quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Arthur Thomaz (Cururuquira)


Enfim, chegara o momento da tão temida pergunta:

— Mãe, pode me explicar como eu nasci assim?

O pai, tomando a frente, responde tentando mostrar altivez.

— Meu filho, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe, ela germinou e você nasceu.

— Pai, eu sei que vocês fizeram sexo, mas a minha dúvida é porque nasci assim, um cururuquira?

Atarantados, os pais entreolharam-se, permanecendo calados.

— Eu quero saber o porquê não nasci um lindo pavão, um forte leão ou mesmo um esbelto cavalo. Nem pesquisando no Google e sequer na Wikipedia encontrei qualquer referência à espécie Cururuquira.

Ainda estupefato, o pai retrucou:

— Meu filho, nossa família vem de um passado glorioso, onde nossos ancestrais sobreviveram às intempéries, às sucessivas pandemias e aos ferozes predadores. Somos uma raça forte e temos que nos orgulhar disso.

Diante deste quadro, insatisfeito, ele fez as malas e despediu-se, afirmando que só voltaria quando obtivesse respostas às suas dúvidas existenciais.

Adquiriu um exemplar do livro “A origem das espécies”, de Charles Darwin, e foi lendo em sua viagem inicial até as Ilhas Galápagos.

Nada encontrou no livro e tampouco no arquipélago algo relacionado à sua genealogia. Desapontado, mas obstinado em seus objetivos, resolveu empreender uma viagem por todos os continentes em minuciosa pesquisa.

Visitou alguns países da América do Sul, findando sua busca no Brasil. Desistiu quase imediatamente, quando no aeroporto foi cercado por estranhos seres trajando roupas vermelhas e que insistiram em levá-lo a um cartório para trocar seu nome para “Cururuquire”, por causa de uma tal ideologia de gênero que queriam impor no país.

Inconformado com esse absurdo, embarcou no primeiro voo com destino à América do Norte, pensando que ele, preocupado em encontrar as origens de sua espécie, e aqueles idiotas querendo trocar seu gênero.

Desembarcou no México, onde empreendeu muitas buscas em sítios arqueológicos das antigas civilizações astecas e maias, mas nada encontrou de seu interesse.

Foi assediado por “coyotes” que prometiam transportá-lo através da fronteira até os Estados Unidos. Conseguiu escapar desse bando e já no país vizinho reiniciou sua procura.

Visitou bibliotecas de inúmeras universidades, onde encontrou farto material, mas nada interessante que o ajudasse em seu propósito.

Nessa estadia angariou alguns quilos de tanto comer fast food. Em seu próximo destino, o continente africano, deparou-se com centenas de locais para pesquisar, porém, observou que eram semelhantes ao que estudara na América do Sul, o que comprovava a teoria da separação dos continentes em priscas eras.

Nas savanas escapou do ataque de alguns animais selvagens que estranharam sua aparência e embarcou para o “antigo continente”.

Vários países com culturas diversas e algumas dificuldades com as inúmeras línguas faladas tornaram extremamente dificultosos os seus estudos. Em algumas aduanas encontrou problemas para se identificar, pois os agentes não conseguiam constatar sua espécie, entretanto, o deixavam prosseguir, talvez com “pena” dessa “insignificante e inofensiva criatura”.

Isso naturalmente não o deixava feliz, mas facilitava sua locomoção. Na Ásia, as geleiras restringiram muito seu campo de ação. Escapou de alguns policiais russos e bielorrussos que teimavam em considerá-lo um potencial espião imperialista.

Em certo país, cientistas aventaram a hipótese de dissecá-lo para estudos genéticos em um laboratório. E quando estava quase sendo sacrificado, alguns hamsters condoeram-se daquele estranho ente e indicaram-lhe a saída e o melhor momento para a fuga.

Desalentado, alquebrado e já alguns anos mais velho, resolveu voltar à terra natal. Após demorados abra- ços em seus pais, e muito choro derramado, resumiu toda sua inútil procura em poucas frases.

— Meus amados pais, desejo externar a vocês minha gratidão por ser um cururuquira. Depois de conhecer várias espécies diferentes neste mundo imenso, cheguei à conclusão que somos os “esquisitos” mais interessantes e felizes.

— Imaginem se tivéssemos nascido seres frios de alma e materialistas como muitos neste planeta?

Os cururuquiras, a partir desta descoberta, tornaram-se uma das mais fortes e perenes espécies do planeta.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor 
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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 102 *


Poema de
CASTRO ALVES
Freguesia de Muritiba (hoje, Castro Alves)/BA, 1847 – 1871, Salvador/BA

O crepúsculo sertanejo

A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — silêncio!... Talvez uma — orquestra...
Da folha, do cálix, das asas, do inseto...
Do átomo — à estrela... do verme — à floresta!...

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao açoite —;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co'as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles* das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O voo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!…
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* jungles = selvas
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

Minha lira

Minha lira interior vibrando ao te encontrar,
Levando-me de volta a dias tão distantes,
Naquele nosso encontro, e a mim sempre garantes
Que foi somente o acaso ali sob o luar...

Que nos levou também ao céu naquele abraço,
ao contar as  estrelas em  todo  esplendor
de uma noite suave  e cheia de sabor...
Nós dois ali sentados perto do terraço.

Mamãe a nos olhar vai chegando à janela,
convida-me a  entrar, é hora de dormir
cordialmente  vais sem  nem se despedir.

Canta meu coração, tal qual naqueles dias,
Ao entrar em meu quarto, enquanto tu partias...
Mas, hoje, meu amor, só eu vou decidir.
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Poema de
SILAS CORRÊA LEITE
Itararé/SP

Família

Minha mãe fritava polenta
e convidava a aurora para o banquete

Clarice tinha tranças bonitas
e uma voz de santa

Sueli era uma janela fechada
esperando um príncipe encantado

Erzita era a "irmãe" mais velha
guardiã dos sonhos de nós todos

Paulo e eu brigávamos muito
e tínhamos o destino da luta

(Célio sequer existia ainda
para ser nosso referencial futuro)

Depois meu pai vendeu a casa
Morreu 

virou saudade e nos deixou Célio Ely
de herança

E minha mãe com sua voz de clarinete
ainda alonga orações por nossos sonhos.
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Quadra Popular

Quando eu te vi, logo disse:
lindos olhos para amar,
linda boca para os beijos
se a menina os quiser dar.
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Soneto de
JOSÉ XAVIER BORGES JUNIOR
São Paulo/SP

O Livro que não leste

De quais ignotos mundos transcendeste,
Para perder-te assim em meu passado?
E ao te perder perdi meu sonho amado...
A quais ignaros mundos pertenceste?

Por que à ignávia* lassidão cedeste?
E por que teu amor tens abrandado
Se por ti eu teria abandonado
De novo toda a vida que me deste?

Em quais ignóbeis mundos te perdeste
Vagando assim ao léu desencantado,
Que ao ferir-me sequer te apercebeste?

Eu sou a sinfonia que fizeste,
E o amor que te dedico, abnegado
É o livro da tua vida, que não leste!
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* ignávia = covarde, indolente.
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Poema de
VIVALDO TERRES
Itajaí/SC

Ao encontrar-te

Ao encontrar-te na rua.
Maltrapilha, quase nua,
Implorando pedaço de pão,
Quem te conheceu não sabe,
Que fostes qual majestade
Morando numa mansão.

Tratavas teus serviçais
Como se fossem animais,
Sem amor ou compostura.
Hoje estás abandonada,
Passas as noites na calçada,
Como mendiga de rua.

Quantas noites recebestes
Esmola e compreensão
Dos mesmos que maltratavas
E arrogante, gritavas:
Vão trabalhar malandrões!

Os mesmos, indignados,
Mas pobres e necessitados.
Fingiam não te escutar
Pois eram gente honesta
Precisavam do trabalho
Pra seus filhos sustentar.

E tu, com arrogância,
Não pensavas que ferias
a alma e o coração
Daqueles que trabalhavam,
Cujo suor derramavam
Para ganharem seu pão..

Hoje vives abandonada,..
Cansada, desmemoriada,
Talvez sintas dor profunda.
Tua casa é a marquise,
Tua cama é a calçada,
Pois és mendiga de rua. 
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Soneto de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

O segredo de um tesouro

“Um bom amigo, que nos aponta os erros e as imperfeições e reprova o mal, deve ser respeitado como se nos tivesse revelado o segredo de um oculto tesouro.” 
(Sidarta Gautama - BUDA) 

O segredo de um tesouro 
não está no que se tem, 
mas no que nos vale ouro: 
ser a luz irmã de alguém. 

Toda luz é mais que o louro 
das vitórias de um 'ninguém', 
um senhor que tira o couro 
dos irmãos e o seu também. 

Vem cansado e sem abrigo 
este irmão aqui presente, 
sem a luz que mais persigo... 

Um tesouro é um bom amigo, 
um irmão que o faz contente, 
bem cantante, vento ao trigo!…
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Poema de
VINÍCIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980

A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais
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Soneto de
HERMES FONTES
Buquim/SE, 1888 – 1930, Rio de Janeiro/RJ

Luar 
(em Gênese)

Noite ou dia?! Ilusão... É noite. A Natureza
tem um pudor de noiva, ao beijo do noivado:
sonha, velada por um véu diáfano, e presa
de um sonho branco, um sonho alegre, iluminado.

A Lua entra por toda a parte, clara, acesa...
Desabrocham jasmins de luz, de lado a lado...
E o luar – vê bem: dirás que é o óleo da Tristeza
diluído pelo céu... pela terra entornado...

E há nos raios da Lua – a um tempo, hastis e lanças,
corações a sangrar feridos do infortúnio,
flores sentimentais do jardim das lembranças...

A ave do Sentimento as asas bate e espalma...
e, enquanto se abre aos céus a flor do Plenilúnio,
abre-se, dentro em nós, o plenilúnio da Alma...
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Poema de
GONÇALVES DIAS
Caxias/MA, 1823 – 1864, Guimarães/MA

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
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Grinalda de Trovas de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Mulher

Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter, na vida,
um coração de mulher!
Filemon Martins

Quero seguir meu destino
com minha cabeça erguida,
quem ama o bem, imagino,
segue uma estrada florida.

Segue uma estrada florida,
quem é da paz e requer
a esperança protegida,
quem, na verdade, tiver.

Quem, na verdade, tiver
uma paixão desmedida,
felicidade é mister
a glória de ter, na vida.

A glória de ter, na vida,
um amor minha alma quer,
numa paixão incontida
um coração de mulher!
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Hino de 
Itaboraí/ RJ

Pedra Bonita, 
foi assim que te chamaram
Certa vez em Guarani
Terra bendita, 
é assim que hoje 
te chamo minha Itaboraí

Tens uma porta aberta para o mar
És a janela do nosso país
Quem vem de longe aprende a te amar
Quem nasce aqui é a tua raíz

Com a argila do teu solo
O calor do teu colo
E o suor do teu povo

Vamos seguir com firmeza
E ajudar com certeza
A construir um mundo novo

És um eterno poema
Que tem como tema a felicidade
Escrito pelo criador, 
que te transformou nesta bela cidade (Bis)

Teus laranjais, 
teus imortais
A tua história é um hino de amor
És a própria paz, 
porque sempre estás 
nas mãos de nosso senhor (Bis)

Itaboraí, Itaboraí!
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Soneto de
BERNARDO TRANCOSO
Vitória/ES

Ser feliz

Vida é viver, é ser alguém, é ser ninguém,
Quando quiser; é não mentir, sempre sorrir,
Morrer de rir, quando puder; é querer bem,
Homem, mulher, um ser qualquer, sem resistir;

Não desistir, nunca chorar, só quando tem
Alguém pra ouvir; sonhar, lutar, pra descobrir
O que é amar, o que é sentir; saber também
Que é grande o amor, elevador, sempre a subir;

Crescer, ter fé, firmar o pé, pisar no chão
E caminhar; Andar e crer, buscar, querer,
Na imensidão, o teu lugar; ter mente exposta

E, a quem te gosta, essa canção, teu coração;
Responder "não", pra quem te diz: "Ser ou não ser:
Eis a questão"; pois SER FELIZ: eis a resposta.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O passarinheiro, o açor* e a cotovia

A injustiça, o rigor desculpam-se em geral
Citando como exemplo a quantos fazem mal,
Ninguém deve esquecer a regra tão cediça:
«Respeite sempre os mais quem atenções cobiça».

Certo dia um campónio armava aos passarinhos —
Vem despontando abril, estão já sós os ninhos,
A grande natureza há muito que não dorme,
O campo todo em flor ostenta um luxo enorme,

Imprime vibrações no ambiente perfumado,
O constante esvoaçar do inquieto mundo alado —
E o homem de atalaia...
De repente sorri dizendo: — «Talvez caia!»

— Cair o quê? Não sei — objeta-me o leitor.
Era uma cotovia. A tola, a sensabor
Dispunha-se a trocar a boa liberdade
Pela rede traiçoeira, e até, que ingenuidade!

Vinha cantando alegre a procurar a morte:
Ou se é, ou não se é forte.
Neste ponto um açor, que andava pelos ares,
Faminto, peneirando em voltas circulares,

Avista a pobrezinha e rápido qual seta
Silvando fende o espaço em breve linha reta,
Cai sobre a cotovia, empolga-a rudemente,
Aperta-a, despedaça-a em fúria recrescente.

Que bárbaro glutão!
Viu tudo o caçador e resolveu-se então
A puxar o cordel da pérfida armadilha,
Que ao distraído açor enreda, envolve e pilha.

Colhido de improviso o bicho quer soltar-se,
Mas logo dissuadido, usando de disfarce,
Murmura em voz mui doce:
«Meu caro caçador, sem dúvida enganou-se,

Podia lá prender-me! Eu nunca lhe fiz mal!...»
Replica-lhe o campónio: «E o pobre do animal
Que aí tens, fez-te algum? Não me responderás?»
O açor quis responder, porém não foi capaz.
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* Açor = ave de rapina, semelhante ao falcão.
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José Feldman (As Cócegas da Discórdia)

Henrique e Pafúncio eram amigos inseparáveis, há uns 40 anos, mesmo na terceira idade, já aposentados. Passavam as tardes jogando cartas, contando histórias e tomando um bom café. Mas, como em toda amizade de longa data, um dia a paz foi abalada.

Uma discussão sobre quem seria o melhor contador de histórias rapidamente se transformou em um combate acalorado. Pafúncio, com um brilho travesso nos olhos, revelou que tinha um novo amigo que era “muito mais unido” do que Henrique. O velho Henrique ficou furioso. 

— Ah, é? Se eu morrer primeiro, vou puxar o seu pé à noite! — disse ele, com a voz embargada de raiva e um sorriso nervoso.

Pafúncio riu, achando que Henrique estava apenas exagerando. Mas, para sua surpresa, alguns dias depois, Henrique teve um infarto fulminante e faleceu. 

O velório foi triste, mas Pafúncio não pôde evitar de pensar: “Quero ver puxar meu pé, velho malandro!”.

Naquela noite, após o funeral, Pafúncio se acomodou na cama, tentando apagar da mente a discussão ridícula. Mas, ao fechar os olhos, uma sensação estranha começou a invadir o quarto. Ele se virou para o lado e, de repente, sentiu algo gelado tocar seu pé.

— Quem está aí? — sussurrou, com o coração disparado.

E, como se tivesse respondido ao chamado, o espírito de Henrique apareceu, com uma expressão travessa.

— Olá, Pafúncio! Lembra da minha promessa? 

Pafúncio quase caiu da cama. Ele começou a gritar e a rir ao mesmo tempo, enquanto o espírito de Henrique fazia cócegas em seu pé.

— Para! Para! — ele berrou, se contorcendo na cama.

Mas Henrique, em forma de espírito, não parecia se importar. Continuou a fazer cócegas, enquanto Pafúncio tentava explicar que tudo não passou de um desentendimento.

— Eu juro, não tenho outro amigo! Só falei isso para você ficar ciumento! — gritou Pafúncio.

Henrique, contente com a confissão, finalmente parou. Ele olhou para o amigo, agora ofegante, e riu.

— Então, você quer dizer que eu sou seu único amigo? 

— Sim! — respondeu Pafúncio, ainda rindo. — Sempre foi!

O espírito de Henrique decidiu dar uma trégua. Mas a paz durou pouco. Na noite seguinte, ele voltou, insatisfeito pelo amigo o ter enganado e novamente começou a fazer cócegas.

— Ah, você de novo! — gritou ele, rindo desesperado. — Se continuar assim, vou acabar morrendo de tanto rir!

As noites se tornaram um verdadeiro dramalhão. Pafúncio passou a contar para os amigos que “Henrique estava puxando seu pé” e todos achavam que ele tinha ficado maluco. Mas, na verdade, ele apenas estava com saudades dos velhos tempos com seu amigo.

Finalmente, uma noite, teve uma ideia. Ele se deitou e, em vez de se assustar, começou a conversar com o espírito de Henrique.

— Olha, a gente pode fazer diferente. Que tal você me contar histórias em vez de fazer cócegas?

Henrique, surpreso com a proposta, aceitou. E assim, as noites se tornaram um festival de risadas, rindo e trocando as histórias que sempre amaram.

No fim, a amizade deles perseverou até mesmo além da morte, e aprenderam que, às vezes, a melhor maneira de lidar com a raiva é através do riso. 

E, claro, sempre mantendo os pés encolhidos, longe de espíritos travessos!
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Plat.Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
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Sammis Reachers (O deserto, o oásis e a tamareira)


Eu a conheci no Gragoatá, em Niterói, perto de um dos campus da UFF. Pegávamos o mesmo ônibus. Ela, menina de seus 16 anos, sempre de negro, com seus longos escorreitos cabelos negros e as indefectíveis camisas negras de bandas de rock. Branca como a serpente edênica, que era branca como um anjo de luz se você não sabia. Muda e também calada. Ia todas as tardes levar sua irmã especial (tinha síndrome de Down) num colégio para especiais.

Nos olhávamos longamente. Eu estava na primeira separação desta de quem agora estou pela segunda vez separado, e a olhava com faminta ternura. Seu mutismo. Sua rebelião pelo silêncio e pelo luto. Seu contraste negro/claro.

Um dia não suportei e com meu melhor sorriso perguntei-lhe o nome. “Quem quer saber?”, foi seu semi-coice lacônico. “Eu quero. Meu nome é Sammis”. “Porque?”. “Porque te vejo todo dia, e te admiro”. “Tamara”, disse sem nenhum sorriso. 

Conversamos sobre bandas de rock. System of a Down, que naquele tempo era novidade. Não tinha namorado. Fiquei quatro dias sem vê-la, apenas alimentando as hienas da esperança. Quis ser romântico. Preparei uma carta, explanando acerca da origem e beleza de seu nome, meu sentimento por ela, e o poema de Gullar, flecha reciclada, já usado antes e usado depois, como bumerangue de um aborígene perdido na urbe:

Cantiga para não morrer

Quando você for-se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Encontrei-a ao fim da semana, no ponto de ônibus. Cheguei já na hora em que elas embarcavam no coletivo. Eram três: elas estavam com sua mãe (era divorciada, moravam as três num apartamento em São Domingos, bairro contíguo ao Gragoatá). Num movimento furtivo, enquanto sua mãe estava na roleta garimpando na bolsa o dinheiro das passagens, cutuquei-a e entreguei-lhe a carta. Ela apanhou-a com sua mão alvíssima e expressão impassível, marmórea, e colocou no bolso. A minha carta romântica e culta.

Nas semanas seguintes, desapareceu. 

Perguntei ao cobrador, “aquela menina branquinha, com a irmã especial”, mas ele também não a vira. Vira a mãe com a menininha apenas.

Passados dois meses, reencontrei-a: ela estava dentro de um ônibus, sentada à janela, e eu parado no ponto. Cutuquei-a para que tirasse os fones e saísse de sua imersão roqueira. “Você sumiu, o que houve?” “Nada.” “E a minha carta, você gostou?” “Eu tenho namorado.” Bah, mulheres. Rostos mutantes da mesma Eva, do mesmo punhal.

Bem, eu era um pobretão de vinte e sete anos e ela era uma menina mimada filha da classe B.

Sete meses depois, abro o jornal O Fluminense que jazia já amarrotado sobre a mesa de meu patrão, e vejo sua foto. Ela tinha dezoito, não dezesseis. Sim, tinha namorado. Havia se suicidado junto a ele, no palacete do pai do mesmo, na nobre estrada Froés, em Icaraí. Deixaram um longo bilhete, que o jornal não reproduzia. Não quis me informar mais.

Talvez eu a teria salvo, Tamara. Com a minha dor maior que a sua, providenciaria sombra para seu descanso. Entraria e habitaria de literaturas, de asas, sua vida e seu silêncio. E devagar, e sempre em silêncio, iniciar-te-ia num arcano que seus mortos e tribos não podiam, não podem: a lenta explosão que é o conhecimento.
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Sammis Reachers Cristence Silva nasceu em 1978, em Niterói/RJ, mas desde sempre morador de São Gonçalo/RJ, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Licenciado em Geografia atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É autor de dez livros de poesia, três de contos/crônicas e um romance, e organizador de mais de cinquenta antologias.  Aos 16 anos inicia seus escritos e logo edita fanzines, participando do assim chamado circuito alternativo da poesia brasileira, com presença em jornais e informativos culturais. Possui contos e poemas premiados em concursos do Brasil, bem como textos publicados em antologias e renomadas revistas de literatura.

Fontes:
Mar Ocidental 23.01.2013.
https://marocidental.blogspot.com/2013/01/o-deserto-o-oasis-e-tamareira.html
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domingo, 28 de setembro de 2025

Estante de Livros ("O Destino Viaja de Ônibus", de John Steinbeck)

Obs: Resumo biográfico do escritor após o resumo do livro

"O Destino Viaja de Ônibus" (título original: "The Wayward Bus"), publicado em 1947, é um romance de John Steinbeck que explora temas como a natureza humana, o desejo, a desilusão e a busca por significado em um mundo em transformação. 

Ambientado na zona rural da Califórnia pós-Segunda Guerra Mundial, o livro narra a história de um grupo diversificado de passageiros presos em uma viagem de ônibus interrompida por uma tempestade. Através das interações e experiências desses personagens, Steinbeck oferece um retrato complexo e, por vezes, satírico da sociedade americana.

ENREDO E ESTRUTURA

A trama central gira em torno de Juan Chicoy, o proprietário e mecânico de uma garagem decadente e do único ônibus que liga Rebel Corners ao mundo exterior. Quando uma tempestade torrencial danifica a estrada, um grupo de passageiros fica preso em uma jornada que se torna tanto física quanto existencial. Entre eles estão:

– Ernest Horton: Um vendedor viajante, preso em uma vida medíocre e sonhando com aventuras.
– Mildred Pritchard: Uma jovem mimada e entediada, em busca de emoção e romance.
– Norma: Uma garçonete insegura, obcecada por revistas de celebridades e em busca de amor.
– Camille Oaks: Uma dançarina de strip-tease, tentando escapar de seu passado e encontrar um novo começo.
– Van Brunt: Um homem misterioso e taciturno, carregando um segredo obscuro.

A estrutura do romance é relativamente simples, seguindo a jornada do ônibus e as interações entre os passageiros. No entanto, Steinbeck intercala a narrativa principal com flashbacks e monólogos interiores que revelam as motivações e os desejos ocultos de cada personagem.

TEMAS PRINCIPAIS

Natureza Humana: 
Steinbeck explora a complexidade da natureza humana, retratando personagens com qualidades e defeitos, sonhos e frustrações. Ele examina como o desejo, o medo, a ganância e a compaixão moldam o comportamento humano em situações de crise.

Desilusão:
Muitos dos personagens estão desiludidos com suas vidas e buscam algo mais. Ernest Horton sonha com aventuras exóticas, Mildred busca emoção e Norma anseia por um romance de conto de fadas. A jornada de ônibus se torna uma metáfora para a busca por um significado que muitas vezes se revela ilusório.

Desejo e Sexualidade: 
O desejo sexual é um tema recorrente no romance, manifestando-se de diferentes formas em cada personagem. Mildred usa sua sexualidade para manipular os homens, Norma idealiza o amor romântico e Camille busca uma conexão genuína. Steinbeck explora como o desejo pode ser tanto uma força destrutiva quanto uma fonte de esperança.

Classe Social:
O romance retrata a diversidade da sociedade americana, reunindo personagens de diferentes classes sociais e origens. As interações entre eles revelam as tensões e preconceitos que permeiam a sociedade.

Busca por Significado:
Em última análise, "O Destino Viaja de Ônibus" é uma meditação sobre a busca por significado em um mundo caótico e imprevisível. Os personagens são forçados a confrontar suas próprias limitações e a encontrar um sentido em suas vidas, mesmo em meio à desilusão e à incerteza.

ESTILO E SIMBOLISMO

O estilo de escrita de Steinbeck é caracterizado por sua prosa simples e direta, rica em detalhes sensoriais e descrições vívidas da paisagem californiana. Ele usa metáforas e simbolismos para enriquecer a narrativa e transmitir seus temas principais. O ônibus, por exemplo, pode ser interpretado como uma metáfora para a jornada da vida, enquanto a tempestade representa os desafios e obstáculos que encontramos ao longo do caminho.

RECEPÇÃO DA OBRA

"O Destino Viaja de Ônibus" recebeu críticas mistas após sua publicação. Alguns críticos elogiaram a habilidade de Steinbeck em retratar a complexidade da natureza humana e sua crítica social perspicaz, enquanto outros consideraram o romance menos bem-sucedido do que seus trabalhos anteriores. Apesar das críticas, o livro permanece uma obra importante na obra de Steinbeck, oferecendo uma visão fascinante da sociedade americana do pós-guerra e explorando temas que continuam relevantes hoje.

FINAL

"O Destino Viaja de Ônibus" é um romance complexo e multifacetado que oferece uma reflexão profunda sobre a natureza humana, o desejo, a desilusão e a busca por significado. Através de seus personagens cativantes e sua prosa evocativa, Steinbeck nos convida a embarcar em uma jornada que nos leva a confrontar nossas próprias limitações e a encontrar um sentido em nossas vidas, mesmo em meio à incerteza e ao caos.
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John Ernst Steinbeck nasceu em 27 de fevereiro de 1902, em Salinas/ Califórnia/ Estados Unidos. Ele foi um dos escritores mais influentes do século XX, conhecido por suas obras que exploram a condição humana, a luta dos pobres e a injustiça social. Cresceu em uma família de classe média, onde desenvolveu um interesse pela literatura desde cedo. Ele estudou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, mas abandonou os estudos antes de concluir o curso, dedicando-se à escrita e a trabalhos temporários. Começou a ganhar reconhecimento na década de 1930, com obras como "Tortilla Flat" (1935) e "As Vinhas da Ira" (1939), que retratam as dificuldades enfrentadas por trabalhadores e agricultores, especialmente durante a Grande Depressão. Seu estilo realista e seu compromisso com temas sociais o tornaram uma voz poderosa em sua época. Seus romances frequentemente abordam questões de classe, desigualdade e a luta pela dignidade humana. Outras obras: “Ratos e Homens" (1937); "A Pérola" (1947); A Leste do Éden (1952). "As Vinhas da Ira" ganhou o Prêmio Pulitzer e é considerado uma de suas obras-primas. Steinbeck casou-se três vezes, primeiro com Carol Henning, depois com Gwyndolyn Conger e, por fim, com Elaine Scott. Ele teve dois filhos. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu como correspondente de guerra, e suas experiências influenciaram seu trabalho. Em 1962, Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, reconhecido por sua escrita que "capturou a realidade da vida americana e a luta de seus habitantes". Faleceu em 20 de dezembro de 1968, em Nova Iorque. Sua obra permanece relevante, abordando temas universais que ressoam com as lutas contemporâneas da sociedade.