A LINHA DO CORAÇÃO
Alguém leu, anos atrás,
a palma de minha mão,
e disse, entre outras coisas,
com muita admiração:
"Como é nítida e perfeita
a linha do Coração!..."
Os anos foram correndo...
Muita gente foi subindo…
Muita gente enriquecendo...
E eu sempre pobre e humilde,
fui vivendo... fui vivendo...
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CARTA
à Sebastiana (menina às vésperas de sair de um Abrigo)
Muito em breve partirás,
minha alegre Sebastiana!
Sei que contas dia a dia,
e semana por semana...
E se alegre sempre foste,
tão vivaz e tão contente,
agora então teu olhar
tem um brilho diferente!
Mas ouve aqui um conselho,
— teu amigo não te engana,
modera tua alegria,
minha alegre Sebastiana!
Bem sei que anseias partir...
Queres conhecer a Vida...
Por isso, ansiosa, só pensas
agora em tua partida.
— Partir para ver o Mundo...
Ser feliz... ter liberdade...
Descobrir o cobiçado
País da Felicidade!...
Mas ouve aqui um conselho,
— teu amigo não te engana, —
modera tua alegria,
minha alegre Sebastiana!
Há muitos anos já vives
neste acolhedor Abrigo,
e sei que me consideras
um sincero e bom amigo.
És tão ingênua, tão boa,
nada conheces do Mundo,
e julgas que vais achar
um paraíso profundo…
Mas ouve aqui um conselho,
— teu amigo não te engana, —
modera tua alegria,
minha alegre Sebastiana!
Não julgues um Paraíso,
a Vida... o Mundo cá fora!
Há muito lábio sem riso...
Há muita gente que chora...
E até mesmo as alegrias
que tu pensas que se alcança,
vais ver depois: são menores,
que os teus sonhos de criança...
Mas ouve aqui um conselho,
— teu amigo não te engana, –
modera tua alegria,
minha alegre Sebastiana!
Meus versos tristes perdoa,
são versos de despedida;
guarda-os bem para lembrares
da tua infância querida...
Não percas jamais teu riso,
nem na luta mais insana!
Que a Vida te seja leve...
Sê feliz, Sebastiana!
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CREPÚSCULO
Não tem de todo ainda a chama fria,
o seu olhar que tanto ardia outrora...
Mas aquele esplendor que nele havia,
serenamente, e aos poucos, vai se embora...
Nota-se ainda traços de Alegria
nos seus ares tão sérios de senhora,
como raios de sol em agonia,
numa Tarde que, lenta, se descora...
Tem o viço da flor em plena vida!
Mas amanhã talvez (ninguém garante!...)
que não tombe do caule, fenecida...
E assim se vê, num tom ainda incerto:
— sinais da Juventude já distante
e traços da velhice que vem perto!...
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INFELIZES…
Certas vidas eu conheço,
que entre tristezas e prantos,
têm sempre um feliz momento…
– E há vidas que são marcadas
por tão constante tormento,
que eu julgo só conhecerem
neste Mundo o Sofrimento…
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TARDE DEMAIS…
(Para o Dr. Cid Cardoso)
Ela passou por minha vida um dia...
E amou-me muito como mais ninguém!
Tinha a beleza olímpica, sadia,
e uma alma pura e esplêndida também!
Que afinidade entre nós dois havia!
E ao seu lado sentia-me tão bem!
Do ideal que se sonha, parecia
ter mais ainda que o ideal contém…
Por minha culpa demorou-se pouco…
Vi-a partir, indiferente e louco,
sem dar-lhe um beijo ou um adeus sequer.
E agora… muito tempo já passado,
eu sofro pelo mal de ter amado
tão tardiamente assim esta mulher!…
Fonte:
Luiz Otávio. Um coração em ternura…: poesias. RJ: Irmãos Pongetti, 1947.
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