quinta-feira, 30 de abril de 2026

Asas da Poesia * 183 *


Poema de
FRANCISCO AZUELA ESPINOZA
León/Guanajuato/México, 1948

Lágrima Cinco

Inventor de mentiras,
demônio enganador, caçador do vento,
empoleirado no bico de um pássaro de neve ardente,
queimador de asas de anjo, estrelas desnudas,
galho e cão,
mordedores de moinhos antigos.

Cavaleiros rançosos apodrecem,
cavalos de osso vermelho,
a face recupera seu rio de sangue como um eco,
fuzil, bloqueador de tiros.
(tradução do espanhol por Jfeldman)
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Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Poesia em movimento

A palavra poética 
é um pássaro.

Em seu voo,
para falar com os deuses,
ela desvia das lanças do sol,
deixando em seu rastro 
minúsculos cristais de mar etéreo.

A palavra incandescente
faz a névoa de tinta
dissipar-se.

As letras fluem em bandos,
tecendo poesia em movimento,
e à medida que os versos nascem,
são coroados com halos
de poeira solar.
(tradução do espanhol por Jfeldman)
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Poema de
MANUEL ACUÑA
Saltillo/México, 1849 – 1873, Cidade do México/México

À Uma Flor

Quando teu botão mal se abria
para respirar alegria e contentamento,
já te dobras, cansada e sem alento,
rendendo-te à dor e à agonia?

Não vês, talvez, que esta sombra ímpia
que escurece o azul do firmamento
não passa de uma nuvem que ao soprar o vento,
te fará ver novamente o dia?...

Levanta-te e ergue-te!... Ainda não chega 
a hora de abrigares no fundo do teu botão
a tristeza que te verga.

Ao sol é injusta tua reprovação,
pois aquela sombra passageira que te cega,
é apenas uma sombra, mas ainda não é noite, não.
(tradução do espanhol por Jfeldman)
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Poema de
JAIME TORRES BODET
Cidade do México/México, 1902 – 1974

Canção das Vozes Serenas

A tarde se esvaiu
cantando uma canção,
perseguindo uma nuvem,
e colhendo as pétalas de uma flor.

Se desvaneceu a noite
fazendo uma oração,
conversando com uma estrela,
e morrendo com uma flor.

E se esvairá a aurora
retornando àquela canção,
perseguindo outra nuvem,
e desfolhando outra flor.

E se desvanecerá a vida
sem ouvir nenhum outro rumor
além do da água das horas
levando o coração…
(tradução do espanhol por Jfeldman)
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Poema de
NELLIE CAMPOBELLO
(Nellie Francisca Ernestina Campobello Luna)
Villa Ocampo/Durango/México, 1900 – 1986, Progreso de Obregón/Hidalgo/México

Na Areia

Eu não pedi
tuas lágrimas
Eu estava brincando
quando pedi
tua alma
Você não vê que eu rio
quando você
me chama de amada?
Se eu não quero
tuas lágrimas
Eu estava pedindo
tua alma
Mas eu estava jogando
o jogo
das
almas
que não
querem
nada.
(tradução do espanhol por Jfeldman)
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Poema de
EDUARDO LIZALDE
Cidade do México/México, 2929 – 2022

Grande é o ódio

1
Grande e dourado, amigos, é o ódio.
Todo o grande e dourado
vem do ódio.
O tempo é ódio.

Dizem que Deus se odiava em ato,
que se odiava com a força
dos infinitos leões azuis
do cosmos;
que se odiava
para existir.

Nascem do ódio, mundos,
óleos perfeitíssimos, revoluções,
tabacos excelentes.

Quando sonha alguém que nos odeia, apenas,
dentro do sonho de alguém que nos ama,
já vivemos no ódio perfeito.

Ninguém vacila, como no amor,
na hora do ódio.

O ódio é a única prova indubitável
da existência.
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Trova Humorística de
ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA E SILVA
Piquete/SP, 1942 – 2023, Caçapava/SP

– Esta pimenta é de cheiro?
Pergunta com azedume,
e o garçom fala ligeiro:
– Se não é… boto perfume!
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Poema de
JOÃO MELO
(Aníbal João da Silva Melo)
Luanda/Angola

A Lagartixa Frustrada

Um dia
a lagartixa
quis ser dinossauro

Convencida
saltou pra rua
montada em blindados
pra disfarçar a sua insignificância

Tentou mobilizar as formigas
que seguiam
atarefadas
pro trabalho

"Ó pobre e reles lagartixa
condenada
à fria solidão
das paredes enormes e nuas
tu não sabes que os dinossauros
são fósseis
pré-históricos?"
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Aldravia de
AMÉLIA LUZ
(Amélia Marciolina Raposo da Luz)
Pirapetinga/MG

Teu
vestido
amarelo
rodopia
compasso,
bolero!
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Soneto de
PATRÍCIA NEME
Palmas/TO

Soneto da Saudade

O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.

Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.

Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!
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TROVA POPULAR

Já não posso ser contente,
tenho a esperança perdida
ando perdido entre a gente
nem morro nem tenho vida.
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Soneto de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Divino mistério

Pura eclosão no encontro de dois seres,
ou de um só ser, chamado hermafrodita.
Sem ser movida por carnais prazeres,
carrega em si leal prenhez, prescrita.

Nas mãos a tens, quiçá sem compreenderes
que um divino mistério nela habita.
Sequer refletes, junto aos afazeres,
quão essencial é o ser que ali dormita…

Mas, lá na roça, alguém sempre a cultua,
vislumbra o embrião, que a espécie perpetua:
- o apaixonado e atento lavrador!

E, na expansão do gérmen, a semente
exalta a vida e aquEle que consente
nesse milagre – prova audaz de AMOR!…
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Trova de
FAUSTO PARANHOS
Rio de Janeiro/RJ (1910 – ????)

Em certos beijos se esconde
um demônio singular
que nos conduz não sei aonde,
donde é difícil recuar. 
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Poema de
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Chuva de Versos

Quando versos chovem n'alma
trovas lindas nos florescem...
Sua beleza nos acalma,
e sob as águas, mais crescem...

Para a chuva, "n" versos 
 pelas rimas  tão  molhados,
- microcosmos bem diversos
 a criar trovas e fados...

Se a paixão nos incendeia,
 dançam loucas labaredas,...
Vou apagar minha candeia
e chover versos de sedas...
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Haicai de
BENEDITA SILVA DE AZEVEDO
Magé/RJ

Noite de inverno -
A tremer sob jornais
O pobre na esquina
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Soneto de
LÊDO IVO
Maceió/AL, 1924 – 2012, Sevilha/Espanha

Acontecimento do Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote... 
Carnaval... tanta folia. 
Sincopados corações... 
Desfile de alegoria... 
Passarela de ilusões!
JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

Glosa... 
Carnaval... tanta folia. 
Alegria "mascarada"... 
Foliões, com distonia, 
destoam na batucada! 

Carnaval.. quanta apatia. 
Sincopados corações 
batucam, sem alegria 
no peito dos foliões! 

Carnaval... quanta ironia! 
Colombinas e Pierrôs... 
Desfile de alegoria... 
Foliões "borocochôs"! 

Carnaval... que desalento! 
Desfiles sem emoções... 
Foliões em fingimento... 
Passarela de ilusões!
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Trova de
DEODATO PIRES
Olhão/Portugal

Neste mundo em convulsão
dia a dia a denegrir
temo com apreensão
o que será o porvir…
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Soneto de
PERO DE ANDRADE CAMINHA 
Porto/Portugal (1520 – 1589) Vila Viçosa/Portugal

Quando cuido, senhora, quanto escrevo…

Quando cuido, senhora, quanto escrevo…
tudo em vossos formosos olhos leio,
neles, ante quem tudo é escuro e feio,
aprendo e vejo como amar-vos devo.

Vejo que ao vosso amor todo me devo,
mas não vos sei amar, e assi'me enleio
que não sei se vos amo ou se o receio,
e a julgar em mim isto não me atrevo.

Em vós cuido, em vós falo o dia e ora,
mouro por ver-vos, ir-vos ver não ouso,
por não ver quanto mais devo do que amo;

ó sol e ó sombra o vosso nome chamo,
fora destes cuidados não repouso;
se isto é amor, vós o julgai, senhora!
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Trova de
ANALICE FEITOZA LIMA 
Bom Conselho/PE, 1938 – 2012, São Paulo/SP

Dinheiro, não tenho tanto
para os seus luxos “bancar”.
Mas o pão nosso, garanto,
Deus não vai deixar faltar!
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Poema de
HANS ULRICH TREICHEL
Versmod/Alemanha

Progressos na investigação do caos

Esteja à vontade,
trate-me só por eu
ou omita-me de todo.
Afinal ninguém sabe ao certo
onde começa o próximo.
Poderá dispersar-se,
mas permaneça deitado.
Feche os olhos
e não ouça nada.
Quando nada sentir,
tem de sentir o que sente.
Ou será que também é daqueles
que sangram a cada tiro?
O meu conselho é gorduras vegetais
e inteligência animal.
No entanto, tudo com medida
e sempre de cabeça inclinada.
O resto é bastante simples.
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Quadrão à Beira Mar de
CREUSA MEIRA
Salvador/BA

Queria por um momento
Falar de contentamento
Esquecer o sofrimento
Neste breve versejar
Sorrir para não chorar
Ao lembrar o triste dia
Que perdi minha alegria
No quadrão à beira mar
“Beira mar, beira mar,
O quadrão só é bonito
Quando é feito a beira mar”
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Trova Humorística de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ

Pergunta a mestra ao menino,
aluno meio confuso:
– A porca… tem masculino?
– Tem, fessora… o parafuso!
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Hino de 
CAMPOS DOS GOYTACAZES/ RJ

Campos Formosa, intrépida amazona
Do viridente plaino goitacás
Predileta do luar como Verona
Terra feita de luz e madrigais

Ó Paraíba, ó mágica torrente
Soberana dos prados e vergéis
Por onde passas como um rei do oriente
Os teus vassalos vêm beijar-te os pés

Nada iguala os teus dons, os teus primores
Val de delícias, o teu céu azul
Minha terra natal ninho de amores
Urna de encantos, pérola do sul

Campos Formosa, intrépida amazona
Do viridente plaino goitacás
Predileta do luar como Verona
Terra feita de luz e madrigais

Ó Paraíba, ó mágica torrente
Soberana dos prados e vergéis
Por onde passas como um rei do oriente
Os teus vassalos vêm beijar-te os pés

Ó Paraíba, ó mágica torrente
Rio que rolas dentro do meu peito.
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Uma Ode à Beleza e História
O 'Hino de Campos dos Goytacazes - RJ' é uma celebração poética da cidade localizada no estado do Rio de Janeiro. A letra exalta a beleza natural e a riqueza cultural da região, utilizando uma linguagem rica em metáforas e referências históricas. A cidade é descrita como uma 'intrépida amazona', uma figura de força e coragem, que se destaca no 'viridente plaino goitacás', uma referência às planícies verdes habitadas pelos índios Goitacás.

A canção também faz uma homenagem ao rio Paraíba do Sul, descrito como uma 'mágica torrente' e 'soberana dos prados e vergéis'. O rio é personificado como um rei oriental, cujos 'vassalos vêm beijar-te os pés', simbolizando a importância vital do rio para a região e seus habitantes. Essa personificação do rio como uma entidade majestosa e vital reforça a conexão íntima entre a natureza e a vida cotidiana dos moradores de Campos dos Goytacazes.

Além disso, o hino destaca a cidade como um 'val de delícias' e 'urna de encantos', enfatizando a ideia de Campos dos Goytacazes como um lugar de beleza e prazer. A comparação com Verona, cidade italiana famosa por sua beleza e romance, sugere que Campos dos Goytacazes é igualmente encantadora e inspiradora. A repetição de frases e a estrutura lírica reforçam o sentimento de orgulho e amor pela terra natal, criando uma imagem vívida e apaixonada da cidade. 
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Poetrix de
ANDRA VALLADARES
Vila Velha/ES

in memoriam

A vida é bordadeira,
com pontos de cruz
orna nosso destino.
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Soneto de
JORGE DE LIMA
(Jorge Mateus de Lima)
União dos Palmares/AL, 1895 – 1953, Rio de Janeiro/RJ

O Acendedor de Lampiões

 Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

 Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

 Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!
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Trova de
MAGDALENA LÉA
(Magdalena Léa Barbosa Corrêa)
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 2001

Ah se eu pudesse saber
qual a mulher que ele quer!
Que não iria eu fazer
para ser essa mulher?
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A raposa, as moscas e o ouriço

Deixando pelo chão rastros do próprio sangue,
Uma astuta raposa audaz que outrora fora
Enérgica, sutil, leve, jazia agora
Sobre um montão de lama, inanimada e exangue.

Tinha-a ferido em cheio um caçador valente...
E a Mosca, o parasita alado do monturo,
Vinha alegre, num voo enérgico e seguro,
Cevar-se no seu corpo ainda vivo e quente.

E o mísero animal, com as pupilas foscas,
Invetivava triste o seu terrível norte,
Por lhe ter conferido a desgraçada sorte
De, com seu próprio corpo, alimentar as moscas.

«Fazerem-me sofrer assim um tal vexame,
A mim, ao mais sutil vivente das florestas!
Quando é que uma raposa alimentou as festas,
Os banquetes cruéis de esfomeado enxame?!

De que me serve a cauda? Acaso é um fardo antigo,
Inútil? Ah! que o céu te pague, Mosca bruta!
Vai cevar noutro corpo a tua fome astuta,
E deixa só ficar a minha dor comigo.

Nesta mesma ocasião, um ouriço piedoso,
(Personagem estranho e novo nos meus versos)
Quis livrá-la, com dó, dos animais perversos
Que a afligiam assim, e disse-lhe bondoso:

 Raposa amiga, espera um só instante apenas...
Com meus espinhos bons eu mato-as num momento;
Vais ver como te vou tirar o sofrimento,
Como te vou tirar essas horríveis penas.

— Não quero, respondeu, não as enxotes, deixa...
Oh! deixa-as acabar o seu furor nefando...
Quase estão fartas já... viria um outro bando
Que teria mais fome, e eu mais razão de queixa.»

Assim é esta vida e tudo neste mundo,
Desde a negra miséria aos grandes resplendores;
Ministros, cortesãos... são todos comedores,
Todos têm consigo o mesmo mal profundo.

Este apólogo audaz foi aplicado ao homem;
Aristóteles fê-lo e tinha-o como certo;
Exemplos destes há imensos e bem perto...
Quanto mais cheios, mais saciados, menos comem.
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Mensagem na Garrafa 179 = Loucura x Amor


AUTOR ANÔNIMO

A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa.

Todos os convidados foram. Após o café, a Loucura propôs:

- Vamos brincar de esconde-esconde?

- Esconde-esconde? O que é isso? – perguntou a Curiosidade.

- Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês se escondem. Ao terminar de contar, eu vou procurar, e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar.

Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça.

– 1,2,3,... - a Loucura começou a contar.

A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer.

A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore. 

A Alegria correu para o meio do jardim.

Já a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder.

A Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele debaixo de uma pedra.

A Loucura continuava a contar e os seus amigos iam se escondendo.

O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove.

- Cem - gritou a Loucura. - Vou começar a procurar.

A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais querendo saber quem seria o próximo a contar.

Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. 

E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez...

Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou:

- Onde está o Amor?

Ninguém o tinha visto... A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima da montanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer.

Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito.

Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um espinho.

A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amor e até prometeu segui-lo para sempre. 

O Amor aceitou as desculpas..

Hoje, o Amor é cego e a Loucura o acompanha sempre.

Laé de Souza (Zaroio)


Sujeito baixo, com leve desvio na visão, vestido sempre a rigor, não importa onde se encontre. Mesmo nos morros e favelas está ele com sua maneira imponente de se vestir. O apelido foi colocado pelo Maluco Beleza que é exemplar criador de alcunhas. Tem gente que até evita se encontrar com o Maluco Beleza, porque seus apelidos são daqueles que pegam mesmo. Em consideração ao amigo, respeita o original e corrige qualquer engraçadinho e metido a sábio que o chame por Zarolho.

Desde que conheço o Zaroio, suas atividades estão ligadas à criação de crimes. Insuperável idealizador de planos, sempre cheio de encomendas, nunca o vi reclamar de crise. Por questão de ética, não participa da execução de nenhum e guarda segredo absoluto sobre seus mandantes, que são do conhecimento só do assistente Cambito. Orgulha-se dos seus projetos serem sempre de sucesso, exceto aqueles em que os executantes tenham, por conta própria, alterado seus traçados. Sabendo que os executores estão agindo de forma diversa do indicado, abandona o caso, sem dar mais qualquer palpite, deixando o fulano cuidar por seu inteiro risco. Grandes e noticiados crimes de autoria desconhecida passaram pela sua prancheta e seu PC 486 DX4. Crimes bobos e pequenos foram criados para fazer favor a algum amigo ou ajudar algum estelionatário em baixo astral, os quais, geralmente, são produzidos e aplicados no dia a dia.

O caso do Queixada foi encomendado, mas com gente grande no meio, porque o pobre Queixada não tinha grana para bancar sozinho. Para idealizar uma nova igreja, treinar testemunhos e transformar o cabeça dura do Queixada no pastor Genaro foram necessários três anos de exercício e prática, possível só mesmo para o Zaroio. E o plano é para findar em dez anos com lucro alto para todo mundo.

Não o via há mais de três anos. Não é à toa que reclamou do meu sumiço.

É do Zaroio também o plano da “paquera de risco” que foi praticada, em primeira mão, pelo mesmo Queixada, com a Sandrinha. Num shopping qualquer, uma bela se finge de casada e se deixa paquerar por um sujeito acompanhado de sua mulher. Numa chance, passa-lhe o telefone e fica no aguardo da ligação que, geralmente, ocorre. Depois de muita dor de consciência, ela trai pela primeira vez. Um dia, o marido ciumento “descobre” tudo e o galã é obrigado a montar apartamento e manter o status da madame por longo tempo, sob pena de chegar o caso ao conhecimento da família. Por estas e por outras é que, aconselhado pelo Zaroio, se vejo aliança, na mão esquerda, não paquero mulher, principalmente se eu estiver perto da minha.

Com certeza, no lançamento deste livro estará circulando solitário e vestido a rigor, com sua gravata borboleta, bebericando, observando e saindo sem alarde.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.

Fonte:
Laé de Souza. Coisas de homem & Coisas de mulher. SP: Ecoarte, 2018.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Um agradecimento especial aos leitores e amigos

Olá, queridos amigos e leitores,


Escrevo hoje com o coração cheio de gratidão. Como souberam, na semana passada passei por um susto: acabei desmaiando em minha casa e, na queda, sofri alguns ferimentos que exigiram minha ida de ambulância ao Pronto Socorro.

Quero dizer que, graças a Deus e aos cuidados médicos, já estou plenamente restabelecido. Sinto-me renovado e em plenas condições de continuar o meu trabalho de divulgação, que tanto amo e que nos conecta diariamente.

Mas o motivo principal deste contato é agradecer. Fiquei profundamente emocionado com a avalanche de mensagens, palavras de incentivo e desejos de melhoras que recebi vindos de diversas regiões do Brasil, México, Estados Unidos, Romênia, Portugal e outros. Em momentos de fragilidade, esse carinho é o melhor remédio que alguém pode receber. Meus sinceros agradecimentos a cada leitor e amigo que dedicou um momento do seu dia para me enviar palavras consoladoras.

Essas atitudes reforçam o que sempre defendo: é justamente disso que o mundo mais precisa. Precisamos de mais empatia e de uma fraternidade real, que se manifesta no cuidado com o próximo. Acredito que esses valores são a base para uma sociedade melhor.

Muito obrigado por estarem ao meu lado. Seguimos juntos!

Com gratidão,
José Feldman

José Feldman (Ecos da Violência em um Mundo em Desacordo)


Vivemos em tempos em que a dor e o terror parecem estar cada vez mais entrelaçados em nosso cotidiano. As guerras se multiplicam como ervas daninhas, brotando em qualquer parte do mundo onde líderes, ávidos por poder e controle, não hesitam em sacrificar a paz em nome de ambições pessoais. É um espetáculo trágico, onde o valor da vida é reduzido a meras estatísticas, enquanto as balas e os bombardeios ressoam como uma sinfonia macabra, privando a vida de milhares de pessoas sem um respingo de amor pela vida humana.

A televisão, um dos principais meios de formação de opinião e comportamento, tornou-se um campo de batalha onde a violência é glorificada. Os programas que atraem a atenção dos jovens estão recheados de cenas grotescas, onde vampiros e zumbis dominam narrativas que banalizam a morte e o sofrimento. Entre uma série e outra, há uma programação que mistura a ficção mais aterrorizante com os realities mais cruéis, trazendo uma nova forma de entretenimento que, na verdade, reflete uma sociedade em profunda crise. Enquanto a realidade clama por vozes de justiça e compaixão, enredamo-nos em histórias que alimentam a violência ao invés de promover a compreensão.

Os ecrãs se tornam janelas para um abismo que ecoa sentimentos destrutivos. As crianças e adolescentes, diante desses conteúdos, modelam suas perspectivas e comportamentos. Ao invés de imaginarem um mundo repleto de possibilidades pacíficas, absorvem uma visão distorcida, onde a força e a agressão se tornaram a norma. As conversas que poderiam girar em torno do amor e da solidariedade são substituídas pela retórica do “nós contra eles”, perpetuando barreiras que deveriam ser destruídas.

Nos séculos passados, a humanidade fez progressos impressionantes em ciência e tecnologia. As inovações nos conectaram de maneira que nunca antes se viu. Contudo, essa mesma evolução parece despontar uma falência moral. A arte e a educação, potências para o desenvolvimento humano, são frequentemente ofuscadas pelo brilho da violência. O retrato atual é o de uma sociedade em que a empatia e o respeito pelo próximo parecem resquícios de um passado que não se revisitou.

E em meio a essa turbulência, as mulheres continuam a ser tratadas como objetos, corpos que, em muitas culturas, são vistos como prêmios em disputas, ou vítimas em circunstâncias que escandalizam os mais sensíveis. Em um mundo que deveria ser de igualdade, a misoginia ainda ressoa com força, como se houvesse um consenso silencioso de que suas vidas têm menor valor. Assistimos a atos brutais, discursos odiosos e uma cultura que perpetua a ideia de que é aceitável desumanizar a mulher. O que é mais chocante: o ato em si ou a indiferença que o rodeia?

As novas gerações erguem-se sob o peso desse legado de desamor e agressão. É desesperador pensar que, ao invés de estarmos moldando um futuro de paz, estamos semeando as sementes da discórdia e da intolerância. O mundo digital, que poderia ser uma plataforma de troca de ideias e construção de pontes, acaba se tornando um terreno fértil para o ódio e a divisão.

Entretanto, há uma esperança latente. Cada crise traz consigo uma oportunidade de reflexão e transformação. É possível que as vozes que clamam por paz e por equidade ganhem força em meio ao ruído ensurdecedor da violência. Educadores e artistas têm um papel fundamental na reconstrução do tecido social. É através da arte que podemos inspirar mudança, e por meio da educação que podemos abrir os olhos das futuras gerações, mostrando que um mundo baseado no respeito e na empatia é não apenas desejável, mas possível.

A verdadeira evolução não está apenas nas máquinas que criamos, mas na capacidade de nos entendermos e apoiarmos uns aos outros. A resistência à violência começa com pequenos atos de bondade, com diálogos abertos sobre as verdades que nos machucam e com um compromisso coletivo de construir um futuro que respeite a dignidade de todos.

Que possamos, então, ser agentes de mudança nesse cenário nebuloso, ampliando a luz em vez de alimentar a escuridão. Porque no fim, a verdadeira luta é aquela que travamos no interior de nós mesmos. A guerra que queremos vencer não é contra um inimigo distante, mas contra os preconceitos e as barreiras que nos afastam um dos outros. Se de fato quisermos um amanhã, cabe a nós plantarmos as sementes dessa revolução silenciosa e poderosa.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
Imagem criada com IA Microsoft Bing 

Aparecido Raimundo de Souza (O morto no caixão)


DE VEZ EM QUANDO A GENTE precisa colocar em evidência a parte social da vida, ou seja, aquele eventual em que literalmente nos propomos a fazer, grosseiramente falando, um programa de índio, e por ser exatamente de índio, este nativo deverá literalmente surgir em cena paramentado, com tudo o que tem direito, como aldeia, arco, flecha, lança, tacape, a borduna, o chuço e etc, etc. 

Com este pensamento, bem cotidiano à flor da pele, fomos acompanhar o amigo Varíola Pegajoso que havia perdido um parente e os funerais do falecido se dariam logo cedo, numa bela manhã de um sábado radiante e apetitosamente convidativo à um banho de mar.

— Carretão — observou ele —, só vamos mesmo porque o cara era meu tio e acredito, minha tia ficaria deveras chateada se não me visse na hora do derradeiro adeus. 

— Fique tranquilo, Varíola. Os amigos são para os momentos bons e ruins. Saiba, desde sempre, estamos  junto nesta para o que der e vier.

— Tenho certeza que apesar do convite meio que esquisito — observou ele, a certa altura —, você irá gostar e quem sabe até se apaixonar ao ver uma prima minha, a Chiquinha do Catatau. Cara, um pedaço de mau  caminho!

Chegamos no ato fúnebre na hora exata em que o padre Bentão  celebrava a missa de corpo presente. 

A capela estava lotada, com gente saindo pelo ladrão —  ladrão não, esta expressão é, sem dúvida alguma, uma modalidade vulgar e chula de falar, claro. O certo, seria, como de fato soa melhor, ‘com gente saindo à francesa’. Pois bem! O povo dava uma escapulida básica usando uma porta discretamente estratégica que desembocava para uma lanchonete com as iguarias mais apetitosas para um cemitério tido como o eterno Jardim da Paz. 

Dona Canindé Formigão, esposa do ‘de cujus’, tia de Varíola Pegajoso, o rosto cerrado em transe, as vistas derramadas de tanto chorar, mostrava em meio às lágrimas, um par de olhos vermelhos como dois tomates recém colhidos. Apesar da desmedida dor que a consumia, eles não deixavam de revelar o fulgor da sua juventude. 

A triste senhora se fazia acompanhar de familiares próximos, entre os quais, Jericó, seu filho mais novo e, ao lado dele, um pedacinho engalanado de um aconchegante futuro promissor vestido numa saia azul celeste, com todos os tropeços que a vida ofereceria a quem tivesse a sorte e o prazer de cair nas graças daquela beldade. 

De fato, neste ponto, o Varíola Pegajoso não medira esforços para descrever a belíssima prima Chiquinha do Catatau. A  exuberante fazia jus à fama que o meu amigo houvera feito de seu conjunto dos caracteres exteriores, figura extraordinariamente admirável e pecaminosamente infernal. Nos aproximamos a ponto de (à certa altura) nos juntarmos aos aparentados, quase a tropeçarmos na bela Chiquinha Catatau. 

O sacerdote, tecia comentários elogiosos sobre  o falecido e, exatamente naquele momento de nossa chegada, ele apregoava, à alta voz,  o seguinte: 

— Estamos diante de um grande homem, dono de um coração magnífico, excelente pai de família, bom marido, católico incondicional, amigo de todas as horas, vizinho exemplar e colaborador assíduo da nossa humilde paróquia. A isto, acrescentaríamos um primoroso trabalhador ‘pau pra toda obra’ e  sindioso cumpridor de seus deveres... 

Foi nesta sequência da esparramação dos elogios, que a viúva  cutucou Jericó num cochicho vapt vupt. Toda a igreja, ainda que não quisesse, captou e fez escancarar as bocas cheias de dentes (e as banguelas também) irmanadas num Oh! retumbante e espantado, doido e único, ao tempo em a cônjuge soltou o que parecia estar engasgado em sua garganta:

— Jericozinho, meu filho se aproxime ali do caixão de seu pai, discretamente... 

E completou, sem mais delongas:

— Veja, estou pra lá de aperreada. Perceba, minha agonia. Confesso a você, com todo este rol  de mesuras e rasgação de sedas que o padre Bentão está trazendo à baila... 

— Mas por que isto agora, mamãe?

— Filho meu, com toda certeza, quero crer estamos todos aqui velando o defunto errado.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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Afrânio Peixoto (Trovas Populares Brasileiras) – 1

Atenção: Na época da publicação deste livro (1919), ainda não havia a normalização da trova para rimar o 1. com o 3. Verso, sendo obrigatório apenas o 2. Com o 4. São trovas populares coletadas por Afrânio Peixoto.

Alguém te chamou de feia
e te puseste a chorar…
O agrado supre tudo
bela — é quem sabe agradar.
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De muita gente que existe
e que julgamos ditosa,
toda a ventura consiste
em parecer venturosa.
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Dês a ponta do dedo,
que eles desejam a mão;
se vai a mão, vai-se o braço,
vai-se o peito e o coração.
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Dizem que a fortuna é cega,
é mentira, ela vê bem...
Dá milhões a quem tem muito,
a quem não tem, nem vintém.
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Menina bonita ou feia,
tudo tem sua procura:
Amor não enjeita nada,
porque tudo é criatura.
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Ninguém se julgue feliz,
inda tendo bom estado,
às vezes tirana sorte
faz dum feliz, desgraçado.
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O mal dos outros faz pena,
só o nosso faz cuidado.
Não se aprende com os outros
a ser menos desgraçado.
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Quem dá o seu coração
àquele que não conhece,
por muitas penas que passe
dobradas penas merece.
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Quem tiver o seu segredo,
não conte à mulher casada,
que a mulher conta ao marido,
e o marido ao camarada.
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Não se mostra o possuído
para não ser cobiçado;
Dinheiro ou mulher à vista
falta pouco pra roubado.
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Não há vantagem no mundo
que não tenha o seu senão;
Nunca vi rapaz bonito
que não fosse paspalhão.
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Meu amor está mal comigo
eu não sei por que motivo;
Que me importa, lá se venha,
não é de amores que eu vivo.
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Quem corre nem sempre alcança,
nem vence por madrugar.
Quem quiser chegar a tempo
ande firme e devagar.
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Vê o que dizes: tu passas
de livre a preso, num’ hora:
Palavra guardada é escrava
palavra solta é senhora.
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Hoje, Sancho é muito bom,
amanhã, Sancho é ruim...
Já fica sendo um demônio,
quem ontem foi serafim.
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Os tolos pensam que regras
ao mundo vieram dar;
Vão ver que pra ter juízo
na caneca hão de apanhar.
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Eu quero dar um conselho
a quem o quiser tomar,
quem quiser viver no mundo
há de ouvir, ver e calar.
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Quem muito alto quer subir
sem ter asas para voar,
as nuvens já estão se rindo
da queda que ele há de dar.
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Minha gente, venham ver
coisa que nunca se viu:
O tição brigou com a brasa
e a panelinha caiu!
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Eu quero a minha malícia
tal e qual se eu mesmo visse;
eu nunca maliciei
que certo não me saísse,
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Como o sereno da noite
procura o seio da flor,
assim minha alma amorosa
suspira por teu amor.
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Menina da saia verde,
de verde cor de esperança,
teus desdéns não me amotinam,
quem espera sempre alcança.
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JÚLIO AFRÂNIO PEIXOTO nasceu em Lençóis, na Bahia, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1947. Foi um polímata brasileiro, destacando-se como médico legista, político, professor e um dos grandes nomes da literatura nacional. Formou-se em Medicina em Salvador em 1897. Sua tese, "Epilepsia e Crime", ganhou reconhecimento internacional. Foi professor de Medicina Legal na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Romancista e ensaísta influente, ocupando a Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras a partir de 1910. Suas obras literárias frequentemente retratavam os cenários do interior baiano. Atuou como Deputado Federal pela Bahia entre 1924 e 1930, focando em temas como saúde pública e educação.

Fonte:
Afrânio Peixoto (seleção). Trovas populares brasileiras. RJ: Francisco Alves, 1919.