Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Maurício Chamarelli (1984)


Maurício Chamarelli Gutierrez é carioca, nascido em 1984, estudante de literatura na UFRJ e de música na Escola de Música Villa-Lobos. Toca saxofone nas horas vagas. Participou do projeto Arranjos para Assobio, da UFRJ, até 2004.

Uma girafa por entre outros animais, Maurício Chamarelli é daqueles cuja presença se ergue por sobre a grande maioria das outras. Entre os pés ágeis batendo firmes no chão enquanto recebem a força da terra e a cabeça que acolhe o mais tênue das alturas, o pensamento, neste livro, é do corpo, articulado pela intensidade destes dois vetores. Seja no ensaísmo, inédito, seja, como agora, na poesia, que se edita, este jovem de 21 anos começa traçando sua trajetória para que a vida fale publicamente em passos de gigante. Como se isto, com folga, não bastasse, ainda surpreendente é a intensidade tão precocemente aliada a uma rara maturidade; ou talvez seja justamente por tal aliança que, aqui, vida, de fato, fale em passos de gigante. Pela grandeza do que aqui se mostra, e do que, fora daqui, também conheço, a poesia e o pensamento brasileiros recebem um reforço de peso, daqueles que já chegam para vestir a camisa 9 ou 10 da seleção. Fosse a poesia futebol, não tenho dúvidas de que, com esta estréia, Maurício Chamarelli seria logo cobiçado pelos gramados europeus... mas, felizmente, não é este o caso.

Se, no princípio, era o corpo, e se todo corpo é tênue (não apenas o do poeta, mas o do leitor e de qualquer um ou outro que nunca teve um livro nas mãos), e se trata-se de uma voz – como é, explicitamente, o caso –, qual a voz, corporal, que concilia o corpo, que sempre principia, com o verbo que lhe é decorrente? Aqui, a voz poética é grito, sopro, rugido, tudo o que, imerso no sentido, sem denegá-lo, criando-o, o antecipa em puras exclamações, em sons de palavras rubras, rudes ou, mesmo, cansadas. A poesia de Maurício Chamarelli é da voz que antecipa o verbo, da voz que, no sentido, pronuncia o berro de nascimento de todo e qualquer sentido. De peito aberto e pés descalços, este corpo tênue mora em farpas da voz. E esta voz, tênue e corporal, esta voz encorpada da vida em passos de gigante, é uma farpa entre o nome e a morte, entre a morte e o nome. Ser esta farpa, eis a excelência do desafio poético proposto por Maurício Chamarelli. No princípio corporal e vocal, ser, portanto, tênue, só uma tonalidade, apenas uma veia, um mínimo vibrátil que alimente a interminável procura de um nome melhor para isto. Para isto que é vida (em passos de gigante), para isto que é poesia (também em passos de gigante).

A imagem, sim, a imagem incontornável, mas, em Corpo Tênue, sobretudo a música, que, mesmo na visão, é anterior à própria visão, a música do pensamento, da poesia, a música da voz. A música do grito, do sopro, do rugido. A música do corpo e, no corpo, a música do tênue. A música, como o mais tênue corpóreo, para quando a aflição do incorpóreo me estiver afogando. A música da celebração da poesia, afirmadora de todo um complexo de forças que, não se tornando perceptível, deixaria o mundo muito pior. A música... Diz o livro: É tudo música. Desde a abertura deste livro, a música se faz presente tanto como modo de realização quanto como tema. Assim, bem de acordo com o John Coltrane homenageado, o que se mostra ao longo do livro, entremeados ou não por títulos, são acontecimentos poemáticos espiralados feito o rodamoinho de um furacão, cujas células, menores (um verso qualquer que temos pela frente) ou maiores (todo o conjunto do livro), nos trazem – sempre – o poético em sua melhor maneira, o poético que mostra a vida em passos de gigante. Pegue este livro, portanto, como uma primavera nos dentes, porque, mesmo que escrito na primeira floração, ele se anuncia como outubro: Mas outubro,/ Outubro se anuncia entre esses dentes.// Não sei se de dentro/ - como vômito/ Ou se de fora/ - como soco// Mas outubro, outubro se anuncia. Maurício Chamarelli assim se anuncia: com passos de gigante.

(Prefácio do Livro Corpo Tênue, por Alberto Pucheu)

Fontes:
Confraria do Vento.
As Escolhas Afectivas.
http://www.oficinaraquel.com/mauricio.html

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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