Fui menino de fazenda sertaneja e o fundamento inicial de qualquer pesquisa é o depoimento testemunhal imediato, pessoal, espontâneo, infalível. Um versinho tão meu conhecido que tenho memória assim diz:
Fui na fonte beber água
Debaixo duma latada;
Somente para te ver.
Que a sede não era nada!
Muitos anos depois deparei nos Cantos populares do Brasil, de Sílvio Romero (ed. Alves, Rio de Janeiro, 1897) a mesma quadra com alteração sensível:
Fui à fonte beber água
Por baixo de uma ramada
Foi para ver meus amores
Que a sede não era nada.
Leonardo Mota, Cantadores (Ed. Castilho, Rio de Janeiro, 1921), registra a quadra, identicamente à que ouvira e aprendera no sertão norte-rio-grandense:
Fui à fonte beber água
Debaixo duma latada,
Somente para te ver
Que a sede não era nada.
O sertanejo dirá, naturalmente, fui na fonte e não fui à fonte, forma literária. Mas o verso é o mesmo e a mesma região nordestina guardou a trova delicada.
Na Venezuela, pilando-se o milho, cadência a pancada o er, er, er, entoado na batida. O sr. R. Olivares Figueiroa (Onza, tigre y leon, nº 33, Caracas, maio de 1946), recolheu entre os Cantos para el pilado del Mais o tema poético:
Deme un poquito de agua
que vengo muerto de sede
no es tanto por beber agua
como por venirte a vert.
Er, er, er...
Certamente haverá versões na Colômbia, Bolívia e Peru. As primeiras vindas da Venezuela e a última possível de Espanha.
Não conheço quadra espanhola tal e qual sabemos mas existe no mesmo sentido lírico. É uma Terneza, registrada por d. Francisco Rodrigues Marin, Cantos populares españoles (II, Sevilha, 1882):
Dame um pouco de água
Fria ó caliente,
Nó por la sed que tengo,
Sinó por verte.
A quadra portuguesa que conserva o assunto é esta que Teófilo Braga incluiu no seu Cancioneiro e romanceiro geral português (II, Porto, 1867):
Fui à fonte beber água
Debaixo da flor da murta;
Fui só para ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.
No primeiro verso, "Fui à fonte beber água", denuncia que a quadra pertencerá, seguramente à sua série, versando o mesmo tema que emigrou para o Brasil.
A saudade do amor valerá quanto a lembrança melancólica da visão perdida, Leonardo Mota, Cantadores, p.251, divulgou esta quadra linda:
Quem nasceu cego da vista
E dela não se lucrou
Não sente tanto ser cego
Como quem viu e cegou.
Brasileira? Na coleção de Agostinho de Campos e Alberto d'Oliveira aparece a versão de Portugal:
O cego nasceu cego
Não perdeu o que logrou;
Não pode ter tanta pena
Como quem viu e cegou.
Há no cancioneiro galego versos glosando o mesmo problema trágico, Rodrigues Marin, Cantos populares españoles (IV, Sevilha, 1883), salvou do esquecimento duas quadras:
Er que bino siego ar mundo
Sin la esperanza de ber
No tiene tanta peniya
Como er que ha bisto y no be.
Mas a inspiração é bem velha em sua triste veracidade emocional. O mestre Rodrigues Marin registra uma quadra que dom Fernando Colon comentou antes de 1534.
Será a mais antiga fixação poética do motivo em língua castelhana.
El ciego que nunca vió.
Como no sabe que és ver.
No vive tan sin placer
Como el que después cegó.
A saudade da "luz dos olhos" aproximar-se-á à saudade do marido ou da esposa desaparecidos?
A musa anônima não acredita totalmente nesta saudade.
Chamamos dor de viúva ao sofrimento causado por um choque repentino na rótula ou no cotovelo. É uma dor viva, penetrante, insuportável mais rápida. Dura segundos. Assim o povo acusa as viúvas da passageira mágoa pela ausência do seu "defunto".
"Viúva rica, com um olho chora, com o outro repica". O Rifoneiro português, de Pedro Chaves, lembra que em Portugal: "Viúva rica, com um olho chora, com o outro repinica".
Quando va por la calle
La viudo rica.
Un ojo dice "nones",
Y otro repica.
Semelhante na Itália:
La vedovella colla vedovanga
Pianga lo morto e nello vivo pensa.
In altro giovinetto ha la speranza.
E para os viúvos a sátira é idêntica:
Dolor por mujer muerta
Llega hasta la puerta
Ou então:
Dolor de viugo,
Corto y agudo.
O que dizemos nós no Brasil na dor de viúva, dizem os espanhóis dolor del viudo.
Informa Rodrigues Marin: "A la pasajera pero molestisima sensacion que produce qualquier golpe en el codo ó en la rótula se llama comunmente el dolor del viudo".
Certo? Engano? Sátira? De tudo certamente um pouco existe na Gaya Scienza, o alegre saber dos folclores.
Fonte:
CASCUDO, Luís da Câmara. "Sede e saudade". O Estado de São Paulo. São Paulo, 27 de abril de 1958.
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