Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Vicência Jaguaribe (O Piano)


Para a dona Edite Moreira Barreto,
único piano que minha terra ouviu.

Os ouvidos do agrônomo, que estava ali a trabalho, surpreenderam-se ao distinguir, executados por mãos hábeis e sensíveis (algo inconfundível), acordes do Concerto para Piano e Orquestra Nº 21, de Mozart. Eram onze e quarenta de uma manhã de setembro, e ele, caminhando pelas ruas mal calçadas e pouco arborizadas, amaldiçoava o chefe que o fizera aventurar-se por aquele fim de mundo.

O som do piano o fez parar. Não! Aquele som era um delírio provocado pelo indescritível calor e pela sensação de sufocamento. Já ia retomando a caminhada em direção ao hotel, quando ouviu, agora mais fortemente, um som inequívoco – For Elise, de Beethoven. Não havia dúvida: aquela cidadezinha acanhada, a ante-sala do inferno, escondia em algum lugar, protegidos por quatro paredes, um piano e um pianista. E, pelo que estava ouvindo, não era uma atividade só para inglês ver, não. Havia ali um artista excepcional, cujas execuções se distinguiam pela sensibilidade das interpretações e pelas inovações aos arranjos tradicionais.

Quem tocava com tanta competência em uma terra de pés rachados? Quem, ali, tinha a sensibilidade de introjetar o sentimentalismo quase excessivo de For Elise, ou a sensualidade quase impertinente da Habanera, da Carmem, de Bizet? Algo deve ter havido ali para prender, em uma cidadezinha como aquela, a (não podia deixar de ser mulher e jovem) pianista excepcional que o estava deleitando. Uma grande decepção? Uma grande mágoa? Um grande amor? Um casamento medíocre? Uma ninhada de filhos para criar?

Apurou os ouvidos. Os acordes vinham de uma casa grande e antiga, construída do lado direito da igreja. Ele tentou orientar-se pelos sons do piano, que naquele momento iniciava a delicada Canção de Ninar, de Brahms. Ele parou na calçada do casarão, o qual conservava fechadas até a metade as portas interiores das duas varandas. Não teve coragem de tentar vislumbrar, mesmo por alguns segundos, o interior da residência, os mistérios da casa do piano. Recolheu-se intimamente e assim ficou, parado, até que a criança de Brahms finalmente adormecesse. É! Como lhe sentencia um grande amigo, professor de piano, não se ouve Brahms impunemente.

Um sentimento de respeito pela pianista (sim, era uma mulher, só podia ser!) que entregava seu talento de graça, a quem passasse pelas imediações do casarão; uma sensação de encantamento por aquelas peças artísticas que de vez em quando nos abriam as portas do paraíso; e uma veneração extrema pelos artistas que transformam em harmonia o caos dos sons que se perdem no nosso dia-a-dia... foram essas as emoções que envolveram o agrônomo durante as duas horas que ainda teve de esperar para ver de novo o transporte que o levaria para longe do piano. Que o levaria para o conforto burguês de seu apartamento e para longe do piano. Que o reaproximaria da mulher e dos três filhos, afastando-o do piano. Que o faria perder para sempre o piano.

Na hora em que o agrônomo resolveu voltar ao hotel, esquivando-se de bisbilhotar o segredo do piano, uma cuidadora de avental branco, e touca azul protegendo os cabelos, entrou na sala do piano, onde a pianista (era realmente uma mulher) ia iniciar a valsa de Strauss, Sangue de Viena. Mas o virar a página da partitura foi interrompido – chegara a hora do repouso recomendado pelo médico. A pianista, uma mulher que já ultrapassara os noventa anos, fez cara feia para a cuidadora, mas levantou-se e não opôs nenhuma resistência.

A cuidadora quis apoiá-la pelos braços, mas ela negou-se a aceitar a ajuda.

E, enquanto caminhava para o quarto, regia uma orquestra invisível, executando uma sinfonia que não constava em nenhuma partitura e que nem os ouvidos mais sensíveis poderiam captar – a sua 1ª Sinfonia, ou... A Sinfonia do Fim.

Fonte:
Colaboração da Autora.
Imagem = papel de parede do Baixaki

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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