sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Minha Estante de Livros (Cenas, de Cecy Barbosa Campos)


Segundo Ilma de Castro Barros e Salgado, doutora em Literatura Comparada da UERJ (contra-capa), a presente obra - Cenas - foi a estreia de Cecy Barbosa Campos no publicação de poesias. Além da acuidade linguística, marcante em obras anteriores, o leitor depara com a sensibilidade poética do autora, sinalizada por sua cosmovisâo. A semântica de Cenas se confirma nos vários recortes que o autora apresenta de sua leitura do mundo. São temas que evocam a memória coletiva, a transcendência, a natureza, a globolização. Nâo é um livro para se ler uma única vez. Sua profunda variação temática levará o leitor a selecionar aqueles poemas que serão, certamente, inúmeras vezes, relidos, pelo encantamento literário que os mesmos lhe provocarão.

Marisa Timponi e Leila Barbosa (Escritoras, Pesquisadoras da História Literária de Juiz de Fora), apresentam o livro em "As Cenas de Cecy":

Cena (do latim scena, -ae: lugar sombreado) foi o espaço selecionado, entendido e aceito pela autora para se posicionar frente às passagens da vida, pois "aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir" (G.K. Chesterton). E a expansão se deu em trama, em aparato, por meio da linguagem.

A palavra se autossignifica na passagem para o jogo literário, já que se coloca em  espetáculo, ao entrar em cena. O poeta/ator tece, engendra, lima, torce, retorce, escolhe, risca e arrisca o texto, fertilizado pela imaginação que cria. A fecundação, etimologicamente, é derivada do termo latino fecundatio, proveniente do verbo fecundare, que significa "fertilizar". E a fertilização acontece nos poemas de Cenas entre "fogo ardente" e "broto hesitante", entre "semem" e "útero", ao proteger o líquido amniótico que jorra do talento, do mais ver para além do sentido dicionarizado dos nomes e coisas. Faz surgir a "busca inútil" da ausência ou da "não presença", das tentativas vãs, entremeadas de um "amor despudorado" que desabafa, em um "amplexo caloroso": "Porque é, em meu coração, que estás presente".

Para Roland Barthes, "a literatura não permite caminhar, mas permite respirar." (...) e "como Liberdade, a escrita não é mais que um momento. Mas esse momento é um dos mais explícitos da História, visto que a História é sempre e antes de tudo uma escolha e os limites dessa escolha". E Cecy aproveitou o momento, chegou ao limite e respirou. Respirou uma vida plena de cenas de histórias que emocionam, que encantam: foi da cena que desponta no horizonte matinal, marcada pela passagem da cena crepuscular de "amantes fugitivas", até a chegada da "Cena final", com as "molduras vazias de meu porta-retrato", escolhidas como aceitação do mundo, muito menos sofridas do que as saudades que nos chegam pela sensualidade insinuante, aquecida na vida que explode:

"O sol se achegava para tornar mais tórrida a paixão".

Há um corte na "Cena melancólica" que elege a perda como condutora da vida, com uma constelação linguística de semas da ananqué (falta): "o que resta de mim", "sonhos antigos que se tornaram passado", "a chama da vela/ que se esvai dentro de mim". É o Thanatos entremeado na existência que se anuncia na conclusão: "fragmentos de um ser que quase não é". É o nada que resulta do mal-estar da civilização...

Mas, no entremeio do trajeto, as cenas se alternam: em "Cena muda", a troca do sorriso substitui o desafeto de não ter o que dizer; na "Cena natalina", entra, no espaço da alegria, o desaponto de não se comemorar o aniversariante do Natal; na "Cena transitória", há a apologia ao tempo que passa, ao tudo que muda na transitoriedade da vida; na "Cena triste", os sonhos "harmonizam os tons na desarmonia da vida".

Como é mais importante a viagem do que a partida ou a chegada, as cenas continuam e Eros entra no palco, desenrolando os atos que se abrem e se fecham nas variações das "Palavras", "Partidas", "Indagações" e outros diálogos com o leitor que pode ler a existência e se ler nos entretextos e entrecenas da poesia das Cenas de Cecy Barbosa: uma alma lúcido-lírica-precisa que retrata o existir no espetáculo e no trânsito da vida.
Juiz de Fora, out. 2010

Abaixo, 2 poemas do livro de Cecy:

ÁLBUM

Desfolhando o velho álbum de retratos
que jazia abandonado em alguma prateleira,
relembrei pessoas que estavam esquecidas
e não reconheci imagens que eram minhas.
O tom amarelado esmaecia
sorrisos jovens que ficaram tristes;
tirava o viço de vidas tão distantes
e que um dia foram parte da minha vida.
Entre as velhas amizades retratadas
revi amigos dos quais eu lembro os nomes
e outros, dos quais mais nada resta
porque ficaram perdidos pelo tempo.
Ao contemplar aquelas fotos desbotadas
vou rejuntando, aos poucos, os pedaços
de uma história que nem sei se já vivi.
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ANGÚSTIA

Fome que devora as minhas entranhas
e anestesia os meus sentidos.
Fome que me deixa insone,
de olhos abertos, esbugalhados,
cheios de sonhos amaldiçoados.
Fome que me angustia,
que me faz carente e triste,
saudosa de antiga alegria.
Fome que se apodera
de minhas lembranças e de minhas quimeras.
Fome que me sufoca com seu abraço
de braços vazios, inconsistentes.
Fome do amor perdido
que não me abandona
mas não me alimenta.
Fome que me acompanha
e me faz morrer
a cada dia, a cada instante.
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Sobre a autora (Contra-capa)

Cecy Barbosa Campos nasceu em Juiz de Fora-MG. Possui graduação em Direito e Letras (UFJF), especializaçâo em Teoria Literária, Mestrado em Teoria Literária (UFJF) e diversos cursos de Aperfeiçoamento em Ingiês em diferentes Centros de Língua, nos Estados Unidos e na Inglaterra, formaram o perfil acadêmico desta brilhante professora-pesquisadora de Língua e Literaturas de Língua Inglesa na UFJF, onde se aposentou em 1991, e no Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. A esses estudos, acrescente-se a pesquisa que desenvolve sobre escritores afro-descendentes.

Sua participação em diversas associações culturais, comissões julgadoras, Congressos nacionais e internacionais e encontros literários. Tem artigos de pesquisa literária pulicados em revistas especializadas e anais de congressos e trabalhos em prosa verso premiados em concursos de várias academias tais como: Academia Pontagrossense de Letras, a Academia Dorense de Letras, a Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro, o Ateneu Angrense de Letras e Artes e outras.

Pertence, entre outros associações culturais, à Academia Juizforana de Letras,  à Academia Granbervense de Letras, Artes e Ciências, à Academia Rio Pombense de Letras, Cíências e Artes, à Academia de letras Rio - Cidade Moravilhosa, à Academia de Letras do Brasil - Mariana e ao Conselho de Amigos do Museu Mariano Procópio.

Autora dos livros, tais como : The iceman cometh: a carnavalização na tragédia (2000); O reverso do mito e outros ensaios (2002) e Recortes de vida (2009) - e do capítulo A poética de Conceição Evaristo, que compõe o livro, organizado por Edimílson de Almeida Pereira, Um tigre na floresta de signos: estudos sobre poesia e demandas sociais no Brasil (2010).


Fonte:
Cecy Barbosa Campos. Cenas. Juiz de Fora/MG: Editar Editora Associada, 2010.
Livro enviado pela autora.

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