segunda-feira, 6 de julho de 2026

Contos das Mil e Uma Noites (Yamlikha, a rainha das serpentes) – 1


Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez, na antiguidade dos tempos e antes do desenrolar de muitos séculos, um sábio grego chamado Daniel. Tinha muitos discípulos que lhe escutavam respeitosamente o ensino, mas não tinha um filho, para herdar-lhe os livros e manuscritos. Após esgotar os outros recursos, Daniel apelou para o Senhor dos Mundos e, no mesmo instante, sua mulher concebeu. 

Durante os meses de gravidez da mulher, o sábio, dando-se conta de que era muito velho, pensou: “A morte está próxima. Meu filho talvez não encontre meus livros e manuscritos intactos quando estiver na idade de lê-los.” 

Assim presumindo, pôs-se a condensar seus 5 mil manuscritos em cinco folhas. Depois, reduziu estas a uma única folha. Quando sentiu o fim chegar, jogou os livros e manuscritos no mar para que ninguém os possuísse e entregou a folha de papel à mulher, dizendo-lhe: 

“Não verei nosso filho. Deixo-lhe contigo esta essência de todos os conhecimentos. Entrega-a quando ele reclamar a sua herança. Se souber ler este manuscrito e compreender o que ler, será o homem mais sábio de seu tempo. Desejo que lhe dês o nome de Hassib.” 

Depois, o sábio entregou a alma a Deus. No devido tempo, a mulher deu à luz um menino que foi chamado Hassib. A mãe pediu aos astrólogos que lhe estabelecessem um horóscopo. Disseram-lhe: 

“ Mulher, teu filho viverá muitos anos e amontoará saber e riqueza, desde que escape a um perigo que lhe ameaça a mocidade.” 

Quando o menino atingiu a idade de cinco anos, a mãe mandou-o à escola. Mas ele nada aprendeu. Retirou-o da escola e tentou interessá-lo em alguma profissão. Mas ele insistia em passar os dias em permanente ociosidade. Quando atingiu os quinze anos, os sábios aconselharam a mãe a casá-lo para despertar nele o senso da responsabilidade. A mãe escolheu uma noiva adequada e casou-o com ela. Mas o casamento de nada adiantou. Hassib recusava-se a empreender qualquer atividade. Alguns vizinhos, que eram lenhadores, sugeriram então à mulher comprar para seu filho um asno e um machado e deixá-lo ir com eles às florestas e ser um lenhador. A mulher aceitou a sugestão, e um milagre se produziu. Hassib amou sua nova profissão e tornou-se um excelente lenhador, ajudando assim a sustentar a mãe e a esposa. 

Certo dia, enquanto cavava a terra em volta de um velho tronco, desenterrou uma placa de mármore solidamente fixada no solo. Chamou os companheiros e, juntos, levantaram a placa e descobriram um buraco debaixo dela. Olhando mais perto, viram que no fundo do buraco havia uma sala cheia de jarras alinhadas. Supondo que as jarras continham um tesouro antigo, ajudaram Hassib a descer até a sala. Lá ele abriu uma jarra e achou-a cheia de mel. Embora decepcionados, os lenhadores calcularam que o mel lhes daria um bom lucro e alçaram as jarras uma a uma. Quando a última jarra tinha sido levantada, recusaram-se a ajudar Hassib a subir e deixaram-no no buraco, raciocinando: “Se o ajudarmos a salvar-se, vai querer sua cota do lucro. E ele nada vale. Melhor que pereça lá.” 

De volta, contaram à mãe e à esposa de Hassib que, no decorrer de um temporal, surgira um lobo que devorou Hassib e seu asno. As mulheres choraram. Mas nada podiam fazer. Os lenhadores apuraram tamanho lucro com a venda do mel que desistiram de seu ofício árduo, e cada um deles abriu uma loja. 

Vendo-se traído e abandonado, Hassib não se deixou abalar. Percorrendo a gruta, reparou em uma fenda numa das paredes, a qual deixava passar uma luz tênue. Introduziu o machado na fenda e conseguiu alargá-la. E descobriu que se tratava, na realidade, de uma porta. Abriu a porta e achou-se numa galeria que terminava num lindo lago ao pé de uma colina de esmeralda. À beira do lago, viu um trono de ouro incrustado com pedras preciosas e cercado por 12 mil cadeiras de ouro, prata, esmeralda, cristal, aço, ébano. Sentou-se no trono e logo ouviu cantos melodiosos e viu uma longa fila de pessoas descendo da montanha para o lago. 

Quando se aproximaram, reparou que eram todas mulheres de excessiva beleza, mas cuja metade inferior terminava num órgão alongado e rastejante como o das serpentes. Quatro delas carregavam sobre os braços erguidos uma grande bandeja sobre a qual a rainha estava de pé, graciosa e sorridente. 

Hassib desceu imediatamente do trono, e as quatro mulheres depositaram nele a rainha. As outras mulheres ocuparam as 12 mil cadeiras. Todas cantavam em grego e tocavam címbalos. Depois, a rainha, que tinha reparado na presença de Hassib, acenou-lhe, convidando-o para aproximar-se, e disse-lhe: “Sê bem-vindo a meu reino subterrâneo, ó jovem que um destino benéfico conduziu até aqui. Conta-nos tua história e dize-nos o que desejas.” 

Hassib contou sua história do início ao fim. 

Encantada, a rainha disse-lhe: “Permanece conosco alguns dias. E eu te ajudarei a passar o tempo, contando-te uma história que te será útil quando voltares à terra dos homens.” 

Foi assim que a rainha Yamlikha, soberana subterrânea, contou em grego ao jovem Hassib, filho do sábio Daniel, e às 12 mil mulheres-serpentes sentadas em volta dela em cadeiras de pedras preciosas.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
Imagem obtida com IA Microsoft Bing

domingo, 5 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 15 *


Casou-se. Tem nova vida.
E como me custa agora,
eu, que a chamei de "querida",
ter que chama-la "senhora"!
ANÍBAL VITRAL MONTEIRO
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Tropeço nos seus brinquedos...
Na saudade que me embala,
vejo marcas de seus dedos,
numa parede da sala!
ANTÔNIO CARLOS TEIXEIRA PINTO
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As paredes que sustentam
meus sonhos, meus ideais,
são tão sólidas que aguentam
os mais fortes vendavais!
ANTÔNIO SIÉCOLA MOREIRA
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Quando os sonhos esvanecem
e os amores acabarem,
os poetas aparecem
para ilusões recriarem.
ARTHUR THOMAZ
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Nós nos vemos com tal pressa
e tamanha raridade,
que, mal o encontro começa,
começo a sentir saudade.
BITENCOURT DE SÁ
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Veneno e inveja, empreiteiros
da enorme parede erguida
entre os nossos travesseiros
e entre a minha e a tua vida...
DARLY O. BARROS
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Sonhei que estava abraçando
alguém que tinha teus traços.
Quando acordei, soluçando,
tinha a saudade nos braços!
DULCE DE MELLO MONTEMÓR
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Vou meu rancho erguer no fundo
do sertão cheirando a flor,
e viver longe do mundo,
nos braços do meu amor.
DURVAL BORGES
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Saudade — tempo da infância,
que transcorre de repente...
A gente mede a distância
pela saudade que sente!
EDMUNDO RÊGO FERREIRA
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Na queda, não esmoreço:
levanto-me e sigo avante,
pois é a pausa de um tropeço
que torna o passo gigante!
EDWEINE LOUREIRO
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Contei ao céu meu desgosto
e o céu afligiu-se tanto
que pôs cinza sobre o rosto
e fogo desfez-se em pranto.
ELIAS BARBOSA
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Que me imporia ser um louco,
por gostar de ti, meu bem?!
Importa é que, pouco a pouco,
fiques louquinha também.
EVANDO MARINHO SALIM
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Sonhando escuto teu passo,,,
Doce raio de esperança!
— Tão distantes pelo espaço,
tão juntos pela lembrança!
EVANGELINA MAIA CAVALCANTE
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Amor de espécie tão vária!
— Quem teve a ideia de por
a tanta coisa contrária
o mesmo nome de Amor?
FERNANDES COSTA
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Há quem diga que sou feio,
que sou triste e vivo só.
Mas o calor de teu seio
dos outros me faz ter dó.
FERNANDO MEIRELLES
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Das glórias do meu passado,
a maior — meu peito diz —
seria haver conquistado
um amor que não me quis.
FLORÊNCIO ARGOLO
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— "Adeus!..." disseste-me, "esquece
minhas constantes ternuras..."
Ah, como se o sol pudesse
deixar a Terra às escuras!..,
FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
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A dor da tua partida,
que não me saí da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA
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Na Ordem dos Capuchinhos,
sem espinhos não há flores.
Haja flores sem espinhos
na Ordem dos Trovadores!
FREI MARCELINO DE ANGATUBA
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Se tens de vir e voltar,
não venhas, por caridade!
— Uma esperança a brilhar
sempre é melhor que a saudade...
FLÁVIO JARBAS
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Quando o teu rosto de santa
junto ao meu empalidece,
a minha ternura é tanta
que o beijo termina em prece!
GARCIA ROSA
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És mais bela do que a rosa,
és mais pura do que a neve:
não sei descrever-te em prosa,
e o verso não te descreve!
GERALDO ALVIM
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Ermo de ti, cheio de ânsia,
meu olhar nos longes erra...
Oh, como eu amo a distância,
quando a distância te encerra!
GÍLKA MACHADO
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Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra
sem que volte para lá.
GONÇALVES DIAS
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Ante a “maçã” do pecado,
na dúvida, vou sofrendo:
- Se como... sou castigado;
- Se não como... me arrependo!...
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
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Benditas são as paredes,
testemunhas sem pudor,
que amparam ganchos e redes
... e ouvem murmúrios de amor!
HÉRON PATRÍCIO
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Triste é alguém ser como aquelas
paredes velhas, pesadas,
que têm portas e janelas
eternamente fechadas...
IZO GOLDMAN
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Amo-te mais, cada dia;
longe de ti — que sou eu?
Sou como a concha vazia
de quem o mar se esqueceu.
JENY DE LIMA
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O beijo da despedida
é triste, mas mesmo assim
podias passar a vida
a despedir-te de mim...
JERÔNIMO BRAGANÇA
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Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão:
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
JÉRSON LIMA DE BRITO
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Minha ventura, querida,
é ser, com o maior fervor,
escravo de tua vida
e dono do teu amor!
JOÃO GUIMARÃES
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Você ficou aturdida
na bagunça de meu quarto.
Se visse a da minha vida,
você teria um infarto.
JOSÉ EL-JAICK
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Olhos que brilham de vida,
mas o corpo já se cansa.
Em cada ruga, uma lida…
no tempo vive a lembrança.
JOSÉ FELDMAN
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Diz ela, vendo a intenção
de seu noivinho devasso:
- mude o rumo dessa mão...
Minha coceira é no braço!
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— "Não há mãe melhor que a minha!"
Diz a filha à mamãezinha.
E a mãe, sorrindo: — "Filhinha,
melhor que a tua, era a minha"...
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Que momentos cruciais
nos umbrais das invernadas,
quando ecoam nossos ais
pelas decisões erradas...
LUCIANA PESSANHA PIRES
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Se há tantos pobres que pedem
e a todos te vejo dar,
nunca teus olhos me neguem
a esmola do teu olhar.
MANUEL GIRALDES DA SILVA
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Na humildade dos seus passos,
lembre sempre a decisão
de dar a mão, nos fracassos,
a quem lhe estendeu a mão...!
MARA MELINNI GARCIA
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Não vou culpar o destino
pelos erros cometidos;
culpo, sim, meu desatino
por impulsos incontidos.
MARINA VALENTE
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O nosso nome, juntinho,
gravei num galho de ipê;
e o povo todo, todinho,
inveja a mim e a você!
NAIR STARLING
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É teu amor ouro puro,
por isso sou rica assim;
e as outras todas, te juro,
morrem de inveja de mim.
ODÉLIA BELÉM BONESCHI
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Sempre que a pinga os refresca,
qual mentira tem mais graça:
- a do Juca, quando pesca,
ou do Joca, quando caça?...
ORLANDO BRITO
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Ei-lo, de todos os casos,
o mais estranho do mundo:
como, nuns olhos tão rasos,
cabe um olhar tão profundo?
PEREIRA DA SILVA
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Decidiste impor intrigas,
mas a distância, sem voz...
Diz que é melhor nossas brigas
que esse silêncio entre nós!
PROFESSOR GARCIA
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Por crer sempre em que lhe deve,
meu coração é um credor
que vai sofrer muito em breve
perdas e danos no amor.
SÉRGIO BERNARDO
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Dá-me os teus olhos profundos
e o mundo pode acabar!
Que importa o mundo, se há mundos
lá dentro do teu olhar!...
SILVA TAVARES
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Naquele encontro fatal,
ao olhar nos olhos teus,
tive a certeza final:
não era encontro, era adeus!
SÔNIA MARIA SOBREIRA DA SILVA
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De alguém que amamos, a imagem,
que está longe, vemos perto...
— Saudade é como miragem
que engana o olhar no deserto.
STÉLIO AUTRAN
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Quando passa o encantamento
de um amor que nos devora,
fica um saído de tormento
que nunca mais vai embora.
VITORINA SAGBONI TEIXEIRA
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José Feldman (O Bilhete da Estação)

Era uma tarde de chuva fina na estação rodoviária da cidade, daquelas em que o chão fica escorregadio como piso encerado, e numa fração de segundos, a pessoa desavisada se estatela no chão; o ar cheira a café frio e todos impacientes, parece que todo mundo está com pressa de chegar a algum lugar que não seja ali. 

Eu esperava o ônibus para a minha cidadezinha, sentado num banco de plástico duro pra dedéu, que até minhas calças já estava se queixando, observando o movimento. Foi então que vi um bilhete: caído perto de uma lixeira, meio amassado, com letras impressas em tinta azul, ainda legível. Como estava matando o tempo, peguei só por curiosidade. Dizia apenas: “Para a Senhora Dona Eulália, na Rua dos Fundos, número 7 — assunto urgente, que ninguém deve saber”.

Não tinha nome de quem escreveu, nem assinatura. Apenas aquilo. E foi o suficiente para em seguida virar um fuzuê aquela rodoviária.

Logo apareceu Dona Marocas, uma senhora gorda, de chapéu de palha e voz que ecoava mais alto que o alto-falante, conhecida por saber da vida de todo mundo, parece que sabia antes mesmo da pessoa ter ideia do que ia acontecer. Ela passou por mim, viu o papel na minha mão, parou como se tivesse levado um choque e apontou o dedo grosso:

— O que é isso, moço? Deixa eu ver! — e, sem esperar resposta, arrancou o bilhete da minha mão. 

Leu em voz alta, devagar, soletrando como se cada palavra fosse uma bomba. Quando terminou, colocou a mão no peito, os olhos arregalados, e gritou para todo lado: 

— Meu Deus! É da Rua dos Cafundós! Lá só mora gente de… bem, gente que não é da nossa parte da cidade, né? Gente que vive de coisas que não se fala! Assunto urgente, o que ninguém deve saber… Ah, eu sabia! Sempre disse que aquela rua é um ninho de confusão!

Em segundos, a coisa ganhou tal vulto, que formou-se uma roda ao redor dela. Lá estava o Seu Arlindo, dono da loja de tecidos, que usava terno mesmo para viajar curtas distâncias e tinha o orgulho de ser “da família tradicional da cidade”. Ele pegou o bilhete, olhou com desdém, como se o papel estivesse sujo de lama, e disse, com aquele tom de quem sabe tudo sobre a natureza humana:

— Não me surpreende. Rua dos Cafundós… lugar onde ninguém quer morar, onde as casas são pequenas, as pessoas trabalham com o que aparece. É claro que lá tem segredos. Coisas que nós, trabalhadores, que temos um nome a zelar, não precisamos saber. Aposto que é dívida, ou roubo, ou… coisa pior. Coisa de gente que não tem educação, não tem modos.

Uma moça bem arrumada, com óculos de armação dourada e livro de bolso na mão, que parecia professora, concordou com a cabeça, séria:

— É o que sempre digo: a origem explica tudo. Se vem de lá, já sabemos o que esperar. Segredos, desonestidade… é a cultura do lugar, infelizmente.

E assim começou. O bilhete, que não dizia absolutamente nada, passou de mão em mão, e cada um acrescentava uma nova camada de história, baseada apenas no endereço. 

Em dez minutos, o “assunto urgente” já tinha virado: roubo de mercadoria, filho fora do casamento, dívida com agiota, até um plano para contrabandear algo proibido. Tudo porque a Rua dos Cafundós era, para eles, sinônimo de “gente problemática”, “gente que não é como nós”.

A coisa ia de mal a pior, quando apareceu um rapaz magro, de roupa simples, sapatos gastos, que estava sentado num canto, quieto, esperando o ônibus também. Ele ouvia tudo, e quando ouviu falarem mal de Dona Eulália, levantou a voz, tímido mas firme:

— Com licença… Eu conheço Dona Eulália. Ela é costureira, viúva, cria os netos sozinha, trabalha dia e noite para não dever nada a ninguém. É uma das pessoas mais honestas que existe.

Seu Arlindo olhou para ele de cima a baixo, com aquele olhar de desprezo que dói mais que tapa, e respondeu devagar:

— Ah, é? E você é quem, rapaz? Também mora lá, não é? Dá para ver logo pela roupa, pelo jeito que fala… Claro que vai defender os seus. Gente de um tipo igual ao seu só se entende, né? Não sabe o que é ter responsabilidade.

Vários concordaram com a cabeça, murmurando frases como “é assim mesmo”, “não adianta explicar”, “são todos iguais”. O rapaz abaixou a cabeça, calado, e voltou para o seu canto. Ninguém quis ouvir nada; eles já tinham a história pronta, desenhada nos seus preconceitos, e nada ia mudar.

Foi então que apareceu uma menina de uns dez anos, de tranças no cabelo, carregando uma sacola de plástico, olhando para todo lado, até que viu o bilhete na mão de Dona Marocas e gritou, aliviada:

— Achou! Era o meu! Eu deixei cair sem querer!

Todos pararam, olharam para ela, confusos.

— O que é isso, menina? — perguntou Dona Marocas, ainda desconfiada.

— É um bilhete que a minha mãe escreveu para Dona Eulália, que é a minha avó — explicou a menina, pegando o papel de volta. — Ela pediu para eu entregar antes de viajar, porque a vovó está doente, e a mamãe foi comprar o remédio na cidade vizinha, e escreveu avisando que ia chegar mais tarde, para a vovó não ficar preocupada. Disse “urgente” porque a doença dela é complicada, e “o que ninguém deve saber”… ah, é porque a vovó tem vergonha de que as pessoas saibam que ela está doente, ela não gosta de dar trabalho a ninguém.

Silêncio total. Um silêncio tão grande que dava para ouvir uma formiga caminhando no chão da estação.

Seu Arlindo ficou vermelho, roxo, depois branco, como se tivesse engolido um ovo cru estragado. A professora guardou o livro rapidamente, como se quisesse desaparecer. Dona Marocas ficou com a boca aberta, sem saber o que dizer, pela primeira vez na vida. Todos aqueles que tinham inventado histórias, julgado, condenado uma rua inteira e uma mulher que não conheciam, apenas por causa de um endereço, agora estavam parados, calados, com o gosto amargo da própria estupidez na boca.

E para piorar, o rapaz magro, que eles tinham julgado também pela aparência, levantou-se, sorriu e disse para que todos ouvissem:

— Pois é. Dona Eulália é minha mãe. E o remédio que a minha irmã falou? É para uma doença que pega qualquer um — rico ou pobre, de rua bonita ou de rua de fundo. A doença não sabe ler endereço, nem olha a roupa que a gente veste. Diferente de certas pessoas, que acham que sabem tudo só de olhar para onde o outro mora.

Ninguém respondeu. Ninguém olhou nos olhos de ninguém. Cada um foi para o seu canto, arrumou as suas malas, sem saber onde enfiar a cara, mas com a certeza de que, daquela vez, quem parecia “gente de menos” era exatamente eles: cheios de regras, de rótulos, de certezas que não valiam nada — tal como o bilhete, que não tinha segredo nenhum, a não ser o segredo da própria ignorância deles.

O ônibus chegou. Eu entrei, sentei perto da janela, e fiquei pensando: “engraçado como as pessoas acham que o lugar onde a gente mora, ou o que a gente tem, ou como a gente se veste, diz tudo sobre quem somos. Na verdade, diz muito mais sobre quem julga — sobre o quanto eles precisam inventar defeitos nos outros para se sentirem melhores, mais importantes, mais ‘certos’”.

E, para mostrar a graça que a vida tem: quando o ônibus saiu, vi Seu Arlindo correndo atrás, com a mala aberta, porque tinha esquecido de fechar o fecho, e todos os seus tecidos caros caíram no chão, misturados com a lama da chuva. Ninguém parou para ajudar. Afinal, por ele ser “gente importante”, todo mundo achou que ele devia saber se virar sozinho. 

Justiça poética, não é mesmo?
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra (SP), Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011.
       Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito máximo “Euclides da Cunha” na Academia de Letras Brasil-Suíça, em Berna/Suíça; título máximo das Letras na Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Pertence também à Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal, Ordo Equitum Calami et Calicis, Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, União Hispano-Americana de Escritores, Sociedade Poetas Del Mundo. 
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
    1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
  2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
    3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 163

As estações do ano têm seus encantos, delícias, magias. Sempre obedecendo as leis da mãe-natura, normas intangíveis que regulam nossos desígnios no planetinha azul. E as complexidades, bem vistas, acatadas e vividas tornam-se normais no dia a dia. 

Neste maio outonal aparecem os primeiros frios trazidos pelos ventos polares que castigam os viventes, corpo e alma. O outono, como as outras estações, é um período de cultivo de tradições que aparecem sazonalmente.  E elas fazem parte dos calendários da rosa-dos-ventos deste país continente.  

É do fruto da pinha - o pinhão - que temos as principais iguarias nesta época do ano. Cozido na água, ou na chapa do fogão, nas grimpas embaixo do pinheiro, ele conquista paladares. Nas noites frias do inverno é o sabor que acompanha conversas e rodas de chimarrão nos estados do sul. 

O entrevero, a paçoca, a farinha de pinhão, são acepipes que põem o ser em festa e em êxtase nas noitadas de vidraças suadas- não esquecendo que o vinho é presença infalível inspirando almas e corações.
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       O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Bohrer defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.

Arthur Thomaz (O hedonista*)

Literalmente nascido na orla do Rio de Janeiro. Teve o seu parto nas areias da praia de Ipanema, em uma madrugada, onde sua mãe, em um ato de desespero, aproveitando a escuridão, para não ser flagrada pelas câmeras de segurança.

Após seu nascimento e sem saber o que fazer, embrulhou-o em um velho cobertor, ainda ligado à placenta, e deixou-o em um quiosque na beira do calçadão.

Um corredor amador, no começo da manhã, ouviu algo estranho, parecendo um choro, e foi verificar o que era. Ligou para a PM, que acionou o Conselho Tutelar. Levaram-no a um hospital, onde foi medicado, ficando alguns dias em observação. Foi devolvido ao Conselho Tutelar, que o colocou no único orfanato em que havia vaga.

Os monitores o levaram ao cartório, onde o registraram com o nome de Hudson Edison em homenagem a uma dupla sertaneja. O cartorário, aborrecido, sonolento e sem paciência, registrou o nome da criança sem a letra inicial H, ficando Udson Edson.

Enfadado, perguntou qual era o sobrenome do menino. Elas responderam simultaneamente ser Silva, então o registrou como Udson Edson Silva e Silva.

Teve uma infância tranquila no orfanato, passando por alguns lares de adoção, onde foi devolvido por ter o espírito arredio, e por intimamente adorar o local onde foi acolhido com carinho.

Lá havia a monitora Gisele, fisiculturista, que orientou-o a cuidar do próprio corpo, através de exercícios e um rigoroso treinamento em academia de ginástica.

Ao chegar à puberdade, notou alterações anatômicas e hormonais nele e em suas irmãzinhas de orfanato. Pensou que iria dar problema e solicitou à diretoria que o colocasse para trabalhar como aprendiz, onde passaria o dia fora, para amenizar a situação.

Não se pode dizer que ele nunca trabalhou. Por alguns anos foi aprendiz, até completar a maioridade. Certa tarde, ouviu uma conversa entre seus patrões sobre um tal hedonismo. Interessado, foi pesquisar no Google e descobriu instantaneamente que seria um hedonista.

Pediu demissão do emprego e despediu-se com muitas lágrimas das pessoas do orfanato, prometendo voltar sempre para revê-los. Alojou-se em um modestíssimo albergue, cujo dono concedeu estadia em troca de ter a roupa de cama lavada por ele diariamente. Continuou cuidando do corpo, correndo pelas praias e aproveitando os aparelhos de musculação dos idosos nas praças públicas.

Constituiu assim um físico privilegiado. Correndo pelas praias, notou que atraía a atenção de muitas mulheres, impressionadas com o bronzeado e as formas bem delineadas de seu corpo.

Pressentiu que poderia levar a vida sem muito esforço investindo nesse ramo. Iniciou correndo pelas areias do Leblon. Reparou em uma mulher, talvez beirando 50 anos, sozinha sob um colorido guarda-sol, ostentando um enorme chapéu e alguns reluzentes colares, e que o fitava insistentemente.

Parou a corrida, aproximou-se dela e perguntou algo banal, mas suficiente para iniciarem uma conversa que obvia mente terminou na cama da enorme suíte de uma cobertura no mesmo bairro.

Foi então que Udson aprendeu a primeira e dolorida lição em sua iniciante vida de hedonista. Ao término, a mulher, visivelmente frustrada com a performance dele, deu-lhe alguns trocados para um táxi de volta e, na lacônica despedida, disse-lhe que esperava algo melhor do que ele proporcionara.

Envergonhado, sentou-se em um banco no calçadão para colocar as ideias em ordem e traçar planos.

Claramente faltava a ele mais experiência em relacionamentos amorosos. 

Na noite seguinte foi até a Vila Mimosa procurar ajuda nessa atividade. Encontrou uma moça bonita e que mostrou-se disposta a ensinar as artimanhas do sexo mediante o pagamento das aulas.

Com o tempo, Olinda afeiçoou-se ao rapaz. E, nas madrugadas após o término do movimento no local, teve muito tempo para o ensino. O que transformou-o em um mestre, quase com doutorado na arte do amor.

Agora, Udson, com muito mais confiança, retornou às atividades nas praias. Desfilava pelas areias conquistando incautas mulheres e também algumas que, interessadas apenas em desfrutar o seu corpo, não se envergonhavam de retribuir esses favores com muito dinheiro ou presenteando-o com objetos de valor. Ele viveu por muitos anos aproveitando o dinheiro das mulheres, sem sequer pensar em guardar alguma economia para o futuro, afinal, julgava-se um eterno hedonista.

Mas o tempo é implacável e, logo após completar 40 anos, percebeu que algumas gorduras teimavam em se alojar em sua cintura. Pediu a uma das incautas que pagasse um ano de mensalidades na melhor academia da Zona Sul. E a uma outra, que pagasse uma estadia em um caríssimo SPA. Enfim, infrutíferas tentativas.

Sua onda de sucesso na praia desapareceu, não causando mais o efeito naquelas mulheres. Chegou até a passar uma noite com fome e sem abrigo.

Certa tarde, correndo para ver se ainda obtinha alguma conquista, reparou em uma mulher de quase 50 anos, que lia um livro no banco do calçadão. Resolveu aproximar-se e, ela notando os olhares, ofereceu-lhe um assento ao seu lado.

Ester era uma professora dedicada ao ensino que resolvera não assumir compromissos sérios com homens, mantendo sua independência.

Entabularam uma conversa e Udson, sem muita opção para alimentação e pernoite, acompanhou Ester até a sua pequena casa na periferia, onde ela serviu um jantar caseiro e o acolheu em seus braços.

Na manhã seguinte, despediram-se sem promessas de outro encontro. Mas Udson, novamente após uma corrida pela praia, sem chamar a atenção de nenhuma mulher, encontrou-se novamente com Ester em sua leitura habitual no mesmo banco. A cena repetiu-se, até que um dia ele passou a morar com Ester.

O hedonismo terminou com Udson trabalhando em uma oficina do bairro, limpando o quintal, cuidando do jardim e dando comida aos gatos.
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*Hedonista é a pessoa que orienta sua vida, suas escolhas e seu comportamento pela busca do prazer e pela evitação do sofrimento. O termo tem origem na filosofia grega antiga, baseando-se na ideia de que o prazer é o propósito supremo e o maior indicador de felicidade humana
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

Interlúdio = 4 =




PROFESSOR GARCIA (nome artístico de Francisco Garcia de Araújo) é um dos maiores expoentes da cultura potiguar, destacando-se como poeta, trovador, escritor e compositor profundamente ligado a Caicó e à região do Seridó. Sua trajetória une a educação formal à preservação das tradições líricas e da literatura de cordel no Nordeste. Nasceu na Fazenda Acari, no município de Malta (PB), em 1946. Mudou-se para Caicó (RN), em julho de 1959, acompanhado de seu tio, o também poeta José Lucas de Barros. Desde então, fincou raízes na cidade e adotou o Seridó como seu lar definitivo. Graduou-se em Letras (Português e Inglês) e em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de possuir pós-graduação em Teologia e Éticas Especiais. Como educador, lecionou as disciplinas de Português, Francês, Inglês e Espanhol. Atuou profissionalmente como bancário. No setor público, exerceu forte representação política em Caicó, onde foi Vereador e Secretário Municipal.
Dedica-se ativamente à divulgação da poesia lírica e da trova, apresentando o programa semanal "Momentos Com Nossos Poetas" na Rádio A Voz do Seridó (100 FM). Presidente do Clube dos Trovadores do Seridó (CTS); Sócio-efetivo da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte (ATRN); Delegado e membro ativo da União Brasileira de Trovadores (UBT), Seção de Natal/RN e Caicó/RN; Membro efetivo da Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL), acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (PR). Alguns livros Publicados: Trovas que Sonhei Cantar (1974); Cantigas do Meu Cantar (2017).
Ao longo de sua carreira literária na cultura popular e no movimento trovadoresco brasileiro, obteve diversas classificações e menções honrosas em concursos nacionais de trovas promovidos pelas seções da UBT. O Professor Garcia desempenha um papel fundamental como guardião da identidade e da memória do Sertão do Seridó. A sua relevância reside na manutenção viva do Trovadorismo — uma vertente literária clássica e poética focada em composições rimadas de quatro versos de sete sílabas poéticas (redondilha maior). Ao liderar o Clube de Trovadores regional e utilizar os meios de comunicação de massa para espalhar a poesia nordestina, ele conecta a erudição da sua formação acadêmica com a pureza da cultura de raiz. Ele eleva a produção poética do interior do Rio Grande do Norte ao cenário nacional, garantindo que o lirismo sertanejo continue influenciando novas gerações de escritores.

Fontes da Biografia = Confraria Brasileira de Letras; Portal CEN; Severo Garcia; Universidade Estatual do Rio Grande do Norte (tese).

Humberto de Campos (As "gaffeuses")

Um dos encantos da alta sociedade carioca são as senhoras que cultivam, nos salões e na intimidade, os deliciosos cogumelos da "gafe". Educadas, finas, inteligentes, essas figuras da "elite" constituem, geralmente, legítimos ornamentos da família brasileira; há, porém, no inferno uma classe de demônios irreverentes que se divertem zombando das mulheres lindas, e o resultado são esses deliciosos delíquios do espírito, e o desgosto que se apossa, depois, das pobres vítimas dessa maliciosa brincadeira diabólica.

À frente desse exército de "gafeuses" marcha, com as "gafes" que tem cometido na terra, a jovem senhora Cardoso Nunes, esposa do Dr. Abelardo Nunes, conhecido corretor e capitalista. Formosa e gentil, D. Clotilde é incapaz de uma perfídia, de uma insinuação malévola, de uma perversidade punidora. As amigas estimam-na profundamente e só não fazem o mesmo as inimigas, porque D. Clotilde, com franqueza, não as tem. A sua simplicidade destrói todas as prevenções, e de tal modo que os seus íntimos lhe perdoam as "gafes", mesmo quando se trata de casos duvidosos, como o de anteontem.

A roda de convidados era enorme e seleta, no grande terraço dando para o mar, predominando nela o número de figuras femininas. Palestrava-se vivamente sobre o nervosismo de certas senhoras, algumas das quais nutrem uma aversão às baratas, às rãs, aos grilos e a outros pequenos seres repugnantes.

- Eu tenho horror é ao caramujo! - informava Me. Costa Meireles, com a papada a repousar, como a do Chaby, sobre o peito volumoso. - Quando eu vejo um caramujo, fico toda arrepiada!

E, fechando as mãos muito redondas, muito gordas, a fez estremecer toda, dos pés à cabeça a formidável montanha de toucinho.

- Pois, eu não, - atalhou Mlle. Pinheiro César; - o que me horroriza é o percevejo. Quem me quiser ouvir gritar, é por um percevejo no meu caminho!

Foi por essa altura que D. Romualda Brito, a ilustre senhora tão conhecida pelas suas leviandades galantes, interveio, informando:

- Pois, eu, não tenho medo de nada disso. Nenhum desses bichinhos me faz, como a vocês, qualquer mal aos nervos.

E contou:

- Imaginem que outro dia, eu estava em pé na sala de espera do cinema de Copacabana, quando senti de repente uma coisa subindo pela minha perna!

- Meu Deus! - gemeu Mme. Cunha Andrade, mostrando o braço arrepiado. - Olhem como eu estou!

E a outra continuou:

- Sem me mover, eu compreendi que era um rato!

- Que horror! - gritaram as outras senhoras.

- Quieta estava, quieta fiquei. O rato subiu, primeiro, para meu sapato. Depois, passou à meia. E assim, subiu-me, aos poucos, pela perna!

As senhoras, em silêncio, mostravam-se horrorizadas com o acontecido. E foi no meio dessa impressão, que D. Clotilde interveio, muito séria:

- O rato subiu, mesmo, pela perna da senhora?

- Subiu, menina!

E D. Clotilde, logo, com a maior ingenuidade do mundo:

- Mas desceu, depois; não desceu?
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HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fonte:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público.