segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Domingos Freire Cardoso (Poemas Escolhidos) V


Obs do blog: O primeiro verso e título de cada poema é do poeta colocado abaixo do título, com a página e livro onde se encontra.
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EU SEI QUE VOAREI, NA IMENSIDADE

João Baptista Coelho, in "Um outro livro de Job", p. 75.

Eu sei que voarei, na imensidade
Do reino da palavra que é magia
Se as brancas asas gráceis da Poesia
Me derem essa pura caridade.

Com alma solta em franca liberdade
Planarei sobre o mar e a maresia
E tudo o que até aqui não entendia
Verei na limpidez de uma verdade.

Nesse dia em que a treva se dilui
Serei mais do que algum dia já fui
Numa grandeza de alma sem ter fim.

E este mundo será meu por completo
Que no imenso infinito eu me projeto
E já não caibo inteiramente em mim.
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MEU IRMÃO, VEM COMIGO VER O MAR


Glória Marreiros, in "Terra de Ninguém", p. 33

Meu irmão, vem comigo ver o mar
Chão e calmo em constante movimento
Berço da vida e fonte de alimento
Com espuma que é renda de um altar.

Esquece a dor de um barco a naufragar
Abandona-te às ondas e ao bom vento
Que o mar é esse líquido elemento
Que os homens trazem de volta à luz do lar,

Mãe de lendas por tantas gerações
Ó mar tu é que irmanas as nações
Nascidas pelos cantos deste mundo.

Reino do céu azul, brumas e medos
Só tu sabes os bens e os segredos
Que guardas no teu seio tão profundo.
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NOS TRISTES OLHOS MAL SUSTENHO O PRANTO

João Xavier de Matos, in "Cem Sonetos Portugueses", p. 50

Nos tristes olhos mal sustenho o pranto
Por ver como é tão pobre e diminuta
A alma que no peito trago enxuta
De trovas que lhe tragam novo canto.

Não tem razão de ser um tal espanto
Que ser pequeno é fado que me enluta
E, aos poucos, vai matando, qual cicuta
Que tomo pela mão do desencanto.

Ser pouco talvez tenha uma virtude
Se a alma o reconhece e não se ilude
Com sonhos de grandeza bem fadada.

No concerto do mundo todos cabem:
Mais vale o que de nós outros não sabem
Do que nós deles não sabermos nada.
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QUIS O TEMPO QUE NESTE TEMPO ESPERE


Joaquim Sustelo, in "No Silêncio do Tempo", p. 74
Quis o tempo que neste tempo espere
Lento, o correr das horas e dos dias
E o vento vai ditando as profecias
Com que o tempo o meu peito sangra e fere.

Por muito que eu estime e considere
O saber que em teu seio me trazias
Eu noto que também tu me escondias
O limbo que a vil morte nos confere.

Passa em mim sem causar ruína ou dano
Faz do meu ser um templo mais humano
Liberto de dor, mal, culpa ou pecado.

Estarei aqui pronto a receber
A vida que me queiras conceder
Cumprindo humildemente esse meu fado.
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SINTO O SANGUE GELAR-SE-ME NAS VEIAS


José Barreto, in "Cânticos de Paixão e Outras Cores", p, 24

Sinto o sangue gelar-se-me nas veias
Quando no peito morre uma esperança
Ou se solta um cabelo de uma trança
Onde o ouro brilhava sem ter peias;

E quando a luz que havia nas ideias
Se extingue sem deixar qualquer herança
Que no futuro seja uma lembrança
Dos povos que cantaram epopeias.

E o meu corpo minado pelo frio
Ganha a dureza gélida de um rio
A que os polos dão alma de glaciar.

Sou branca massa de água deslizando
Que sobe um mar de mágoa abominando
Onde eu não sou capaz de me afogar.

Fonte:
Domingos Freire Cardoso. Por entre poetas. Ilhavo/Portugal, 2016.
Livro enviado pelo poeta.

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