Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Márcia Carrano (Vento Leve)


Poemas soltos, destacáveis, pequena amostra de produção poética ainda inédita. O livro tem formato e concepção originais. A professora e doutora Rosa Gens, do Departamento de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresenta-o, com propriedade, em seu Palavras no vento, de Márcia Carrano.

Essência de poesia. Com esse centro o leitor irá se deparar ao iniciar a leitura da obra Vento Leve, de Márcia Carrano. Pois a autora articula a linguagem com sombras, nuances e jeitos que ultrapassam a superfície e atingem espaços inusitados do pensar. As palavras flutuam, movem-se, redemoinham e nunca se aquietam. São palavras que pairam, seduzem, inquietam. Oferecem o sumo do poético, através de uma dicção precisa, delineada já no poema de abertura (“tudo é letra e livro / em minha alma // até este caco de vida / no chão da sala.”).

No desvendar das páginas, o leitor passa os olhos e a mente se detém nos instantes poéticos, breves na apresentação e duradouros pela reflexão. A brevidade aponta para uma condensação de sentido, em que estão presentes notas do cotidiano, apontamentos de vida, em dias que passam limpos, e são ajeitados; em que a morte passa noturna; em que aparecem o IPTU e moedas. Imagens semeadas no vento, que se formam com o deslocamento do concreto e o abstrato, o cotidiano e o além de. Trata-se de concretudes que encaminham a outros sentidos, habilmente potencializados.

A proposta da autora é direta; no entanto, deixa entrever outras paragens, e nos sentimos impulsionados pelo vento que nos leva a diferentes indagações. Os temas são muitos, reunidos na vida e pelos truques de palavras. No entanto, há motivos recorrentes, que se transformam em eixo do poetar. Como exemplo, a busca de um saber, que pode ser apontada em vários dos textos. Outro dos temas é a articulação da escrita sobre a escrita, deixando pulsar a consciência, no discurso lúdico e lógico sobre a poesia. E a transformação do cotidiano em matéria poética, como nos versos “como pego no ar/o salto alto da emoção/disfarçada em rotina banal?”(p.25), que condensam o programa estético da autora no que diz respeito ao corte de uma sentimentalização piegas.

A forma como o livro é apresentado surpreende e encanta. A autora propõe uma leitura desautomatizada, que não caminhe do início ao fim no valor das páginas. Além dessa leitura individualizada, cada um dos poemas pode ser destacado pelo leitor e enviado a quem ele desejar. Trata-se de um leitor que tem a possibilidade de escolher, que se torna, ele também, doador de sentido, e que, provavelmente, irá sobrepor ao poema, cartão endereçado, a sua própria escrita. Pela intenção da autora, os poemas ficarão com o leitor, na memória, ausentes do livro, mas presentes em outras paisagens de doação de sentido.

Porque a poesia é tudo e está em tudo. Como a autora aponta, em sua dedicatória, à maneira de Adélia Prado, pode estar escondida nos recortes do cotidiano que não sabemos (ou podemos) por vezes valorizar. E que têm seu pouso neste Vento leve, de Márcia Carrano, poesia que não se dissolve ao vento, que se torna ventania dos sentidos, vendaval de significados.

Rosa Gens

Fonte:
Márcia Carrano

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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