quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mensagem na Garrafa 199 = Ainda tomaremos um café juntos

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO

Um professor, diante de sua classe de filosofia, sem dizer uma só palavra, pegou um pote de vidro, grande e vazio, e começou a enchê-lo com bolas de golfe. Em seguida, perguntou aos seus alunos se o frasco estava cheio e imediatamente todos disseram que sim.

O professor então pegou uma caixa de bolas de gude e esvaziou-a dentro do pote. As bolas de gude encheram todos os vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar se o frasco estava cheio e voltou a ouvir de seus alunos que sim.

Em seguida, pegou uma caixa de areia e esvaziou-a dentro do pote. A areia preencheu os espaços vazios que ainda restavam e ele perguntou novamente aos alunos, que responderam que o pote agora estava cheio.

O professor pegou um copo de café (líquido) e o derramou sobre o pote umedecendo a areia.

Os estudantes riam da situação, quando o professor falou:

 "Quero que entendam que o pote de vidro representa nossas vidas. As bolas de golfe são os elementos mais importantes, como Deus, a família e os amigos. São com as quais nossas vidas estariam cheias e repletas de felicidade. As bolas de gude são as outras coisas que importam: o trabalho, a casa bonita, o carro novo, etc... A areia representa todos as pequenas coisas. Mas se tivéssemos colocado a areia em primeiro lugar no frasco, não haveria espaço para as bolas de golfe e para as de gude. 

O mesmo ocorre em nossas vidas. Se gastamos todo nosso tempo e energia com as pequenas coisas nunca teremos lugar para as coisas realmente importantes. Prestem atenção nas coisas que são primordiais para a sua felicidade. Brinquem com seus filhos, saiam para se divertir com a família e com os amigos, dediquem um pouco de tempo a vocês mesmos, busquem a Deus e creiam n´Ele, busquem o conhecimento, estudem, pratiquem seu esporte favorito...

Sempre haverá tempo para as outras coisas, mas ocupem-se das bolas de golfe em primeiro lugar. O resto é apenas areia."

Um aluno se levantou e perguntou o que representava o café. 

O professor respondeu: "Que bom que me fizestes esta pergunta, pois o café serve apenas para demonstrar que não importa quão ocupada esteja nossa vida, sempre haverá lugar para tomar um café com um amigo".

Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) O Enigma da Água Viva


Moșneagul prosseguia sua caminhada pelas encostas orientais dos Cárpatos. O ar tornava-se cada vez mais rarefeito e o perfume dos pinheiros misturava-se ao cheiro de terra úmida. O ancião buscava a Clareira dos Sussurros, um local esquecido pelo homem moderno, onde as lendas diziam jorrar a Apă Vie (a Água Viva), uma fonte mágica capaz de curar as dores do corpo e renovar o vigor da alma de quem estivesse prestes a partir.

Ao alcançar o topo de um platô de pedra, Moșneagul avistou a fonte. Ela brotava do coração de uma rocha esculpida com o formato de um rosto ancião. No entanto, a água não corria livre: uma densa cortina de espinhos de ferro e trepadeiras mágicas cercava a bica. À frente da barreira, sentado em uma pedra com uma expressão de pura frustração, estava um jovem estudante da cidade chamado Andrei. Ele carregava pergaminhos, mapas antigos e ferramentas de metal, mas não conseguia avançar.

Ao notar a chegada do Moșneagul, o jovem levantou-se apressado.

— Velho sábio, por favor, ajude-me! — pediu Andrei, apontando para uma inscrição rúnica entalhada na pedra da fonte. — Estou aqui há dias. Sou o melhor tradutor da capital, decifrei a escrita dos antepassados, mas a barreira de espinhos não se abre. A inscrição diz que para a água jorrar, devo responder ao Enigma do Sangue da Terra.

Moșneagul aproximou-se, bateu seu cajado de ferro no chão e olhou para as runas com reverência. Ele não precisava de mapas; aquela história corria em suas veias.

— Diga-me, rapaz, o que diz o enigma? — perguntou o velho.

Andrei limpou a garganta e leu o pergaminho:

— "Dou vida ao que está seco, mas não sou chuva. Corro sem pernas pelas veias do mundo, mas não sou rio. Sou o ontem que alimenta o amanhã, guardada no peito dos que já se foram. O que sou?"

O jovem começou a andar de um lado para o outro.

— Eu já tentei de tudo, Moșneagul! Gritei 'o ouro', 'o petróleo', 'o vinho sagrado' e até 'a seiva das árvores'. Mas cada vez que dou a resposta errada, os espinhos crescem mais altos e me afastam!

Moșneagul sorriu com os olhos, sentando-se calmamente na grama. Ele ajeitou sua căciulă de lã e olhou para o jovem com profunda serenidade.

— Andrei, você buscou a resposta nos livros e na riqueza material, mas os antepassados não falavam com a mente dos comerciantes — explicou o ancião. — O erro da sua juventude é achar que a sabedoria é um código secreto a ser quebrado pela força do intelecto, quando na verdade ela é um sentimento a ser vivido.

O velho sábio levantou-se, caminhou até a barreira de espinhos e colocou a mão calejada sobre as runas da rocha. Com sua voz profunda, que parecia ecoar o som das próprias montanhas, ele pronunciou a resposta:

— O sangue da terra é a Tradição. Ela dá vida ao que está seco na alma dos homens; corre invisível pelas gerações sem precisar de pernas; e é a memória do ontem que alimenta a sobrevivência do amanhã, guardada no peito dos nossos antepassados.

No mesmo instante em que a palavra foi dita, a cortina de espinhos de ferro recolheu-se para dentro do solo, como se pedisse desculpas. A água da fonte, antes represada, jorrou límpida, cristalina e fumegante, brilhando com uma luz dourada sob o sol da tarde.

Andrei ficou boquiaberto. Ele caiu de joelhos e colheu a água com as mãos, sentindo um vigor indescritível tomar conta de seu corpo cansado. O jovem olhou para o Moșneagul com um respeito totalmente novo.

— Eu passei anos estudando a história, mas nunca entendi o seu verdadeiro significado até hoje — confessou o rapaz.

Moșneagul encheu seu cantil de madeira e colocou a mão no ombro do estudante.

— Os livros registram os fatos, meu filho, mas é a tradição vivida que guarda a alma de um povo. Agora que bebeu da fonte, leve essa água e essa lição de volta para a cidade. Não deixe que o passado seja apenas pedra escrita; faça-o pulsar no presente.
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A verdadeira sabedoria e as respostas para os maiores enigmas da vida não podem ser compradas, decifradas por pura vaidade intelectual ou desvendadas pelo apego material. Elas se revelam naturalmente àqueles que olham para o passado com respeito, humildade e reverência, pois as tradições não são relíquias mortas, mas a fonte viva que irriga e protege o caminho das futuras gerações.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia. Desde cedo, demonstrou uma paixão inata pela literatura e pela arte das palavras. Ele cresceu em um ambiente que refletia a rica herança cultural da sua cidade, onde a música e a poesia se entrelaçavam nas conversas cotidianas. Após concluir o ensino médio, ingressou na Universidade, onde se destacou em seus estudos de literatura. Sua dedicação e talento o levaram a continuar sua formação acadêmica, culminando em um pós-doutorado. Durante esse período, ele mergulhou na obra de grandes poetas romenos e internacionais, desenvolvendo um estilo próprio que misturava o lirismo clássico com uma abordagem contemporânea. Em 1992, tomou a decisão de se mudar para o Brasil, em busca de novas oportunidades e experiências. Ao chegar ao país, ele se estabeleceu em São Paulo, onde rapidamente se destacou como professor de literatura. Suas aulas eram conhecidas pela abordagem criativa e envolvente, inspirando os estudantes a apreciar a literatura de maneira profunda e significativa. Além de sua carreira acadêmica, cultivava uma paixão pelo xadrez. Ele se tornou um jogador forte e respeitado, participando de torneios e promovendo o jogo entre seus alunos. Dragomir acreditava que o xadrez, assim como a literatura, era uma forma de arte que desenvolvia o pensamento crítico e a estratégia, habilidades essenciais tanto na vida quanto na escrita. E em um clube de xadrez ele veio a conhecer o diretor dele, José Feldman, com quem estreitou laços de amizade não só pelo jogo, mas pela literatura, além do fato de que ambos possuíam uma paixão pela música e Feldman ser filho de pais romenos. Ao longo de sua vida, Cailin Dragomir se estabeleceu como uma figura influente na cena literária e educacional, deixando um legado duradouro tanto na Romênia quanto no Brasil. A influência da cultura romena em sua poesia se manifesta em diversos aspectos de sua obra. A rica tradição literária da Romênia, que inclui poetas como Mihai Eminescu e George Coșbuc, moldou a sensibilidade estética dele. Ele usa uma linguagem lírica e metafórica, incorporando elementos do folclore e da mitologia romena, que são essenciais na poesia romena clássica. A natureza é um tema recorrente na poesia romena, e Dragomir não é exceção. Suas descrições vívidas de paisagens romenas, como as montanhas dos Cárpatos e os campos de flores, refletem uma profunda conexão com o ambiente natural, transmitem uma sensação de integração e nostalgia.
       A riqueza do folclore romeno permeia sua poesia, com referências a mitos, lendas e tradições populares. Utiliza esses elementos para criar uma ponte entre a modernidade e as raízes culturais, trazendo à tona a sabedoria ancestral que ainda ressoa na vida contemporânea. A poesia romena é conhecida por sua profundidade emocional e introspecção. Seguindo essa tradição, explora sentimentos complexos como amor, perda e saudade, utilizando uma abordagem que reflete tanto a sensibilidade individual quanto a experiência compartilhada do povo romeno. Ele muitas vezes incorpora ritmos e cadências que evocam a sonoridade da música popular romena, criando uma harmonia entre palavra e som que enriquece a experiência do leitor.
       Após sua mudança para o Brasil, passou a incorporar a experiência da diáspora em sua poesia. Essa nova perspectiva enriqueceu sua obra, permitindo uma fusão de influências culturais que resultou em uma poesia mais ampla, reflexiva e acessível a diferentes públicos. 
       Em suas obras faz referências a figuras mitológicas romenas, como "Zmeu", um dragão que frequentemente aparece em contos populares. Ele utiliza essa figura para simbolizar desafios e superações, inserindo a luta contra o Zmeu como uma metáfora para as dificuldades da vida. Também é comum encontrar menções a "nossas montanhas", como os "Cárpatos", que não apenas servem como cenário, mas também como símbolo de resistência e força. Cailin pode descrever a beleza dessas montanhas em relação à história do povo romeno, evocando sentimentos de pertencimento. Ele inclui personagens folclóricos como "Moșneagul" (o velho sábio) e "Zână" (a fada), representando a sabedoria ancestral e a proteção, respectivamente. Esses personagens são frequentemente utilizados para transmitir lições de vida e a importância das tradições. Além disso, faz alusão a festivais tradicionais, como "Mărțișor", que celebra a chegada da primavera. Em seus versos, ele descreve a troca de fitas brancas e vermelhas como um símbolo de renovação e esperança, refletindo a alegria da vida. Histórias de amores impossíveis, como a lenda de "Făt-Frumos" e "Ilena Cosânzeana", podem ser exploradas em seus escritos. Ele usa essas narrativas para abordar temas de amor e sacrifício, conectando a experiência pessoal com a tradição. Há a presença de criaturas míticas, como o "Chimera" ou o "Roc", descrevendo esses seres como guardiões de segredos e mistérios, simbolizando os desafios que todos enfrentamos em busca de conhecimento. Esses elementos folclóricos não apenas enriquecem a poesia de Cailin Dragomir, mas também criam uma ponte entre o passado e o presente, permitindo que ele dialogue com suas raízes culturais enquanto se adapta a novas influências. Essa fusão é uma das marcas distintivas de sua obra.
          Como poeta, Dragomir publicou três livros : 1. "Ecos da Alma" - Uma coletânea de poemas introspectivos que exploram a complexidade das emoções humanas; 2. "Sussurros da Memória" - Uma obra que reflete sobre o passado, a nostalgia e a busca pela identidade; 3. "Caminhos de Luz" - Uma série de poemas que celebram a beleza da natureza e a conexão entre o ser humano e o mundo ao seu redor.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Biografia por José Feldman

Minhas Trovas Premiadas * 4 *

 
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José Feldman, trovador desde 1991, pertenceu à Seção São Paulo/SP, Delegacias de Arapongas/PR e Campo Mourão/PR, Delegado de Ubiratã/PR. Radicado em Maringá/PR desde 2011, representa a cidade de Floresta/PR


Silmar Bohrer (Croniquinha) 165


Passando ali pela bica d'água, caminho que me leva sempre ao deus-dará, encontrei alguém que foi logo dizendo ter lido recente croniquinha falando dos escreveres. Queria saber por que não escrevo romances.   

Disse-lhe então que as croniquinhas são pedaços de vida, observações, pensares, viveres, sonhares - falam do pequeno cosmo vivido no dia a dia.  

Ponderei ao interlocutor que não escrevo romances porque a vida já é um romance - romanção - que todos vivemos e vamos rabiscando constantemente, em forma de sonhos, labutas, vitórias, devaneios, ilusões, labutas, derrotas, puras verdades, um sem-fim de vivenciares.  

Cada um escreve no papel-palco a sua história, ou histórias, em forma de um romance. E de acordo com as vivências desenvolvemos um enredo feliz ou trágico, saboroso ou amargo, apimentado ou dulçuroso. 

No fundo somos todos romancistas.
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O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.

Fialho de Almeida (História de dois patifes)


Toda a manhã, Fernanda andou impaciente pelas casas, esperando os gatinhos. Ao acordar, fora aquela a sua primeira ideia - os dois pequeninos animais, cheios de vivacidade e graça, em cujos olhos ria uma inocência travessa e doce. Havia tempos que a tia Consuelo lhes prometera, quando fossem crescidinhos. E a cada visita à boa senhora, Fernanda levava horas e horas com eles, brancos de neve, uma finura de penugem que acariciava a pele, as duas cabecinhas inquietas com orelhas que se fitavam petulantemente, a cada ruído do gabinete. Fernanda tinha uma paixão por aqueles dois diabinhos brancos que levavam os dias, ou sugando as tetas da mãe, grande gata de pelo fulvo e pupilas glaucas, ou rebolando no tapete os corpinhos elétricos, numa embriaguez de vida que fazia prazer. O gato era o mais leviano, com as suas patinhas fofas e os dedos rosados na planta, de que as unhas transparentes e curvas saíam desembainhadas, nos momentos de irritação, se lhe pisavam a cauda. Tinha os olhos azuis, cheios de fibrilhas inquietas mais escuras, uma ingenuidade selvagem no encarar, fitando as orelhas veludinosas, em que parecia residir toda a petulância dessa cabeça infantil. O focinho cor-de-rosa, com barbichas alvoroçadas, sorria um pouco, mesmo quando assanhado, e de gengivas, vermelhas e úmidas, os dentinhos em serra, agudos e pequenos, ressaíam gulosos, desafiando a gente. A gatinha afetava mais seriedade e mais coqueteria, uma ambição contida de se fazer senhora, e uma ciência complicada em se fazer amar do macho. Nunca era a primeira no ataque, e zangava-se, mal pressentia uma ofensa. À comida exigia os melhores pedaços, rosnando sôfrega, com a pata eriçada de unhas curvas, contra o primeiro que lhe chegasse ao prato. Dormitava muito, como a mãe; às vezes o irmãozinho chegava-se cauteloso, estendendo as patas e movendo vagarosamente a cauda, as pupilas cheias de um clarão de patifaria. Com um movimento destro erguia uma pata - zás! - no ventre da sua companheira, que entreabria preguiçosamente os olhos, imóvel, com o focinho enterrado na penugem do ventre. Esta indiferença benévola arrojava o vigoroso gatinho a maiores garotices. Chegava-se muito meigo, unhas escondidas, o dorso alto, as orelhas chatas e deitadas para trás. Com as duas patas da frente, cingia o pescoço da pequenina, e entrava a morder-lhe repetidamente o peito, os lábios, a pontinha das orelhas, enquanto com as unhas traseiras lhe raspava voluptuosamente o ventre e as coxas, provocando cócegas.

Ela estremecia, toda percorrida de uma alegria íntima e alongando o corpo para trás; e de ventre para o ar ficava imóvel, espreitando, com a boca entreaberta e os olhinhos reluzentes de uma cáustica lascívia, de bacante nua. Abraçavam-se então, lutando, as caudas em espirais; armavam saltos por cima dos móveis, iam esconder-se nas franjas espessas dos poltronas muito baixos e, suspendendo-se em cacho dos pés esculpidos das consolas incrustadas de metal e madrepérola, sacudiam-se, balançando os corpos como dois ginastas em exercícios de destreza. A tia Consuelo impacientava-se já de semelhantes correrias. Descobria uma nódoa no carmesim do divã da sala e achara estripado a unhadas o ventre de uma antiga bergère (poltrona larga, totalmente estofada, com braços fechados e uma almofada solta no lugar onde a pessoa senta) preciosa, do tempo da senhora infanta D. Ana. Além disso, a estroinice dos brutinhos punha uma nota impertinente na monotonia sonolenta da casa, antiga casa cheia de silêncio e conforto, onde o piano dormia meses inteiros e os móveis do salão alinhavam, como colegiais em revista, os seus bojos vestidos em camisas de bretanha.

A gatarrona mãe, toda insensível às festas, muda e empertigada como a dona da casa, era tão indolente como esta; e ao lado de D. Consuelo, sobre uma almofada de seda, dormia dias inteiros, com uma coleira escarlate de fechos de ouro. Só ela, com a sua idade circunspecta e a sua moleza freirática, dizia bem no salão de cores austeras em que D. Consuelo recebia os padres de S. Luís e as irmãs do Coração de Maria, e levava as tardes sepultada na voltaire (poltrona), toda amortalhada em veludo negro, touca de rendas pretas e as Meditações sobre o Divino Jesus nos joelhos. De forma que, um domingo, determinou expulsar do santuário os patifes ruidosos, o que alegrou Fernanda vivamente: ia enfim ser toda daqueles garotinhos gentis e ferozes.

Era domingo, luminoso dia de Primavera germinadora e florida, sonoro de rumores de gente festiva e cortada de voos de andorinhas meigas, que entravam a construir os ninhos pelas cimalhas das águas-furtadas. Fernanda não quis almoçar sem que os bichos viessem; conseguira dois lugares à mesa para eles; a gatinha ficar-lhe-ia quase no colo, o gato mais longe, com um pratinho de porcelana provido dos melhores bocados. E que nome lhes poriam? Foi um meditar profundo sobre o problema.

Houvera em casa uma gata francesa, que morrera de velha e tinha um rabo branco caricioso - a Blanche. Pobre querida! Estava sepultada no jardim entre duas roseiras de todo o ano. E Fernanda recordava o seu modo sutil de se roçar pelas saias à comida, com o ronrom dolente de uma beata oferecendo rezas, e o seu comer dificultoso de desdentada, rejeitando os ossos das perdizes e preferindo bolos fofos, de recheios aromáticos, que ao almoço se serviam em pilhas, sobre cestos de rosas, de velho Sevres rococó. E aparecera morta uma manhã de inverno, ao pé do lago. A gatinha devia chamar-se Blanche também, um nome da cor do seu vestido cetinoso de princesa. Mas o Artur, o garoto mais velho da casa, era de opinião diversa. Segundo ele, deviam batizar-se os dois bebês, na banheira de mármore do rés-da-chão, sendo ele padrinho, mais o trintanário.

Mergulhariam os mouritos na banheira cheia de uma água perfumada, ao som de rezas que só ele sabia, e de umas bengaladas valentes, ao primeiro berro que soltassem os neófitos, na banheira trasvazando. Depois do que, seria servido vinho aos pequenos, com aplicação de pancadaria suplementar e guizadas ao pescoço - o que os tornaria fortes, avisados e aptos à compreensão da vida e à constância na luta com as arganaças, que por acaso encontrassem nas excursões à despensa ou às cocheiras da casa. 

Fernanda magoou-se com semelhantes opiniões, e quase chorou pelos pobres inocentes que lhe mandava, do fundo do seu conforto beato e egoísta, a boa tia Consuelo. Quando eles chegaram num cesto de vime, com laços ao pescoço e um pouco assustados da jornada, Fernanda não sabia que fazer para melhor exprimir a sua satisfação: era um coro de risos cândidos e gorjeios inocentes; ia do pai para os joelhos da mãe e, esquecida já das maldades do Artur, passava-lhe os braços ao pescoço, cobrindo-lhe a face de beijos. Quisera para os dois gatinhos todo um palácio de seda e gulodices, com o seu trem completo de cozinha, a longa bateria de peças de folha reluzentes e pequenas, fogões instalados nos respectivos poiais de madeira pintada, um serviço de porcelana fina, mobília e carruagens elegantemente forradas a pedaços de cetim de todas as cores, lavatórios e leitos, uma multidão de objetos microscopicamente construídos, que a paciência da mamã adquirira durante uma semana inteira de investigações, pelos armazéns de quinquilharias da cidade. E a instalação, que encantadora e que trabalhosa!...

A gatinha saltava desdenhosamente por cima das otomanas (bancos estofados) e das causeuses (sofás de dois lugares) delicadas, atirava com lavatórios e caçarolas, fazendo com a cauda desabar os guarda-louças tão ricamente providos. Quanto ao gato, foi impossível metê-lo no quiosque dourado, onde tantas preciosidades de mobília se acumulavam. Ao primeiro esforço de Fernanda para o fazer entrar, soprou raivoso, desembainhando unhas ameaçadoras contra a doce protetora, que tão generosamente lhe ofertara opulência e conforto. E, apenas o largaram no piso, desatou a fugir pelas salas como um desalmado evadido. Em breve, Fernanda se persuadiu da impossibilidade completa de fazer caseiro a limpeza da casa.

E a pomposa e pequenina residência passou a ser habitada por uma família extraordinária de bonecas de todos os tamanhos. A paixão do louro amorzinho pelos dois maus animais vertia agora o fel de uma ingratidão profunda. Ela não podia compreender realmente o desdém soberano dos gatos pelas magníficas provas de amor que lhes dera, no seu entusiasmo de pequena caprichosa. E, nos primeiros dias, os seus afagos para os gatinhos orvalhavam-se das lágrimas de um ressentimento angélico e mal contido. Eles, os dois patifes, adquiriram pouco a pouco a sua franca e leviana liberdade; ao almoço e ao jantar subiam pelos vestidos e pela toalha, reclamando em voz alta o seu talher de pessoas de família; atacavam sem a menor cerimônia os pratos que apanhavam sem guarda no aparador e nas bancas da cozinha; iam miar em coro por baixo das alcofas da carne crua e dos cestos providos de peixe fresco; escamugiam-se sorrateiramente para a despensa, a encherem os bandulhos de quanto apanhavam de suculento, e umas vezes por outras, nas noites úmidas e chuvosas, tinham o péssimo costume de afiar as unhas nos mognos polidos e nos estofos matizados dos gabinetes, sulcando e rasgando, sem preferência e sem atenção de preços. Fernanda ria com eles e achava-os de uma graça cativante.

E, a todo o transe, defendia-lhes as velhacadas, orgulhosa de sofrer pelos que amava com tamanha loucura.

Chegou o dia dos anos do Artur - uma quinta-feira, em maio. Determinaram ir passar o dia à quinta, em Carriche.

Ia a boa dama Consuelo, as pequenas Magalhães, as primas Lopes e todo o mundo infantil da família. Na véspera, disfarçadamente, enquanto o Artur estava no colégio, Fernanda saíra com a mãe à compra de presentes para o dia seguinte. Tinha um mundo de projetos na mente: torres ideais de cartonagem com sinos dourados e portais de colunelos; jardins de cascatas surpreendentes; grandes exércitos de chumbo formados em ordem de ataque com baterias de latão; as arcas de Noé, em que reside um mundo inteiro de bugigangas coloridas; esquadras empavesadas de flâmulas com almirantes de estanho, comandando tripulações de madeira suíça; pequeninos teatros com figuras de verniz e paisagens ternas de Nuremberg; tudo quanto a fantasia pode realizar de pueril e caprichoso e quanto uma criança pode exigir, na incoerência dos seus devaneios cor-de-rosa.

A mãe aconselhava um cestinho de doces frescos, do Baltresqui. Era mais delicado! Mas Fernanda tinha os olhos numa catedral de madeira branca, elegantíssima de cúpulas e rendilhados, por cujo pórtico profundo e alto, na sua escadaria de balaústres góticos, uma multidão de fiéis ia subindo, colada com goma-arábica.

- Que lindo, mamã, que lindo! - dizia ela pousando devotadamente as duas mãozinhas todas rosas no magnífico zimbório com janelas de espelho e ornatos de cartão, representando faunos engalfinhados. E imperiosa, empertigada nos tacões dourados dos seus sapatinhos de verniz, declarou que escolhera, e que o Artur deveria ficar muito encantado de um presente de tal modo original. A catedral foi conduzida na carruagem com extremas cautelas, ao lado de um chapéu que para a pequenina a mãe escolhera na Emília d'Abreu. Recolheram cedo a casa, antes de o pequeno voltar, e à noite, num gabinete fechado e sobre a larga mesa coberta de tapete, os presentes da família e dos amigos do Arturinho ostentavam, num soberbo bazar, as suas formas pitorescas e os seus matizes originais. Eram os cestos de camélias vermelhas, bordadas de heras e pequeninos buquês de violetas de Parma; as caixas de cores vivas e esmaltes garridos, túrgidas de doçarias caras; grupos de porcelana e terracota numa infinidade de posições ingênuas ou garotas. Laura deixara a sua fotografia risonha de querubim pensativo, um rostinho doce coroado de uma bela cabeleira loira, em anéis. E os amigos todos, o Alfredo, o José e os dois gêmeos Nogueiras, tinham vindo trazer uma lembrança amável, chicotes, capacetes, cavalos de molas, mágicos em caixas, o diabo! Ao centro, a catedral de Fernanda, com as suas torres severas, de um gótico amaneirado, e o seu zimbório de colunelos flexuosos, erguia-se majestosamente no meio da cidade de camélias e violetas, e das pinturas vívidas dos cofres, cheios de rebuçados e pastilhas e aromatizados das mais finas essências.

Por entre os cestos ornados de flores, extravasando cores e perfumes, os ciganos de terracota dançavam aos pares, e as pastorinhas de louça com os seus trajes coloridos e os seus rostinhos frescos, pareciam de antemão celebrar a formosa manhã a desabrochar no aniversário do dia seguinte.

Como o Artur ficaria contente, quando ao outro dia abrissem à sua curiosidade aquele profuso mundo de brinquedos e gulodices!... E Fernanda, nos bicos dos sapatinhos e sem fazer ruído, arrumava e dispunha tudo, ao lado da mãe, tocando com as pontas dos dedos as coisas, como numa capela, absorta num êxtase profundo de sonhos inocentes, como se o seu espírito viajasse por um grande país de quinquilharias ideais e maravilhosas.

Quando acabaram a tarefa, a mãe sentou-a no colo, comovida por aquela dedicação fraternal e solícita, que tudo queria para presente de anos do Artur; beijaram-se ambas, por muito tempo.

- É verdade, - disse Fernanda - e o chapéu?

A mãe foi buscar o chapéu: era um delicioso biju de palha amachucado à banda, com um ramalhete de miosótis adoravelmente perdido num tufo de gaze fina, tão fina que mal apertava na mão, parecendo espumar por entre os dedos, como champanhe vertido de uma torneira.

A pequenina quis pô-lo: ficava graciosamente, um pouco tombado sobre os olhos.

De sob as abas, em caprichosos rodopios, rebentava a cabeleira loira de querubim, que adquiria contra a luz transparências de ouro fino, enquanto uma onda de tule branco ia cingir-lhe o pescoço, como aragens tecidas por mãos de princesas mouriscas, das que falam os contos do meio-dia.

O desejo de Fernanda era não tirar mais esse pequenino e fresco chapéu, cuja aba tombada enchia de uma sombra úmida os seus grandes olhos. Mas era forçoso esperar o dia seguinte, quando fossem para a quinta. A pequenina exigiu que o chapéu ficasse sobre a banca, entre os presentes de anos do Artur, descoberto e aninhado na sua onda fofa de tule branco. Esteve ainda a olhá-lo: os miosótis com as florzinhas miúdas, de uma contextura paciente e nítida, dispostas num forte cacho azul, entre folhas verde-baço, davam um encanto ingênuo à copa cônica, um pouco extravagante talvez. Visto de lado, parecia um ninho de penugens tépidas, de que os passarinhos houvessem partido um minuto antes. 

De repente a sineta tocou: voltava o Artur do colégio. Fecharam a porta do gabinete muito depressa, não desconfiasse ele. No dia seguinte, quando lhe mostrassem tudo, dizendo: - Aí tens, é para ti... - que loucuras e que júbilos não comoveriam esse vermelho endiabrado, de que os velhos criados tinham já medo! Apenas o gabinete ficou só, a gatinha trepou para cima da mesa, e pôs-se a mirar tudo, dando passadinhas leves, toda cautelosa pelo meio dos presentes acumulados, cheirando e lambendo aqui e além. Nos seus olhinhos garotos, um clarão de malícia ingênua, parecia beber enlevadamente os matizes; farejava os cofres por todos os lados, baixando a cabecinha, como quem reflete. Diante da catedral o seu pasmo pareceu crescer, porque se deteve de pescoço estendido, a medir a altura das cúpulas, de patas firmes nos primeiros degraus da escadaria, com prejuízo de dois devotos de cartão, que esmagou com uma indiferença soberana. Deu com o chapéu de Fernanda enroscado na faixa de tule branco, e a passadas lentas foi para ele, com o dorso alto, espiralando a cauda, toda contente do achado. A tarde caía, e o gabinete carregava-se de sombra.

Pela vidraça, a paisagem ganhava manchas sombrias e grandes esbatimentos de um vago picado a pontinhos de gás rutilante. Subia do bairro comercial e das grandes ruas de trânsito um tohu-bohu de labutas que esmorecem, e carruagens que se perdem circulando. Um sino tocava.

No gabinete, faziam-se deslocamentos confusos de formas e de aromas, e os olhos da gata, fosforescentes, luziam como dois faróis em flutuação, na penumbra alastrada em torno. A palha do chapéuzinho gemeu: a gata acabava de enroscar-se no ninho da copa, fazendo posição, para dormir. Nunca sentira cama mais macia e mais doce que aquele fundo de chapéu forrado de seda branca, onde o tule enrolado dava uma moleza preguiçosa de coxim, de edredom! Ainda porém não tinha cerrado os olhos, e já o irmãozinho, dando um salto ágil, caía em cheio sobre a ampla aba do chapéu machucando o precioso cacho de miosótis. A coquete então ergueu a cabecinha irônica com um meneio de amante benévola. De cima da aba curva, como de cima de um muro, pendia a patinha do gato, toda branca e nervosa, desafiando.

Essa pata estendeu-se, estendeu-se e, sutil como num jogo de prendas, deu uma sapatadinha no crânio da fêmea, retraindo-se logo. Mas a gatinha parecia querer dormir e aninhou-se de novo no seu fundo de copa, onde a seda punha a alvura cariciosa de uma alcova.

A tática do gato mudou então: rebolando-se lascivamente pelo declive da aba, o marau pôde atrair a si todo o tule da faixa livre, que Fernanda enrolara ao pescoço, um momento antes.

Uma vez envolto nas ondas de espuma do tecido, entrou a arrastar o chapéu atrás de si, pela mesa fora. Foi o sinal: a gatinha sacudiu rapidamente a sonolência, espreguiçou-se com uma distensão prolongada de patas e de espinha dorsal, escancarando a goela e distendendo as unhas. Esse movimento largo desenhou vigorosamente o corpinho da fera contente, que desperta. O dorso, de uma alvura singular de arminho, teve um lampejo brusco de centelha, quando o crânio chato e muito curto de maxilas ferozes, roçou com um deleite pérfido de volúpia as penugens imperceptíveis das patas, armadas terrivelmente de alfanjes curtos. Com um pulo agachou-se na copa do chapéu, como numa caverna, à espreita. O seu olho inquieto fuzilava. Todo o corpo encolhido percorria-se de pequeninos frêmitos de impaciência, que as orelhas continuavam, imprimindo à cabeça um grande cunho de astúcia recalcada. O gato vinha de rastos, apagando o som dos movimentos, garrido no seu tule como um pajenzinho aventureiro. E, à medida que ele vinha, o pescoço da gata, do outro lado da aba, alongava-se, escorregando docemente pela seda do forro. Por fim, as patas encontraram-se, e cada qual disputou o tule, às unhadas, a dente. A faixa que se desenrolava do corpo dele, acabou em frangalhos nas unhas dos dois.

Um golpe desunira porém duas fibras de palha, da aba derrubada. O gatinho meteu a cabecinha pela abertura, radiante de maldade, e foi morder o cacho de miosótis. Do seu lado, a gata continuou a obra, descobrindo os dentinhos brancos. Mas em breve o destroço se propagou aos presentes de anos do Artur, com uma rapidez de saque premeditado. As corbeilles (arranjos de flores) viram-se despojadas das suas cintas de hera, reluzentes e excentricamente recortadas, e dos seus maciços de camélias reais. Na vertigem do can-can desenfreado, que os dois diabinhos armaram por cima da banca, todos os objetos leves eram arrojados para o lado num rodopio constante: os ciganos partiram braços e pernas, as pastorinhas ficaram sem cabeça; algumas caixas de joias violentadas cederam, e foi um destroço geral de natas, especiarias e recheios. Um rebuçado de ovos ficou preso à catedral de Fernanda, obstruindo o pórtico por onde os devotos de cartão começavam a entrar, envernizados e festivos. E a valsa extraordinária continuava sempre, sem respeito e sem cansaço. 

Na manhã do dia seguinte, enquanto no pátio o cocheiro punha o landeau, e as carruagens chegavam, trazendo os priminhos e as numerosas tias, Fernanda, com uma deliciosa túnica azul-céu e um largo colar de marinheiro bretão, foi chamar o Artur, que acabava de vestir-se.

- Bons-dias - disse ela, beijando-o. - Tens ali muitos bonitos; vem ver.

O pequeno não quis saber de mais; foi às carreiras abrir a porta e entrou cheio de avidez no gabinete onde estavam dispostos os presentes.

Ao princípio, Fernanda e o irmão entreolharam-se num desolamento indescritível, vendo os dois gatinhos abraçados, que dormiam tranquilos, no meio das ruínas do soberbo bazar construído na véspera. E tão sossegados como se nada lhes pesasse do que haviam feito!

- Olha - balbuciou Fernanda, sentindo as lágrimas na garganta -, estragaram tudo!

- É verdade - disse atônito o Artur.

Veio-lhe um ímpeto de raiva sanguínea contra os dois patifes, que pareciam zombar, com os seus tranquilos olhares, da assolação que haviam feito. E, com o primeiro chicote que viu, descarregou nos lombos do grupo uma vergastada sibilante, que arrancou um berro às duas gargantas contraídas.

Diante do esqueleto do gracioso chapéu de palha, tão pitorescamente ornado do seu cacho de miosótis, a pequenina, cruzando as mãozinhas pálidas, de uma escultura fina e reticulada de veias microscópicas, chorava silenciosamente as pérolas de uma dor serena e de um amor espezinhado de ingratidões - porque amara com paixão os ingratos pupilos.

- Seus maus! - dizia ela sempre que os via na cozinha, já crescidos, dormindo na mesma cadeira.

Mas quase sempre a sua mão, esquecida e meiga, lhes ia afagar as cabeças sonolentas e chatas, como de dois pequeninos tigres preguiçosos.
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JOSÉ VALENTIM FIALHO DE ALMEIDA foi um dos escritores e cronistas mais cáusticos, viscerais e originais de Portugal no final do século XIX. Conhecido por seu estilo panfletário, violento e extremamente satírico, ele retratou as misérias sociais urbanas e rurais com um vigor de linguagem incomparável. Nasceu em 1857, na Vila de Frades, concelho de Vidigueira, na região do Alentejo, em Portugal. Faleceu em 1911 (aos 53 anos), na vila de Cuba, também no Alentejo. Passou a infância no Alentejo. Mudou-se para Lisboa na adolescência para estudar e lá viveu grande parte de sua vida adulta e boêmia. Em 1893, regressou em definitivo ao Alentejo, estabelecendo-se em Cuba, onde permaneceu até a morte. Devido às dificuldades financeiras da família, trabalhou na juventude como praticante e ajudante de farmácia em bairros pobres de Lisboa. Esse ambiente permitiu-lhe observar de perto a miséria humana e as camadas mais humildes da sociedade. Com enorme esforço, licenciou-se em Medicina em 1885, no entanto, exerceu a profissão de médico por pouquíssimo tempo e de forma esporádica. O jornalismo foi a sua principal e mais vibrante atividade profissional. Fundou a revista A Crónica (1880) e colaborou ativamente com vários jornais de prestígio, como o Novidades, O Repórter, Correio da Manhã e Pontos nos ii. Após casar-se em 1893 com uma senhora abastada em Cuba, dedicou-se também à gestão das propriedades agrícolas (lavoura) no Alentejo.
Sua estreia na imprensa ocorreu em 1873 no jornal Correspondência de Leiria. Inicialmente, publicou textos sob o pseudônimo de Valentim Demónio. A consolidação literária veio com o lançamento de coletâneas de contos e crônicas que chocaram e fascinaram o público pelo realismo cru. Fialho de Almeida posicionou-se na transição entre o Realismo/Naturalismo e o Pós-Romantismo. Embora influenciado pelo naturalismo de Eça de Queirós e de Émile Zola, seu estilo distanciou-se da pura observação científica para assumir um tom de revolta individual, expressionista, carregado de adjetivação violenta e metáforas viscerais. Não pertenceu à Academia das Ciências de Lisboa nem a outras instituições literárias formais de seu tempo. Ele possuía um espírito assumidamente anárquico, rebelde e antiinstitucional, o que o afastava do academicismo tradicional. Não recebeu prêmios literários oficiais em vida. Na época, o reconhecimento dos escritores em Portugal ocorria pelo impacto comercial, polêmicas na imprensa e consagração crítica, esferas em que ele foi uma figura central e amplamente debatida.
Principais Livros Publicados: Contos (1881); A Cidade do Vício (1882) — Contos que retratam a decadência moral de Lisboa; Os Gatos (1889–1894) — Sua obra mais célebre; uma série de folhetos jornalísticos de crítica feroz aos costumes, à política e às figuras públicas da época; Lisboa Galante (1890) — Episódios e retratos sobre a vida na capital; Pasquinadas (1890) — Críticas literárias e de costumes ; Vida Irónica (1892) — Crónicas satíricas; O País das Uvas (1893) — Coletânea de contos focada na dureza da vida rural alentejana; Galiza (1905) — Crónica de viagem; Saibam Quantos... (1912) — Coletânea póstuma de artigos políticos.
A relevância de Fialho de Almeida reside na renovação estilística da prosa portuguesa. Ele rompeu com a harmonia e o academicismo clássico da linguagem ao injetar no texto literário um vocabulário plástico, neologismos, termos populares e uma violência verbal inédita. Como contista, foi fundamental por apresentar visões contrastantes de Portugal: o submundo sombrio e vicioso de Lisboa e a miséria trágica do campesinato alentejano. Como cronista, moldou a sátira política moderna no país. A sua liberdade formal e a agressividade expressionista de sua escrita influenciaram profundamente as gerações literárias seguintes, abrindo caminhos estéticos que anteciparam o Modernismo português.

Fontes:
Fialho de Almeida. Contos. Publicado originalmente em em 1881.
Biografia = Infopédia, Universidade de Coimbra, Associação Cultural Fialho de Almeida, etc.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 21 *


Há de, enfim, vir o momento
da correção dos papéis:
mais valor terá o talento
que os diplomas e os anéis!
A. A. de Assis
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O Deus que fez lago e monte,
que fez céu, mar, noite e dia,
fez do poeta uma fonte
por onde jorra poesia...
Ademar Macedo
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 Se uma lágrima falasse,
certamente nos diria:
— Prefiro correr na face
de quem chora de alegria.
Admerval Silva de Souza
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Num mundo de falsidade,
mergulhado em amargura,
eu fiz da minha saudade
um poema de ternura.
Aída Rodrigues Frango
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Deus sempre, para que o louvem,
dá certas compensações:
— É surdo? Mas é Beethoven!
— É cego? Mas é Camões!
Aires de Montalbo
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Ciúme é zelo... é cuidado...
é multo egoísmo, também:
confiar, desconfiado...
de quem a gente quer bem!
Alberto Goulart Wucherer
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Nem toda estrada é galante,
sem pó, sem pedra ou espinho.
— Também nem todo viajante
merece melhor caminho...
Alcy Souto Maior
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Meu amor, minha alegria,
perguntas o que é sofrer!
Sofrer é passar um dia
inteirinho sem te ver.
Antônio Ribeiro
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Nas noites claras de maio,
eu sinto, nitidamente,
que a saudade é como um raio
de luar, dentro da gente…
Aparício Fernandes
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Tu vais ao rio sozinha,
teu lindo corpo banhar!
Cuidado, minha louquinha,
o rio quer te levar!
Artur Ragazzi
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Ah! — exclama o velho juiz
de rosto severo e nobre —
como o médico é feliz!
Seus erros a terra cobre!
Augusta Dubsky Ponte
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Quando, no amor, o ciúme
vai-se embora, indiferente,
o que logo se presume
é que o amor já foi na frente.
Carlos Vandôni de Barros
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Achei minhas esperanças
em pedaços divididas.
Juntei-os e enchi meus sonhos
de mentiras coloridas.
Carolina Azevedo de Castro
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Sem arroubos de eloquência,
teu olhar, espelho mudo,
reflete com transparência
meu olhar que te diz tudo!
Carolina Ramos
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Andei na vida tão cego
por amores, que não sei
quantas saudades carrego,
quantas saudades deixei.
Célio Bastos
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A tua casa pendida
entre o rosal e a mangueira
é uma açucena caída
no vermelhão da ladeira.
Cicero Dias
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Esta saudade é o castigo
que aflige todo o meu ser:
— Não posso viver contigo,
sem ti não posso viver.
Coriolano Coelho
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A saudade que me invade
ninguém já sofreu, porquê
a saudade é mais saudade,
se é saudade de você...
Darcy Tecídio
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Nesta vida rotineira,
tua saudade em minha alma
é cantiga de goteira
em noite de chuva calma!
Domitilla Borges Beltrame
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Sobrevoa altos rochedos,
desafia torvelinhos;
mas é no chão, sem segredos,
que a gaivota faz seus ninhos.
Dorothy Jansson Moretti
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Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida
onde se abriga a esperança!
Edna de Castro
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Nesta casa que é só minha,
onde eu mesmo sou a lei,
obedeço a uma rainha,
muito embora eu seja o rei.
Ernâni Rushel
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A cobiça sendo um vício
e a renúncia salutar,
nosso menor sacrifício
é saber renunciar.
Francisco José Pessoa
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Pobreza é não ter um sonho,
não tentar fazer o bem...
Riqueza é tornar risonho
o triste dia de alguém!
Gislaine Canales
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Quando me punge a tristeza,
quando me fere o pesar,
busco a sagrada pureza
de um raio do teu olhar.
Gotardo Neto
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Amei alguém — que desdita!
Morri de tanto sofrer.
Ó Deus do amor, me permita
reviver, amar, morrer...
Guaracy Lourenço Costa
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Quem me dera estar também,
ao menos por um momento,
no pensamento de quem
não me sai do pensamento!
Guimarães Nato
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Se o mal do amor, algum dia,
não mais prendesse ninguém,
muita dor se apagaria...
mas quanto riso também!
Hélio N. Martins
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Meu amor, eu te asseguro
que estou tão bem a teu lado,
que lamento que o futuro
mude o presente em passado.
Hermé Luz
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Sem te ver fico saudoso,
sinto a saudade doer,
mas de um doer tão gostoso
que até dá gosto sofrer!
Hermenegildo Pereira
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Quando foi dada a partida,
com mil gametas brigando,
eu lutei por minha vida
... E continuo lutando!
Héron Patrício
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Parece incrível, parece,
mas é verdade patente:
a gente nunca se esquece
de quem se esquece da gente!
Jader de Andrade
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Grato por sua amizade,
pelo incentivo e carinho.
Ter amigo é, na verdade,
jamais caminhar sozinho.
Jessé Fernandes Nascimento 
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Este conceito traduz
um céu de muito esplendor:
– “amor é facho de luz”
– “perdão é bênção de amor!”
Joamir Medeiros 
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Não penses que estou pensando
que em mim pensas com fervor:
bem sei onde, como e quando
tens pensamentos de amor...
José Augusto da Silva
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A vida é maravilhosa,
porém triste como quê:
este amor que me devora
e eu tão longe de você!
José Flávio de Camargo Lima
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Quando não houver mais flores
nem cantos de passarinhos,
que será dos trovadores
na solidão dos caminhos?!
José Lucas de Barros
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No sobe-e-desce da vida,
o amor, na vida da gente,
é o bastão para a subida
e o freio para a vertente.
Lêda Dias de Carvalho
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Diz ter sorte “pra cachorro”,
mas nisso não boto fé;
subiu a noventa o morro,
com o “dito” no seu pé!...
Lucília A. T. Decarli 
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Se não me dás teu carinho,
se não me queres amar,
sou barco triste e sozinho,
que já não quer navegar.
Luiz Carlos Abritta
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Desconfio que a saudade
não gosta de ti, meu bem.
Quando tu vens, ela vai...
quando tu vais, ela vem...
Luiz Otávio
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Vendo o teu rosto adorado
sorrindo com tanto gosto,
fico mesmo enamorado
das covinhas do teu rosto.
Marcos de Castro Borges
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Quando um bem está perdido,
outro nos vem consolar.
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
Maria Carmen Sauer Batista
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Não me importam teus queixumes,
não me aflige o teu desdém,
se vejo, nos teus ciúmes,
o quanto me queres bem!
Maria Isabel Miranda
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Minha vida se resume
num dilema assustador:
Se eu sofro com teu ciúme,
sofro mais sem teu amor.
Maria José Barcellos Cerqueira
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Iluminando o meu ser,
o teu sorriso comprova
que com cada alvorecer
o meu amor se renova.
Maria Luíza Walendowsky
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A donzela, em confissão,
diz que é moça inconformada, 
porque fez muito arrastão,
mas nunca foi arrastada...
Maria Nascimento
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Saibam todos que o trabalho
ao homem bom enobrece;
mas quem não pega no malho,
seu espírito empobrece!
Maurício Friedrich
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Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta...
Milton Sebastião Souza 
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Viúva, mal comparando,
é lenha verde, em seu jogo:
de um lado, sempre chorando,
e, do outro, pegando fogo!
Nero de Almeida Sena
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Sei que não foge à verdade,
você também pode crer:
em amor, felicidade
é dar mais que receber.
Nice Nascimento
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Dizem que o amor traz tristeza...
A mim, só traz alegria.
— Quem ama, sente a beleza
que há em tudo que Deus cria.
Nieddy Bezerril Frederick
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Maria, o teu nome é riso
nos lábios de quem te quer.
Vale mais que um paraíso
o teu perfil de mulher...
Nilo Bruzzi
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Tão calmo e frio eu te vejo,
que tristemente recordo:
acordava com teu beijo
e hoje nem vês quando acordo...
Nydia Iaggi Martins
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Passarinho que me encantas,
não cantarias assim,
se tivesses penas tantas
como as de amor sobre mim!
Odette Toledo
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Ama! Que importa a tristeza
e o desespero que vem?
O amor é a grande riqueza
daquele que nada tem!
Pascoal Carlos Magno
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Carícia mais eloquente
que meu coração aprova
é te dar um beijo ardente 
nos versos da minha trova!
Renato Alves 
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De muitos doutores sei,
que fundamente acatamos,
aos quais, se dizem: — "Cheguei",
retruca a morte: — "Chegamos".
Roberto Correia
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Hoje eu defino a fofoca,
tão velha quanto a sequoia,
como uma simples minhoca
que se transforma em jiboia.
Roza de Oliveira
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Na primavera do amor
minha vida é uma paisagem
que, em vez da imagem da flor,
traz a flor da tua imagem.
Rubens Lopes
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Dentre os destinos diversos,
eu prefiro o do cantor
que, através de lindos versos,
conta o mal que causa o amor!
S. Suannes
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O salão, que se destaca,
lota assim que a noite desce,
por um engano na placa:
– “Faço tranças”... tá com S!!!
Therezinha Dieguez Brisolla
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Quando é surdo a peditório
de moça de gênio mau,
mesmo dentro do oratório,
Santo Antônio leva pau...
Virgílio Brandão
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Fontes: 
– Aparício Fernandes (org.). A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristovão/RJ: Artenova, 1972.
– Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva, 1967.
A. A. de Assis. Revista Virtual Trovia. n. 150. junho de 2012