quarta-feira, 29 de abril de 2026

Silmar Bohrer (Croniquinha) 159


Ele reinava garboso ali no outro lado da rua, junto ao terreno vago, sempre agitando seu verde. Certa noite um vento mais forte no outono quebrou um galho grosso, sendo ele uma das estruturas do pé de mamona crescendo altaneiro.

De manhã abro a porta e vejo parte do tronco, aquele galho, tortinho na vertical. Quebrado. Lamentei, não gostei, até fiquei triste. Estava linda a roupagem do pé de mamona. 

Passaram-se dois dias e então cortei a parte que já secava. Disse a mim mesmo, vou esperar, logo mais estará com uma galhada nova.

Outros quinze dias, eis senão quando olho ao lado da cerca vizinha e enxergo o pé de mamona novamente cheio, verdejante, ao sabor da brisa da tarde.

Exultei lembrando da nossa Cecília Meireles num dos seus versos, "Se me cortarem um braço, eu cresço do lado...".

Fiquei ainda com a memória daquele dito popular de que muitos não acreditam  – "Há males que vêm para o bem".

Eu sempre acreditei. E você?
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada com IA Adobe Firefly

terça-feira, 28 de abril de 2026

Asas da Poesia * 182 *


Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Com a filha "naquele estado",
o pagode interrompeu:
“- Confessa ou morre ... tô armado!”
Os três confessam: "Fui eu".
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Chuva e saudade

Cai a chuva... é triste o dia...
A manhã é cinzenta e baça...
E eu mudo vejo a chuva fria,
A correr de leve na vidraça...

E a chuva cai... cai e não passa...
Nem sequer a chuva estia...
Para que um pouco se desfaça,
A saudade de quem eu tanto queria!...

Qual essa vidraça, está meu rosto...
E meus olhos não querem desanuviar...
É por demais sofrido o meu desgosto...

Aumenta a chuva e com ela a minha dor...
Soluço qual criança perdida, sem cessar,
Na incerteza de ao menos rever-te amor!...
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Aldravia de
MARISA GODOY
Ponte Nova/MG

Abelha
morta:
menos
mel
no
pote
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR, 1816– 1918), Rio de Janeiro/RJ

Um Homúnculo

Tão pequenino e trêfego parece,
Com seu passinho petulante e vivo,
A quem o olha, assim, com interesse,
Que é a quinta-essência do diminutivo.

Figura de leiloeiro de quermesse,
Meloso e parecendo inofensivo,
Tem de despeitos a mais farta messe,
E do orgulho é o humílimo cativo.

Não há talento que ele não degrade,
Não há ciência e saber que ele, à porfia,
Não ache aquém da sua majestade.

Dele um colega, há tempos, me dizia:
É o Hachette* ilustrado da vaidade,
É o Larousse da megalomania!
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* Hachette = Originalmente, a Hachette era uma livraria e casa editorial fundada por Louis Hachette em 1826
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Trova de
DARLY O. BARROS 
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Passando a vida em revista
descubro, ao fim dos meus dias,
ter sido o nada a conquista
que eu trago nas mãos vazias...
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Poema de
EMILIANO PERNETA
(Emiliano David Perneta)
Curitiba/PR, 1866 – 1921

Para Um Coração

Um dia, vi-te, assim, bailando,
E a uma pergunta, que te fiz,
Tu respondeste : "Eu amo, e quando,
E quando eu amo, eu sou feliz!"

Por uma noite perfumada,
Cantaste, sobre o teu balcão.
E eu disse, ouvindo a áurea balada :
- Ah! Que feliz é o coração!

Quanta felicidade, quanta,
Não há ninguém feliz assim :
Um dia baila e noutro canta,
Como se fosse um arlequim...

Eu disse .. Mas agora vejo,
Nesse silêncio tumular,
Que estás sofrendo, e o teu desejo
Já não é mais o de bailar...

Nem de bailar, e nem, de certo
De nada mais, de nada mais...
Que fazes, pois, triste deserto,
Que fazes pois, que não te vais?

Mas, choras, creio, choras? Onde?
Se viu chorar um Lúcifer?
Pobre diabo, vamos, esconde
Essas fraquezas de mulher...
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TROVA POPULAR

A árvore do amor se planta
no centro do coração;
só a pode derrubar
o golpe da ingratidão.
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
(Mário de Miranda Quintana)
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

O Auto-retrato

No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
— pouco a pouco —
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!
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Trova de
A.M.A. SARDENBERG
(Antonio Manoel Abreu Sardenberg)
São Fidélis/SP

A vida segue de arrasto,
do sonho nada me resta…
E o que sentia tão vasto,
vejo agora que não presta.
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Poema de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR, 1912 — 2004, Curitiba/PR

Alegria de Viver

Amo a vida. 
Fascina-me o mistério de existir. 
Quero viver a magia 
de cada instante, 
embriagar-me de alegria. 

Que importa a nuvem no horizonte, 
chuva de amanhã? 
Hoje o sol inunda o meu dia.
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Trova de
SELMA PATTI SPINELLI
São Paulo/SP

Foi galantear, o Pérsio,
e o otário se deu mal:
"Tu és de fechar o comércio!”
E a morena era fiscal!
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Soneto de
LUIZ ANTONIO CARDOSO
Taubaté/SP

Solidão
  
Propensos a quereres semelhantes,
tendo a poesia inata em nossas mentes,
tínhamos o infinito... e como amantes
seríamos estrelas reluzentes.
 
Mas eis que seus desejos, tão arfantes,
fizeram dos meus sonhos, tão descrentes,
migalhas de lembranças arquejantes,
fenecendo em processos deprimentes.
 
Recusaste o poeta que há em mim,
e todos os meus versos, que sem fim,
esculpiram o amor que eu quis te dar...
 
e decretaste enfim, a solidão,
para me acompanhar à imensidão...
onde hei de eternamente te esperar!
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Trova de
LUCILIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Não Sei...

MOTE:
Não sei escrever bonito,
pois me falta inspiração,
mas o que aqui está escrito
eu sinto em meu coração!
Sofia Irene Canalles
Pedro Osório/RS, 1911 – 2004, Porto Alegre/RS

GLOSA:
Não sei escrever bonito,
mas sei amar e sentir
a beleza do infinito,
simplesmente em ir e vir!

Às vezes, eu não escrevo,
pois me falta inspiração,
outras vezes, eu me atrevo
e escrevo com emoção!

Meu verso não é erudito,
possui grande singeleza,
mas o que aqui está escrito,
sai-me da alma, com certeza!

Eu sou feliz escrevendo,
e não é mera ilusão,
ver a alegria nascendo...
eu sinto em meu coração!
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Trova de
HAROLDO LYRA
Fortaleza/CE

Confirma-se o sofrimento
do pobre homem, coitado!...
pois desde o seu casamento
que ele vive acorrentado.
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Soneto de
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ

Êxodo

Ir-me de mim, mas ir com desapego
de tudo quanto sou ou tenha sido
-- eu, que imagem me fiz de um mito grego,
no espelho de outros olhos refletido.

Partir... Mas quando? Se ainda agora chego
de algum lugar onde vaguei perdido,
trazendo, para meu desassossego,
a inconsciência total de haver partido.

Ir louco, a deflorar os horizontes,
o espírito andarilho, a carne errante,
na fome, as árvores; na sede, as fontes.

Venha junto o que igual absurdo enfrente,
de partir para longe a cada instante
e ficar em si mesmo eternamente.
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Poema de
LAURA RIDING
 Nova Iorque/EUA ,1901 – 1991, Sebastian/Flórida/EUA

Uma Gentileza

Estar viva é estar curiosa. 
 Quando perder interesse pelas coisas 
 E não estiver mais atenta, álacre 
 Por fatos, acabo este minguado inquérito. 
 A morte é a condição do supremo tédio. 

Vou deixar que me desintegre 
 E aí, por saber da paz que a morte traz, 
 Seria bom seguir convencendo o destino 
 A ser mais generoso, estender, também, 
 O privilégio do tédio a todos vocês.
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Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Porque o dia é curto,
eu curto ao máximo o dia.
Vovô já o dizia.
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Setilha de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Nós temos tanto calor
e poeira em nosso chão,
que recebemos em festa
toda chuva no sertão,
e eu sinto, nessa bonança,
uma chuva de esperança
lavando meu coração.
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Hino de 
GUARAPARI/ ES

Quer viver o sonho lindo
Que eu vivi?
Vá viver a maravilha
De Guarapari.

Um recanto que os poetas
E os violões
Não conseguem descrever
Nas mais lindas canções.

Pelas suas noites claras,
A lua serena
Vem brindar os namorados
Na areia morena.

Ninguém poderá sonhar
Nem viver o que eu vivi
Longe desta maravilha
Que se chama Guarapari.
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A Maravilha de Guarapari: Um Hino de Encantamento e Nostalgia
O 'Hino de Guarapari' é uma celebração poética da cidade de Guarapari, localizada no estado do Espírito Santo, Brasil. A letra da música exalta a beleza natural e a atmosfera encantadora da cidade, convidando o ouvinte a vivenciar a mesma experiência mágica que o narrador teve. A música começa com um convite direto: 'Quer viver o sonho lindo que eu vivi? Vá viver a maravilha de Guarapari.' Esse verso inicial já estabelece um tom de admiração e nostalgia, sugerindo que a cidade possui uma qualidade quase onírica.

A segunda estrofe destaca a dificuldade de capturar a essência de Guarapari em palavras ou música, afirmando que nem os poetas nem os violões conseguem descrever a cidade em suas 'mais lindas canções.' Isso sugere que Guarapari é um lugar que deve ser experimentado pessoalmente para ser verdadeiramente apreciado. A cidade é apresentada como um recanto de beleza indescritível, um lugar que transcende a arte e a poesia.

A terceira estrofe pinta uma imagem romântica das noites em Guarapari, onde a lua serena ilumina a areia morena, criando um cenário perfeito para os namorados. Essa imagem reforça a ideia de que Guarapari é um lugar de sonhos e romance, um refúgio para aqueles que buscam beleza e tranquilidade. A música termina com uma declaração enfática de que ninguém pode sonhar ou viver plenamente longe de Guarapari, solidificando a cidade como um lugar de importância emocional e espiritual para o narrador. 
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Poetrix de
DOUGLAS SIVIOTTI
Rio de Janeiro

passageira

a vida se vai
na espera ansiosa
do ponto de ônibus
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Soneto de
ORLANDO BRITO
Niterói/RJ, 1927 – 2010, São Luís/MA

A Trova

A trova é uma janela para o Sonho
que eu abro quando estou triste e sozinho.
A trova faz o mundo mais risonho,
com ela eu sou feliz no meu caminho.

Tudo cabe na trova: ora o medonho
tombar de um raio, ora o burburinho
do vento, ora um violão meigo e tristonho,
clamor de oceano, sons de passarinho.

Gosto da trova desde aquela data
em que andava a caçar tiés na mata,
armando uma arapuca e pondo alpiste.

Pois hoje, na arapuca de uma trova,
tento prender alguma ideia nova
para ouvi-la cantar, quando estou triste.
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Trova de
ÁUREO BAIKA
Campo Largo/PR

Eu curto todo momento
e não perco um só segundo.
Num minuto em pensamento
posso estar em outro mundo!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A galinha que punha ovos de ouro

Um homem tinha
Uma galinha,
Que Juno bela
Por desenfado
Tinha fadado:

Vivia ela
Dentro dum covo,
E punha um ovo
De ouro luzente
Em cada um dia,
Que valeria
Seguramente
Dobrão e meio;

Mas o patrão
Um dia cheio
De ímpia ambição,
Foi-se à galinha
E degolou-a.

Examinou-a;
Porque supunha
Que em si continha
Rico tesouro,
Visto que punha
Os ovos de ouro;

Mas nada achou!
E por avaro
Se despojou
Do rico amparo
Que nela tinha.

Outra galinha
Jamais topou
Com tal condão;
E assim pagou
Sua ambição.
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Mensagem na Garrafa 178 = O Lascador de Pedras


AUTOR ANÔNIMO

Acredita que outros vivem melhor do que você? Gostaria de ter nascido em lugar diferente, em outro país, desfrutar de outras condições? Quem sabe, ter outros pais? Melhor condição financeira?

Assim também pensava Mogo, um jovem que viveu na China há muitos anos. Ele ganhava seu sustento lascando pedras. Embora são e forte, não estava contente com sua vida. Queixava-se dia e noite. 

Tanto reclamou que seu anjo da guarda disse-lhe em sonhos, certa noite: "Você tem saúde e uma vida pela frente. Deveria ser agradecido a Deus. Por que reclama tanto e é tão infeliz?"

"Deus foi injusto comigo", disse o rapaz. "não me deu oportunidade de crescer."

Com medo que o seu protegido acabasse perdendo a sua vida, o anjo rogou ajuda ao Pai Todo Poderoso. Deus disse ao mensageiro que tudo o que Mogo pedisse lhe seria concedido.

No dia seguinte, Mogo quebrava pedras quando viu passar uma carruagem com um nobre coberto de joias. Desejou ser nobre. E transformou-se, então, em dono de um palácio, com muitas terras, servidores e cavalos.

Passeando em uma das tardes, feliz porque todos se curvavam à sua passagem em sinal de respeito, sentiu um calor insuportável. Mogo transpirava como no tempo em que lascava pedras. Deu-se conta de que o sol era maior do que ele, estava acima de príncipes, reis, imperadores e muito mais alto que todos. 

"Por que não posso ser o Sol?"

Escondendo a sua tristeza, o Anjo da Guarda atendeu seu desejo.

Enquanto brilhava no céu, admirado com seu gigantesco poder de amadurecer as colheitas, um ponto negro avançou em sua direção. A mancha escura ficou à sua frente e ele não podia mais ver a Terra.

"Anjo, quero ser nuvem."

Logo, poderoso, ele escurecia o sol. "Sou invencível", gritava.

Mas uma imensa rocha de granito se erguia em meio ao oceano. Mogo achou que a rocha o desafiava, e se transformou em rocha.

Certa manhã, Mogo sentiu uma lança aguda em suas entranhas de pedra. Depois outra. E outra.

"Anjo, socorro! Alguém tem mais poder do que eu. Quero ser poderoso como este ser que está tentando me matar!"

E transformou-se em lascador de pedras...

Moral:
Estamos colocados no melhor lugar, na situação que necessitamos para progredir. Ninguém se encontra em lugar errado, nem ao lado de pessoas que não mereça. Tudo se encontra dentro da lei de progresso. Não existem problemas que não possamos vencer ou dificuldades que não consigamos transpor. Cada um de nós recebe exatamente a carga que pode suportar. Nem mais, nem menos.

Saibamos ser reconhecidos a Deus pela vida, pela saúde, pelas dificuldades. Porque estrada sem pedras não é segura.

Eduardo Martínez (A lava-louças da minha amiga)


Não faz muito tempo, reencontrei a minha grande amiga Tania, que fez medicina veterinária comigo na Rural (UFRRJ). Desde 2003, ela mora em Porto Alegre, a mesma cidade em que a minha mulher (a Dona Irene) e eu residimos, apesar de, vez ou outra, irmos para a minha cidade natal (Rio) ou, então, para Brasília. 

Pois bem, em meados de 2022, a Tania nos convidou para um churrasco, especialmente preparado pelo seu marido, o Milton. Aliás, pelo simples fato de sabermos que o Milton é gaúcho, já saímos de casa certos de que a carne seria extremamente gostosa! E estava mesmo!!! Churrasco de gaúcho, como a Dona Irene costuma falar, é outro nível.

Os assuntos foram diversos, transitou pela situação cada vez mais caótica que o país vivenciava desde o Golpe contra a Dilma, passou por futebol, ganhou contornos de esperança de medalhas olímpicas no futuro, haja vista a Ana Sofia, de 11 anos, filha da Tania e do Milton, ser uma grande judoca.

Tudo isso era acompanhado pelos olhos curiosos do Lupicínio, o lindo buldogue francês da minha amiga. Já a gata Frida, mais tímida, apenas passou pela sala e foi se recolher em seus aposentos.

Quando acabamos de comer, eu me prontifiquei a lavar a louça, mas sem avisar a Tania. Ela, assim que me viu com a esponja na mão, quase me deu uma bronca.

A minha amiga falou que possuía uma lava-louças, que estava bem ali embaixo da pia. Ela começou a elogiar esse eletrodoméstico, disse que foi a melhor coisa que havia comprado. Então, a Tania se virou para a Dona Irene e perguntou:

— Qual é a marca da sua lava-louças?

— Dudu!
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 1 de maio de 2022.
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/05/a-lava-louca-da-minha-amiga.html
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Carlos Alberto Teixeira (O pastor e suas ovelhas)


A turma está ficando cansada com os excessos decorrentes da tecnologia. Um deles ?o excesso de zelo com a privacidade. É claro que  é necessário estar alerta às invasões e ao mau uso de nossos dados sigilosos. Mas não precisamos chegar ao extremo de tentar esconder de todos o conjunto completo de nossas informações, mesmo porque jamais conseguiremos ocultar tudo. Muito embora o fenômeno ainda não tenha chegado às mailing lists nacionais, lá fora o pessoal está relaxando cada vez mais, oferecendo livremente informações pessoais em seus perfis públicos de usuário: endereços de casa, telefones, aptidões, preferências, tá tudo lá?

Outra coisa é o excesso de informação. Até o identificador de chamadas lá de casa, vulgo bina, eu já desliguei. De que me interessa saber quem me ligou e não deixou recado na secretária eletrônica? E se alguém ligar e eu não quiser falar, É só usar a velha desculpa de que estou fritando alho e tá quase queimando, depois eu te ligo de volta. Sobre o excesso de emails, este é um caso à parte. Já me convenci de que jamais serei capaz de me manter em dia com a quantidade de mensagens que entram diariamente.

Pra terminar, existe o terrível hábito do excesso de confiança nos gurus. Sim, a mania de confiar exageradamente nos caras de sistemas, os analistas, consultores, programadores e assemelhados. São uma raça sem-vergonha, leitora, acredite em mim. Falo de cadeira porque sou um deles. Pensam que são donos do mundo e que dominam as forças da natureza, os desígnios do destino e os poderes telúricos do planeta. Recentemente uma leitora veio com um papo de endeusar a equipe de tecnologia da empresa em que trabalha. Perguntei a ela se conhecia o tradicional caso do pastor e suas ovelhas. Ela disse que não, então pus-me a lhe contar a história: 

Um pastor está cuidando de suas queridas ovelhas ao longo de uma estrada deserta. Os campos que ladeiam a rodovia são verdejantes e o relevo da região é monótono, com colinas baixas e suaves. O ambiente é de total paz, o visual deslumbrante. Só o que se ouve são alguns balidos e o canto dos pássaros. De repente, o pastor começa a ouvir ao longe o som de um potente motor de automóvel, aparentemente vindo em alta velocidade. Vai o ruído crescendo e logo um Porsche vermelho novinho em folha para abruptamente cantando pneu perto de onde estão o pastor e seu rebanho.

O motorista, sujeito metido e posudo trajando terno Armani, sapatos Cerutti, óculos de sol Ray-Ban, relógio de pulso TAG-Heuer/GPS e gravata Pierre Cardin, sai do automóvel e olha para o céu. Não há nuvens. Isso é bom, pensa ele. Em seguida, dirige-se ao pastor, e pergunta sem rodeios: “Se eu lhe disser quantas ovelhas você tem, você me dá uma delas?” O pastor analisa rapidamente o impetuoso jovem e depois olha para seu numeroso rebanho. Dá de ombros e responde: “OK”.

O rapaz estaciona o carro numa manobra rápida, ruidosa, mas precisa. Tira os óculos escuros e conecta seu laptop de última geração a um fax-modem-celular. Apesar do sol forte, ele demonstra frieza absoluta. Nenhuma gota de suor escorre de sua fronte. Sua destreza no teclado é inacreditável e seus movimentos são exatos e calculados com precisão. Seu próximo passo é entrar num website oculto da Nasa. Ele informa ao sistema as coordenadas geográficas do ponto onde se encontra, com base nos dados informados via radiofrequência pelo seu relógio equipado com Bluetooth. Com isto, aciona um satélite em órbita que, mediante uma senha especial, realiza uma meticulosa varredura no terreno e invoca nos servidores da agência espacial americana uma aplicação de processamento paralelo visando a efetuar a contagem dos animais. O sistema devolve uma matriz de comandos criptografados que, no laptop do mancebo, abre 14 bancos de dados e 60 planilhas cheias de logaritmos neperianos, curvas de Gauss e tabelas-pivô. O pastor permanece observando o cidadão, pasmo, sem sequer ousar imaginar a tempestade tecnológica que se desencadeia naquela maquineta infernal.

Depois disso, em poucos segundos, o sujeito imprime um relatório de 150 páginas em cores com sua mini-impressora de alta tecnologia. Com os papéis em mãos, respira fundo, põe novamente os óculos, vira-se para o pastor e diz, com certa empáfia: “Você tem exatamente 1.586 ovelhas aqui.” O pastor se empolga: “Está certíssimo, pode ficar com sua ovelha.” 

O rapaz se levanta e, com uma ginga de príncipe, faz sua escolha, pondo o animal cuidadosamente no banco de trás de seu Porsche.

O pastor franze a testa, olha para o camarada e pergunta: “Se eu adivinhar sua profissão, você me devolve o animal?” 

O sujeito olha para o relógio, faz uma discreta careta, examina o homem de cima a baixo e responde: “Sim, por que não?” 

O pastor diz então, na lata: “Você é um consultor de informática.” 

“Como é que você sabe?”, indaga o surpreso janota. 

“É simples”, responde o pastor. “Primeiro, você chegou aqui sem ter sido chamado. Segundo, você me cobrou um valor para me dizer algo que eu já sabia, e terceiro, você não entende nada sobre o meu negócio... E agora, poderia fazer o favor de me devolver o meu cachorro?”
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CARLOS ALBERTO TEIXEIRA, famoso C@T. Tem coluna no caderno "INFORMÁTICA etc" do jornal "O Globo". Publica, também, seus trabalhos em revistas diversas, sempre sobre o tema “informática”. 

Fontes:
Caderno Informática etc. RJ: “O Globo’”, 25/11/2002.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Nilto Maciel (Olho Mágico)


A campainha soou e Inácio assustou-se. O jornal chegou a escorregar de suas mãos. Por que só inventavam torturas? Bem podiam conservar as pancadas com os nós dos dedos, as palmas, os “ôi de casa”. Civilização do terror, era o que era.

A resmungar, deixou o jornal espatifar-se no chão e arrastou-se na direção da porta. Não deu tempo, ao menos, de meter os pés nos chinelos. Melhor, talvez fosse visita indesejável, vendedor de porcarias, cobrador de dívidas. Nem devia atender. Nem sequer levantar-se do sofá. Mas a campainha voltou a berrar e Inácio apressou o passo.

  — Já vai.

Aproximou-se da porta, levou a mão à maçaneta e só então se lembrou do olho mágico. Primeiro precisava saber quem o procurava àquela hora. Seguro morreu de velho. O nariz chegou a doer. Olhou, olhou com atenção. E viu, do outro lado, o homem. Não, não podia ser verdade. A não ser que o olho fosse um espelho. Ou então houvesse um espelho do outro lado da porta. Ora, o homem era a sua imagem e semelhança. Deixou-se a olhá-lo, admirá-lo, investigá-lo. O mesmo rosto, o mesmo jeito, o mesmo corpo. Afinal, devia abrir ou não a porta? E se se tratasse de uma cilada? Um mascarado?

Imaginava mil possibilidades, e o outro postado diante da porta, pensativo, paciente, persistente. Não acionou mais a campainha, porém. Até que Inácio se cansou e voltou ao sofá.

— Ora, não há olho mágico — murmurava, enquanto apanhava do chão o jornal.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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Patricia Daltro (A última primavera)


Meu filho entra afobado. Nas mãos, cuidadoso, um pequeno pássaro preto que caiu do ninho.

A cena faz a saudade invadir as frestas da memória. As cores, que chegam junto com a criança, iluminam vãos inexistentes de mim mesma.

Por um instante, vejo minha mãe no lugar dele, segurando outro pequeno pássaro caído, Papa-capim-do-peito-branco, ela explicou. E eu passei a tarde cantarolando o nome comprido.

Eu me embriagava na paleta que nos cercava: o muito azul do céu, o amarelo incandescente dos girassóis, o barrento do rio que nos contornava. E sua voz me chegava em sobretons - às vezes gris, às vezes na calmaria dos tons pastéis.

As tardes eram verdes e se enroscavam modorrentas em nossas pernas sobre o galho, enquanto explodíamos jabuticabas no céu da boca.

No dia em que fui embora, havia um azul embotado em seus olhos. Ela me segurou pelas mãos e disse:

- Toma, filha, para ajudar nas despesas.

Dentro delas, duas notas de cem reais. Tudo o que tinha. Tudo o que eu queria, no entanto, era a fortaleza segura do seu abraço.

Murmurei um "obrigada" e entrei no carro. Meus olhos, agrilhoados aos seus, eram cinza opaco.

O mesmo cinza que toma o céu após a tempestade.

Subo na escada e devolvo o passarinho ao ninho. Os olhos do meu filho, tão idênticos aos seus, brilham azul.
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PATRICIA DALTRO é escritora carioca, formada em Letras. Publicou algumas obras como: "A Vida Sem Manual" (2015), "A Versão da Madrasta" (2017), "O Amor é um Terno Azul Turquesa" (2020) e "O Ano que Deixei de Ser Invisível" (2024).

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
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