Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 4 de maio de 2019

Luiz Poeta (Diamante Bruto)


Foi às radículas. Chegou aos ápices de retomar aos dias menos felizes na casa de sapê. Via a irmã mais nova com a boneca de pano, feia, mal costurada, desconjuntada soltando palha, apertando-a no pálido e pneumônico peitinho, cuspindo saliva e catarro tísico numa tosse seca, pés imersos no barro amarelo do arrozal tão raro de grãos.

No riacho descendo cautelosa como serpente, à água cristalina murmurando silêncios.

E já o sol ardia vermelho queimando a colina, sobre os bois que pastavam preguiçosos do outro lado da cerca que separava o rancho pobre do rancho rico, numa calma de dar sono.

A mão girava o leme sobre o poço de água salobra e aquele ruído era um punhal nos seus ouvidos, tiquetaqueando a presença da morte.

O último boi haviam-no sacrificado na última seca, pesarosos de ver o animal definhar, língua de colher clamando um gole no córrego pantanoso, lamacento, seco, estéril, triste.

Com a chuva, teve-se que cultivar um novo arrozal, plantar mais mandioca e abóbora, comprara um capadinho.

Mas quedê dinheiro ? A carne do esquálido bovino dera parcas tigelas de míseros músculos para a família e mínimas outras para a venda.

Vida miserável aquela.

Começara cedo a conhecer das coisas da dor; primeiro, com dois anos, o ferrão da lacraia no pé, que foi preciso muita reza e muito mato para salvar-lhe a vida; depois, a jararaca na folha da bananeira e tome fumo de rolo e cachaça pra vedar o veneno. Afora isso, fome, sede e prece à tardinha pras coisas melhorarem. Mas nada melhoravam mesmo. Depois, a barreira soterrou o velho, o mais moço foi com o tétano do arame farpado e a mãe morreu de incredulidade e susto, restando só ele, a tísica e alguns vizinhos de palavras miúdas na boca e muitos tapinhas de consolação em suas costas anestesiadas pela dor.

- Bebe, Célia, chá de losna que Nhô Chiquinho te fez. - Mas Célia não bebia e nem falava mais nada, apenas olhava, os seus imóveis olhinhos fitando sei-lá-o-quê, enquanto o fiozinho róseo de sangue descia destamainho pela boquinha inerte e lilás dela.

Enfim ficou só; ele, a sabiá e a cachorra magrela e pulguenta se coçando num canto, a bonequinha de pano no chão, olhos em cruz, mortinha também, vazia de palha no ventrinho sujo e amarelo.

E na barreira que matou seu pai, escavando, dia-a-dia, olhos embotados, vermelhos pela cachaça, amarelos pela cirrose, estavam as pedras brilhando ao sol do meio-dia, um espelho só de dourado e prata, fogo e mel. Nhô Chico, preto velho, fumo-de-rolo socado no cachimbo de angola, puxando um pito, cuidou para que as pedras fossem vendidas e o dinheiro empregado no bem-estar do moleque precoce de dor e mágoa.

E veio a dúzia de bois gordos e nutridos, as hortaliças e os pés de manga no sítio quadruplicado pela inteligência e perspicácia do velho.

- Se aveche não, Nhô Mininu - dizia sorrindo - preto veio carcomido qué nada introca docê, só sua compreensão pros úrtimos dia.

Nhô Chico, oitenta e cinco anos, cabelos brancos e ralos, o pé descalço na água barrenta descendo da barranqueira, não queria mesmo nada, não nascera - como ele mesmo dizia - para a opulência, para ser dono de boi. Preferia, sim, guiar manada, laçar, marcar, matar e cortar o animal. Nada como um bom burrico, uma vara de pesca e uma sombrazinha de pé-de-Jamelão-beira-de-rio.

E foi assim: um dia o peixe beliscou, mas o bambu tombou na água barrenta. Nhô Chico morreu dormindo. Num canto da boca, o inútil cachimbo de cinzas inertes, como seu corpo.

Sua alma... incolor voava... quem sabe para o céu africano onde o sangue do seu povo riscava sua história na como um passarinho.

O telefone tocou, ele atendeu. Alguém o parabenizava pelo aniversário.

- Aniversário ? - interrogou-se - Puxa... tinha até esquecido.

Fonte:
Luiz Gilberto de Barros (Luiz Poeta). Canção de Ninar Estátuas. Ilhéus/BA: Mondrongo, 2014.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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