência,e, alçando o voo, escapou da mão do moço grosseiro. Como já tinha as asas bem secas, pode voar muito longe: foi até uma estufa, entrou pela fresta da vidraça entreaberta, e procurou enterrar-se, com o maior prazer, num monte de adubo que viu a um canto.

- Que lugar delicioso! - pensava ele.

Adormeceu logo e sonhou que o cavalo favorito do imperador tinha adoecido, e antes de morrer o nomeara herdeiro de sua ferraduras de ouro, deixando ainda determinado que lhe fabricassem mais um par, na mesma medida. E era uma coisa muito razoável.

Quando acordou resolveu sair, para dar uma vista de olhos. Era magnífica aquela casa de cristal! Altas palmeiras formavam uma abóboda, deixando penetrar a luz do sol; aos seus pés vicejavam maciços de flores de cores variadas - vermelhas como fogo, amarelas como o âmbar e alvas como a neve recém-calda.

- Que folhagem esplêndida! E estas folhas serão uma riqueza, quando caírem e apodrecerem - dizia o besouro. - Que rica despensa achei! Certamente hão de viver por aqui parentes meus. Vou dar uma volta a ver se encontro gente com quem me possa associar. Estou orgulhoso do que sou, na verdade!

E pôs-se a passear pela estufa, pensando na morte do cavalo e nas ferraduras de ouro que acabava de herdar.

Mas nisto uma mão o colheu, e começou logo a virá-lo de todos os lados.

Era o filhinho do jardineiro que, brincando com uma menina da sua idade, vira o besouro e resolvera divertir-se com ele. Embrulharam-no em uma folha de parreira e o menino meteu-o no bolso da calça, que era muito quente. O besouro mexia-se e remexia-se, para ver se libertava daquela prisão, mas um soco do rapazinho indicou-lhe que era melhor ficar quieto. As duas crianças correram para o grande lago que havia no extremo do jardim; meteram o besouro em um tamanco velho que estava atirado à margem, amarraram uma varinha ao tamanco, feito mastro, e prenderam nele o pobre besouro, segurando-o bem com um fio de linha. Agora ele era um capitão de navio, e ia navegar.

O lago não era muito extenso, mas ao pobre do besouro pareceu o oceano; e ficou tão assustado que caiu de costas, e ali ficou, agitando as perninhas.

O barquinho afastava-se da margem, impelindo pelo vento, mas o menino arregaçou as calças e foi apanhá-lo, empurrando-o para que navegasse a todo o pano. Quando o tamanco já ia longe, uma voz imperiosa chamou as crianças, e o besouro ficou abandonado à sua sorte. A embarcação ia afastando-se, afastando-se da margem, aproximando-se cada vez mais do alto mar, e a perspectiva que se apresentava ao bichinho era horrível; não podia voar porque estava todo amarrado ao mastro. Nisto apareceu uma mosca, que ia visitá-lo.

- Que tempo esplêndido! - disse ela. - Dás licença que te acompanhe um pouco, para me aquecer ao sol? Como és feliz! Que vida agradável a tua!

- Tu não sabes o que dizes! Não vês, estúpida, que estou amarrado?

- Mas eu não! - respondeu a mosca, erguendo o voo.

- Agora é que vou conhecendo o mundo! - disse consigo o besouro. E como é baixo, este mundo! A única pessoa decente e digna que nele vive sou eu! Pois a primeira coisa que fazem contra mim é usurparem-me os sapatos de ouro; depois, obrigam-me a procurar abrigo em uma casa limpa, ou debaixo de uma tampa quebrada; e, para cúmulo de males, impigem-me uma esposa! Por fim, quando dou com um lugar onde se pode viver, e saio a ver onde posso instalar com toda a comodidade, eis que vem um rapazinho, amarra-me aqui e me deixa à mercê das ondas enfurecidas - enquanto o cavalo do imperador dá cabriolas, com suas ferraduras de ouro! E isto é o que mais me dói! Não ! De um mundo assim nada se pode esperar de bom. É certo que minha carreira tem sido brilhante; mas de que serve, se ninguém a conhece? Nem o mundo merece mesmo conhecê-la, a minha história: pois não se recusaram a calçar-me sapatos de ouro na cavalariça do imperador, quando ferraram o cavalo favorito? Debalde estendi as patas! Se me tivessem calçado de ouro, seria eu uma glória, um ornamente brilhante para cocheira. Agora, ela me perdeu, e o mundo também não me obterá. Tudo acabado!

Não estava tudo acabado, não. Aproximou-se um bote, cheio de moças que remavam.

- Olha aquele tamanco, que navega como um barco! - disse uma.

- E dentro vai um bichinho amarrado! - exclamou outra.

Chegaram-se mais. A mais nova das moças pegou o minúsculo barquinho, e tirou-o da água. Outra moça tomou uma tesourinha e cortou o fio de linha, sem ferir o besouro, e quando chegaram à praia ela o depôs na grama, dizendo:

- Trepa, trepa! Voa! Voa! Abre as asas, que a liberdade é uma coisa esplêndida!

E o besouro voou, voou... No seu vasto voo passou pela janela de um grande edifício e foi cair, meio morto de fadiga, sobre a fina e macia crina do cavalo do imperador, naquele mesmo estábulo em que sempre tinham morado juntos. Segurou-se à crina, descansando ali um momento para se recobrar.

- Eis-me agora montado no cavalo favorito do imperador! É como se eu fosse um cavaleiro! E na verdade, sou tão guapo como o dono! Mas... que ia eu dizer? Ah! Sim, já me recordo. Agora vejo tudo claro. E é esta uma ideia acertada, sim! Por que calçaram o cavalo com sapatos de ouro? Pois não foi isso mesmo o que ele me perguntou, o ferrador? Agora percebo claramente qual é a resposta...O cavalo foi calçado de ouro em minha intenção! Para que eu o monte!

Agora o besouro recobrara o antigo bom humor. E dizia:

- Não há  nada como as viagens, para abrir a inteligência!

Os raios do sol, entrando na cocheira, banharam de luz o besouro, que via agora todas as coisa com otimismo.

- Apesar de tudo - refletia ele - o mundo não é tão mau como parece. O que é preciso é que a gente saiba tomar as coisas como elas são.

Sim: o mundo era belo agora porque tinham posto ferraduras de ouro nas patas do cavalo do imperador, só para que o besouro pudesse montá-lo.

- Irei agora visitar meus companheiros, os outros besouros, para que saibam tudo quanto foi feito em minha intenção. Quero contar-lhes todas as aventuras agradáveis que me sucederam em minha viagem ao estrangeiro.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. 
Disponível em Domínio Público