quarta-feira, 22 de abril de 2026

Asas da Poesia * 179 *


Trova de
RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013

Não há analista que explique
no enterro, à pobre viuvinha:
Bem maior que o seu chilique,
era o choro da vizinha !...
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Poema de
MIGUEL DE UNAMUNO
Bilbao/Espanha, 1864 - 1936, Salamanca/Espanha

Oração do Ateu

Ouve meu rogo, Deus que não existes,
em teu nada recolhe as minhas queixas.
Tu, que aos homens mais pobres nunca deixas
sem consolo de enganos. Não resistes
a nosso rogo, e ao nosso anseio assistes.
Quando da minha mente mais te afastas,
eu mais recordo essas palavras castas
com que embalou minha ama as noites tristes.
Que grande és tu, meu Deus! Tu és tão grande
que não passas de Ideia; e é tão estreita
a realidade mesmo que se expande
para abarcar-te. Sofro à tua espreita,
inexistente Deus. Pois se viveras
existiria eu também deveras.
(Tradução: Jorge de Sena)
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Aldravia de
FLÁVIA ROHDT
(Flavia Guiomar Ferreira da Silva Rohdt)
Anastácio/MS

cálice
na
boca
desejos
no
coração
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Soneto de
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Eu sou a esperança

E se tudo me parecer arruinado
E se me furtarem a perseverança
Se do orbe eu ficar desencaixado
Preciso crer, eu sou a esperança.

E se o caminho parecer tortuoso
Se lágrima cair da minha criança
Se o adulto de mim for orgulhoso
Preciso crer, eu sou a esperança.

Se a minha flor tende emurchecer
Se eu tropeçar na minha andança
Preciso crer, eu sou a esperança.

Em minha essência algo invisível
Devo empunha-lo e ter confiança
É minha fé, sou minha esperança.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Memória adormecida

A revolta corrói por dentro, intensa
no corpo cansado de reprimir
mastigam-se côdeas de desespero no resistir
no dizer não ao sobreviver de sentença
a liberdade atraiçoada em desumana condição
moldes em série de vontades amordaçadas
verdades construídas sobre mentiras subornadas
o cravo encimando espingardas é disforme ilusão
a ignomínia promessa já não cabe nesta hora
aviva as frias cinzas repletas da nossa história
corpo adormecido ergue pensamento d’outrora
onde a coragem encheu páginas de glória.
Acorda breve que o dia já demora
ó Corpo de Gente, adormecido na memória.
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TROVA POPULAR

Um suspiro de repente,
um certo mudar de cor,
são infalíveis sinais
de quem sofre o mal de amor.
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Soneto de
NEIDE ROCHA PORTUGAL
Bandeirantes/PR

Êxodo mental

Ficou distante a roça… E, com a venda,
entre a mobília que cortava a estrada
se avolumava o pó, em fina renda,
sobre a “senhora” reduzida ao nada.
.
Noutro lugar, levada à estranha tenda,
não mais se lembra nem da filharada.
Dessa memória, que hoje é pura lenda,
recordou-se de mim… E, na empreitada,
.
tentei trazer à luz essa memória;
reconstruir a “ordem” nessa história,
sem entender por que me reproduz.
.
Do que é capaz um som?… Fiz o que pude:
– Sou a cantiga do sarilho rude
que traz o balde d’água para a luz! 
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Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

A saudade me consome
e as angústias são pesadas,
quando eu murmuro teu nome
e o vento... dá gargalhadas...
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Gonçalves Dias

O sabiá esvoaçante onde canta?
Aonde chega o alto-falante de seu canto?
Manto flamejante em forma de som
Que aos ouvidos somente encanta
Numa promessa de constante tempo bom
Sem a dor lacrimejante da solidão que espanta
Tornam-se afeitas as esperanças mais arredias
E vivo se nos apresenta o poeta Gonçalves Dias!
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Trova de
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Diz-se um machão da pesada,
valentão que dá no couro,
mas não passa sob escada,
com medo de mau agouro.
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Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

Estrela da manhã

Estrela da manhã que resplandece
no céu espiritual de minha vida,
vislumbro em seu olhar a mesma prece
que envolve ao longe a solitária ermida.

Brilha no azul. Porém quando escurece,
não passa de uma lágrima perdida
na imensidão da noite que aparece,
de estrelas fulgurantes, revestida.

E, levando meus sonhos noite afora,
eu posso vê-la ainda ao sol nascente,
quando as estrelas todas vão embora.

Pois só você, estrela entristecida,
não tem repouso e brilha suavemente
no céu espiritual de minha vida.
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Trova de
EMILIA PEÑALBA DE ALMEIDA ESTEVES
Porto/Portugal

Faz o bem sem ver a quem,
até às pessoas más,
porque o bem faz sempre bem,
Inclusive a quem o faz!...
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Glosa de
ANGELA STEFANELLI DE MORAES
Niterói/RJ

Doce guarida

MOTE:
Modifico a minha vida
quando fico a contemplar
esta estrada tão florida
e os pássaros a cantar.
Alda Corrêa Mendes Moreira 
(Niterói/RJ)

GLOSA:
Modifico a minha vida
quando admiro um jardim.
Sinto que tenho guarida
ao vislumbrar o jasmim.

Curo minh’alma ferida
quando fico a contemplar
a alegre margarida
tão doce a desabrochar.

Fico muito embevecida
ao olhar na primavera,
esta estrada tão florida
que me traz tanta quimera.

Admiro a majestade
deste cenário sem-par
que traz amabilidade
e os pássaros a cantar.
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Soneto de
PEDRO KILKERRY
(Pedro Militão Kilkerry)
Santo Antônio de Jesus/BA, 1885 – 1917, Salvador/BA

Taça

Aquela taça de metal que, um dia,
À Laura, um dia assim, lhe oferecera,
Entre relevos delicados de hera,
"Saudade" em letras de rubis trazia.

E era um riso de amor e de poesia
Em cada riso ou flor da primavera...
E Laura, a um canto, cruel, por que a esquecera,
Laura que soluçou, porque eu partia?

Anos derivam. De remorsos presa
Não é que vai, acaso, à soledade
Da abandonada... Vai por fantasia.

Mas, como um choro, vê, vê com surpresa,
Desmancharem-se as letras da "Saudade"
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Trova de
WANDA DE PAULA MOURTHÉ 
Belo Horizonte/MG

Sem temor, meu barco avança,
seja qual for a maré,
pois no mastro da esperança
iço a bandeira da fé. 
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Poema de
SAMUEL DA COSTA
Itajaí/SC

Segredar-te 

Queria eu falar-te 
Ao pé do ouvido! 
Chega aqui... 
Bem perto de mim! 
 
Não hoje! 
Nem agora! 
Nem nunca 
Pois o século se finda... 
Introspecto! 
E um novo se aproxima... 
Algo novo vem por ai 
Intrínseco! 
Extrínseco! 
Fugaz 
Um mundo novo 
 
Quero-te 
Quero-te agora 
Com todo o rigor! 
De quem vai à guerra!... 
Com toda a certeza 
Que não de voltar mais. 
 
Pois bem sei 
Não haverá... 
Um novo amanhã possível... 
Não para nós dois! 
Não tens futuro algum 
Ao meu lado! 
 
Pois o nosso século se finda... 
Introspecto! 
E um novo século inicia. 
Intrínseco! 
Extrínseco! 
Fugaz 
Amorfo 
Um mundo novo 
E artificial
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Triverso de
DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR

Aquela tigela
aquela faca
e uma bela jaca
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Décimas de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
(Francisco José Pessa de Andrades Reis)
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Excesso de Bagagem

Se promessas são dívidas ou não
Eis-me aqui, são e salvo neste frio,
Vindo do norte de um calor bravio
Para provar a minha gratidão.
Pus poesia no meu matulão*
Mandei o Haroldo** reservar passagem
Viemos juntos para esta viagem
Trazendo tanto, tanto, tanto amor
Que no check-in, acredite o senhor,
Foi registrado EXCESSO DE BAGAGEM.

Mas eu paguei feliz o tal imposto
E pagaria tudo uma outra vez
Só pelo fato de estar com vocês
E poder abraçá-los rosto a rosto.
Falar ao vivo tem um outro gosto 
Participar dessa camaradagem
Amizade fiel, sem maquiagem,
E de tanta afeição, tenho certeza
No check-in ao voltar pra Fortaleza,
Vou pagar outro EXCESSO DE BAGAGEM!
* * * * * * * * * * * * * * * * * *
* Matulão: Saco onde os retirantes nordestinos carregavam seus pertences.
** Haroldo a que o poeta se refere, é outro poeta, Haroldo Lyra.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Sofro junto a dor injusta
de que a Terra está repleta...
- Esse é o preço que me custa
a graça de ser poeta.
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Hino de 
VITÓRIA/ ES

Quero ver os capixabas
Vibrando, cantando esta canção,
Hino de glória à grandeza
Da Ilha de Vitória

 Vitória,
Da Vila Nova antiga
Onde o progresso tem vida
No porto que é Tubarão.

 A Vitória das vitórias
A terra feliz onde eu nasci,
Tem no Penedo bravura
E doçura em Camburi.

 Vitória,
Minha querida Vitória,
És a cidade presépio,
Orgulho do meu coração! (bis)

 De Anchieta a Monteiro,
Lutando, mostrando o teu brasão,
Viva o teu povo, Vitória,
Que não se entrega não!

 Vitória,
Se estou longe és saudade
Que o meu peito invade
E faz chorar de emoção.

 Hoje eu canto a minha terra,
Pedaço de céu do meu país.
Que Santo Antônio proteja
Essa terra tão feliz!

 Vitória,
Minha querida Vitória,
És a cidade presépio,
Orgulho do meu coração! (bis)
* * * * * * * * * * * * * * * * * *
Vitória: Um Hino de Orgulho e Tradição
O 'Hino de Vitória - ES' é uma celebração vibrante e emotiva da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. A letra exalta o orgulho dos capixabas, destacando a grandeza e a beleza da cidade. Desde o início, a música convida os habitantes a cantarem juntos, criando um senso de comunidade e pertencimento. A referência à 'Ilha de Vitória' ressalta a geografia única da cidade, que é uma ilha, e a sua importância histórica e cultural.

A canção faz uma viagem pelo tempo, mencionando a 'Vila Nova antiga' e o progresso representado pelo porto de Tubarão. Essa dualidade entre o passado e o presente é uma metáfora para a evolução e o desenvolvimento contínuo de Vitória. A letra também destaca pontos específicos da cidade, como o Penedo e a praia de Camburi, simbolizando a bravura e a doçura, respectivamente. Esses elementos geográficos e culturais são apresentados como parte da identidade de Vitória, reforçando o orgulho local.

O hino também evoca figuras históricas como Anchieta e Monteiro, que são símbolos de luta e resistência. A menção ao brasão da cidade e à proteção de Santo Antônio reforça a ideia de uma comunidade unida e protegida. A saudade mencionada na letra é um sentimento comum entre aqueles que estão longe de sua terra natal, e a música serve como um elo emocional que conecta os capixabas à sua cidade, independentemente de onde estejam. A repetição do estribilho enfatiza o amor e o orgulho que os habitantes sentem por Vitória, tornando o hino uma verdadeira declaração de amor à cidade.  https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/136793/significado.html 
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Poetrix de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

música

meu corpo canção
em acordes se afina
tocado por teus olhos
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Soneto de
JAIME CORTESÃO
Coimbra/Portugal, 1884 – 1960

Renascimento 

Nasci de novo. Eis-me liberto, enfim!
Foi por um Céu, de estrelas todo cheio,
Numa visão de Amor, que um Anjo veio
Descendo até pousar ao pé de mim.

O beijo que me deu não teve fim...,
Apertou-me nos braços contra o seio,
Abriu os lábios segredando..., e a meio
Bateu asas e levou-me assim.

Ai! como é doce o seio que me embala!
E como tudo é novo e mais profundo!...
Mas já não volta, ou, quando volta, é morto!

Noutro Mundo melhor eu vivo absorto,
E logo conheci que a esse Mundo
Quem vai não volta, ou, quando volta, é morto!!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O rato anacoreta

Das curvas unhas de terrível gato
Por milagre escapando-se ligeiro,
No atulhado armazém de um merceeiro
Foi asilo buscar pequeno rato.

Pilha de seis de fundo e vinte de alto
De queijos parmesões subia ao teto,
E atraído de cheiro tão seleto,
Lá trepa o fugitivo em salto e salto.

Num queijo que à parede mais se unia,
Lá começa a roer, e em pouco espaço
Um buraco enlapou, que nada escasso
Cubículo e sustento lhe exibia.

Ora dormindo, ora manducando,
Ali vive tranquilo e sem cuidado.
«Do mundo — diz — estou desenganado,
E quero ir minhas culpas expiando!»

Que me dizes, leitor, ao tal ratinho?
Assim vivendo à custa dos patetas,
Nesses conventos regalões roupetas
Da salvação procuram o caminho.
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Mensagem na garrafa 175 = O Banquete das Sombras


AUTOR ANÔNIMO

Há um tipo de pessoa que carrega o próprio inverno na mochila e se pergunta por que ninguém quer acampar ao seu lado. É gente que transformou o desabafo em profissão e a queixa em identidade. Para elas, o sol só nasce para castigar a pele e a chuva só cai para estragar o sapato.

O enredo é quase sempre o mesmo: "Minha família não me entende", "Meus filhos me abandonaram", "Meus amigos sumiram". O discurso vem banhado em um vitimismo confortável, uma espécie de cobertor de espinhos onde elas se deitam para provar ao mundo o quanto são mártires. O que elas não enxergam — ou se recusam a ver — é que ninguém suporta ser o para-raios de uma tempestade eterna.

A família, muitas vezes, não se afastou por falta de amor, mas por instinto de sobrevivência. Cansaram de oferecer o ombro e receber em troca apenas o veneno da amargura. Os amigos, aqueles que um dia foram portos seguros, começaram a inventar desculpas para não se corresponder. Não é falta de lealdade; é exaustão.

Até a paciência dos mais generosos tem prazo de validade. Existe um limite invisível onde o desejo de ajudar esbarra no muro da cegueira alheia. O amigo ouve, aconselha, estende a mão, anima, dá uma luz. Mas a pessoa negativa agarra-se à sua escuridão como se fosse um troféu. Ela não quer uma solução; ela quer uma plateia para a sua tragédia particular.

Com o tempo, o círculo se fecha. A sala fica vazia, o telefone silencia e as notificações desaparecem. E, em vez de olhar para o próprio comportamento e perceber que foi o seu hálito pessimista que murchou as flores ao redor, a pessoa se tranca no quarto, suspira e diz: "Viram? Eu sempre soube que ninguém se importava comigo." É a profecia autorrealizável da solidão.

Moral:
Quem planta apenas espinhos não pode reclamar de caminhar descalço; a convivência é um jardim que exige rega, e ninguém é obrigado a se afogar no mar de quem se recusa a aprender a nadar.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 158


Andava pelos caminhos dos dias quando uma voz quebrou cristais do silêncio indagando de onde se tira aquelas letrinhas que fazem as palavras surgirem na ponta da caneta.  

Não se tira, elas surgem. 

Vezes calminhas como aqueles pensares também serenos. Vezes aparecem bem ligeiras, abundantes, barulhando como o riacho que descamba da mata.

Em essência são todas iguais, humildes, prestativas, substantivas, necessárias para acomodar pensamentos.  São sinais gráficos que unimos para formar palavras com que nos comunicamos. 

Bem escreveu Guimarães Rosa que "as palavras são seres vivos, ligados à vida e à alma, devendo ela ser espelho da personalidade e estar em evolução constante, resgatando termos e estruturas, dando luz e significado à nossa língua, buscando-lhe luz onde ela pulsa".
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
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terça-feira, 21 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 10. A Cidade dos Sonhos


"Salam’aleikum"
(que a paz esteja convosco), meus incansáveis ouvintes. Aproximem-se, pois o que vou lhes contar agora exige que seus corações estejam abertos como as pétalas de um jasmim noturno. Eu, Mustafá, caminhei por areias que não guardam pegadas e vi cidades que os mapas dos homens, por puro medo, decidiram omitir.

"Bismillah" (Em nome de Deus), entremos nos domínios do invisível.

Diz a lenda que, no coração do deserto de Rub' al-Khali, existe uma cidade chamada Madinat al-Ahlam (a Cidade dos Sonhos). Ela não é feita de pedra e cal, mas de luz e memória. Dizem que suas torres são de marfim e suas cúpulas brilham como se o próprio sol tivesse decidido descansar nelas.

Muitos "musafirun" (viajantes) tentaram encontrá-la. Alguns voltaram loucos, outros nunca mais foram vistos. Mas houve um jovem, um pastor de camelos chamado Yusuf, que certa noite, sob o brilho de uma lua de prata, avistou os portões da cidade.

"Ya Allah" (Ó Deus), exclamou ele ao atravessar as portas. 

Dentro da cidade, não havia comércio, nem moedas, nem gritos. As pessoas caminhavam em paz, e as fontes jorravam uma água que curava toda a tristeza. Ali, o tempo não era um carrasco, mas um amigo. Yusuf sentiu-se em casa como nunca antes. 

"Ahlan wa Sahlan" (bem-vindo), disseram-lhe os habitantes, cujas vozes pareciam o som do vento nas palmeiras.

Porém, havia uma regra: ninguém poderia levar nada da cidade, nem mesmo uma pedra do chão. Quando o primeiro raio de sol tocou o horizonte, "Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), Yusuf sentiu o chão tremer. A cidade começou a desvanecer como a névoa matinal. Ele tentou agarrar um punhado de areia dourada de um jardim, mas quando abriu a mão, só havia poeira comum.

A cidade desaparecia ao amanhecer porque ela não pertencia ao mundo das posses, mas ao mundo das intenções. "Maktub" (está escrito): ela só se revela para quem não busca o lucro, mas o propósito. 

Yusuf passou o resto de seus dias contando o que viu, e embora muitos rissem, seus olhos mantinham o brilho de quem conheceu a eternidade em uma única noite.

A lição, meus caros, é que as coisas mais belas da vida são aquelas que não podemos guardar no bolso, apenas na alma. 

"Shukran" (obrigado) por compartilharem este silêncio comigo. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Washington Daniel Gorosito Pérez (Micro-contos)

(tradução do espanhol por Jfeldman)


O MILAGRE DA ÁGUA

Os agricultores, de pé em seus tristes e áridos terrenos, pintados de amarelo, desertos intermináveis, esperam...

Seus olhos estão fixos no céu, desejando romper as nuvens escuras, na esperança de que delas brotem o milagre da água.

A esperança brilha em seus olhos.

Chuvosos...

EM DEFESA DO GOL

Intelectuais desprezam estádios.

Ser torcedor é algo profundo, mesmo que seja apenas um jogo.

Provoca reações boas e ruins que nos levam além do racional, do conveniente, do esperado.

Ser torcedor vem desde o início dos tempos, e isso não é pouca coisa. Qualquer um que já tenha gritado um gol inesquecível, perdido na multidão nas arquibancadas, sabe que isso vem de uma essência misteriosa da humanidade, algo quase desumano.

E se o gol, Meritíssimo, é o orgasmo do futebol... é por isso que o matei.

Por perder o pênalti no último segundo, me deixando sem fôlego e me roubando o prazer de gritar Gooooool.
 
OSSOS

Os blocos de basalto parecem criaturas que se organizam com olhares silenciosos. São os ossos da terra. Os tremores são crises de febre reumática.

SILÊNCIO

Bocas que antes gritavam, agora silenciam sua dor. Buscam apenas descobrir do que é feito o silêncio.

OLHARES

O homem tornou-se o cego cósmico. Há milhões de olhos invisíveis que buscam piedosamente o olhar de outro ser humano que constantemente os evita.

Olhares que transmitem palavras isoladas. Olhares que emitem um verso, um poema, um livro inteiro.

Há um murmúrio de silêncio que alcança nossos olhos. Olhares reais transcendem o tempo real. O ciclope me observa.

HOMO TORCIDUS

O homem-caranguejo olha para você seriamente, sem piscar... Mas ele nunca se vira.

EU TE CONHEÇO

Sempre haverá alguém que pensa que te conhece melhor do que você mesmo.
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WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ nasceu em 24 de junho de 1961, em Montevidéu, Uruguai. Desde 1991, reside em Irapuato, Guanajuato, México. Naturalizado cidadão mexicano em 1999. É formado em Jornalismo aplicado às Mídias Sociais pelo Uruguai, possui bacharelado em Sociologia da Educação pelo México, mestrado em Sociologia da Educação pelo México e é doutorando em Pedagogia pelo México.

*Escritor, poeta, ensaísta, pesquisador, jornalista, palestrante e professor universitário. É autor da coluna "Encuentro con Gorosito" (Encontro com Gorosito), que aborda política internacional e temas culturais e é publicada em países das Américas e da Europa. É analista de informação e defesa internacional. Algumas de suas obras literárias e jornalísticas foram traduzidas e publicadas em inglês, russo, japonês, italiano, romeno e português. Recebeu prêmios de poesia, ensaio, conto e jornalismo no Uruguai, México, Brasil, Chile, Argentina, Estados Unidos, Espanha, França e Alemanha.

Fontes:
UyPress - Agencia Uruguaya de Noticias
https://www.uypress.net/Microcuentos/Microcuentos-Segunda-entrega-Autores-Varios--uc131820
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Dicas de Escrita (Qualidades e defeitos do texto)

AS QUALIDADES DO TEXTO

Não existem fórmulas mágicas para que uma pessoa se torne capaz de escrever bem. O exercício contínuo, aliado à prática da leitura de bons autores, e a reflexão são indispensáveis para a criação de textos.

São qualidades da redação que você deve cultivar: a concisão, a correção, a clareza e a elegância.

1. CONCISÃO 
Ser conciso significa que não devemos abusar das palavras para exprimir uma ideia. Deve-se ir direto ao assunto, não ficar "enrolando", "enchendo linguiça". Significa, enfim, eliminar tudo aquilo que é desnecessário.

2. CORREÇÃO 
A linguagem utilizada no texto deve estar de acordo com a norma culta, ou seja, deve obedecer aos princípios estabelecidos pela gramática.

Conhecer as normas que regem o uso da língua é fundamental para a produção de um texto correto. Evidentemente, a maioria das pessoas não conhece de cor as regras gramaticais. Por isso, em caso de dúvidas durante a produção de um texto, não hesite em consultar um bom livro de gramática e um bom dicionário.

Tome cuidados com alguns desvios de linguagem que podem aparecer no seu texto: grafia das palavras, flexão das palavras, concordância, regência, colocação dos pronomes, sinais de pontuação.

Evite erros grosseiros, como por exemplo "Lado outro" (não existe, o correto é por outro lado), Estes erros empobrecem o texto. Muito cuidado! Use um dicionário.

3. CLAREZA 
A clareza consiste na expressão da ideia de forma que possa ser rapidamente compreendida pelo leitor. Ser claro é ser coerente, não contradizer-se, não confundir o leitor.

São inimigos da clareza: a desobediência às normas da língua, os períodos longos, a paragrafação mal distribuída, o vocabulário rebuscado ou impreciso.

4. ELEGÂNCIA 
A elegância consiste numa leitura de texto agradável ao leitor. É conseguida quando se observam as qualidades que apontamos anteriormente (concisão, correção, clareza) e também pelo conteúdo do texto, que deve ser original, criativo.

Lembramos também que a elegância deve começar pela própria apresentação do texto. Deve apresentar-se limpo, legível. Após escrever seu texto, não deixe de fazer uma minuciosa revisão.

OS DEFEITOS DO TEXTO

1. AMBIGUIDADE 
ocorre ambiguidade (ou anfibologia) quando a frase apresenta mais de um sentido.

Ocorre geralmente por má pontuação ou mau emprego de palavras ou expressões.

Exemplo: João ficou com Mariana em sua casa. (casa do João ou da Mariana?)

2. OBSCURIDADE 
significa "falta de clareza". Vários motivos podem determinar a obscuridade de um texto: períodos excessivamente longos, linguagem rebuscada, má pontuação.

Observe:

Encontrar a mesma ideia vertida em expressões antigas mais claras, expressiva e elegantemente tem-me acontecido inúmeras vezes na minha prática longa, aturada e contínua do escrever depois de considerar necessária e insuprível uma locução nova por muito tempo.

3. PLEONASMO 
pleonasmo (ou redundância) consiste na repetição desnecessária de um termo.

Veja os exemplos:

a) A brisa matinal da manhã enchia-o de alegria.
b) Ele teve uma hemorragia de sangue.
c) Vi com meus próprios olhos.
d) Abracei-o com força com estes braços.
e) "Por que você compraria uma enciclopédia se pode ganhar uma grátis?" (propaganda da Enciclopédia Compacta – Revista ISTO É)

4. CACOFONIA 
a cacofonia (ou cacófato) consiste na produção de som desagradável pela união das sílabas finais de uma palavra com as iniciais de outra.

Veja os exemplos:

a) Nunca gaste dinheiro com bobagens.
b) Uma herdeira confisca gado em Goiás.
c) Estas ideias, como as concebo, são irrealizáveis.

5. ECO 
consiste na repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.

Observe os exemplos:

a) A decisão da eleição não causou comoção na população.
b) O aluno repetente mente repetidamente.

6. PROLIXIDADE 
consiste na utilização de mais palavras que o necessário para exprimir uma ideia. Ser prolixo é ficar "enrolando", "enchendo linguiça", não ir direto ao assunto.

O uso de cacoetes, expressões que não acrescentam nada ao texto, servindo tão somente para prolongar o discurso, também pode tornar um texto prolixo. Expressões do tipo: "antes de mais nada", "pelo contrário", "por outro lado", "por sua vez" são, muitas vezes, utilizadas só para prolongar o discurso.

Veja o seguinte exemplo:

Os jovens têm algo a transmitir aos mais velhos?

Antes de mais nada, não saberia responder com exatidão. Grosso modo,sempre uma eterna divergência entre as gerações. Os jovens pensam de um jeito, às vezes, estranho, que chega a escandalizar os mais velhos... Já os mais velhos, por outro lado, costumam, na maioria das vezes, achar que os mais jovens, em alguns casos, não têm absolutamente nada a transmitir aos mais idosos.

* Os termos em negrito sublinhados podem ser retirados do texto, que não comprometem o sentido.

Além dos defeitos que apontamos, procure evitar as frases feitas, os chavões, pois empobrecem muito o texto.

Veja alguns exemplos:

a) "inflação galopante"
b) "vitória esmagadora"
c) "esmagadora maioria"
d) "caixinha de surpresas"
e) "caloroso abraço"
f) "silêncio sepulcral"
g) "nos píncaros da glória"

Fontes:
Escola de Contas e Gestão do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro
https://www.tcerj.tc.br/portalecg/pagina/dica_n_18_qualidades_e_defeitos_do_texto
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Marília Trindade Barboza (Ao ventre da alma)


As fotos andavam escondidas, fora da vista, sumidas, para evitar lembranças, sofrimento, esperança. Pois foi só tocá-las e voltou tudo, memórias saídas do escuro, como pedras preciosas sobre negro veludo. Aliás, mesmo sem fotos, você volta. A verdade é que nunca se foi. Eu saio, ensaio; mudo de casa, crio asa; mudo de cidade, que maldade; mudo de país, não estou feliz. Só não mudo de você, por quê? Cansei de fingir que sou dura, que não sofro, que curei. Não vai passar, eu sei. Sou, para sempre, rainha de um só rei.

Sabe por quê? A capacidade de ser feliz que senti ao seu lado foi algo tão violento que é impossível esquecer... ou substituir. Fui tão completa, tão preenchida, tão total que chegava a doer. Não faltava nada, eu não queria mais nada além de respirar... você. Respirar o ar que você expirava, beber a água que você suava, comer... não, nem era preciso comer nada além da sua presença. Eu me alimentei de você.

Talvez tenha ido com sede demais ao pote. Antropofagia? Quem sabe? A capacidade de um sagitariano se arremessar sobre o que ama é absolutamente indescritível!!! Se arremessar da montanha, se jogar no espaço, virar bicho, virar ave, virar deus. Fazer milagre, beber vinagre e achar que é vinho. Que é champanhe francês!!!

Vivi ao seu lado o dia mais feliz da minha vida — meu Deus, quantos são os seres humanos que sabem qual foi o dia mais feliz de suas vidas? O dia em que eu quis morrer, pois sabia que nada haveria de mais importante e de profundo em minha existência do que aquele momento.

Estado de graça... como sei o que é isso!!! Chegar pertinho da morte. Mais um pouquinho, você vai, sucumbe, não resiste, o coração para. A felicidade plena pode ser letal. Naquele instante, naquela cidade, naquele quarto de hotel, soube claramente que o meu momento era aquele. E as realizações anteriores, que pareciam tão efetivas, tão integrais? Viraram pó! Na hora. Em silêncio, falei com Deus e pedi: “Senhor Deus, me mata agora, ou vou correr, o resto da vida, atrás desse momento”. Deus não me atendeu. Sobrevivi. E é o que faço, ainda hoje.

Enquanto durou, que entrega! Com totalidade. Feito mãe parideira, gente ou bicho (há diferença, quando se trata de mãe?) que, apesar do amor e do medo, abre as pernas e, aos gritos de dor e êxtase, joga o filho no mundo. Que nem peito materno que se entrega, sem lascívia, à boca da cria. Igual à ingênua freirinha que renuncia ao amor do homem e se oferece ao orgasmo divino. Ou como língua que, sensualmente gelada, continua se dando ao sorvete. Um ser se doando a outro sem qualquer restrição. “Toma, faz o que quiser. Usa e abusa. Pode até jogar fora. É tudo seu”.

A plenitude se desfez no éter, antes de se completar o ciclo. Fui colhida pela morte. Não a minha, não a sua. A morte da minha crença na nossa capacidade de ser feliz. O pé na terra. A falta de relacionamento entre a terra e o pé. Você se foi e me levou consigo: vísceras, órgãos vitais, neurônios, metros cúbicos de ar, litros de sangue. Matéria orgânica que, se fosse encaminhada a um teste de laboratório para se descobrir a que tipo de ser pertencia, gente ou bicho, possivelmente o resultado seria: ameba...

Costumo sorrir em silêncio dessa literatura, a séria ou a leviana, sobre a completude da mulher. Essa gente não sabe de nada! Bastava olhar pra você que eu gozava até com os fios do cabelo. Com seu discreto estrabismo. Com essa pele morna e lisa que eu não cansava de acariciar. A boca... não era uma boca, era o paraíso. A voz, os abraços, os dengos. Orgasmos múltiplos. Põe múltiplos nisso! Infinitesimais... Cristalizados nas tais fotos que, hoje, escondo com medo de sofrer. Está tudo ali, no meu olhar pra você, cadela olhando o dono com unção. Momentos que deveriam ter-se cristalizado num filho nosso. O mundo merecia esse filho, fruto de uma cama feita para ser a origem do mundo. Era a cama que o criador quis dar ao homem e ele não teve competência para perceber. A cama e a mesa. Como gostávamos de comer, em todos os sentidos possíveis, tudo farto, suficiente, prazeroso.

Será que pra você a dose foi forte demais? Excedeu suas forças, sua capacidade, seu momento de vida? Às vezes, penso que sim. Só eu estava pronta. Você, não. Mas eu precisava entender o porquê. Para mim, foi tudo na medida certinha. Se o seu número fosse o mesmo, aquele instante não teria sido apagado da história da humanidade. Talvez eu não tivesse percebido algumas nuances. Lembro-me que, quando nos amávamos como loucos, às vezes você se feria. A fricção de nossos corpos esfolava o seu. Quem sabe sua alma também se ralava? Meu corpo ficava pleno, saudável, exultava. Em mim, ele e a alma estavam prontos, íntegros, confiantes.

Então... A explicação para o fim de tudo foi tão completamente sem explicação... Não foi? Achava que nada poderia acabar conosco. Hoje, admito que um discreto e eventual desequilíbrio na emoção de ambos, que nem percebíamos, pudesse ter a força de um vírus mortal... O meu “nós” se confundia com a vida. Quando acabou, morri... Você continua vivo?

Esta pessoa que escreve, fala, trabalha, se relaciona com o mundo é apenas uma sobrevivente, um egum, um zumbi. Espírito recolhido às esferas celestiais — ou às cavernas do inferno, sei lá — o corpo ficou por aí, destituído da alegria essencial, do prazer. Na juventude, se impasses ou dubiedades exigiam-me decisão, minha mãe alertava: “Sua alma, sua palma”. Corri o risco, mãe.

Borboleta perdida no túnel do tempo, reentranhei, regredi, sou lagarta outra vez. Recolhida, como feto, ao ventre da alma. Com a minha história presa na mão fortemente fechada.
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MARÍLIA TRINDADE BARBOZA DA SILVA nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Formada em Letras e Direito, é Mestre em Linguística e Doutora em Ciência Política. Especialista em Cultura Popular, autora de mais de 15 livros, vários deles consagrados pela crítica especializada (biografias de Pixinguinha, Cartola, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Caymmi, Luperce Miranda, Carlos Cachaça etc.), de ensaios sobre localidades do Rio, como a Mangueira e os subúrbios de Madureira e Irajá, ou ainda o Vale do Rio Paraíba, berço da cultura afro-descendente. Produziu discos, documentários em vídeo e shows, dirigiu espetáculos musicais. É compositora (parceira dos violonistas João de Aquino e Daniel Júnior e dos compositores Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Argemiro Patrocínio, entre outros). Atuou no magistério em todos os níveis, tendo sido professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro, da PUC, da Universidade Gama Filho e da Universidade Santa Úrsula e várias Escolas Municipais e Colégios Estaduais do Rio de Janeiro. Desenvolve trabalho de pesquisa das raízes das músicas portuguesa, africana e brasileira (Projeto Reflexões Lusófonas) em parceria com pesquisadores de diversos países da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Por cinco vezes, obteve 1º lugar em Concurso Nacional de Monografias, realizados pela Funarte, além do Prêmio Nacional da Cultura, do MinC, a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara Municipal/RJ, em 2001, e a Medalha Tiradentes, da A.L.E.R.J, em 2003.

Fontes:
Arnaldo Nogueira Júnior. Projeto Releituras. 28.09.2019
www.releituras.com/mtbarboza_menu.asp.htm (site desativado)