Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Jamil Snege (O Ciclista)


Difícil foi esconder a bicicleta. Acabou achando um espaço no porão, atrás do tampo de uma mesa desmontada. Seus filhos já não entravam mais ali, a mulher tampouco – despejo de cacarias, lustres e móveis quebrados, garrafas, jornais velhos. Reluzente, coberta por um pano, a bicicleta prometia-lhe aventuras inusitadas no seu poeirento esconderijo.

Nunca aprendera a andar. A mulher sempre zombou – jamais conhecera alguém que não soubesse andar de bicicleta. Escarnecia-o diante dos filhos e chegou mesmo a humilhá-lo quando ele se propôs a ensinar o mais velho, então com cinco anos, a pilotar a máquina que ganhara da avó. “Vai ensinar a ele o que você não sabe? Ridículo!”

Vingou-se da humilhação exibindo o novo ciclista com um perfeito domínio da máquina. A mulher negou-se a reconhecer-lhe o mérito. Quando o filho mais novo, através de sua mão paciente e segura, adquiriu também ele a mágica noção do equilíbrio sobre duas rodas, a mulher foi mais rude: “Por que não deixou que ele aprendesse sozinho? Teria sido mais fácil”.

Engoliu a ofensa em silêncio. Passaram-se os anos e ele pareceu esquecer. Os filhos cresceram, trocaram suas bicicletas por namoradas e carros, seguiram suas vidas. Restando-lhe a mulher e uma confusa sensação de inutilidade. Foi então que teve um sonho premonitório. Sonhou que pilotava uma bela bicicleta azul, velozmente, pelas ruas do bairro. Reviu o portão da casa do cônsul, os muros de ardósia, o grande cipreste na esquina. O telhado de sua própria casa, de um verde já desbotado, e a negra faixa de asfalto ao fundo.

Sentia o vento lamber seu peito e a gloriosa sensação de liberdade – o passado, a idade, tudo ia ficando pelas esquinas, para trás. Acordou deliciado, um leve torpor nas pernas de tanto pedalar. Dissimulou tão bem sua felicidade que a mulher, na mesa do café, achou-o meio triste e mais calado que de costume. Talvez por essa razão não reclamou quando ele avisou que precisava ir até a cidade resolver alguns negócios.

Convenceu o vendedor que precisava da bicicleta logo de manhãzinha. Não fazemos entrega tão cedo, tentou ponderar o rapaz. Fale com seu gerente, insistiu ele. A bicicleta acabou sendo entregue às sete da manhã seguinte – ele esperava no portão, no nicho previamente preparado. Cobriu-a com um pano, colocou de volta o tampo e subiu para o café. Pôs a água para ferver e foi fazer a barba. Suas mãos tremiam. A mulher ainda não acordara.

No dia seguinte, despertou às seis em ponto. Escolheu uma roupa leve e uns sapatos esportivos. Serviu-se de um copo de leite na cozinha e foi tomá-lo à porta do quarto. Na penumbra, a mulher dormia de boca aberta. Ficou ali um minuto ou dois, dando pequenos goles, retendo o líquido gelado na boca antes de engolir. fechou a porta e saiu.

Professor e aluno a uma vez só, encostou a bicicleta no meio-fio e, antes de montar, certificou-se de que não havia nenhum vizinho à espreita. Apoiando o pé direito na guia da calçada, deu um pequeno impulso para frente, mas não chegou a colocar o outro pé no pedal. Seu coração acelerou-se e tentou novamente.

Na terceira tentativa conseguiu meia pedalada e só por sorte não foi ao chão; susteve a bicicleta inclinada entre as pernas abertas, chocando o pedal contra a panturrilha. Foi descendo a rua aos trancos e quando percebeu que se afastara uns duzentos metros do portão de casa decidiu que era hora de voltar. Calculou que a última tentativa lhe rendera uma pedalada completa e uns quinze metros percorridos sem apoio.

Voltou na manhã seguinte e nas outras manhãs. Sua primeira queda ocorreu no terceiro dia: feriu o joelho esquerdo e ambos os cotovelos. Quando sentou-se para o café, descobriu um corte ardido junto ao pulso. A bicicleta nada sofrera na sua bela cor azul. A mulher achou-o corado e bem disposto. Depois reclamaria das manchas de mercurocromo no piso do banheiro.

O fim de semana amanheceu chuvoso e ele resolveu não se arriscar. Antes do almoço de domingo, insinuou-se no porão e foi dar uma olhada na companheira. Retirou o pano que a ocultava e fitou-a ternamente. Amanhã passa essa chuva, sussurrou e voltou a cobri-la. À tarde, afastou-se das tias que visitavam a mulher e subiu para o quarto. Há muito que se sentia invisível na casa, principalmente depois da saída dos filhos. Limitava-se a sorrir para as visitas, quase sempre visitas da mulher, enquanto sua cabeça viajava para longe. E elas nunca lhe exigiam mais que isso – um sorriso tolo e apagado. Tinha agora um motivo adicional para se furtar às conversas sobre doenças e parentes remotos. Clandestina no porão, amante amantíssima, a bicicleta azul – seu pacto secreto com a vida. Abriu o guarda-roupa, subiu nos pés da cama e procurou no fundo do maleiro pela velha mochila. Separou uma toalha de banho, algumas roupas, um abrigo de chuva. Guardou tudo na mochila e voltou a descer. As velhas tias estranharam sua amabilidade ao se despedirem. A mulher ligou o televisor e só abriu a boca para se queixar do tempo na hora de dormir.

Ainda caía uma garoa fina quando a segunda-feira clareou. Ele desceu o porão, retirou o pano e pela primeira vez observou o efeito das gotinhas d‘água sobre o azul reluzente. Desta vez não se apoiou no meio-fio. Pedalou com determinação e percebeu, maravilhado, que os dois dias de abstinência tinham eliminado todas as dificuldades entre ele e sua máquina. Flutuava sobre as duas rodas – e a bicicleta lhe respondia com entusiasmo a cada giro vigoroso do pedal. Lamentando não encontrar nenhum vizinho, contornou o quarteirão. Quando passava diante de casa, reduziu a velocidade na esperança de que sua mulher surgisse à janela. repetiu o mesmo trajeto algumas vezes, até que finalmente dobrou à direita e mergulhou em direção à estrada que se abria logo adiante.

Fonte:
Jornal Guata. – Cultura em Movimento

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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