sábado, 25 de abril de 2026

José Feldman (A Batalha do Asfalto)


Há uma lentidão que não é preguiça, é história. É o ritmo dos passos de Dona Maria, do Seu João, de tantos que carregam nas costas a idade e no coração a vontade de ainda ir e vir. Mas sair de casa hoje em dia virou uma prova de resistência, um obstáculo que muitos são obrigados a enfrentar diariamente.
 
A cidade, no seu ritmo frenético, esqueceu-se de quem precisa de tempo. Para estes idosos, o simples ato de ir à padaria não é uma caminhada; é uma operação de risco, um exercício diário de bravura e paciência. Ao cruzar a soleira de casa, o cenário que o espera é um tabuleiro de xadrez onde todas as peças jogam contra eles.

Basta olhar para o chão. As calçadas, que deveriam ser o abrigo seguro dos pedestres, parecem campos de batalha. Buracos, lajotas soltas, degraus que aparecem do nada e buracos que a chuva esconde. Para quem tem os olhos já cansados e os joelhos que doem com a mudança do tempo, cada metro percorrido exige uma atenção redobrada. É preciso olhar para baixo o tempo todo, como se estivessem pedindo permissão ao asfalto para caminhar.
 
E quando o caminho parece livre, lá estão eles: os galhos grandes, caídos das árvores, que ninguém remove, ocupando metade da passagem. O idoso tem que se desviar, se apertar, muitas vezes ter que sair da calçada e pisar na rua, exposto ao perigo.
 
Ah, a rua... Essa sim é um mundo hostil. Os carros passam velozes, como se o tempo deles fosse mais importante que a vida dos outros. Não há respeito à faixa, para os motoristas a faixa de pedestre é só um desenho no chão sem sentido, não há paciência com quem caminha mais devagar. Para um corpo que já não reage com a agilidade de outrora, o barulho do motor e a velocidade das máquinas causam pânico. É o medo constante de não conseguir cruzar a tempo, de tropeçar e cair justamente no meio do caminho.
 
Chegar ao outro lado é uma vitória silenciosa. Seu João suspira, aliviado, mas já preocupado com a volta. Ele não pede muito: apenas um chão plano, um segundo a mais no sinal e o respeito de quem, um dia, também andará devagar. A cidade precisa lembrar que envelhecer não é um crime, e caminhar não deveria ser uma punição.

É triste ver como a cidade, que deveria acolher a todos, parece construída apenas para os fortes, para os rápidos, para os jovens. Esquecem de que aqueles que hoje mancam, que demoram mais, que olham com cuidado para onde pisam, podem ser um espelho dos que um dia envelhecerão e passarão pelo mesmo drama.
 
As rachaduras no cimento e a pressa dos automóveis não deveriam ser o cenário da velhice. Cuidar das calçadas, podar as árvores e diminuir a velocidade não é só questão de infraestrutura, é questão de humanidade. É garantir que, mesmo que os passos fiquem mais curtos, eles ainda possam ser seguros. Porque um lugar que não sabe cuidar dos seus idosos não sabe, de fato, ser uma cidade.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
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Renato Benvindo Frata (Coisas a se fazer de sábado)


Bendito o sábado em que o marido não tenha que se vestir de “Jack”. E possa gozá-lo como deve ser vivido; com direito a cerveja e picanha na grelha, salada verde e pão da hora, além, é claro, da roda de amigos e samba. 

Esse é o verdadeiro sábado. O dia do descarrego, onde as agruras da segunda, terça, quarta e quinta se afogam no copo gelado, mantido entre dedos.

Mas não! Não é assim que acontece. Falo com propriedade e traduzo: “Jack”, na linguagem marital, é o enxugamento da expressão dita com voz fina, melodiosa e sugestiva, logo na manhãzinha: 

“Já que você está aqui”, preciso que faça isso, mais isso, mais aquilo...” Aproveite o sábado para fazer, amanhã teremos missa e passeio com as crianças.

Pronto! Lá se vai a beleza, o descanso e o complemento que ele concebe. Para nos transformar em tudo que termine em “eiro, ista, dor”, como pedreiro, marceneiro, carpinteiro, jardineiro, costureiro, telhadista, encanador, eletricista, arrumador, e aí vai até o apagar das luzes. 

Para sobrar um domingo minguado e repleto de dores nas mãos, nas costas, nas pernas, e uma vontade louca de dizer palavrão. Ô raiva!

Quem duvida que se case – e experimente os sábados encompridados, vestidos de “Jack!”

Essas tarefas não são distintas, mas que deveriam ter sido realizadas por quem, habilitado, cobrasse para fazê-las durante a semana: os profissionais do ramo. Mas não. A lembrança de que tal coisa merece reparo, só se acontece aos sábados. 

Ou só se deixa para comunicá-los nesse dia, para quebrar o encanto que o sábado tem. 

Dessa forma, a despeito dos demais dias da semana que são gastos com a profissão, o sábado vira o dia dos consertos caseiros, como trocar um cabo de panela, ou arrancar com os dedos de unhas limpas a tiririca teimosa, em meio aos rejuntes da calçada.

Pode, isso? Poder, não pode. Não pode e não deve, mas acontece. Comigo, conosco. Os homens que se vestem de Jack nos sábados.

Para esse sábado, porém, que não estava de Jack – uma coisa boa, uma coisa ótima aconteceu:

Passei os olhos numa propaganda de loja de vinhos e vi, deslumbrado, garrafas de rótulos chamativos, desses que só de olhar dão água na boca. E saí sem nada dizer.

Hoje à noite, quando as crianças forem dormir, ah! – tenho em mente – abrirei uma delas, ou duas, com direito a quadradinhos de um queijo de cura longa que também comprei.

Então, com as mãos hábeis e ligeiras do faz-tudo das tarefas de sábado que sou, brindarei com ela os momentos de folguedos a dois. E o “Jack”  que espere o próximo sábado.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fonte:
Imagem e Texto enviados pelo autor. 

Gabrielle Freitas (Reinícios)

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A primavera é tempo de reinícios. Assim como o ano novo. E o Natal, para os cristãos. E o pós-carnaval, para os brasileiros. E as segundas-feiras, para os adeptos das dietas inconstantes. A vida e os anos têm muitos desses marcos simbólicos de renovação, de energia, de esperança, de mudança. São em sua maioria ciclos com movimentos quase cronometrados, um ritual que envolve três movimentos básicos. Ou pelo menos é assim que costuma parecer para mim.

Primeiramente, enfadada, desgastada ou desgostosa com algo em minha vida, crio na minha cabeça uma resposta para minhas aflições. O primeiro momento em um ciclo de renovação antecede seu marco e é composto de desejo por mudança, planejamento fantasiado, espera aflita, imaginação fértil e nenhuma experiência.

Existe um momento para a experiência, mas este deve ser aguardado. "Começo esse projeto na segunda", "ano que vem vou passar a escrever todos os dias", "depois do carnaval, eu descubro o que vou fazer". Adiar um início é parte essencial do ritual. Adio o primeiro passo até que chegue o marco que vai mudar um aspecto essencial da vida como mágica. E ele chega, o marco sempre chega. A mudança, às vezes. Este é o segundo momento, a virada do ano, o fim do carnaval, o equinócio de primavera. Aquilo que foi adiado deve ser realizado, executado com a mesma perícia de alguém experiente. Foram incontáveis as vezes que subestimei a força dos meus hábitos e superestimei a minha, careci de planejamento ou de consistência. Olhei para os lados e só vi pessoas que tinham chegado lá mesmo quando o "lá" delas era tão diferente do meu.

O terceiro momento é o da desistência, seja esta parcial ou completa. O primeiro caso é o mais comum. Se não consegui começar a meta de ano novo ou mantê-la basta transferi-la para ano que vem. Já a desistência completa é o abandono da meta e costuma ocorrer após muitas desistências parciais da mesma meta. Depois de adiar um início por vezes suficientes, o sentido de reagendá-lo se perde.

Faz pouco tempo que decidi que o erro não está no final, na desistência completa, ou no início, na invenção de uma resposta para minhas aflições. Quando sempre é tempo de esperar pelo momento de um início, nunca é momento de começar coisa alguma. O erro talvez esteja em imaginar que preciso esperar por um marco para iniciar uma mudança.

A primavera do ano passado trouxe consigo uma promessa de renovação e como tantas outras não trouxe nada além da promessa. Esse ano comecei a mudança no inverno.
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GABRIELLE CLARA é natural de São Gonçalo/RJ, e pedagoga formada pela Faculdade de Educação da UERJ. Já apresentou suas poesias em sarau, evento de slam e congresso acadêmico. Depois de se aventurar no ambiente acadêmico, decidiu revisitar aspirações passadas e atualmente participa do Curso Online de Formação de Escritores.

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Asas da Poesia * 180 *


Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Diz “Não” à sogra e à cunhada.
- é astuto e não cai na rede –
“Família, aqui, só a Sagrada
e pregada na parede!”
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Poema de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Tempo de magia
(Dedicado a Luciano Pavarotti – In Memoriam)

Não há ninguém na velha rua suja!

Havia magia no ar
Entre as árvores quentes e sussurrantes

Em um rio de sons
Através do espelho
A magia da música
Ilumina o caminho
Projetando nossas imagens
No espaço e no tempo,
A música tocando nossa alma...
A música do espírito.

Beber sonhos
Nos córregos,
Andar sobre o arco-íris
Como os duendes!

Está na hora
De abrir asas e voar
Viajar para algum lugar
Distante, bem longe
Levado pelo vento
Numa estrela cadente
Como uma borboleta
Solta no alto -
Espírito errante!
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Aldravia de
MESSODY RAMIRO BENOLIEL
Rio de Janeiro/RJ

Saudade
bandoleira
sem
ontem
hoje
amanhã
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Soneto de
RAUL DE LEONI
Petrópolis/RJ (1895– 1926)

Legenda dos Dias

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não veio hoje, virá na outra jornada…”

Ontem, hoje, amanhã, depois, e assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera…

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia… 
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA 
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Meus cabelos cor de prata,
que o luar pintou em mim,
são marcas de serenata
nas madrugadas sem fim.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

À espera...

Aqui me pego, à tua saudade, esperando
que venhas e traga ternura em teus traços...
Porém, passam-se as horas... E já desanimado
Cismo que não chegarás até meus braços

E meus anseios vão se arrastando
em tua ausência c’os meus embaraços...
Tão depressa as horas foram passando,
Que até ouço a saudade e seus tristes passos...

Perto de mim, uma pá de gente segue cruzando 
indiferente ao anseio de que desejo ver-te
e que aos poucos estou me definhando...

Esgotou-se o tempo...  Esperar-te foi em vão.
Mas a angústia louca de amanhã rever-te,
faz regressar feliz este meu coração!...
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Poema de de
HERBERTO HELDER
Funchal/Ilha da Madeira/Portugal

Se Houvesse Degraus na Terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
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TROVA POPULAR

Aqui tens meu coração
e a chave para o abrir;
não tenho mais que te dar
nem tu o que me pedir!
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Gravatas italianas evocam amor

Beleza nata, digna de uma tela
o nu impecável traz valor ardente!
Bem escondido, o corpo da donzela
vem na gravata e encanta a toda gente.

Atrai o sonho ao ver figura bela,
agita o mar que explode em cada mente...
Como se fosse a escuna vejo nela
perigo à vista! Sou mulher carente!

Vejo o naufrágio deste puro amor
que enfim proíbe dar um simples beijo,
que o vento leva e faz cair a flor.

Por um momento, juro que pensei
ter encontrado a paz que tanto almejo...
sei que sonhei... agora já acordei.
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Trova de
JESSÉ NASCIMENTO
Angra dos Reis/RJ

Sinto uma grande alegria 
e o alvo sempre persigo: 
conquistar a cada dia 
um novo e leal amigo.
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Poema de
PEDRO CÉSAR BATISTA
Brasília/DF

Candeeiro do tempo

Olhos cerrados não veem a manhã
Sustentam-se na escuridão do medo e do passado
Bocas enganam ouvidos
Alegram fantasmas que submergem em mentes
Bailam em cantos iludidos com o brilho das luzes
Voos arrastam almas em frágeis desejos supérfluos
Ouvidos se animam ao tilintar de 30 moedas
Falam em suas crenças
Cantam desilusões e dores
Nada creem no amor e em Iris brilhantes
Acham que todos os olhares são cinzentos
Todos os abraços falsos
A manhã se suicida com medo do dia
Prefere a escuridão da solidão do poder
Desiste de receber a luz das flores e dos pássaros
O dia se vai
Nem noite vem
Deixa-se inebriar no tempo de dor
Onde estou que ainda sonho
Preciso acordar e voar ao infinito
Retirar as folhas que abafam meu canto
Pássaros não alimentam mais sonhos
A dor de quem não sonha
Passos sobrevoa oceanos
Desejam ser brilho nessa escuridão
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Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE (1862 – 1935) Aracati/CE

Mariposa

Incauta mariposa em torno à luz
Viceja pela chama fascinada,
Até que enfim examine, crestada
Cai em meio do fogo que a seduz.

A chama que dos olhos teus transluz
Tem minha alma em desejos torturada
E aii tento fugir mais abrasadas
Me sinto neste amor que cresce a flux.

Oh! Fecho os negros olhos sedutores,
Não me queimes nos férvidos ardores
De uma louca paixão voraz e forte

Receio que minha alma caia exausta
Neste abismo de luz como a pirausta*
Que buscam o prazer e encontra a morte.
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* Pirausta = inseto de quatro patas com asas transparentes. Vivia no fogo como uma salamandra e morria se afastasse do fogo.
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Shopping Center de Trovas

 MOTE:
Se a inspiração me emitir
todo dia, ideias novas
brevemente irei abrir
um Shopping Center de Trovas!
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

GLOSA:
Se a inspiração me emitir
o que eu mais gosto de ter,
eu vou, das musas, ouvir
sobre o que, devo escrever!

É bom ganhar de presente,
todo dia, ideias novas,
pois isso, faz bem à gente,
nos lançando a belas provas!

Não vou mesmo resistir...
Sendo assim, então garanto,
brevemente irei abrir
um novo e belo recanto!

Quero o seu consentimento:
Diga, amigo, se me aprovas!
Abrirei com sentimento,
um Shopping Center de Trovas!
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ

Meditando sobre a morte,
digo aos crentes e aos ateus:
a bondade é o passaporte
que nos conduz para Deus.
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Soneto de
MARTINS FONTES
Santos/SP, 1884 – 1937

Soneto

Antes de conhecer-te, eu já te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?
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Poema de
ANDRÉ CARNEIRO
Atibaia/SP, 1922 – 2014, Curitiba/PR

As reticências

Anseio manobrar a língua
dos fatos sólidos
e a outra,
do sentimento abstrato,
explosiva no ódio até
a úmida ternura do beijo.
Palavras com cores diversas,
cinzas e vermelhos
marcando sangue na página.
Haverá um teclado
medindo a tensão de cada dedo,
a mágica apaga versos frouxos,
letras borboletas voam
e pregam mensagens
no teto dos amores fugidios.
Tenho só um dicionário roto,
dedos hesitantes e o
sorriso do humor necessário.
Meu diário é suposto,
foto desfocada da
vida em movimento.
Tento transmitir
apelo, medo, desejo,
nas palavras alinhadas,
tímidos soldados
antes da luta.
É raro saber o gosto alheio
pelo abstrato alimento.
Depois de algumas linhas,
o fim vale como vírgula
para o futuro ignoto
das reticências.
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Triverso de
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro/RJ (1923 – 2012)

Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.
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Setilha de
DELCY CANALLES
Pedro Osório/RS, 1931 – ??? Porto Alegre/RS

Chega setembro e os odores
perfumam nossas estradas!
A Primavera sorrindo
embeleza as madrugadas,
e há flores pelos caminhos,
e há convites de carinhos
em noites enluaradas!
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Trova de
MARIA MADALENA FERREIRA
Magé/RJ

Se não tens muito, não faças
pouco do pouco que é teu,
que... esses “pouquinhos” são graças
que a vida te concedeu!
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Hino de 
SOROCABA/ SP

I

Saudamos-te, querida Sorocaba,
Com muito júbilo e acendrado amor;
desde a selva selvagem, o índio e a taba,
teus feitos cantaremos teu valor.

Às fraldas norte da Paranapiacaba,
tu te elevas Rainha d'esplendor,
e ao pé do morro d'Ouro, o Araçoiaba,
és pioneira paulista do interior.

Ó' Sorocaba, cantamos triunfantes,
bravos, heróis, cantamos teus pioneiros;
Cidade, és filha e mãe de bandeirantes,
com muito orgulho, a "Terra dos Tropeiros".

Tu és, ó Sorocaba, uma das molas
deste grande São Paulo glorioso,
cidade do Trabalho e das Escolas,
dos Liberais de brio belicoso.

Com teus arranha-céus, ao alto evolas
todo o ideal de um povo laborioso,
e o potencial fabril que hoje controlas
é o signo de um Brasil mais poderoso.

II

Tu, Sorocaba, marchas, "pari-passu"
com tuas irmãs, ao lado das primeiras,
Marchas tu com São Paulo no compasso,
Já desde os áureos tempos das bandeiras.

Foste terra de peões, campeões do laço;
Com suas tropas, com suas famosas feiras;
hoje és comércio, indústria, torres de aço,
Tudo é teu sangue, nas veias brasileiras.

Ó' Sorocaba, cantamos triunfantes,
bravos heróis, cantamos teus pioneiros;
Cidade, és filha e mãe de bandeirantes,
com muito orgulho, a "Terra dos Tropeiros".

Pela alvorada, a orquestra dos apitos,
O operário marcha ao seu mister fabril
e os homens da palavra e dos escritos,
da ciências, em teu progresso atuantes mil;

às escolas a colher frutos benditos,
a juventude marcha varonil,
O Saber e Labor marcham contritos,
em prece a Deus, pela Pátria - Brasil.
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Sorocaba: Um Hino de Orgulho e História
O 'Hino de Sorocaba - SP' é uma celebração vibrante e emotiva da cidade de Sorocaba, localizada no interior do estado de São Paulo. A letra exalta a história rica e o desenvolvimento da cidade, desde os tempos dos indígenas e das tabas até sua ascensão como um importante centro urbano e industrial. A referência à 'selva selvagem' e ao 'índio e a taba' remete às origens pré-coloniais da região, enquanto a menção à Paranapiacaba e ao morro de Araçoiaba destaca a geografia local e a importância histórica desses locais.

O hino também presta homenagem aos bandeirantes, figuras históricas que desempenharam um papel crucial na expansão territorial do Brasil. Sorocaba é descrita como 'filha e mãe de bandeirantes', sublinhando seu papel central na história paulista e brasileira. A cidade é celebrada como a 'Terra dos Tropeiros', um título que remete à sua importância no comércio e no transporte de mercadorias durante o período colonial. A letra também destaca o desenvolvimento industrial e educacional de Sorocaba, com menções aos 'arranha-céus' e ao 'potencial fabril', simbolizando o progresso e a modernidade.

A segunda parte do hino reforça a ideia de progresso contínuo e de marcha conjunta com outras cidades paulistas. A referência às 'famosas feiras' e ao 'comércio, indústria, torres de aço' ilustra a transformação de Sorocaba em um polo econômico dinâmico. A letra também celebra o trabalho e o saber, com imagens do operário e dos homens da ciência e da palavra contribuindo para o progresso da cidade. A juventude é vista como herdeira desse legado, marchando com vigor e determinação. O hino conclui com uma prece a Deus pela pátria, reforçando o sentimento de patriotismo e devoção à cidade e ao Brasil.
(https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/473067/significado.html) 
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Soneto de
MÁRCIA SANCHEZ LUZ
São Paulo/SP

Sonho Alado

Ele fugia a cada passo dado
por mim em direção ao seu encontro;
quando por vezes eu lhe dava os ombros,
voltava a me chamar para o seu lado.

Ele dizia estar apaixonado,
eu respondia assim, logo de pronto,
que parecia mais um reencontro
de duas vidas, de um sonhar alado.

Logo passamos a nos convencer
que o que deixamos era pra ficar
entre nós dois, como um selado pacto

de confidências sobre o abstrato,
eterno e transcendente renascer
de corações e flores a brilhar.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

A saudade é a companhia 
mais doce que Deus nos deu. 
Sem ela, o que restaria 
aos velhinhos como eu?... 
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O lobo e o cão

Não tinha um lobo mais que a pele e o osso.
Sinal é que, de orelha arrebitada,
Bem vigilante andava a canzoada.
Encontra o lobo um dogue forte, grosso,
Nutrido, luzidio, uma beleza!
Que distraído abandonara a estrada.
Sorri-lhe a nédia presa.

Saltar-lhe logo ali, fazê-la em postas
O seu desejo fora. Dura empresa!
A luta era infalível! Voltar costas
Não usam perros quando são valentes,
E, mais, os brutos! dão às vezes cabo
Do fero contendor! Diabo! diabo!
Então aquele, com aqueles dentes!

Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
Chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
Puxa conversa; diz que folga em vê-lo,
Que deixe que ele admire, que ele aplauda
Topá-lo assim... e com tão bom cabelo!...
E rijo! e gordo! Um frade! uma abadessa!
«Esplêndido senhor, — o cão responde —
De vós depende o ter igual gordura.
Fugi dos bosques, onde
Por teima da desgraça,
De fome e frio só achais fartura,
Vós, senhor lobo, e a vossa pífia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
E lá por festas raras, esquecidas,
Um petisquinho conquistado, à espada,
Tragado às escondidas!
Aí é certa a morte!
Furtai-vos a seus braços!
Segui... segui meus passos;
Tereis outro destino e melhor sorte.
— Mas como? volve o lobo.
Fazer então que devo? — Bagatela:
Nem morte de homem, nem de igreja roubo;
Simplesmente estas coisas: não dar trégua
À santa gente rota, mendicante,
Bordão numa das mãos, noutra a tigela,
Que vem ainda a distância duma légua
E já tresanda a essência de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...
Dar coca — é o termo próprio — ao dono e a todo
Quanto bicho careta houver em casa.
Salário apanhareis que vos apraza:
Ossos das aves, rodas de chouriço,
Restos vindos da mesa, e tudo a rodo!
Até uns tagatés em cima disso!»

Tendo prestado ao cão atento ouvido,
O lobo, coitadinho!
Com perspectiva tal enternecido,
Não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho!
Iam caminho já do povoado,
Quando o lobo notou que no pescoço
O cão era pelado!
«Que tens aí? — pergunta em alvoroço.
— Nada, que eu saiba. — Nada?! — Frioleira!
— Mas afinal o que é? — Ora!... a coleira.
Com que à noite me prendem junto à porta...
— Prender-te?! — o lobo exclama. Não sais fora,
Não corres livre pela terra inteira
Quando te dá na gana, e a toda a hora?
— Nem sempre. Isso que importa?
— Tanto importa, que toda a trincadeira
Com que me acenas, um tesouro embora,
Por tal preço não quero!» O lobo finda,
Põe-se logo na perna, e corre ainda!
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