Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Aprendendo sobre Poesia (Parte II)

Pintura de Martins de Barros
POESIA E PROSA

Em primeiro lugar, cumpre observar, que segundo René Wellek (Teoria da Literatura), "na sua maioria, a moderna teoria literária mostra-se inclinada a pôr de parte a distinção entre prosa e poesia", muito embora tal distinção venha sendo objeto de discussão que, provavelmente, perdurarão sempre. Observe-se ainda que não se trata aqui de estabelecer distinção entre prosa e verso, facilmente notada. De fato, prosa e verso "são formas tecnicamente diferentes da obra literária" (Wilson Martins). Não se confundiria, formalmente, um poema épico com um romance, embora sejam, tanto um quanto o outro, obras literárias e, mais que isso, participem ambos da mesma natureza, isto é, sejam obras essencialmente narrativas.

O mesmo não se observa quando se trata de fazer distinção entre prosa e poesia. A dificuldade começa com a terminologia, pois se temos as palavras verso (forma técnica) e poesia (essência) diferentes entre si e designando coisas diferentes, o mesmo não se dá com a prosa. Temos um único termo para designar tanto um certo tipo de forma técnica quanto certa essência. Observe-se ainda que "prosa" é o oposto de "verso", mas não é, necessariamente, oposto de poesia.

Para compreensão do assunto, estabeleçamos o seguinte, tomando por base o aspecto formal:

a- Prosa (na sua essência) é o que está escrito em prosa (forma técnica).

b- Poesia (na sua essência) é o que está escrito em verso (forma técnica).

Como se vê, tal disposição faria, na realidade, distinção apenas entre prosa e verso, além de identificar poesia e verso, quando a poesia pode aparecer em verso ou em prosa.

Por isso, na distinção entre prose e poesia deve-se tomar por base o "conteúdo que as palavras transmitem e a postura assumida por que pretende transmiti-lo" (Massaud Moisés).

Note-se, entretanto que, participando - tanto a prosa quanto a poesia - da mesma natureza, utilizando-se dos mesmos signos, sendo deformações da realidade, é claro que poesia e prosa se assemelharão em vários pontos. Entretanto, à poesia interessa apenas o mundo interior, o "eu" do poeta, "seu objetivo verdadeiro é o reino infinito do espírito". O poeta volta-se para dentro de si mesmo, para as camadas interiores de seu ser, de sua alma, buscando nelas seus sentimentos, suas emoções. Pode-se dizer, portanto, que

Poesia é a emoção (pessoal) através da palavra.

A paisagem exterior só interessa ao poeta como projeção de seu próprio "eu", ou quando aparece interiorizada, ou ainda quando desperta certos ecos na alma do poeta, fazendo com que ele saia de dentro de si mesmo, projete-se na Natureza e retorne à sua própria alma, como nos versos abaixo:

Já o Sol se encobria
a este tempo, mais
ficando a terra sombria,
e o gado nos currais
já então se recolhia;
ouvi cães longe ladrar,
]e os chocalhos do gado
com um som tão concertado,
que me fizeram lembrar
de quanto tinha passado.
(Bernardim Ribeiro)

Ou ainda nesses, de Fernando Pessoa:

Contemplo o lago mudo
Que a brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Quando aparece na poesia a paisagem a realidade exterior, "o mundo subjetivo e objetivo aderem-se, embrincam-se formando uma só entidade, subjetivo-objetiva, com a forçosa predominância do primeiro".

Além dessa distinção, podemos observar que se a linguagem da poesia conserva, até certo ponto, a ordem lógica necessária à inteligibilidade - mesmo que esta não seja essencial - essa ordem lógica é muito mais necessária na prosa, já que ao prosador interessa antes a realidade objetiva, a realidade que o cerca, do que seu mundo interior, caótico e vago. Daí a razão de o prosador lançar mão da lógica ao produzir sua obra literária, lógica que não existe, necessariamente, na obra poética. Embora tanto o prosador quanto o poeta usem a metáfora, ela é menos vaga, menos ambígua na prosa do que na poesia, pois "a linguagem da prosa retrata, descreve, fixa, narra os aspectos históricos, visíveis, que estão à mercê da observação de todos" (Massaud Moisés).

Feita a distinção entre prosa e poesia pelo tom interior de uma e outra, e pela linguagem que as caracteriza, resta dizer que a poesia manifesta-se, geralmente, através do verso, ou seja, num ritmo mais acentuado que o da fala habitual, caracterizando-se na representação gráfica por linhas cortadas com certa regularidade, como no exemplo abaixo:

"Oh, quem me dera não sonhar mais nunca.
Nada ter de tristeza nem saudades
Ser apenas Moraes sem ser Vinícius!
Ah, pudesse eu jamais, me levantando
Espiar a janela sem paisagem.
O céu sem tempo e o tempo sem memória!
Que hei de fazer de mim que sofro tudo
Anjo e demônio, angústias e alegrias
Que peco contra mim e contra Deus!
Às vezes me parece que me olhando
Ele dirá, do seu celeste abrigo:
Fui cruel por demais com esse menino..."
(Vinícius de Moraes, "Elegia, quase uma ode", Op. cit., pág. 72)

Pode aparecer, ainda, de modo contínuo, num ritmo mais natural, mais identificado com o da fala habitual; graficamente se representará preenchendo linhas inteiras da página, como no seguinte exemplo:

SOM

"Trago todas as vibrações da rua, por um dia de sol, quando uma elétrica corrente de movimento circula no ar...
Mas, de todas a vibrações recolhidas, só me ficou, vivendo a música do som no ouvido deliciado, a canção da tua voz, que eu no ouvido guardo, para sempre conservo, como um diamante dentro de um relicário de ouro.
Cá está, cá a sinto harmonizar, alastrar em som o meu corpo todo, como flexuosa serpente ideal, a tua clara voz de filtro luminoso, magnética, dormente como um ópio...
Muitas vezes, por noite em que as estrelas marchetam o céu, tenho pulsado à sensação de notas errantes, de vagos sons que as aragens trazem.
As fundas melancolias que as estrelas e a noite fazem descer pelo mar ser, da amplidão silenciosa do firmamento, dão-me à alma abstratas suavidades, vaporosos fluidos, sinfonias solenes, misticismos, ondas imensas de inauditas sonoridades.
E, calado, na majestade sombria da Natureza, como num religioso recolhimento de cela, vou ouvindo, esparsos na vastidão, esmorzando nos longes, entre redondos tufos escuros de folhagem, onde se oculta alguma luxuosa existência de mulher, inebriantes sons de peregrinas vozes ou de invisíveis instrumentos.
E os sons chegam, vêm até mim, na estrelada tranqüilidade da noite, frescos e finos, como através de rios claros que nevassem ou de vagas embaladoras que o frio luar prateasse.
E eu penso, então, nessas simpáticas, corretas atitudes e expressão da música.
Vejo, na nitidez de cristal do pensamento, a harpa, sonora asa de ouro, com as cordas tensas, dedilhada por brancas mãos aristocráticas que arrancam dela frêmitos, soluçantes dolências, plangências incomparáveis."
(Cruz e Sousa, Missal, Obra Completa, Rio, Aguilar, 1961, pág. 424)

A prosa, por sua vez, aparece normalmente de modo contínuo, formando linhas inteiras, o que não impede que apareçam páginas de prosa em verso, como no seguinte exemplo:

"Em tanto que se ordena a brutal festa,
Nada sabiam na marinha gruta
Os habitantes da prisão funesta,
Que, ardilosa, lho esconde a gente bruta;
E enquanto a feral pompa já se apresta,
Toda a pena em favor se lhe comuta.
Nem parecem ter dado a menor ordem,
Senão que comam e, comendo, engordam.

Mimosas carnes mandam, doces frutos -
O araçá, o caju, coco e mangaba;
Do bom maracujá lhe enchem as grutas,
Sobre rimas e rimas de goiaba;
Vazilhas põem de vinho nunca enxutas
E a imunda catimpoeira, que da baba
Fazer costuma a bárbara patrulha,
Que só de ouvi-lo o estômago se embrulha."
(Frei José de Santa Rita Durão, Caramuru, Rio, Agir, 1957, pág. 28)

Às vezes a poesia faz interferência na prosa, isto é, encontramos passagens poéticas em obras que classificaríamos seguramente de prosa. Está neste caso o trecho do romance Mar Morto transcrito abaixo:

"Lívia olha o mar morto de águas de chumbo. Mar sem ondas, pesado, mar de óleo. Onde estão os navios, os marinheiros e os náufragos? Mar morto de soluços, quedê as mulheres que não vêm chorar os maridos perdidos? Onde estão as crianças que morreram na noite do temporal? Onde está a vela do saveiro que o mar engoliu?E o corpo de Guma que boiava com longos cabelos morenos na água que era azul? Na água plúmbea e pesada do mar morto de óleo corre como uma assombração a luz de uma vela à procura de um afogado. É o mar que morreu, é o mar que está morto, que virou óleo, ficou parado, sem uma onda. Mar morto que não reflete as estrelas nas sua águas pesadas.
Se a Lua vier, se a Lua vier com sua luz amarela, correrá por cima do mar morto e procurará como aquela vela o corpo de Guma, o de longos cabelos morenos, o que marchou pela estrada do mar para o caminho das Terras do Sem Fim, das costas da Arocá."

O trecho que sucede a esta marca um retorno à prosa, à narrativa:

"Lívia olha de sua janela o mar morto sem Lua. Aponta a Madrugada. Os homens que rondavam a sua porta, o seu corpo sem dono, voltaram para as suas casas. Agora tudo é mistério. A música acabou. Aos poucos as coisas se animam, os cenários se movem, os homens se alegra. A madrugada rompe sobre o mar morto."
(Jorge Amado, Mar Morto, 16ª edição, pág. 262)

Nestas condições, tendo em vista a teoria e os textos apresentados, observamos que a distinção entre prosa e verso, no seu aspecto formal, não oferece nenhum problema. Os textos de Bernardim Ribeiro, Vinícius de Moraes e de Santa Rita Durão são escritos em verso, ou seja, em linha regulares cortadas, ao passo que os textos de Jorge Amado e de Cruz e Sousa o são em prosa, isto é, em linhas inteiras, que ocupam toda a página.

Quanto à distinção entre poesia e prosa, ou seja, prescrutando-se a essência dos textos, é de se notar que as composições de Bernardim Ribeiro, Vinícius de Moraes, Cruz e Sousa e a primeira parte do texto de Jorge Amado estão vazados numa linguagem que caracteriza a emoção pessoal, o modo de ver particular de cada autor, sendo, portanto, exemplos de pura poesia.

De outra sorte, o texto de Santa Rita Durão e a segunda parte do texto de Jorge Amado mostram uma ordem lógica, caracterizadora da realidade objetiva que cerca o autor, sendo, portanto, exemplos de prosa.

Resumindo:
1- Texto de Bernardim Ribeiro
a - quanto à forma: verso
b - quanto à essência: poesia

2- Texto de Vinícius de Moraes
a - quanto à forma: verso
b - quanto à essência: poesia

3- Texto de Cruz e Sousa
a - quanto à forma: prosa
b - quanto à essência: poesia

4- Texto de Santa Rita Durão
a - quanto à forma: verso
b - quanto à essência: prosa

5- Texto de Jorge Amado (primeira parte)
a - quanto à forma: prosa
b - quanto à essência: poesia

6- Texto de Jorge Amado (segunda parte)
a - quanto à forma: prosa
b - quanto à essência: prosa

Finalizando, diremos que o texto de Cruz e Sousa e a primeira parte do texto de Jorge Amado identificam-se como Prosa Poética, e o texto de Santa Rita Durão identifica-se como Poema em Prosa ou Prosa em Verso.
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continua...
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Fonte:
Colégio Terra Nova.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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