domingo, 26 de abril de 2026

Asas da Poesia * 181 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ah, belos tempos dourados,
que os sonhos não trazem mais...
Bailavam, corpos colados,
olho no olho, os casais!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Chuva e saudade

Cai a chuva... é triste o dia...
A manhã é cinzenta e baça...
E eu mudo vejo a chuva fria,
A correr de leve na vidraça...

E a chuva cai... cai e não passa...
Nem sequer a chuva estia...
Para que um pouco se desfaça,
A saudade de quem eu tanto queria!...

Qual essa vidraça, está meu rosto...
E meus olhos não querem desanuviar...
É por demais sofrido o meu desgosto...

Aumenta a chuva e com ela a minha dor...
Soluço qual criança perdida, sem cessar,
Na incerteza de ao menos rever-te amor!...
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Soneto de 
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Confissões

Concede-me o que amo, meu Senhor..
Tarde te amei, tarde te conheci
beleza eterna, suspirei por ti,
ficando inebriado deste amor...

Busquei-te tantas vezes, e não vi
que é em vão te procurar por onde eu for,
pois tu vives no meu interior...
Sem te notar, estavas bem aqui!

Tu me tocaste, e eu quero te provar,
pois a medida do amor é amar
um amor que é um amar sem medida...

A tua luz me fez ver outra vez
e a tua voz desfez minha surdez.,.
Sou folha em branco: escreve a minha vida!
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Poema de
ALBERTO DE SERPA 
(Alberto de Serpa Esteves de Oliveira)
Porto/Portugal, 1906 – 1992

Recreio

Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
as crianças confraternizam-se com a alegria das aves....

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
— Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
À vida que vai chegando despercebida e breve...

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes…
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Aldravia de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Cabelos
molhados
gingando
faceiros
ao
vento
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Soneto de
JOÃO DA ILHA
(Ciro Vieira da Cunha)
São Paulo/SP, 1897 — 1976, Rio de Janeiro/RJ

Saudade

Saudade! o teu olhar longo e macio
Derramando doçura em meu olhar...
Um bocado de sol sentindo frio,
Uma estrela vestida de luar...

Saudade! pobre beijo fugidio
Que tanto quis e não cheguei a dar...
A mansidão inédita de um rio
Na volúpia satânica do mar...

Saudade! o nosso amor... o teu afago...
O meu carinho... o teu olhar tão lindo...
Um pedaço de céu dentro de um lago...

Saudade! um lenço branco me acenando...
Uma vontade de chorar sorrindo,
Uma vontade de sorrir chorando...
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Poema de
AFONSO FÉLIX DE SOUZA
Jaraguá/GO, 1925 – 2002, Rio de Janeiro/RJ

Noite sem alma

Noite sem vozes roucas
assombrando o silencio.
Noite nua.

Passos incertos
duro como o asfalto
e pensamentos leves
guiando-me os passos.
Indiferença do luar.
Na rua triste
paradas súbitas.
No olhar o medo ingênuo
da infância que não morre.

Risos de mulher
atrás da janela fechada.
Desejos rápidos
a apressar os passos...
A memória murmura
confidencias,
que o silêncio apaga.

Noite sem véu.
Noite que tem a clara nudez da alma
que sonha no escuro.
Desejos leves de amor a guiar os passos
e essa ânsia incontida de sonhar
que como, a infância
não morre nunca.
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TROVA POPULAR

As rosas é que são belas,
são os espinhos que picam,
mas são as rosas que caem,
são os espinhos que ficam…
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Soneto de
CONSTÂNCIO ALVES
(Antonio Constâncio Alves)
Salvador/BA, 1862 — 1933, Rio de Janeiro/RJ

Soneto mudado

Eras em plena mocidade, quando
Da nossa casa, um dia, te partiste;
E eu, coitado, sem mãe, pequeno e triste,
Fiquei por esta vida caminhando.

Assim — no meu amor teu rosto brando
Do tempo à ação maléfica resiste,
E o meu é, hoje, como nunca o viste,
Tanto o passar da idade o foi mudando.

Tão velho estou, que já me não conheces;
Nem poderias ver no que te chora
Esse a quem ensinaste tantas preces.

E tão moça ainda estás que (se memora
A saudade o teu vulto) — me apareces
Como se fosses minha filha agora.
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Trova de
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
Bauru/SP

Saudade é um velho barquinho
que  vence o tempo e a distância
e  recolhe, no caminho,
os  pedacinhos da infância ...
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Poema de
PILAR REYNES DA SILVA CASAGRANDE
Rio Claro/SP

Os que vêm de longe

Os que vêm de longe não me encontrarão,
pois eu já terei partido;
talvez apenas achem marcas dos meus passos
ao longo do caminho percorrido.
Os que vêm de longe não me chorarão,
porque não saberão o que pensei,
e as pedras que pisei na caminhada
serão apenas pó do que amei,
como poeira do tempo inexorável
sepultando uma inexistência inenarrável.
Os que vêm de longe não entoarão
um verso de esperança e de alegria;
não mostrarão afeto nem tristeza
e serão pobres párias da poesia,
dessa mesma poesia que me invade
como um gosto de encanto e de saudade…
Os que vêm de longe ficarão sozinhos
eu não posso esperar ninguém,
estarei bem longe, muito longe,
dos que vêm de longe sem me ver…
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Poeta

Nunca lhe falta a sensibilidade,
a sutileza, o dom de transferir
às palavras toda a expressividade
na alegria ou na mágoa de sentir.

O poeta é assim, é versatilidade...
Seja o que for que intente traduzir,
mergulha em vida, em sonho, em realidade,
faz de uma noite a aurora reflorir.

Transcende as dores de um mundo sofrido,
pisa os mistérios do desconhecido,
traz as estrelas para o nosso chão.

E quem o escuta, exclama, fascinado:
“Era assim que eu queria ter cantado,
se soubesse escrever minha canção!”
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Trova de
ANTONIO CABRAL FILHO
Jacarepaguá/RJ

Enquanto o tempo ameaça
com seus bloqueios constantes,
o amor entorna uma taça
no banquete dos amantes.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Mote:
Cabelo é negócio louco... 
há divergências fatais: 
Na cabeça um fio é pouco: 
mas... na sopa... ele é demais!
Elisabete S. Cruz 
(Nova Friburgo/RJ)

Glosa:
Cabelo é negócio louco... 
que deixa as mulheres loucas 
por perucas..., quando é pouco...; 
quando é muito..., fazem toucas! 

Mulheres! No capilar 
há divergências fatais: 
umas não querem cortar 
outras já cortam demais! 

O calvo indaga, em treslouco, 
ao fazer o seu penteado.. 
Na cabeça um fio é pouco: 
- Vou penteá-lo pra qual lado? 

Este cabelo castanho 
no meu prato não me apraz; 
sou "Coiffeur", e não o estranho, 
mas... na sopa... ele é demais!
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Trova de
ELTON CARVALHO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994

Angústia é a mágoa escondida
dos que, amargando o sofrer,
vegetam perto da vida
sem ter direito a viver.
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Soneto de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Amo 
 
Amo com toda a força do meu ser. 
Amo a beleza, a arte, uma canção. 
Amo o eterno desejo de vencer. 
Amo os versos que vêm do coração. 
 
Amo as flores, é grande meu querer. 
Amo essa amarga e triste solidão. 
Amo os sonhos que estou sempre a tecer. 
Amo o infinito em sua imensidão. 
 
Amo também a morte, dura e fria. 
Amo na morte, toda a ausência e dor. 
Amo meu mundo em meio à fantasia. 
 
Amo a tristeza, e mais, amo a alegria. 
Amo a vida e esse mundo encantador. 
Amo o amor, amo a paz, amo a poesia.
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto/Portugal, 1919 – 2004, Lisboa/Portugal

Retrato de uma Princesa Desconhecida
 
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
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Triverso de
CARLOS VIEGAS 
Brasília/DF

sob o sol de inverno
o gato se espreguiça
ainda no cesto.
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Setilha de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Como é linda a primavera
mostrando os seus esplendores,
os campos ficam mais belos
e as plantas mudam de cores;
e a natureza sagrada,
já desperta embriagada
com o perfume das flores!
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Trova de
DIAMANTINO FERREIRA
Campos dos Goytacazes/RJ

Nunca fui águia altaneira,
como nunca fui condor:
– remédios à cabeceira,
somente um velho... com dor.
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Hino de 
LIMOEIRO DO NORTE/ CE

Limoeiro, Limoeiro
Cantamos em seu louvor!
Tu és bandeira de glória
No mastro do nosso amor
És escola e oficina
De um povo trabalhador

Outrora gigantes bravos
Que no teu seio aportaram
Eram também bandeirantes
Que o Jaguaribe cruzaram!
Sem esmeraldas nos sonhos,
A terra boa encontraram

Limoeiro, Limoeiro...

No palco nobre da vida,
Soprou-te a aura envolvente!
Puseste as mãos em teu campo
Plantaste nele a semente;
Tua cidade floresce
Neste Brasil continente

Limoeiro, Limoeiro...

Tuas planícies nos mostram,
A luta que nos apraz
A busca pelo saber,
Pelo trabalho que faz
Erguer a fronte do povo,
Amar a fonte da paz.

Limoeiro, Limoeiro...

Que belas carnaubeiras
Volteiam tua paisagem!
São vincos que te sustentam,
São elos da tua imagem...
Por si, sós, uma aquarela,
Incentivando coragem.

Limoeiro, Limoeiro...

O Jaguaribe em teu seio,
Sereno, doce, a correr,
Projeta veias profundas
No solo que vai beber
As águas que passam nele,
Impondo o lema - VENCER!
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Um Hino de Orgulho e Trabalho
O 'Hino de Limoeiro do Norte' é uma celebração poética e musical da cidade de Limoeiro do Norte, localizada no estado do Ceará, Brasil. A letra exalta as qualidades e a história da cidade, destacando seu papel como um símbolo de glória e amor para seus habitantes. Desde o início, a música enfatiza o orgulho local, referindo-se a Limoeiro como uma 'bandeira de glória' e uma 'escola e oficina de um povo trabalhador'.

A canção também faz referência aos primeiros desbravadores que cruzaram o rio Jaguaribe e encontraram uma terra fértil, sem esmeraldas, mas rica em potencial. Esses pioneiros são comparados a bandeirantes, figuras históricas que exploraram o interior do Brasil. A letra sugere que, apesar de não encontrarem riquezas materiais, os primeiros habitantes de Limoeiro do Norte descobriram um lugar propício para o desenvolvimento e a prosperidade.

Outro aspecto importante do hino é a valorização do trabalho e do conhecimento. A cidade é descrita como um lugar onde a luta pelo saber e pelo trabalho é constante, elevando a dignidade do povo e promovendo a paz. As carnaubeiras, árvores típicas da região, são mencionadas como símbolos de sustentação e coragem, enquanto o rio Jaguaribe é retratado como uma fonte de vida e vitória, com suas águas serenas e profundas.

O hino, portanto, não é apenas uma homenagem à cidade, mas também uma mensagem de incentivo e esperança para seus habitantes. Ele celebra a história, a cultura e os valores de Limoeiro do Norte, reforçando a identidade e o orgulho local. https://www.letras.mus.br/hinos-de-cidades/1160694/significado.html 
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Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA

Minha Máxima

a cada nova manhã
ressuscito com a certeza
da minha culpa cristã
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA 
(Flor Bela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal, 1894 – 1930, Matosinhos/ Portugal

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita, 
Aquela que diz tudo e tudo sabe, 
Que tem a inspiração pura e perfeita, 
Que reúne num verso a imensidade! 

Sonho que um verso meu tem claridade 
Para encher todo o mundo! E que deleita 
Mesmo aqueles que morrem de saudade! 
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! 

Sonho que sou Alguém cá neste mundo... 
Aquela de saber vasto e profundo, 
Aos pés de quem a Terra anda curvada! 

E quando mais no céu eu vou sonhando, 
E quando mais no alto ando voando, 
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O pavão queixando-se a Juno

A Juno o pavão se queixa
Dizendo: «ó deusa celeste,
Com razão de ti murmuro
Pela má voz que me deste.

Sou ave tua, e se quero
Entoar os teus louvores,
Estrujo os campos em torno
Com meus guinchos troadores;

O rouxinol tão mesquinho
Deleita, se a voz levanta,
É honra da primavera,
De ouvi-lo o mundo se encanta!»

Irada lhe torna Juno:
«Cala-te, néscio invejoso!
Porque desejas as vozes
Do rouxinol sonoroso?

De ricas pedras ornada
Não parece a cauda tua?
O listrão do íris brilhante
Em teu colo não flutua?

Ave nenhuma passeia
Que tanto pareça bem;
Em si ninguém reunir pode
Quantos dotes os mais têm.

Repartiu seus dons com todos
A profícua Natureza;
Às águias coragem deu,
Deu aos falcões ligeireza;

Por presságio o corvo grasna,
O mocho nas mortes pia,
A gralha males futuros
Com seu clamor pressagia.

Do que são se aprazem todos;
E se torno a ouvir queixar-te,
Dar-te-ei voz de filomela,
Mas hei de as plumas tirar-te.»

Não quis o invejoso a troca;
Que é nosso instinto invejarmos
Sempre o que os outros possuem,
Sem o que é nosso largarmos.
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Mensagem na Garrafa 177 = O Camelo e a Corcova


AUTOR: RUDYARD KIPLING*

No início dos tempos, quando o mundo era tão novo, e tudo o mais, os animais mal estavam começando a trabalhar para o homem, havia um camelo que vivia no meio de um Deserto dos Lamentos, porque não queria trabalhar; além disso, ele próprio era um lamentável absurdo. Comia galhinhos, espinhos, plantinhas, doído de tão preguiçoso; quando alguém falava com ele, só dizia:

- Uma ova! - Só isso: - Uma ova! - e nada mais.

Uma manhã de segunda-feira, o cavalo chegou para ele, sela às costas e freio na boca, e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui trotar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o cavalo foi embora e contou para o homem.

Veio o cachorro, com uma vareta na boca e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui catar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o cachorro foi-se embora e contou para o homem.

Depois veio o Boi, com uma cangalha no pescoço e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui arar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o boi foi embora e contou para o homem.

No fim do dia, o homem chamou o cavalo, o cachorro e o boi e disse:

- Três, ó Três, lamento muito por vocês (nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais); mas aquela Coisa-ova no Deserto não consegue trabalhar, senão já estaria aqui agora. Por isso, vou deixá-lo sozinho lá e vocês vão ter que trabalhar dobrado para compensar.

Isso deixou os Três furiosos (naquele mundo tão novo-e-tudo-o-mais) e foi um palavrório, uma confusão, um comício escandaloso na beira do deserto. O camelo veio mascando uma mamona, doído de tão preguiçoso e ficou rindo deles. Depois disse:

- Uma ova! - e foi-se de novo.

Veio chegando o Djinn (gênio) que reinava sobre todos os desertos, rolando numa nuvem de poeira (os Djinn sempre viajam assim, porque é magia), e parou para um palavrório e um comício escandaloso com os Três.

- Djinn de Todos os Desertos - disse o Cavalo -, pode alguém ser tão preguiçoso, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?

- Certamente que não - disse o Djinn.

- Bem - disse o Cavalo -, tem uma coisa no meio do Deserto dos Lamentos (e ele é o próprio lamentável absurdo) com um pescoço comprido e pernas compridas, que não moveu uma palha de trabalho desde a manhã de segunda-feira. Ele nem trota.

- Puxa! - disse o Djinn, dando um assovio - É o meu Camelo, por todo o ouro da Arábia! O que é que ele diz disso?

- Ele diz uma ova! - disse o Cachorro - E nem pega nem carrega.

- Ele diz alguma outra coisa?

- Só uma ova! e ele nem ara - disse o boi.

- Muito bem - disse o Djinn. - Eu vou ovacioná-lo, se vocês fizerem a gentileza de esperar um minuto.

O Djinn se enrolou no seu casaco de poeira, determinou sua posição no deserto e achou o Camelo doído de preguiça, olhando seu próprio reflexo numa poça d'água.

- Meu amigo comprido e borbulhante, - disse o Djinn - que é que eu ando ouvindo, de você não querer trabalhar, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?

- Uma ova! - disse o Camelo.

O Djinn sentou-se, queixo na mão, e começou a pensar uma Grande Magia, enquanto o Camelo continuou olhando seu reflexo na poça d'água.

- Você fez os Três trabalharem dobrado desde manhã de segunda-feira, só porque fica doído de preguiça - disse o Djinn; e continuou pensando magias, com o queixo na mão.

- Uma ova! - disse o Camelo.

- Eu não repetiria isso, se fosse você - disse o Djinn. - Você pode falar demais da conta. Bolas, eu quero que você trabalhe.

E o Camelo disse:

- Uma ova! - de novo.

Mas logo que falou, viu suas costas, das quais tinha tanto orgulho, estufando, estufando, até virar uma enorme corcova.

- Viu só? - disse o Djinn - Foi a sua própria preguiça que você trouxe como um peso às suas costas, por não querer trabalhar. Hoje é quinta-feira e você não trabalhou nada desde segunda, quando começou o trabalho. Agora, você vai trabalhar.

- Como é que eu posso - disse o Camelo -, com essa corcunda nas minhas costas?

- Foi de propósito - disse o Djinn - porque você faltou esses três dias. Agora você vai poder trabalhar três dias sem comer, porque você vive da sua corcunda-uma-ova, que vai ser sua corcova; e nunca diga que nunca fiz nada por você. Saia do deserto e vá com os Três, comporte-se. Corcove-se!

E o Camelo corcoveou-se, corcova e tudo, e foi juntar-se aos Três. E desde aquele dia, o Camelo sempre teve um corcova-uma-ova (a gente chama de corcunda, hoje, para não magoá-lo, lembrando uma ova!); mas ele nunca compensou os três dias que faltou no começo do mundo; e até agora ainda não aprendeu a se comportar.
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* Joseph Rudyard Kipling (1865–1936) foi um renomado autor, poeta e jornalista britânico, imortalizado por obras como O Livro da Selva e o poema Se. Nascido na Índia sob o domínio britânico, ele é considerado um dos maiores inovadores na arte do conto curto e foi, em 1907, o primeiro escritor de língua inglesa e o mais jovem a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua produção literária é vasta e abrange diversos gêneros: “O Livro da Selva”: Sua obra mais famosa, que apresenta as aventuras de Mogli, o "menino lobo". “Kim”: Muitas vezes aclamado como seu melhor romance, narra a história de um órfão irlandês na Índia no contexto do "Grande Jogo" político. “Gunga Din”: Poema que descreve o heroísmo de um carregador de água indiano.
Nascido em Bombaim, teve uma infância feliz cercado pela cultura local até ser enviado aos 5 anos para a Inglaterra, onde sofreu maus-tratos em um internato, trauma que influenciou sua escrita. Retornou à Índia aos 16 anos para trabalhar em jornais como o Civil and Military Gazette, onde começou a publicar seus primeiros contos. Casou-se com a americana Caroline Balestier e viveu em Vermont por quatro anos, período em que escreveu O Livro da Selva. Perdeu sua filha primogênita, Josephine, por pneumonia em 1899, e seu filho John na Primeira Guerra Mundial em 1915, eventos que o marcaram profundamente.  Embora celebrado por seu talento narrativo, Kipling é uma figura controversa devido ao seu forte apoio ao imperialismo britânico. Ele acreditava na "missão civilizadora" do Império, conceito imortalizado em seu poema "O Fardo do Homem Branco". Atualmente, sua obra é analisada sob lentes críticas que discutem colonialismo e racismo, embora sua habilidade literária continue atraindo leitores.  

Antônio Maria (Soneira e Preguiça)

Imagem criada com Microsoft Bing
Não sei, mas com esse tempo assim, essas nuvens pesadas, meu peito opresso, daria um conto e seiscentos para ser Augusto Frederico Schmidt e não precisar trabalhar. Falar nisso, onde anda Augusto, que nunca mais me telefonou? Comunistizou-se, na certa. Sempre achei que Augusto daria um militante da Quinta Casa.

Com esse tempo assim, se pudesse; subiria a Petrópolis (uma Petrópolis, é claro, avant les roses), pegaria um Simenon, protagonizado por Maigret, e não sairia da cama. Sinto uma soneira, uma preguiça! Por que será que não tenho coragem de enriquecer? Quase todos os meus colegas de imprensa enriqueceram, acordando cedo, indo à cidade e vendendo suas palavrinhas, a um conto e quinhentos. O jornalismo, bem administrado, é tão bom negócio quanto a especulação imobiliária e o jogo da bolsa. Querendo, a gente vende bem aquilo que publica e, melhor ainda, aquilo que não publica.

Outro negócio que eu poderia fazer, sem grandes canseiras, era agiotagem. Ah, daria um grande agiota! Às vezes, me olho no espelho e vejo o agiota. Eu tenho os olhos pequenos do agiota magnífico. A matéria-prima da agiotagem, como sabeis, é o dinheiro... e dinheiro, com as amizades que tenho, seria canja conseguir. Tomaria, nos bancos, a 1% e emprestaria a 7%. Com o físico que Deus me deu (e quase tira), exigiria bons avalistas — do gabarito de Walter Moreira Salles para cima.

Deixa de besteira, Antônio. Vai trabalhar. Teu combustível é a preguiça. O "autêntico real, o cerne da tua filosofia", como disse Novalis. Não fosses tão preguiçoso, estarias ainda botando esterco, com as mãos, nos canteiros de cana da usina Cachoeira Lisa. Escreve, Antônio. Escreve sobre o Nada, suas causas e consequências. No Nada, por exemplo, há uma senhora nua, tocando cavaquinho. Um menino montado num leão. Uma cobra de salto alto. Fazer poesia é mais fácil do que carregar um piano — do que tocá-lo, como os dedos de Leon Fleisher. Para que chegues à poesia, basta que te aprisiones em ti mesmo e cuspas vigorosamente a face dos outros. O poeta tem que ignorar o próximo e odiar a si mesmo. (Palavra de honra, jamais escrevi frases tão estúpidas. Mas vão ficar, porque se retirá-las a crônica ficará menor.).

Passando do Nada ao Tudo. Isto é, voltando à realidade, telefonei para a rádio, a televisão, e soube que estava em greve. Eu estou em greve, meus amigos. Meus companheiros se batem por salários que não irão aumentar os meus e por um aumento de programação ao vivo, que só aumentará, em muito, minhas obrigações. És um homem lamentável, Antônio. Viva a greve!
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ANTÔNIO MARIA ARAÚJO DE MORAIS, cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fonte:
"Com Vocês, Antônio Maria". RJ: Paz e Terra, 1994.

Revista Crestomatia de Trovas n. 1 (Lançamento)

 

Olá,

Apresento a Crestomatia de Trovas, uma publicação independente idealizada por mim e nascida do trabalho de mais de dez anos do blog O Voo da Gralha Azul, dedicado exclusivamente para a trova.

O termo "Crestomatia" remete ao "estudo de coisas úteis". Na prática, a revista funciona como uma antologia didática e um registro histórico, conectando a maestria dos trovadores do passado às vozes contemporâneas.

Convido você a mergulhar nestas lições de poesia e sensibilidade. Caso queira contribuir com futuras edições, sua colaboração é muito bem-vinda através do e-mail: gralha1954@gmail.com.

Boa leitura e vivas à Trova!

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abraços trovadorescos
José Feldman

sábado, 25 de abril de 2026

José Feldman (A Batalha do Asfalto)


Há uma lentidão que não é preguiça, é história. É o ritmo dos passos de Dona Maria, do Seu João, de tantos que carregam nas costas a idade e no coração a vontade de ainda ir e vir. Mas sair de casa hoje em dia virou uma prova de resistência, um obstáculo que muitos são obrigados a enfrentar diariamente.
 
A cidade, no seu ritmo frenético, esqueceu-se de quem precisa de tempo. Para estes idosos, o simples ato de ir à padaria não é uma caminhada; é uma operação de risco, um exercício diário de bravura e paciência. Ao cruzar a soleira de casa, o cenário que o espera é um tabuleiro de xadrez onde todas as peças jogam contra eles.

Basta olhar para o chão. As calçadas, que deveriam ser o abrigo seguro dos pedestres, parecem campos de batalha. Buracos, lajotas soltas, degraus que aparecem do nada e buracos que a chuva esconde. Para quem tem os olhos já cansados e os joelhos que doem com a mudança do tempo, cada metro percorrido exige uma atenção redobrada. É preciso olhar para baixo o tempo todo, como se estivessem pedindo permissão ao asfalto para caminhar.
 
E quando o caminho parece livre, lá estão eles: os galhos grandes, caídos das árvores, que ninguém remove, ocupando metade da passagem. O idoso tem que se desviar, se apertar, muitas vezes ter que sair da calçada e pisar na rua, exposto ao perigo.
 
Ah, a rua... Essa sim é um mundo hostil. Os carros passam velozes, como se o tempo deles fosse mais importante que a vida dos outros. Não há respeito à faixa, para os motoristas a faixa de pedestre é só um desenho no chão sem sentido, não há paciência com quem caminha mais devagar. Para um corpo que já não reage com a agilidade de outrora, o barulho do motor e a velocidade das máquinas causam pânico. É o medo constante de não conseguir cruzar a tempo, de tropeçar e cair justamente no meio do caminho.
 
Chegar ao outro lado é uma vitória silenciosa. Seu João suspira, aliviado, mas já preocupado com a volta. Ele não pede muito: apenas um chão plano, um segundo a mais no sinal e o respeito de quem, um dia, também andará devagar. A cidade precisa lembrar que envelhecer não é um crime, e caminhar não deveria ser uma punição.

É triste ver como a cidade, que deveria acolher a todos, parece construída apenas para os fortes, para os rápidos, para os jovens. Esquecem de que aqueles que hoje mancam, que demoram mais, que olham com cuidado para onde pisam, podem ser um espelho dos que um dia envelhecerão e passarão pelo mesmo drama.
 
As rachaduras no cimento e a pressa dos automóveis não deveriam ser o cenário da velhice. Cuidar das calçadas, podar as árvores e diminuir a velocidade não é só questão de infraestrutura, é questão de humanidade. É garantir que, mesmo que os passos fiquem mais curtos, eles ainda possam ser seguros. Porque um lugar que não sabe cuidar dos seus idosos não sabe, de fato, ser uma cidade.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
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Renato Benvindo Frata (Coisas a se fazer de sábado)


Bendito o sábado em que o marido não tenha que se vestir de “Jack”. E possa gozá-lo como deve ser vivido; com direito a cerveja e picanha na grelha, salada verde e pão da hora, além, é claro, da roda de amigos e samba. 

Esse é o verdadeiro sábado. O dia do descarrego, onde as agruras da segunda, terça, quarta e quinta se afogam no copo gelado, mantido entre dedos.

Mas não! Não é assim que acontece. Falo com propriedade e traduzo: “Jack”, na linguagem marital, é o enxugamento da expressão dita com voz fina, melodiosa e sugestiva, logo na manhãzinha: 

“Já que você está aqui”, preciso que faça isso, mais isso, mais aquilo...” Aproveite o sábado para fazer, amanhã teremos missa e passeio com as crianças.

Pronto! Lá se vai a beleza, o descanso e o complemento que ele concebe. Para nos transformar em tudo que termine em “eiro, ista, dor”, como pedreiro, marceneiro, carpinteiro, jardineiro, costureiro, telhadista, encanador, eletricista, arrumador, e aí vai até o apagar das luzes. 

Para sobrar um domingo minguado e repleto de dores nas mãos, nas costas, nas pernas, e uma vontade louca de dizer palavrão. Ô raiva!

Quem duvida que se case – e experimente os sábados encompridados, vestidos de “Jack!”

Essas tarefas não são distintas, mas que deveriam ter sido realizadas por quem, habilitado, cobrasse para fazê-las durante a semana: os profissionais do ramo. Mas não. A lembrança de que tal coisa merece reparo, só se acontece aos sábados. 

Ou só se deixa para comunicá-los nesse dia, para quebrar o encanto que o sábado tem. 

Dessa forma, a despeito dos demais dias da semana que são gastos com a profissão, o sábado vira o dia dos consertos caseiros, como trocar um cabo de panela, ou arrancar com os dedos de unhas limpas a tiririca teimosa, em meio aos rejuntes da calçada.

Pode, isso? Poder, não pode. Não pode e não deve, mas acontece. Comigo, conosco. Os homens que se vestem de Jack nos sábados.

Para esse sábado, porém, que não estava de Jack – uma coisa boa, uma coisa ótima aconteceu:

Passei os olhos numa propaganda de loja de vinhos e vi, deslumbrado, garrafas de rótulos chamativos, desses que só de olhar dão água na boca. E saí sem nada dizer.

Hoje à noite, quando as crianças forem dormir, ah! – tenho em mente – abrirei uma delas, ou duas, com direito a quadradinhos de um queijo de cura longa que também comprei.

Então, com as mãos hábeis e ligeiras do faz-tudo das tarefas de sábado que sou, brindarei com ela os momentos de folguedos a dois. E o “Jack”  que espere o próximo sábado.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fonte:
Imagem e Texto enviados pelo autor. 

Gabrielle Freitas (Reinícios)

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A primavera é tempo de reinícios. Assim como o ano novo. E o Natal, para os cristãos. E o pós-carnaval, para os brasileiros. E as segundas-feiras, para os adeptos das dietas inconstantes. A vida e os anos têm muitos desses marcos simbólicos de renovação, de energia, de esperança, de mudança. São em sua maioria ciclos com movimentos quase cronometrados, um ritual que envolve três movimentos básicos. Ou pelo menos é assim que costuma parecer para mim.

Primeiramente, enfadada, desgastada ou desgostosa com algo em minha vida, crio na minha cabeça uma resposta para minhas aflições. O primeiro momento em um ciclo de renovação antecede seu marco e é composto de desejo por mudança, planejamento fantasiado, espera aflita, imaginação fértil e nenhuma experiência.

Existe um momento para a experiência, mas este deve ser aguardado. "Começo esse projeto na segunda", "ano que vem vou passar a escrever todos os dias", "depois do carnaval, eu descubro o que vou fazer". Adiar um início é parte essencial do ritual. Adio o primeiro passo até que chegue o marco que vai mudar um aspecto essencial da vida como mágica. E ele chega, o marco sempre chega. A mudança, às vezes. Este é o segundo momento, a virada do ano, o fim do carnaval, o equinócio de primavera. Aquilo que foi adiado deve ser realizado, executado com a mesma perícia de alguém experiente. Foram incontáveis as vezes que subestimei a força dos meus hábitos e superestimei a minha, careci de planejamento ou de consistência. Olhei para os lados e só vi pessoas que tinham chegado lá mesmo quando o "lá" delas era tão diferente do meu.

O terceiro momento é o da desistência, seja esta parcial ou completa. O primeiro caso é o mais comum. Se não consegui começar a meta de ano novo ou mantê-la basta transferi-la para ano que vem. Já a desistência completa é o abandono da meta e costuma ocorrer após muitas desistências parciais da mesma meta. Depois de adiar um início por vezes suficientes, o sentido de reagendá-lo se perde.

Faz pouco tempo que decidi que o erro não está no final, na desistência completa, ou no início, na invenção de uma resposta para minhas aflições. Quando sempre é tempo de esperar pelo momento de um início, nunca é momento de começar coisa alguma. O erro talvez esteja em imaginar que preciso esperar por um marco para iniciar uma mudança.

A primavera do ano passado trouxe consigo uma promessa de renovação e como tantas outras não trouxe nada além da promessa. Esse ano comecei a mudança no inverno.
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GABRIELLE CLARA é natural de São Gonçalo/RJ, e pedagoga formada pela Faculdade de Educação da UERJ. Já apresentou suas poesias em sarau, evento de slam e congresso acadêmico. Depois de se aventurar no ambiente acadêmico, decidiu revisitar aspirações passadas e atualmente participa do Curso Online de Formação de Escritores.

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera