Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Carolina Ramos (Duas Vidas)


I

Maria Plácida fazia jus ao nome. Plácida como um lago em tempos de calmaria. Nem a brisa mais sutil lhe arrepiava a pele. Nada, ou quase nada, perturbava a serenidade que lhe servia de escudo. O que nem sempre seria sinônimo de virtude. Talvez que até o próprio nome tivesse influído no seu modo de ser, absolutamente horizontal e passivo. Quantas oportunidades perdera em consequência dessa placidez contumaz e sem tamanho? Não se demorava em responder, mas, sem dúvida alguma, inúmeras! Os planos mirabolescos, sempre calcados em datas remotas, com base em hipotéticas situações mais favoráveis à realização, eram geralmente postergados para depois da aposentadoria, lá no fim da carreira.

Houvera, sim, um dia especial. E como especial, só daquele dia Maria Plácida se recordava. O dia em que se tornara mulher, ou melhor, o dia em que se sentira mulher, pela primeira vez! Não biologicamente falando, é evidente. Tinha, então, quinze anos. E apesar dos seus dourados e completos quinze anos, se não houvesse recebido aquele presente, seria ainda a menina tímida, que fugia ao convívio social e olhava os rapazes, da sua idade, furtivamente, temperando-lhes o calor das investidas com a aura fria de geladeira aberta.

A magia do pequeno frasco de perfume francês, oferecido pela madrinha, fizera o milagre. Revirara-o entre os dedos, maravilhada! Consultara o espelho, sentindo-se valorizada. Nem feia, nem bonita. Contudo, naquele instante, o brilho especial do olhar a tornara bela. E bela se sentira, como se uma fada madrinha a houvesse tocado com sua varinha mágica. Como por encanto, rompera-se a humilde crisálida, nascendo, vaidosa e volúvel, a exuberante borboleta! Aspirou, deliciada, as emanações do pequenino frasco, deixando-se embriagar pela volúpia da extraordinária essência. E, num impulso imperceptível, galgou o primeiro degrau que a arrancava da plácida adolescência, para a incógnita realidade de sentir-se mulher.

Um último minucioso exame, tendo por inquiridor o espelho, aprovou-a. Os contornos rijos cada vez mais arredondados, davam-lhe o diploma de feminilidade que seus olhos buscavam. Mulher!...

Maria Plácida sorrira para a imagem do cristal, recebendo um sorriso de volta. Tudo não passara, no entanto, de reação passageira., 

Com carinho todo seu, guardara o pequena frasco para ser usado num momento propício, especialíssimo, que saberia reconhecer quando chegado. Poderia, então usufruir todo o mago potencial contido no minúsculo recipiente. O perfume seria usado com o mais requintado esmero! — Aquelas gotinhas, sutis, atrás da orelha, nos pulsos e no sulco dos seios. Coisas que qualquer menina aprende, quase que por intuição, e aperfeiçoa, com arte instintiva, ao correr dos tempos.

A partir daquele presente, Maria Plácida virou mulher, de verdade. Sonhou. Fez planos. Muitos! Aqueles sonhos e aqueles planos que apenas um futuro remoto, sempre adiado, poderia por em pauta.

Menina, sonhava ser moça, para viver cm plenitude. Moça, esquecia do presente para sonhar com o que o porvir lhe poderia dar.

Apesar de tudo, refinou-se. Instruiu-se. E lutou com afinco para ter direito à almejada aposentadoria.

E a vida fugiu-lhe ligeira como água corredeira a caminho do irremediável despencar em cascata, pulverizador dos sonhos mais sólidos e mais belos. Sem o menor impulso para detê-la, a moça deixou-a fugir, placidamente, até a aproximação do instante inexorável da queda, quando o espelho, friamente, mostrou-lhe os sulcos das primeiras rugas. Não teve, então, vontade de sorrir. Sem saber porquê, deixou-se arrastar peia força da evocação que a levou de volta ao dia, muito especial, em que o pequenino frasco de perfume francês a tornara mulher. Procurou-o apaixonadamente, revolvendo a gaveta da penteadeira entre lencinhos rendados e cambraias bordadas, parte de um enxoval jamais solicitado para uso.

Pela primeira vez, conscientizou-se da urgência e fugacidade do tempo. A partir daquele instante, não lhe importava mais a ausência de motivação ou a ansiada presença de uma data relevante. A hora era aquela, sem programações nem adiamentos tolos ou românticos.

Decepção! O pequeno frasco estava completamente vazio! E nem era possível esperar outra coisa. O perfume evaporara-se igualzinho à felicidade, que, se passara pela vida de Maria Plácida, teria sido tangencialmente, sem deixar o menor vestígio.

Tornou a guardar o frasco vazio, mecanicamente. Gostava de colecionar coisas que lhe sugeriam momentos agradáveis, mesmo não realizados. Lembrar, por intermédio delas, tudo de bom que lhe poderia ter acontecido, chegava a ser algo compensador.

O espelho devolveu-lhe a imagem da mulher triste que o fitara à procura de apoio. Sentiu que, inadvertidamente, descera o indesejável degrau que dava acesso ao primeiro patamar da velhice.

Maria Plácida fechou a gaveta. Sepultava nela o frasco, vazio, de perfume francês e os planos teimosos, chegados ao futuro em fase de deteriorização. Não queria mais tratos com o amanhã e nem tinha mais tempo para viver o hoje. Torceu a chave e deixou-se arrastar pela correnteza da vida, melancólica, mas, como sempre, placidamente, rumo ao nada.

II

Maria Expedita fora colega de Maria Plácida, na Escola Normal. Eram água e vinho, ou melhor, água e azeite, que não se misturam. Tinham fusos horários contraditórios. E, quando era primavera na casa de uma, já vicejavam os frutos do outono no pomar da outra. Tão logo o clima outonal se anunciava junto a Expedita, Maria Plácida, janelas fechadas, tiritava o seu inverno.

Miúda e ligeira, Maria Expedita também fazia jus ao nome.

Erguia-se, cada manhã, lamentando o tempo perdido com as horas de sono. Movia-se em tempo de música, com ralentandos e afretandos intercalados, seguindo as circunstâncias, mas, sempre dentro de um ritmo agitado e vivaz, difícil de ser acompanhado pelas pessoas de andamento normal.

Assim como o maestro parece arrancar do espaço notas musicais, Expedita, batuta na mão, parecia reger com maestria a sinfonia da vida, de acordo com a partitura por eia mesma composta. Não desperdiçava uma só nota! O tempo era dividido em compassos elásticos, prontos a admitir uma quiáltera, ou apogiatura, sempre que necessário introduzir mais uma nota. Se preciso, desmembrava tranquilas semibreves, multiplicando-as, substituindo-as por fusas e semi-fusas irriquietas, num sobe e desce de escalas ligeiras, a ondular-lhe a vivência, que, longe de parecer lago plácido, mais lembrava perene mar revolto!

Vivia, apaixonada e intensamente, cada instante sem deixar nada para depois. Se houvera paralelismo na fase estudantil entre as duas meninas, vivencialmente falando, situavam-se agora em polos opostos.

Casada por duas vezes, que a primeira não dera certo, Maria Expedita concebeu três filhos, acrescentando à rumorosa existência, novas primaveras, a intercalar semeadura e colheita com a exuberância de uma festiva floração.

Trabalhou, sim, e muito! Em casa e fora dela, sem permitir que a atividades cotidianas lhe abafassem os impulsos criativos.

Com esforço e pertinácia, conseguiu espaços só seus, logrando expandir dotes artísticos acalentados com carinho.

E quando as primeiras neves se abateram sobre sua cabeça, estranhou: — Já?í Com decisão inabalável, negou-se à depressão decorrente. Ajeitou os cabelos, ignorando as cãs, e empurrou para mais longe o alçapão da velhice. Com sessenta e poucos anos, bem vividos, e alguns netos, acumulava expressiva bagagem literária. Vários livros editados e outros prestes a vir à luz; que o espírito independe do corpo. Só envelhece, quando, conscientemente, se aceita que envelheça.

Maria Expedita recusava-se a envelhecer.

Com tintas, pincéis e algumas noções de arte, coloriu dias ameaçados de se agrisalharem depois da aposentadoria.

E não parou aí: — injetou força à própria voz, engajando-a a um grupo coral bastante atuante. Escancarou, assim, os últimos escaninhos da alma, deleitando a si mesma com um hino de amor à vida, num vibrante e caloroso canto de vitória!

*      *      *

 Maria Plácida morreu, certo dia, durante o sono. Bem de acordo com a placidez com a qual convivera.

Maria Expedita, por sua vez, morreu cantando. E, lá por cima, deve continuar cantando! Deve continuar vivendo, naquele mesmo ritmo prestíssimo! Tão do seu jeito... e tão do sou gosto!

__________________________
Nota de rodapé:

A autora retiniu o papel da máquina, relendo o que escrevera. Sorriu...
Se na fusão das duas personagens havia muito de si mesma, embora parecesse paradoxal, absolutamente não teria sido mera coincidência!


Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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