terça-feira, 5 de março de 2013

Caldeirão Poético 3

Felix Aires
(Buriti Bravo/MA, 1904– Teresina/PI, 1979)


" IMPREVISTO "


O viajante, ao passar., joga e esquece, na mata,
a ponta do cigarro, inconsciente do mal;
e nas folhas do chão a fagulha desata
o fogo que não veio ali proposital.

Irrompe a labareda, alarmante arrebata
ramos, troncos, rechãs a investida infernal!
Rubra serpente enorme em fúria desbarata
a fragrância, o viçor do reino vegetal!

Queima-se o campo, a roda, a um sopro, de improviso!
E longe, o causador de todo o prejuízo
vai muito alheio ao dano, olhos não volve atrás.

- Também há quem nos jogue o olhar flamante e quente
que o coração nos leva a uma paixão ardente
e a dona desse olhar nem sabe o mal que faz!

Félix Pacheco (José F. Alves P.),
(Teresina/PI, 2 de agosto de 1879 –  Rio de Janeiro/GB, 6 de dezembro de 1935)


" ESPELHOS "

Em cada flor, em cada estrela, em cada
réstia de sol, por toda parte, em suma
de dia, à noite, no ar, no azul, na bruma
sinto dispersa a formosura amada.

Nas campinas, ao luar; nas ondas; numa
montanha que, na curva ilimitada
do horizonte impassível e calada,
o seu perfil fantástico ergue e apruma;

por toda a natureza anda sua alma,
na tempestade assim como na calma,
em tudo a vejo - múltipla miragem!

Vivo a fitá-la, extático, de joelhos,
a contemplar de joelhos sua imagem
reproduzida por milhões de espelhos!

Ferreira Gullar
(José Ribamar Ferreira)

(São Luiz/MA, 10 de setembro de 1930)

" SETE POEMAS PORTUGUESES "

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a nas catástrofes, na aurora,
e na fonte e no muro onde sua face

entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitário nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis.
Vocabulário e corpo - deuses frágeis -
eu colho a ausência que me queima as mãos.

Filinto de Almeida
(Francisco F. de A.)

(Porto, Portugal. Naturalizado brasileiro, 4 de dezembro de 1857 – Rio de Janeiro/GB, 28 de janeiro de 1945)

" CHAMA DA VIDA "

Dá-me a tua mão, Amiga, e vamos indo
alegremente pela estrada fora.
É já tarde, e o crepúsculo é tão lindo
como foi o dilúculo da aurora.

Vamos subindo devagar, agora;
dá-me o teu braço, assim, vamos subindo...
Repara: é o mesmo Sol de amor de outrora
que ainda no poente ao longe está fulgindo . . .

Virá depois o luar e, de seguida
clarões de estrelas com que o céu se inflama.. .
E os clarões, e o luar, e o Sol, querida,

são várias formas de uma mesma chama
que está dentro de nós, - chama da Vida
que rebenta no peito de quem ama.

Flamínio Caldas
(Campos, RJ, 13 de abril de 1886 – 1907)

" ELAS... "

                                                                             À Luiz Peixoto

Elas aí vêm! Cessai o vosso canto,
aves do azul! . . . Rio, passai mansinho...
Vento, parai! Não lhes causeis espanto
que elas sozinhas vêm pelo caminho...

Como num sonho - singular encanto !-
tudo me ouve por fim . . . Devagarinho
o silêncio se faz em torno, enquanto
passam as duas a falar baixinho...

Escondidos, ouvimos a conversa . . .
Da voz delas a dúlcida harmonia
pelo ar se evola, rápida, dispersa . . .

Falam de amor, entreolham-se, e, passando,
mal calculam que sob a ramaria,
por elas, corações ficam pulsando...

Fontoura Xavier 
 (Antonio Vicente da F. X.)
(Cachoeira do Sul/RS, 7 de junho de1856 – Lisboa/Portugal, 1 de abril de 1922)

" ESTUDO ANATÔMICO "


Entrei no anfiteatro da ciência
atraído por mera fantasia,
e aprouve-me estudar Anatomia
por dar um novo pasto à inteligência.

Discorria com toda a sapiência
o lente, numa mesa, onde jazia
uma imóvel matéria, úmida e fria,
a que outrora animara humana essência.

Fora uma meretriz; o rosto belo
pude, tímido, olhá-lo com respeito
por entre as ondas negras de cabelo.

A convite do lente, contrafeito,
rasguei-a com a ponta do escalpelo
e não vi coração dentro do peito!

Francisco Mangabeira
(F. Cavalcanti M.)
(Salvador/BA, 8 de fevereiro de 1879 – a bordo do vapor S. Salvador, na rota situada entre Belém e S. Luis, 27 de janeiro de 1904 )

" SUPLÍCIO ETERNO "

Não devo amá-la, e amo-a com loucura.
Quero esquecê-la, e trago-a na lembrança...
Ai, quem me livra deste mal sem cura,
a que o destino trágico me lança?!

Uma nuvem de tédio e de amargura
cobre-me a loira estrela da esperança...
Tudo cansa por fim na vida escura,
só este amor infindo é que não cansa.

Se os olhos cerro, vejo-a nos meus sonhos...
Se à noite acordo, sinto que enlouqueço,
de uma angústia nos vórtices medonhos.

E esta morte, em que vivo, jamais finda,
pois, quanto mais procuro ver se a esqueço,
sinto que a adoro muito mais ainda !

Freitas Guimarães
(José de F. G.)
(Caldas/MG, 7 de outubro de 1873 –  Santos/SP, 1944)

" À MINHA ESPOSA "

Na cabeleira farta e perfumada,
farta ainda hoje e perfumada ainda,
descobriste depois de já penteada,
um fio branco de uma graça infinda.

Uma nuvem passou, na iluminada
esfera dos teus olhos! E eu, mais linda
acho que estás agora, assim ornada
da nobre jóia com que Deus te brinda.

Pode a neve cair em teus cabelos,
transformando os esplêndidos novelos
que têm do ébano a cor, em alva prata!

Os poderosos e risonhos laços
de amor, que me prenderam nos teus braços,
só a morte cruel é que os desata.

Fonte:
– J.G . de  Araujo Jorge . "Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou". 1a ed. 1963

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