segunda-feira, 13 de julho de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 1 – Conceito de Cidadania

Nota do blog:
Recebi do trovador potiguar Gonzaga da Silva o livro Trova e Cidadania, onde ele organiza uma compilação de trovas de trovadores de diversas regiões referentes a tópicos que envolvem a Cidadania. A partir de hoje coloco no blog, periodicamente alguns tópicos em trovas do excelente livro deste trovador. 
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CONCEITO DE CIDADANIA

O termo cidadania deriva do latim civitas, cidade. O conceito tem origem na Grécia antiga e designava o exercício dos direitos e deveres de cidadão, ou seja, do sujeito que vivia na cidade e que participava ativamente dos negócios e das decisões políticas. Entretanto, mesmo na Grécia, nem todos eram considerados cidadãos, ficando excluídos desta categoria os escravos, as mulheres, as crianças e os estrangeiros.

Atualmente, o termo cidadania está mais relacionado ao exercício dos chamados direitos fundamentais ou direitos humanos, previstos nos Tratados internacionais e nas Constituições dos estados. Mas esta previsão não assegura, por si só, o direito de cidadania.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Para os que seguem sozinhos,
descalços e combalidos,
que importa ter mil caminhos
se todos são proibidos?
Amália Max - PR

É necessário um esforço contínuo dos cidadãos para que os seus direitos sejam efetivados e respeitados. Nossos trovadores dizem o que é cidadania e como ela pode ser exercida.

Cidadania é civismo;
sobretudo é comunhão:
é ajuda mútua, é altruísmo,
partilha Justa do pão!
A. A. de Assis - PR

Exerce a cidadania
quem faz valer seu direito
e luta, no dia a dia,
por um mundo mais perfeito!
Renata Paccola - SP

Exercer cidadania,
em meio à desigualdade,
é conquistar, dia a dia,
um quinhão de liberdade!
Marisa Vieira Olivaes - RS

Exercer cidadania
é postar-se vigilante,
e com serena ousadia
lutar pelo semelhante.
Gonzaga da Silva - RN

Cidadania é o dever
do ser humano exemplar
gritar, com o seu poder,
por quem não pode gritar!
José Valdez de Castro Moura - SP

Com sentimento profundo
de pura cidadania
é que um povo afirma ao mundo
a sua soberania.
Sandro Pereira Rebel - RJ

Cidadania, em seus pleitos,
toda a grandeza contém
no conjunto dos direitos,
mas de deveres também.
Alonso Rocha - PA

Cidadania se exerce
com consciência e respeito,
pois se assenta no alicerce
do dever e do direito...
Élbea Priscila Souza e Silva - SP
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor.

Sílvio Romero (A mãe falsa ao filho)

(Folclore do Rio de Janeiro)

HAVIA UM HOMEM DE FORÇA e de coragem, de nome Pedro, que retirou-se para a roça com sua mulher chamada Maria. Foram viver nos ermos, sustentando-se com caças do mato.  

Lá nos ermos nasceu-lhes um filho que se chamou João. Quando o menino tinha sete anos de idade morreu seu pai. Vendo o rapazinho que a vida dos ermos era rústica, pediu à sua mãe para se retirarem para a cidade, com o que concordou a mãe. 

Juntaram os seus bens, que consistiam num cavalo, uma espingarda e um facão, e entraram na cidade já pela noitinha. Correu o João toda a cidade e não encontrou ninguém; bateu em todas as portas e ninguém lhe respondeu. Foi ter a um sobrado, que foi o único que achou aberto, entrou, falou e ninguém lhe respondeu. Subiu a escada, correu toda a casa e não viu viva alma. Havia um único quarto que estava fechado, estando todos os mais abertos. Então aí se arranchou com sua mãe e passaram a noite. 

No dia seguinte não viu ninguém na cidade, nem sentiu movimento algum e, não tendo o que comer, foi para o mato caçar, conforme usava o seu pai. Quando ele estava no mato, apresentou-se à sua mãe no sobrado um gigante, dizendo-lhe que a havia de matar por ter ela se apoderado daquela casa sem a sua licença; mas que, por ser ela mulher, não a mataria com a condição de viverem juntos. 

A mulher lhe respondeu que tinha um filho na sua companhia. 

O gigante lhe disse: “O teu filho eu o como.” 

— “O senhor não pode com meu filho.” 

— “Então não é ele um homem?” 

— “Sim, é um homem.” 

— “Como não poderei eu com ele, se pude com todo o povo desta cidade, e acabei com todo ele?” 

— “O senhor não pode com meu filho, que tem muita força.” 

— “Pois se não posso com ele, aqui tens uma boa forma de lhe dar fim: quando ele chegar, tu deves te fingir de doente, gritando com uma dor nos olhos, e que tu sabes que o único remédio que existe para este mal é a banha de uma serpente que há no mato; ora, não podendo ele com a serpente, ela lhe dará cabo da pele.” 

Chegando o filho da caçada; assim fez a mulher, como lhe ensinou o gigante. O moço então voltou para as matas. No caminho encontrou um velho que lhe perguntou aonde ia. Respondeu que matar a serpente para tirar a banha para deitar nos olhos de sua mãe que estava doente. 

O velho lhe disse: “Não vás lá, que não podes com a serpente.” 

— “Como é para minha mãe, hei de ir, aconteça o que acontecer”, respondeu o mocinho. 

O velho lhe disse: “Pois vai, que serás feliz.” 

Foi ele e matou a serpente e tirou a banha. Na volta passou por casa do mesmo velho, que o reteve para jantar. Quando estava o mocinho jantando o velho mandou matar uma galinha e tirar a banha e trocar pela banha da serpente. Assim fez a moça que o velho criava em casa. 

João seguiu, e deitou o remédio nos olhos de sua mãe, que não tendo nada, nada sofreu. 

O gigante, no dia seguinte, ficou admirado, e, estando o João na caça, disse à mulher: 

– “É verdade; esse teu filho é homem. Amanhã, quando ele vier, faze o mesmo, e dize-lhe que nestas matas há um porco-espinho, cuja banha é o remédio que te pode servir; ele, que não pode com o porco-espinho, morrerá, e ficaremos livres dele.” 

Tudo fingiu a mulher, e o filho lá voltou para as matas a matar o porco espinho. Tornou a passar por casa do velho, que lhe fez outra recomendação, a que ele resistiu. 

“Vai, disse o velho, e serás feliz.” 

Foi e matou o porco-espinho. Tornou a passar por casa do velho que o reteve para jantar. Mandou matar outra galinha e trocou a banha do porco-espinho pela banha da galinha. João seguiu para a cidade e botou a banha nos olhos de sua mãe, que nada tinha. 

No dia seguinte, indo ele para a caça, apareceu o gigante e ficou ainda mais admirado da valentia do rapaz, e disse à Maria: 

– “Agora tu pegas estas cordas, e dize-lhe que ele não é capaz de as arrebentar.” 

Assim fez a mulher. Chegando o filho, ela lhe disse: “Tu és um homem, que nem mesmo teu pai fazia o que tu fazes; mas tu não és capaz de quebrar estas cordas em te enleando com elas.” 

João aceitou a proposta; a mãe o enleou, e ele forcejou e quebrou as cordas. 

A mãe lhe disse: “És homem como trinta!” 

João seguiu para a caça no dia seguinte. Veio o gigante, e, sabendo do acontecido, ficou ainda mais pasmado. 

“Amanhã, disse o gigante, dize-lhe que ele não é capaz de quebrar estas correntes.” 

Assim fez Maria, quando seu filho veio. 

“Isto não, minha mãe, correntes não posso quebrar.” 

— “Tu podes, meu filho, experimenta.” 

— “Vosmecê quer, vamos ver.” 

A mulher enrolou o filho com as correntes; ele forcejou e não as pôde quebrar. Aí apareceu o gigante armado de um facão e se arrojou ao menino para o matar. 

“Pode matar, disse João, só quero que me cumpra três pedidos que lhe quero fazer.” 

— “Cumprirei vinte, quanto mais três.” 

Os pedidos de João eram: não quero que faça uso dos objetos que meu pai deixou, nem do cavalo, nem da espingarda, nem do facão; quando me matar não me estrague o corpo e parta-me em cinco partes; bote-me dentro de dois jacás no cavalo com a espingarda e o facão.

Assim cumpriu o gigante. O cavalo seguiu desordenadamente e foi ter à casa do velho. Chegou a moça na janela e, conhecendo que era o cavalo de João, chamou o velho. Este chegou e disse: “Minha filha, o que ali vês é João que vem morto dentro dos jacás; traz-me para aqui o cavalo, que quero dar vida ao nosso João.” 

O velho pediu a banha de serpente, e juntou os diferentes pedaços do corpo de João, que logo sarou. 

– “Não sentes coisa alguma, nem te falta nada?”, perguntou o velho. 

Respondeu João: “Falta-me a vista.” 

O velho pediu a banha do porco-espinho, e untou com ela os olhos do rapaz, que logo recobrou a vista. 

– “Pega nas tuas armas, disse então o velho, e vai à casa de tua mãe e faz o mesmo ou pior.”  

João partiu; lá chegando encontrou a mãe dormindo com o gigante; pôs o seu facão nos peitos do monstro e o matou. A mãe se lhe atirou aos pés, pedindo que a não matasse; e ele a fez levantar-se dizendo-lhe que a não ofendia, por ser sua mãe. Voltou à casa do velho, contou-lhe o que tinha feito, salvando sua mãe.

O velho louvou a sua ação, e disse que era o seu anjo da guarda que o tinha vindo defender. Desapareceu, subindo para o céu, e João se casou com a moça que ele tinha criado.
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SÍLVIO ROMERO (nome literário de Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero) foi um dos maiores intelectuais, críticos literários, ensaístas e historiadores do Brasil no século XIX e início do século XX. Homem de personalidade combativa e polêmica, ele revolucionou a forma de se pensar a identidade nacional, sendo o pioneiro na historiografia literária científica no país e um dos maiores defensores do folclore e da cultura popular como bases da nossa literatura. Nasceu na Vila de Lagarto (atual município de Lagarto), Sergipe, em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro (então capital federal), em 1914, aos 62 anos. Passou a infância e as primeiras letras no Sergipe. Mudou-se para Recife/PE para realizar seus estudos preparatórios e superiores na Faculdade de Direito. Fixou residência definitiva a partir de 1880, no Rio de Janeiro, cidade onde consolidou sua carreira profissional, literária e política até o fim da vida. Foi professor de Filosofia no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cargo que conquistou por meio de um célebre e disputado concurso público em 1881. Posteriormente, lecionou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Atuou como advogado e foi promotor público na província de Minas Gerais (em Estrela do Sul) e em sua terra natal. Com a Proclamação da República, ingressou na vida política ativa. Foi eleito Deputado Federal por Sergipe em duas legislaturas (1891–1893 e 1900–1902), participando ativamente dos debates jurídicos e culturais da nova República.
Iniciou sua vida literária ainda estudante em Recife, colaborando com jornais acadêmicos. Ele fez parte da chamada Escola de Recife, um movimento intelectual liderado por Tobias Barreto que introduziu o positivismo, o evolucionismo e o criticismo filosófico alemão no Brasil. Romero abandonou cedo a poesia para se dedicar à crítica literária e ao ensaio sociocultural. Ele utilizava as teorias científicas de sua época (como o determinismo de Taine e o evolucionismo de Spencer) para analisar a produção literária brasileira sob uma ótica sociológica. Ficou conhecido por suas polêmicas ferozes com outros intelectuais da época, como Machado de Assis e José Veríssimo. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Participou ativamente das reuniões de fundação em 1897 ao lado de Machado de Assis, embora mantivesse uma postura crítica em relação ao formalismo excessivo da instituição.  Foi membro de destaque do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizando o espaço para suas pesquisas historiográficas e geográficas. Na virada do século XIX para o século XX, não existiam prêmios literários institucionais de grande porte no Brasil (como o Prêmio Jabuti ou o Prêmio Camões, criados décadas mais tarde). O reconhecimento de Sílvio Romero deu-se por meio do enorme prestígio acadêmico, aclamação pública de seus pares e pela rápida consagração de suas obras como manuais de estudo obrigatórios nas faculdades do país.
Sua produção foi vasta e abrangeu a poesia, a crítica, a história e o folclore:
Historiografia e Crítica Literária: História da Literatura Brasileira (1888) — Sua obra-prima absoluta e divisora de águas; Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897); Evolução da Literatura Brasileira (1905).
Estudos de Folclore e Cultura Popular: Cantos Populares do Brasil (1883 e 1885)
Poesia (Fase Inicial): Cantos do Fim do Século (1878).
A importância de Sílvio Romero é monumental porque ele foi o fundador da crítica literária moderna e da historiografia científica no Brasil. Antes dele, a história da nossa literatura era vista de forma amadora ou meramente biográfica. Romero foi o primeiro a estruturar uma análise que conectava a produção artística à formação social, étnica e psicológica do povo brasileiro. Ele teve a sensibilidade genial de perceber que a verdadeira literatura brasileira não nascia da cópia dos modelos europeus, mas sim da mestiçagem cultural. Ao recolher, catalogar e publicar os cantos, contos e mitos do interior do país, ele salvou o folclore nacional do esquecimento e provou que as manifestações populares eram a base autêntica da nossa identidade. Sua obra abriu caminhos diretos para o Modernismo de 1922 e para os estudos sociológicos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Ebiografia, Wikipedia, Ricardo Velez, Cia. das Letras, Academia Brasileira das Letras, Infopedia, Revista da USP, Amazon, etc.

Coelho Neto (Selemnus)


Pela esmeralda das campinas úmidas, soprando a avena suave, o meigo pastor Selemnus passeava o seu rebanho de ovelhas e de cabras.

Argyra, ninfa dos cabelos de ouro, mal o descobria, sentado entre os ramais de mirto verde, deixava a espuma jônica e, célere, a sorrir, saltando pelas pontas dos penedos, vinha cair nos braços desejados.

Os hirsutos tritões glaucos, de ciúme, punham-se a soprar nos búzios torsos, arrepelavam o mar espadanando vagalhões medonhos para ver se os amantes assustavam-se; os dois, porém, unidos peito a peito, mal o sussurro dos lábios percebiam.

As náiades, à noite, à sabida da lua, apareciam em bando à flor das vagas, cantando para tentar o namorado e Selemnus pensava unicamente na bela ninfa dos cabelos de ouro.

Um dia, Argyra descobriu rugas no rosto do pastor e fios brancos na cabeleira escura. Riu de cima da penha e, sem beijá-lo, de novo mergulhou no mar inquieto.

Selemnus debalde foi à praia vê-la, chorou debalde; à toda onda que subia à areia confiava um segredo para Argyra. E a ninfa, cavalgando o dorso verde e altivo de uma vaga, fez-se ao largo, rindo do pastor desventurado.

Dias e noites, entre as penedias, Selemnus soluçou pedindo a morte até que os deuses se compadeceram.

Vênus, porém, a deusa protetora dos amores, para tornar eterna a triste história, transformou o pastor em rio — mas, apesar de transformado, o amante não esqueceu a pérfida e, fugindo por entre os salgueirais, o nome Argyra soluçava sempre.

Foi preciso que a deusa o socorresse dando-lhe como remédio o esquecimento.

E nunca mais Selemnus suspirou sentido — pôs-se a correr silenciosamente através das pradarias de esmeralda— matando a sede às brancas ovelhinhas.

As vítimas do amor, os desgraçados, quando a paixão minava-lhes a vida, para esquecerem a causa dos tormentos, mergulhavam nas águas de Selemnus. E os que levavam nomes dentro da alma nem saudade traziam de tais nomes.

Eu vivia feliz pastoreando as minhas ilusões — sem martírios, sem mágoas, sem desgostos. Apareceste e tudo esqueci porque teu amor encheu-me o coração. A minha vida vinha de teus olhos, o teu prazer o meu prazer criava e nunca descobri pranto em teus olhos sem que nos meus não visses mais copioso. Deixaste-me sem luz.

Meu coração morreu e transformou-se em lutuoso rio de agonias. Corre pelo meu rosto, como por um vale, esse fio de lágrimas ardentes — é o meu amor, é toda a minha vida que se esvai nesse pranto.

Falta-me o esquecimento! Falta-me o esquecimento!

Mas para isso é preciso que o meu coração desmanche-se e que eu fique sem a saudade que, no correr das lágrimas, balbucia para a minha alma debruçada sobre o meu coração, o teu nome, como Selemnus, o rio namorado, dizia aos salgueirais o doce nome da formosa Argyra.
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HENRIQUE MAXIMIANO COELHO NETO nasceu em Caxias/MA, em 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934 (70 anos). Conhecido como o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", ele foi um dos intelectuais mais lidos, influentes e prolíficos de sua época. Viveu a primeira infância no Maranhão. Mudou-se com a família em 1870 para o Rio de Janeiro, a Capital Federal na época. Morou nela na maior parte da vida, onde estudou e consolidou sua trajetória profissional. Residiu temporariamente em São Paulo e Recife durante a juventude para cursar as faculdades de Direito. Lecionou História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes. Também ensinou Literatura no Colégio Pedro II e História do Teatro na Escola de Arte Dramática. Exerceu cargos na administração pública, incluindo o de secretário de Governo do Estado do Rio de Janeiro. Foi eleito deputado federal pelo estado do Maranhão por três legislaturas. Atuou intensamente na imprensa carioca. Escreveu crônicas e artigos de opinião para veículos como a Gazeta da Tarde e A Notícia.
Iniciou a carreira engajado nas causas sociais, lutando ativamente pelo fim da escravidão ao lado de amigos como Olavo Bilac. Transitou por múltiplas correntes da época, misturando elementos do Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo, situando-se no que a crítica classifica como Pré-Modernismo. Foi um verdadeiro fenômeno de público no Brasil e em Portugal no início do século XX. Chegou a rivalizar com Machado de Assis em número de leitores. Foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou cadeira e exerceu a presidência no ano de 1926. Foi homenageado e consagrado como patrono na Academia Maranhense de Letras. Em sua época, o maior reconhecimento era dado pelo público e por títulos honoríficos. Recebeu o título informal, porém oficializado pelos intelectuais, de "Príncipe dos Prosadores". Em 1933, alcançou o marco histórico de ser o primeiro escritor brasileiro oficialmente indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. O autor teve uma produção monumental, publicando cerca de 130 livros e centenas de contos e crônicas, sendo entre muitos: A Capital Federal (1893); Miragem (1895); Sertão (1896); O Morto (1898); Turbilhão (1906); Rei Negro (1914), etc.
Coelho Neto foi o pilar da literatura institucional da República Velha. Sua importância reside em sua riqueza vocabular insuperável e na capacidade de documentar a transição social do Brasil imperial para o republicano. Ele também entrou para a história cultural por ter cunhado a expressão "Cidade Maravilhosa" para se referir ao Rio de Janeiro. Embora tenha sofrido forte rejeição dos modernistas na Semana de Arte de 1922, que criticavam seu estilo rebuscado e acadêmico, sua vasta produção é fundamental para compreender o gosto estético e a transição cultural brasileira do início do século XX.

Fontes:
Coelho Neto. Rapsódias. Publicado originalmente em 1891. Disponível em Domínio Público.
Biografia = Sites consultados: Universidade Federal do Maranhão, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Ebiografia, Nossos Vizinhos Ilustres, etc.

domingo, 12 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 17 *


É tão carola a velhinha,

que, quando se sente mal,
faz primeiro uma rezinha,
depois toma um São Risal.
A. A. DE ASSIS
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Inspirado na bonança,
de pensamentos diversos,
o poeta é uma criança
brincando de fazer versos.
ADOLFO MACEDO
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Que exemplo o do vaga-lume
que vive na noite escura;
quanto maior é o negrume,
mais ele voa e fulgura!
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
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Quem vive ofensas perdoando
e por amor tudo faz,
vai sempre em punho levando
uma bandeira de paz!
ANALICE FEITOSA DE LIMA
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Qual fantasia perdida
que se desfaz na amplidão,
tudo é efêmero na vida,
feito bolha de sabão!
ANTÔNIO COUTINHO
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Passa na estrada um camelo
e um corcunda palpitante
de alegria, disse ao vê-lo:
- “Mas que animal elegante!”
ANTÔNIO SALES
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Ralha o chefe, quando chego
atrasado e irritadiço...
Eu até gosto do emprego;
só não gosto é de serviço!
ANTONIO VALENTIM RUFATTO
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Sede balança amiúde
ao pesar os vossos feitos;
vereis gramas de virtude,
toneladas de defeitos.
ARISTÓTELES LACERDA JÚNIOR
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Destino é força que esmaga...
– Credor austero, tremendo,
manda a conta e a gente paga
sem saber que está devendo.
BARRETO COUTINHO
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Traça os rumos com carinho,
pondo firmeza nos traços,
que a retidão do caminho
dá segurança aos teus passos.
CAROLINA RAMOS
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Veleiro de vela panda,
perdeste o rumo e, a bailar,
vais brincando de ciranda
nas águas verdes do mar!
CÉLIO GRUNEWALD
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Já com cabelos grisalhos,
mas inda pensando em ti,
vejo a saudade em retalhos
nas cartas que recebi.
CIDOCA DA SILVA VELHO
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Range a carroça, à distância,
e o boi num passo indolente
me traz lembranças da infância,
faz do passado... presente.
CINCINATO PALMAS AZEVEDO
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Um abajur sobre a mesa,
na velha jarra uma flor;
um “Tango para Teresa”,
saudades de um velho amor.
DALMIR PENA
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Tenho, sim, muito mais ouro
e fortuna que um ricaço:
não há no mundo tesouro
que pague as trovas que eu faço!
DARLY ANGÉLICA O. BARROS
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Num reino que tanto mata,
onde a ambição desatina,
mesmo sem ouro e sem prata,
o rei... é quem se domina!
DICHE GALVÃO CAMPOS
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A união se faz maior
em noite fria que tenha
uma família ao redor
de um velho fogão de lenha!
EDUARDO A. O. TOLEDO
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Assim é este mundo,
todo cheinho de loucos...
E mais este vagabundo
que te quer bem como poucos!
FRANCISCO C. ROCHA
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Nem sempre a briga é conflito
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!
HAROLDO RODRIGUES DE CASTRO
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Eu prefiro a arte caduca,
pois receio a evolução.
Quanto mais ela se educa,
mais aumenta a confusão.
HUMBERTO DEL MAESTRO
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Virtude é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não faz por merecê-lo.
IZO GOLDMAN
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Responde, ó Deus, pela mão
que podes ver, calejada:
– Por que há de ter tanto chão
quem nele não planta nada?
JAIME PINA DA SILVEIRA
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Sacudiram minha vida,
duas coisas, te confesso:
a tua triste partida
e o teu alegre regresso.
JOÃO BATISTA SERRA
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Não foste a minha metade,
pois jamais me deste um “sim”…
Mas fizeste que a saudade
fosse a metade de mim.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
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Se alguém brigou por amor,
ou é ciúme, ou intriga...
– Quem ama não tem rancor,
e por amor ninguém briga!
JOSÉ VITOR DE PAIVA
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Se aos outros deres bom trato,
respeito, a qualquer momento,
receberás – de imediato,
o mesmo e igual tratamento.
JOSIAS PAIVA PINHEIRO
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Cabeça, triste é dizê-lo!
Cabeça, que desconsolo!
por fora não tem cabelo,
por dentro não tem miolo!
LAURINDO RIBEIRO
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O mar que geme e palpita
no seu tormento profundo
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo!
LILINHA FERNANDES
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A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.
LUIZ DAMO
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Quis pintar em aquarela
a história do nosso amor;
não pintei nada na tela;
como é que se pinta a dor?
LUIZ POETA
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Ah se eu pudesse saber
qual a mulher que ele quer…
Que não iria eu fazer
para ser essa mulher?
MAGDALENA LÉA
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Ai, meu Brasil, quem me dera
eu partir de Portugal
numa linda caravela
bem ao lado de Cabral!...
MANOEL FERNANDES MENENDEZ
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Respeita o empenho constante,
o eterno recomeçar
de quem erra e segue avante,
na esperança de acertar.
MARIA H. C. M. DUARTE
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Quando o verso é costurado
com sentimento e magia,
parece vir cravejado
de ternura e de poesia.
MARIA LUIZA WALENDOWSKY
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De um cantinho da Bahia,
chamado Porto Seguro,
parte o Brasil – sob a guia
de Iemanjá – rumo ao futuro.
MARIA MADALENA FERREIRA
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Numa alegria sem fim,
o meu coração criança
faz da ilusão trampolim
e mergulha na esperança...
MARTA MARIA P. BARROS
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Se de amor, em asas plenas,
um "sim" disseres, discreto,
com as três letras apenas
me darás o céu completo.
MIGUEL EPSTEJN RUSSOWSKY 
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Mal termina a serenata,
um silêncio, sorrateiro,
derrama gotas de prata
nos olhos do seresteiro...
MILTON SEBASTIÃO SOUZA 
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Sem ter fé, és indefeso 
no estirão para o futuro; 
Igual não teres aceso 
nenhum fósforo no escuro.
NAIKER DÁMASO
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Esperar muito da vida,
das pessoas, é ilusão.
É um beco sem saída
que termina em decepção.
NILSA ALVES DE MELO
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Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA CARUSO
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A existência é dividida
em dois extremos da idade:
- um, alvorada da vida,
outro, arrebol de saudade!
PROFESSOR GARCIA
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Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
RENATO ALVES
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Não temo quedas, barreiras,
por mais que a tristeza insista.
Águas que são cachoeiras
não tem lodo que resista!
RITA MARCIANO MOURÃO
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O rancho de tantos causos
alegres, sempre bravios
desperta muitos aplausos
e afasta os dias sombrios.
SINCLAIR POZZA CASEMIRO
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Nós precisamos sorrir,
mesmo sendo vergastados,
pois ninguém leva, ao partir,
os patrimônios roubados.
SWAMI VIVEKANANDA
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Ao pai dela, o cafajeste
explica: "Foi num pagode"...
O velho é um "cabra da peste"
e a moça explica: "Deu bode!”
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Ao vento não lances praga,
pensa, repensa e medita,
pois a boca sempre paga
pela frase que foi dita!
VANDA ALVES DA SILVA
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Velha viola, na orfandade,
calou-se, pois seus segredos
não suportam a saudade
nem o toque de outros dedos!
ZAÉ JÚNIOR
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José Feldman (Um Homem e Seu Guarda-Chuva)


A vida urbana é um imenso tabuleiro de xadrez onde o cidadão comum joga sempre com as pedras sem o rei. Como um observador profissional das miudezas da existência — cargo que exerço voluntariamente da minha janela no quarto andar ou de uma mesa de café estrategicamente posicionada na calçada —, cheguei à conclusão de que o otimismo é apenas uma falta grave de informação. E nada sintetiza melhor a trágica comédia humana do que a relação de um homem com o seu guarda-chuva.

Era uma terça-feira de céu cor de chumbo derretido. O ar pesava como uma cobrança de IPTU atrasada. Da minha mesa, avistei o nosso protagonista. Ele vestia um terno cinza-grafite impecável, sapatos que refletiam a luz frouxa dos postes e carregava, com a dignidade de um lorde britânico, um guarda-chuva imponente. Não era um desses modelinhos portáteis e vagabundos de camelô, que quebram com o sopro de uma criança asmática. Era um exemplar de cabo de madeira envernizada, tecido impermeável duplo e hastes de aço que pareciam projetadas pela NASA para resistir a furacões de categoria cinco. Um monumento à prevenção.

O homem caminhava com o peito estufado de quem triunfou sobre a meteorologia. Ele olhava para os lados, contemplando os reles mortais desprotegidos com uma indisfarçável ponta de superioridade intelectual. "Vocês vão se molhar", dizia o seu andar arrogante, "mas eu previ o apocalipse".

Foi então que o universo, que tem um senso de humor peculiar e refinadamente cruel, decidiu agir.

Primeiro ato: as nuvens finalmente desabaram. Mas não foi uma chuva comum. Foi um dilúvio bíblico concentrado, daqueles que transformam bueiros em fontes termais e asfalto em corredeiras. O homem, com a precisão de um espadachim, sacou seu portentoso guarda-chuva e o abriu com um estalo seco e triunfal. Ele estava seguro. O terno continuava seco. A dignidade permanecia intacta. Ele sorriu, um meio-sorriso amargo de quem sabe que a prudência é a única virtude que resta na metrópole.

Segundo ato: o vento mudou de ideia. Na selva de concreto, o vento não sopra em linha reta; ele faz curvas, ganha velocidade entre os prédios e cria mini-tufões geométricos. Uma rajada súbita, vinda de baixo para cima — violando todas as leis da física e do bom senso, atingiu o guarda-chuva por dentro.

O que se seguiu foi uma dança grotesca. O objeto imponente virou instantaneamente do avesso, transformando-se em uma bacia de pano inútil, apontando para o céu como um receptor de parabólica quebrado. O homem foi arrastado dois passos para trás. Sua expressão de lorde britânico desmoronou, substituída pelo pânico de quem vê o próprio escudo de armas se rebelar contra o mestre.

A partir dali, a melancolia da cena atingiu níveis poéticos. Ele tentou, com as duas mãos e o uso do próprio joelho, desvirar o monstro de metal. Enquanto lutava contra o nylon rebelde, a água da chuva acumulada na calha do prédio ao lado caiu de uma vez só, bem no seu terno cinza. Em menos de trinta segundos, o homem mais preparado da cidade estava mais ensopado do que os pedestres que corriam sem lenço e sem documento. Seus sapatos caros agora emitiam um som de esponja velha a cada passo: flesch, flesch, flesch.

A maior tragédia da vida urbana não é a falta de sorte; é o esforço monumental que fazemos para tentar manter o controle sobre o caos. Aquele homem gastou dinheiro, carregou peso o dia todo e alimentou o orgulho de estar protegido, apenas para que a natureza provasse que um pedaço de pano e algumas hastes de ferro são totalmente irrelevantes diante do mau humor do cosmos.

O desfecho foi de uma beleza plástica irretocável. Percebendo a derrota completa, o homem parou de lutar. Aceitou o batismo forçado da cidade. Com os cabelos colados na testa e a água escorrendo pelo paletó arruinado, ele caminhou até a lixeira mais próxima e, sem olhar para trás, depositou o cadáver retorcido do seu guarda-chuva de luxo. Continuou seu caminho andando devagar, sob o temporal, agora liberto da ilusão da segurança.

Olhei para o fundo da minha xícara de café, pensando que todos nós somos, de alguma forma, aquele homem. Passamos a vida carregando proteções pesadas, planejando defesas contra o futuro, orgulhosos da nossa suposta esperteza, até que a vida vira o nosso guarda-chuva do avesso e nos obriga a caminhar encharcados até o próximo compromisso. 

Paguei a conta, abri a minha modesta jaqueta de plástico e saí para a chuva, rindo baixinho da nossa comovente e ridícula fragilidade.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras

Giuseppe Caonetto (Cicatrizes)

Ao menos você é escritor, não faltará histórias pra contar, disse ela enquanto tirava o automóvel da garagem. Aquelas palavras chegaram a meus ouvidos carregadas de ruídos, e ainda ressoam em minha mente. Deveria ter sido mais um encontro, de tantos outros, aquecidos por aquele transbordante sentimento, inexplicável ao tempo, senhor da razão, mas servo da paixão insana. Foi o último, interrompido pela filha que retornou mais cedo para casa, sem aviso. Ficou apenas o sabor do beijo, o último de nossas bocas. Depois da fuga pela porta da cozinha, com os cuidados de um agente da CIA ao fechar a porta do carro sem bater, percorreu-me o corpo a frieza de um ladrão, logo transferida para os suores a me denunciar. Desci do carro a duas quadras da sua casa, e permaneci parado no meio da rua, não acreditando nos fatos, com o olhar imóvel a acompanhar a imagem do veículo virando a esquina, na direção do colégio onde lecionava.

Nos conhecemos pelas redes sociais. Depois, uma conversa na biblioteca da faculdade. Meus olhos, na verdade, miraram os livros das prateleiras, fugindo da leitura daquele texto que jorrava pelas retinas que me fitavam. Vieram outros momentos, conversas por aplicativos, assuntos variados, um café no shopping, um encontro próximo à rodovia e o primeiro beijo para selar a clandestinidade. Iniciativa dela, sem direito a reação, senão entregar-me à boca que me buscava com sede. Seu sabor preencheu-me, não havia mais espaços em mim. Talvez esperasse, naquele dia, degustá-la. Mas voltei embriagado para casa.

As semanas que se seguiram, os meses que vieram, os dias vividos entre a primeira e última embriaguez, compõem hoje um tempo somente comparável a uma pausa musical. É como se a vida, naquele módulo, tivesse fugido para outra saudade, deixando-me livre para escrever um passado presente para sempre.

Vou me separar, ele saiu de casa, escreveu-me numa noite, sem se alongar. E tudo o que meu coração me disse, embevecido pelo amor que sequer havia cantarolado, se transfere para páginas e páginas de um manuscrito comestível, como se a existência da vida dependesse unicamente do pronunciamento das palavras surdas, servido na mesa do café. Confusão.

O que houve? Como assim? Por que? O que vai fazer? E nós? Perguntas que deveriam ter mastigadas, mascadas, engolidas sem ruminar. Ali, hoje sei, em cada ponto de interrogação está a curva da minha insensatez, que me fez perdê-la para sempre. Nossa condição de vida não nos permitia, naquele momento, a revogação dos sigilos. Mas foi neste segredo que ela buscou o colo por tantas vezes oferecido, agora ocupado pelo medo.

Naquela noite, quando retornava para meu veículo, estacionado próximo à casa, olhei para seu jardim, o portão de entrada, as luzes acesas, vida habitando a sala, e a sensação de nunca mais.

Hoje realizo seu pedido. Ao transcrever cicatrizes, sinto-me escritor e componho este texto para seus olhos, ainda que ela, neste momento, imite meu gesto e mire seu olhar em outro livro, de outra prateleira, outra biblioteca.
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GIUSEPPE CAONETTO é o nome artístico do poeta, escritor e editor José A. Cauneto, uma expressiva voz contemporânea da poesia e da difusão literária no estado do Paraná. Ele possui uma sólida produção voltada principalmente à poesia lírica, à tradição dos sonetos e à edição de novos autores por meio de seu próprio selo editorial. Nasceu em Tamboara/PR, em 1962, embora tenha o seu registro civil na vizinha cidade de Paranavaí. Viveu parte de sua adolescência na zona rural do estado de Mato Grosso do Sul, onde estudou em escola pública. Posteriormente, retornou para o Paraná e fixou residência definitiva no município de Paranavaí, onde atua ativamente na cena cultural. Construiu uma carreira de quase 37 anos na Justiça do Trabalho (TRT da 9ª Região), tendo ingressado em 1986. Aposentou-se em 2023. Ao longo desse período, exerceu cargos importantes de liderança, atuando como Diretor de Secretaria nas Varas do Trabalho de Jacarezinho (1994–2001) e de Paranavaí (2006–2015). É graduado em Letras (1989) e especialista em Língua Portuguesa (1992) pela Fafipa/Unespar. Também obteve o título de bacharel em Direito em 1997. No campo da escrita criativa, concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores pela Metamorfose Cursos (2022). 
A escrita despertou cedo em sua vida, por volta de 1976 na zona rural, inspirada por poemas contidos em livros didáticos. No entanto, sua produção poética adormeceu durante os anos em que priorizou a carreira e os estudos acadêmicos. O retorno definitivo à literatura aconteceu em 1999, impulsionado pelo surgimento da internet e a conexão com comunidades virtuais de escritores. Após sua aposentadoria em 2023, fundou a Doarte Edições, editora voltada à publicação e promoção de obras poéticas e literárias no circuito paranaense. 
Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí (ALAP); membro do Centro de Letras do Paraná. Foi selecionado e integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE) em 2023, coordenado pela Casa das Rosas de São Paulo. Foi um dos autores premiados na categoria Poesia durante a 54ª edição do aclamado Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP) em 2019, um dos festivais literários mais tradicionais e longevos do sul do país.
Livros Publicados: Santo Rosário: um tesouro mariano (2010) — Obra voltada à tradição religiosa; Para que os olhos falem: poemas ternos (2012); Doarte (2016) — Livro de poemas que mais tarde inspiraria o nome de sua editora; Trilhas sazonais: versos liturgos (2020) — Livro em coautoria com a escritora Lilia Souza; O livro do amor: o amor diluído em trinta poemas (2023); Nasci em 62: sessenta e dois sonetos e um sonetilho (2024) — Obra em celebração à sua trajetória de vida, explorando a estrutura clássica dos sonetos; Tantum: apenas tanto (2025) — Reunião de poemas maduros escritos ao longo de uma década.
A contribuição de Caonetto reside na interiorização da produção literária e no fortalecimento do mercado editorial independente fora das grandes capitais brasileiras. Ao unir o rigor formal da poesia clássica — como visto na escrita de sonetos — a uma linguagem sensível sobre o cotidiano, o afeto e a passagem do tempo, ele ajuda a consolidar o norte e o noroeste do Paraná como polos produtores de cultura de alto nível. Além disso, por meio de palestras, rodas de conversa em universidades e da atuação na Doarte Edições, o escritor cumpre um papel fundamental de agente cultural, abrindo portas para novos poetas e estimulando o hábito da leitura nas novas gerações.

Fonte;
Biografia = Doarte, Site Giuseppe Caonetto, Ana Justra Federal, etc.

Interlúdio * 6 *

 

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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.