Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Carolina Ramos (A Xará)


O toque do interfone interrompeu-lho as lides domésticas. Atendeu.

— Dona Rita?

— Pois, não...

— Sua vizinha, do sétimo andar, está subindo para cumprimentá-la.

Eram duas da tarde. Rita mediu num só olhar a confusão dos móveis e utensílios, empilhados pela mudança, efetuada na véspera.

— Visita, agora?!

Largou o pano de pó, trocou os chinelos, jogou o avental sobre a mesa e ajeitou, como pode, os cabelos. Já a campainha soava. Recebeu a visitante com um sorriso amável. O sorriso da que chegava, fez-se mais largo ainda, portador dos anunciados cumprimentos.

— Bom dia, vizinha. Vim dar-lhe as boas vindas. Sou Maria Rita, aí do sétimo.

— Coincidência! Eu também me chamo Maria Rita. Entre, mas... por favor, não repare. Ainda está tudo bagunçado, de pernas para o ar... Também, chegamos ontem, não é?

— Ora, deixe pra lá... se quiser ajuda, disponha.

— Muito obrigada. Aos pouquinhos, tudo irá para o devido lugar. Questão de tempo. O pior é que, sem empregada, tudo fica mais difícil e... mais difícil ainda é achar uma!

O "papo" doméstico, descompromissado, estendeu-se com elasticidade, dissociada do relógio, como se as duas mulheres não tivessem nada para fazer, a não ser, matar o tempo.

Dois dias foram mais do que suficientes para que a nova moradora percebesse que a xará do sétimo andar, realmente nada tinha para fazer que a prendesse em casa, o que era alarmante!

A frequência com que a vizinha lhe batia à porta, a alugar-lhe a atenções por tempo indeterminado, mais do que impacientá-la, começava a gerar preocupações. Tão logo chegadas as catorze horas, o conhecido toque de campainha impunha-lhe a presença incômoda.

Maria Rita entricheirou-se, defensiva. Assim como em certos estados do norte, em que a regularidade das manifestações climáticas leva ao planejamento das atividades, programadas para antes ou depois da chuva, Maria Rita, instintivamente passou a separar as tarefas cronologicamente, para antes e depois da visita vespertina. Tentativa ingênua de acomodação, que em hipótese alguma solucionou o problema.

Verdade se diga, a situação tornava-se cada vez mais incomodativa. Desgastada e levada a um atropelo de ação perfeitamente dispensável, que não justificava o desperdício das tardes esbanjadas, custava a Maria Rita ver escoar-se o tempo em papos furados e conversa fútil.

Pontual e descontraída, a xará chegava para ficar. Tinha já cadeira cativa. Colocava os óculos na ponta do nariz e puxava do tricô. Trabalho interminável, porque finda uma peça, outra vinha a caminho. Rita sentia-se invadida, confusa e com remorsos, até.

Seis meses passados, e a situação inalterada. Sem privacidade, a moça beirava o poço do desespero! Marido e filho sofriam por ricochete. Sem definição, Rita fazia tudo para ausentar-se de casa na hora aprazada, na esperança de quebrar o ritmo e a disposição compulsória da visitante. Inútil!

Cansou-se de vagar sem rumo, cansou-se de olhar vitrinas sempre iguais, cansou-se de visitar igrejas. E os santos, quem sabe, cansaram-se dela e da insistência dos seus pedidos.

Tudo absolutamente em vão! A xará continuou voltando, com assiduidade exemplar e implacável!

A pressão era tanta, que Maria Rita acabou doente. Deprimida. Fechou-se no quarto. Levou para lá a TV portátil. Mergulhou nas novelas.

Fuga? Desequilíbrio? Desespero? — Tudo!

E foi quando a xará, solícita, prontificando-se a servir de enfermeira, adentrou, triunfante, a cidadela onde se aquartelara a enferma! A gota d’água!

— Então... doentinha? Não há de ser nada. Vou cuidar de você. Agora chegarei uma hora mais cedo. Sem pressa. Não tenho mesmo nada que me prenda em casa...

A paciente capitulou. Desceu definitivamente ao fundo do poço, levando a família consigo!

— Mudem-se! Mudem-se o mais rápido possível! — ordem do psiquiatra. Sem réplica.

Mudaram-se. E para bem longe! O apartamento vendido em tempo recorde. Pechincha!

Ninguém do prédio recebeu o novo endereço A mudança foi feita praticamente em caráter sigiloso, "antes da chuva", ou melhor, pela manhã, bem cedo, antes da famigerada visita.

Mudança radical! A neurose acabou como por encanto! Aliás, nem tanto assim, que, por longo tempo, o som de uma campainha sugeria sempre a inquietante pergunta: — Será ela?!

Pudesse, e Maria Rita teria trocado também de nome. Que, perdoado o trocadilho, até hoje, o nome Rita irrita por demais a Rita!

Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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