terça-feira, 10 de maio de 2022

Malba Tahan (O estratagema de Takla)


Conta primeiro os teus inimigos e poderás calcular, depois, as tuas inquietações.
Al-Harini (1054-1122)


Corria o terceiro mês do ano de 698. Na velha cidade de Damasco vivia, nesse tempo, um homem de meia-idade, de ar retraído e modesto, que se chamava Mosab Ali Hosbã. A vida de Mosab, acorrentada à pobreza e à vulgaridade, retalhada pelos desenganos, muito longe estava de ser considerada feliz. Quando moço, em Medina (sua cidade natal), exercera a árdua profissão de falcoeiro e fizera-se muito destro na falcoaria.

Três vezes viajara pelo Iraque, e tendo ido, em caravana de peregrinos, até a Pérsia, a convite de um príncipe caçador, aprendera contas, cálculos, geometria e todos os estranhos segredos da astrologia, com dois sábios sacerdotes de Khorassã. Em consequência de uma queda desastrada (durante uma caçada no Iêmen), o falcoeiro Mosab ficou capenga. Impossibilitado de continuar em trabalhos de falcoaria, vendeu sua rica falcoada e mudou-se para Damasco, altamente prestigiada em todo o Oriente por ser a capital do califado.

Sob o céu damasceno conheceu Mosab a jovem Takla, filha de Mekoul (o escriba), com a qual se casou. A profissão adotada por Mosab, em Damasco, não era das mais rendosas. Impelido por gênio simplório e acanhado, fizera-se talebe, isto é, professor. O seu feitio calmo e paciente tornara-o muito estimado. Ensinava cálculos, música, astrologia e noções de geometria. As lições eram mal pagas e, com o minguado salário que recebia, mal podia Mosab manter Takla, sua esposa, e Laila, sua filha. É bem verdade que Takla, diligente e hábil, colaborava para a economia do lar, bordando pequenos tapetes com legendas do Alcorão. Esses tapetes (chamados “os tapetes de Takla”), enriquecidos com figuras geométricas, eram vendidos aos ricos damascenos e aos mercadores de Alepo.

Ora, aconteceu — Maktub!* — que certa manhã (como de costume) preparava-se o bom talebe para sair (já se achava, aliás, na porta de sua casa) quando dele se acercou um desconhecido de turbante claro e albornoz de seda. Tinha a fisionomia de um adolescente e os seus olhos eram claros. Presa à cintura, uma adaga finíssima, ornada de cornalinas. Trocadas as saudações habituais, disse o visitante do albornoz de seda, com ar compenetrado:

— Chamo-me Nhamã Yaussef, e sou um dos oficiais do califa. Venho procurá-lo por ordem expressa do nosso glorioso soberano Abd al-Malik bin Marwan, emir dos árabes. O rei deseja receber, em audiência, o talebe Mosab Ali Hosbã. É urgente!

O frio da palidez cobriu o rosto de Mosab. O rei mandava-o chamar? Exprimiria aquele espantoso e inesperado convite uma honra excepcional. Aparecia com o esplendor lendário de um tapete mágico capaz de arrancar o talebe da realidade triste da vida e levá-lo ao país encantado dos sonhos.

Mosab tremia, emocionado. Que poderia prever de tudo aquilo? Sentiu gotas de suor riscando arabescos em sua testa.

— Permiti, nobre capitão — gaguejou, arredondando os olhos de espanto —, que eu possa me vestir com mais apuro! Não seria correto aparecer em trajes tão rudes na presença do nosso incomparável emir. Voltarei dentro de poucos instantes.

E Mosab, no nervosismo em que se achava, deixou o oficial do califa na porta e correu para os aposentos internos de sua casa.

— Takla! — gritou ele, já no harém, chamando a esposa. — Quero o meu turbante novo e os meus trajes de festa! O rei quer falar comigo!

— Falar contigo? O rei? — duvidou Takla, com desabrimento, receosa de que o marido, envenenado pelas complicações geométricas e astrológicas, tivesse perdido a luz da razão.

— Sim — confirmou Mosab. — Apressa-te, mulher! Vai o califa receber-me, agora mesmo, em audiência especial. Não é sonho, nem delírio! Um capitão da guarda está à minha espera, na porta. Que será?

— Sim, que será?

A dúvida, numa inquietação sem limites, cintilava nos olhos negros e expressivos de Takla.

E, quando Mosab vestia seus trajes mais novos, enfiava a djallaba* mais fina e enrolava na cabeça vistoso turbante cinza, tentava adivinhar a razão daquele honroso chamado.

— Desejará o rei colher alguma informação sobre astrologia? — arriscou Mosab, ansioso por ouvir a opinião da esposa.

Takla não aceitava esse palpite. Nada de astrologia. O ambicioso Abd alMalik, filho de Marwan, não olhava para as estrelas do céu, nem acreditava nos adivinhos da Terra. Recebera, certamente, algum documento secreto da Pérsia e queria que Mosab (apontado como verdadeiro Koodjha) traduzisse as letras e revelasse o segredo. Era isso, com certeza, e nada mais, Inch’ allah!*

O fato é que Mosab Ali Hosbã, o talebe medinense, sempre capengando, com todas as inquietações da incerteza, foi levado à presença do grande monarca Abd al-Malik, filho de Marwan, comendador dos crentes. Os nobres muçulmanos que viram o talebe atravessar, com passos arrancados, os amplos e luxuosos salões do palácio, indagavam entre cochichos e sorrisos desdenhosos:

— Que pretenderá o rei ouvir desse astrólogo da perna torta?

A verdade do caso não transpareceu, pois a audiência, por determinação do califa, foi cercada do maior sigilo. No divã ficaram, apenas, o emir dos árabes, o prestigioso Abd al-Malik, e o talebe Mosab, seu convidado. Todos os secretários, guardas e servos se retiraram.

Depois de convidar o astrólogo a sentar-se a seu lado (pondo-lhe democraticamente a mão espalmada sobre o ombro), o rei assim falou, sem preâmbulos, em tom amistoso:

— Tenho recebido de ti, ó talebe, ótimas e fidedignas informações. Latif, minha atual favorita, amiga de tua esposa Takla, falou-me várias vezes, com muito interesse, a teu respeito. E estou resolvido (para agradar à sedutora Latif) a nomear-te para o cargo de grão-vizir.

— Grão-vizir? — repetiu Mosab, a alma arrastada por um simum de espanto. — Grão-vizir?

— Exatamente — confirmou o califa, com absoluta naturalidade, anediando a barba. — Quero que exerças as funções de chefe do meu governo. És um homem pobre, bem sei, mas honesto e trabalhador. Conheces os altos segredos da geometria de Euclides e da astrologia; sabes fazer as contas mais complicadas com os números. Escreves com facilidade e correção. Estou certo de que poderás desenhar, a qualquer momento, a marcha dos sete planetas pelo céu. Informaram-me, também, da tua impecável lealdade. Ninguém põe em dúvida a tua sabedoria naquilo que diz respeito ao Livro de Alá. Julgo-te, portanto, perfeitamente capaz de controlar os meus vizires, vigiar as despesas do tesouro e dirigir a administração do califado.

Vivia Mosab o momento culminante de sua vida; sentia-se estonteado, quase vertiginoso; batia-lhe descompassadamente o coração; procurava dominar-se e ouvir com o máximo respeito as palavras do rei.

O califa, reclinando-se sobre as largas almofadas, olhos semicerrados, enclavinhando os dedos, prosseguiu:

— Só poderei, entretanto, lavrar a tua nomeação depois que tiveres respondido a duas perguntas muito sérias que vou formular a teu respeito.

— Aguardo a vossa inquirição, ó comendador dos crentes! — acudiu Mosab, com lenta mesura, sinceramente emocionado. — Direi a verdade, quaisquer que sejam as consequências. Iallah!*

— Está bem — retorquiu Abd al-Malik num olhar vago. — Sinto-me confortado com a segurança de tua palavra. A primeira pergunta (a mais simples talvez) é a seguinte: Tens amigos entre os damascenos?

— Ora, ora, por Alá! — respondeu Mosab com um sorriso de intenso orgulho. — Tenho amigos, e bons amigos, por toda parte. Desde a mesquita até o mercado. Entre ricos e pobres, sábios e ignorantes, conto com centenas e centenas de legítimos e verdadeiros amigos! Ainda ontem, ao cair da tarde…

— Muito bem — acudiu o rei, interrompendo-o, naqueles rodeios, com bom humor. — As boas amizades formam os alicerces da verdadeira felicidade. Já ouvi, de um poeta do deserto, esta sentença: “Se os amigos me fugirem, é bem certo, de mim fugirão todos os tesouros.” Passemos, agora, à segunda pergunta, que reputo muito grave: Tens, meu caro talebe, inimigos entre os muçulmanos?

— Oh, não! — protestou Mosab, com veemência, esforçando-se por ser claro e decidido. — Desconheço o que seja um desafeto. Inimigos? Creio que nunca os tive. Esforço-me por desfazer as intrigas, os mal-entendidos; não me incomodo com os mexericos e sou surdo às insinuações malévolas. Tenho, por norma, esquecer as ofensas e perdoar as injúrias. Assim procedendo, transformo as malquerenças em afeições; os ódios, em indiferenças; as aversões, em estimas. Eis a minha confissão: não tenho inimigos, ó rei do tempo!

— Se assim é — declarou, sem detença, com reprovadora frieza, o califa —, lamento muito, mas não poderás ser nomeado grão-vizir. Seria realmente absurdo que o chefe do meu governo, o primeiro-ministro do Islã, fosse um homem neutro na vida, sem o menor traço de caráter, destituído de qualquer paixão política, sem fibra, sem partido, aviltado pela fraqueza, falho de sentimentos. Todo aquele que possui uma parcela diminuta de personalidade vê logo aparecer, a seu lado, a sombra tortuosa de um inimigo.

E como o bom e ingênuo talebe, olhos em terra, se mostrasse sucumbido diante daquele inesperado desfecho, o califa retornou, num gesto largo, indefinido, tornando-se taciturno:

— Observa, ilustre Mosab, o meu caso, por exemplo. Sou o rei, o sucessor de Marwan, o glorioso (que o Eterno o tenha em sua paz!). Pois bem, tenho inimigos cruéis, impiedosos, dentro e fora das terras árabes! Mas vamos adiante: Maomé, o Clarividente Profeta, o Enviado de Deus, teve inimigos rancorosos, muitos dos quais tentaram, por todos os meios e com todas as armas, arruiná-lo, vencê-lo e matá-lo! Mais ainda: Alá, que é Único, Onipotente, Misericordioso, também não está isento de inimigos. Que são os ateus e os hereges, senão inimigos irreconciliáveis de Deus?

Não sabia Mosab disfarçar o desapontamento que o esmagava. Sentia-se perdido, aniquilado, naquela tempestade de objeções. Vendo-o triste e sucumbido, resolveu o rei, num gesto magnânimo, abrir a porta para novas esperanças. E disse-lhe:

— Não desisto, apesar de tudo, da ideia de aproveitar a cooperação de meu caro Mosab, de Medina, e por isso vou fazer, ao ilustre geômetra, especial concessão: dentro de 24 horas terás de arranjar, no mínimo, sete inimigos damascenos. Inimigos de verdade. Pessoas desejosas da tua desgraça. Espero-te amanhã, neste mesmo divã, depois da terceira prece. Habilita-te com sete inimigos e volta. Serás nomeado grão-vizir! Palavra de rei!

Ao retornar do palácio de Abd al-Malik, capengando pelas ruas estreitas e tortuosas de Damasco, sentia-se o bom Mosab confuso, estonteado, como um ébrio. Estivera a dois passos da glória, da riqueza, e tudo parecia fugir diante de seus olhos! Perdia aquela oportunidade rara, raríssima, de ser o grão-vizir de Damasco! E isso por quê? Porque era um homem simples, pacato, inofensivo, sem inimigos!

O califa exigira dele sete inimigos! Como fazer, em poucas horas, sete inimigos, ele, que em quarenta e cinco anos de vida, pelo Iraque e pela Pérsia, adestrando falcões pelo deserto, formulando horóscopos, não fizera nenhum?

Ao cruzar a rua dos Tecelões, ao lado da loja de Simão Mureb, avistou Mosab um velho aguadeiro, magro, esfarrapado, que puxava pela rédea de um burrinho. O homem repetia com voz dolente: “Água! Água fresca! Água da fonte!” Estranho pensamento assaltou o talebe. Para iniciar a conta dos sete (refletiu) vou agredir aquele miserável aguadeiro. Será fácil segurá-lo pelo ganzuz*; com dois ou três socos atiro-o no chão, espanto o burrinho, derramo a água… Arrependeu-se logo dessa ideia. A agressão seria, além de estúpida, covarde. Que culpa tinha o aguadeiro do fracasso de sua vida?

Mais acertado (prosseguiu Mosab em suas intempestivas reflexões) será procurar o xeque Ismahil Mukbel e fazê-lo sabedor das insinuações malévolas que circulam a respeito de sua primeira mulher, Rahif. O honrado Ismahil fará um escândalo. Os irmãos de Rahif ficarão furiosos. E ganharei, com a indiscrição, vários inimigos (quatro, cinco, talvez).

A lembrança da intriga sórdida repugnava-o. O xeque Ismahil era homem bom, cordato, sempre o acolhera com generosa amizade. Grande indignidade seria golpeá-lo daquele modo.

O mais prático (considerou Mosab, seguindo a trilha incerta de seus pensamentos) seria procurar os poetas Nacif, Zogaib e Amin (que se tinham na conta de talentosos) e declarar, sem rebuços, em voz alta, na presença de várias pessoas: “Os versos que vocês escrevem são tolices, baboseiras sem nexo, desconchavos sem métrica!” E feita essa crítica (verdadeira, aliás), a conta dos sete inimigos estaria iniciada com três nomes: Nacif, Zogaib, Amin… Ficariam faltando apenas quatro.

Essa extravagância, de criticar poetas, foi logo rejeitada. Mosab sentia-se bem em companhia dos poetas. Não o agradava ferir os homens de pensamento.

E, naquele entrechoque de pensamentos, entrou Mosab em sua casa, aturdido, desolado; esbarrava nas paredes; apoiava-se nos móveis como um bebedor de haxixe. Takla, sua esposa, correu ao seu encontro e interpelou-o, aflita. Por Alá! Que havia ocorrido no palácio? Que pretendia o califa? Por que voltava ele assim abatido, estonteado?

Narrou Mosab tudo o que ocorrera durante a audiência, e a fez ciente da exigência inominável do califa: ele, Mosab, seria nomeado grão-vizir se arranjasse (até a terceira prece do dia seguinte) sete inimigos, inimigos verdadeiros!

— Mas isto é facílimo — declarou Takla, alçando para ele os grandes olhos pretos. — Nada poderá impedir a tua nomeação. Os inimigos surgirão, às dúzias, pelas ruas, pelas praças, pelas mesquitas…

— Inimigos? — protestou Mosab, com recalcada melancolia, encolhendo tristemente os ombros. — Como arranjar sete inimigos no meio dessa gente simples, hospitaleira, que me acolhe com tanta simpatia?

— Deixa o caso por minha conta — tranquilizou-o Takla em tom de meia sinceridade, a abanar-se com seu grande leque. — Senta-te ali, naquela almofada, lê duas ou três suratas* do Livro, enquanto eu vou providenciar. A exigência do rei será atendida, hoje mesmo, de modo espetacular. Amanhã (queira Alá!) serás o grão-vizir!

Preparou Takla, em dois instantes, o narguilé do marido. Colocou o fumo, trocou a água e avivou a brasa. E, deixando tudo em ordem, afastou-se rápido e, ato contínuo, subiu para o terraço de sua casa.

Mosab, na inquietação em que se achava, não conseguia ler. As letras do Alcorão dançavam diante de seus olhos. As palavras de Alá confundiam-se em seu pensamento.

Ele, Mosab, o talebe medinense, chegaria ao triunfo supremo do grãoviziriato? Caminhando pelas veredas sem fim do pensamento, imaginava-se na corte damascena, ao lado do rei, revestido do manto de honra, recebendo homenagens dos xeques, dos nobres muçulmanos e dos oficiais. Elevado ao alto cargo de grão-vizir, deixaria aquela casa modesta, úmida e triste e iria viver em suntuoso palácio com pátios floridos e janelas abertas para o jardim: teria mais de vinte servos, escravos e auxiliares. Muitas festas poderia oferecer aos amigos e aos poetas. Festas com jantares e músicas. De quando em quando, uma cantora egípcia, uma dançarina cristã. Sua filha Laila seria pedida em casamento por um nobre, dono de cinco mil tamareiras. Ele, Mosab, o talebe, nomearia os cádis; designaria os funcionários; e por sua indicação seriam escolhidos os governadores. Os generais mais arrogantes viveriam a bajulá-lo. Teria, à sua disposição, verbas imensas; as gratificações só seriam pagas com o seu “visto”; o ouro incontável do Tesouro Público rolaria, dia e noite, por suas mãos.

E tudo isso perdido. A miragem desaparecia como se ele (pobre talebe!) fosse um beduíno perdido no deserto de Roba-el-Kali! Como engendrar, em poucas horas, sete inimigos?

— Que estás aí a malucar, a falar sozinho? — perguntou Takla, reaparecendo, risonha, na porta do harém. — Anima-te, meu marido! Já está tudo providenciado. Amanhã serás nomeado grão-vizir do califa Abd alMalik. Querias sete inimigos? Arranjei-te setecentos, sem sair deste bairro em que moramos!

— Por Alá, ó filha de meu tio! — exclamou Mosab, trêmulo de espanto e com inquietação na voz. — Que loucura foi essa? Ouvi teus passos quando subias para o terraço. Que fizeste aos nossos vizinhos?

— Tranquiliza-te — chalaceou Takla, com a maior fleuma, tendo nos lábios um riso superior. — Nada fiz que pudesse ferir o teu nome, ou macular a tua reputação de talebe. Chamei, apenas, as minhas amigas mais íntimas e disse-lhes a verdade: “Quero comunicar a todas que meu marido vai ser, amanhã, depois da audiência, nomeado grão-vizir do rei.” Todas elas estão bem a par das minhas relações com Latif, a favorita do califa. Sabem que Latif aprendeu a bordar comigo; os pratos saborosos que Latif prepara foram inventados por mim. Mas, mesmo assim, a surpresa foi geral. A formosa Rihana, esposa do teu amigo Hussein, não quis acreditar. Vi-me obrigada a jurar pelas barbas de Mafoma e pela felicidade de Laila. Oadad, sobrinha de Tufik Jaouad, rosnou furiosa: “O califa está louco! Como poderá um capenga exercer as funções de grão-vizir?” E sabes qual a observação de Jolikha, filha de Danho Murad? Disse apenas, com momices na voz: “Não dou sete dias de vida para o governo desse califa imbecil!”

— E Rahif? — indagou Mosab. — Qual foi a opinião da primeira esposa do xeque Ismahil Mukbel?

Takla sorriu novamente. Luzia-lhe nas pupilas um fulgor de intensa satisfação. Respondeu:

— A delicada Rahif, sempre de cabelos bem pintados, fitou-me com ironia e comentou com certo desfastio, fazendo uma careta enjoada: “Meu marido tinha razão. Esse califa não sabe escolher seus auxiliares.”

— Mas tudo isso, minha querida Takla — lamentou Mosab meio embaraçado, com nervosa firmeza —, nada significa para os nossos planos. Essas aleivosias assacadas por suas amigas perdem-se ao vento; ficarão sobre a areia da minha indiferença. E a situação para mim continua insolúvel: sem inimigos, impossibilitado de servir ao rei!

— Aí é que estás enganado — acudiu Takla, com certa excitação jubilosa. — O teu erro é completo. Essas quatro contarão a novidade a vinte ou trinta; essas vinte ou trinta transmitirão a notícia a mais de cem. De cem o salto será para mil. Todos os maridos serão devidamente informados do caso. Antes que o nurezin chame os fiéis para a prece da noite, mais de cinco mil damascenos estarão a par da escolha do novo grão-vizir. Cada um deles dirá, com surdo rancor: “Fui preterido pelo capenga!” Julgar-se-ão todos roubados, esbulhados, ludibriados. Trezentos invejosos ficarão, esta noite, remoendo as suas cruas decepções. O ódio, inspirado pela inveja, irá se aninhar no coração dos ambiciosos. E amanhã, ao soar da terceira prece, terás não sete, mas setecentos inimigos rancorosos em Damasco!

Ao cair da tarde, na hora em que o Sol rasava o horizonte, o talebe foi reconduzido ao divã do califa.

Abd al-Malik parecia aprazer-se com aquela visita; recebeu-o com simpatia e interpelou-o, risonho, com um leve traço de ironia na voz:

— Por Alá, ó talebe! Conseguiste, dentro do prazo, atingir a conta de sete, por mim fixada? Ou continuas com a vida livre das flechas da inimizade?

— Rei dos árabes! — arriscou timidamente Mosab, inclinando-se, respeitosamente. — Minha esposa Takla assegura que devo ter mais de setecentos inimigos nesta opulenta cidade de Damasco.

E o talebe relatou ao rei o estratagema de Takla e o resultado que obtivera reunindo as amigas (e só as mais íntimas) no terraço de sua casa.

— Ouahyat-en-nebi!* — exclamou o califa. — É então verdade que Takla, tua esposa, fez correr pela cidade, como certo, coisa resolvida, a notícia de tua nomeação? Só agora encontro justificativa para a estranha atitude de vários vizires e xeques durante a audiência desta manhã. Muitos deles fizeram, assinaladamente, péssimas referências ao teu nome e revelaram tremendas infâmias a teu respeito. O xeque Tufik Jaouad, que pretende governar o Iraque, chegou a insinuar que o meu amigo Mosab tem cúmplices no Egito, com os quais se corresponde em dialeto, revelando segredos do Estado; Hassen Rahmi, o jurista, contou-me que já viu o “talebe capenga, ex-falcoeiro” (a expressão é dele), preparando sortilégios para matar pessoas da família real. Assegurou-me o velho Ismahil Mukbel, em tom de chalaça, que não passas de um astrólogo ignorante e confuso. Ao ouvir aquelas acusações que sabia serem falsas, infames, caluniosas, disse de mim para comigo: “O talebe Mosab julga-se livre dos inimigos, mas, na realidade, tem mais inimigos em Damasco do que um ladrão de camelos.” Mas agora está tudo explicado. Creio estar bem a par do ocorrido. Todos esses rancorosos inimigos foram inspirados pela inveja, e surgiram, de ontem para hoje, graças ao estratagema de Takla.

Ao ouvir aquelas palavras, o bom Mosab rejubilou-se em seu íntimo. Inolvidável lição recebera de sua esposa. A inveja é a grande inspiradora de malquerenças, inimizades e ódios.

O califa Abd al-Malik, depois de refletir alguns momentos, declarou, aprumando-se severo e hirto entre as almofadas:

— Amanhã, sem falta, na presença dos xeques, com todas as honras, tomarás posse do cargo de grão-vizir. Espero, de hoje em diante, conduzir com mais eficiência os negócios públicos, e conto com tua sábia e judiciosa colaboração.

E rematou, com um olhar malicioso:

— Peço-te apenas uma coisa: quando tiveres qualquer dúvida sobre algum problema do califado, consulta a inteligente e prestimosa Takla. Feliz o marido que pode ser inspirado e esclarecido por uma boa esposa.
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* Notas:
Djallaba = espécie de túnica.
Ganzuz = raspada a cabeça do árabe, fica no alto um montículo de cabelos que é denominado ganzuz.
Iallah! = Por Deus! Exaltado seja Deus!
Inch’ allah! = expressão traduzida por: “Queira Deus!”
Maktub! = Estava escrito!
Ouahyat-en-nebi! = “Pela vida do Profeta!”
Suratas = são denominadas suratas os capítulos do Alcorão, em número de 114.


Fonte:
Malba Tahan. Novas Lendas Orientais. RJ: Record, 2013.

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