Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 19 de junho de 2011

Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho) III - Os habitantes da mata se assustam


As cenas da caçada da onça haviam sido presenciadas por muitos animaizinhos selvagens, entre eles um intrometidíssimo sagüi. Ficou tão admirado da proeza dos meninos que levou longo tempo a piscar muito depressa — sinal de que estava pensando alguma idéia de sagüi. Por fim resolveu-se e, pulando de galho em galho, foi em busca duma capivara que morava perto, na beira do rio.

— Sabe, Dona Capivara, o que aconteceu à onça da Toca Fria? Morreu... — disse ele, fazendo uma carinha muito assustada.

— Morreu de quê, sagüi? — indagou a capivara. — De morte morrida ou de morte matada?

— De morte matadíssima. Os meninos do sítio de Dona Benta mataram-na a tiros e facadas e espetadas, e depois a arrastaram com cipós até lá, ao terreiro.

E contou por miúdo toda a cena a que havia assistido. A capivara abriu a boca. Aquela onça era o terror de todos os bichos da redondeza, graças à sua força e ferocidade. Por várias vezes os caçadores das terras vizinhas haviam organizado batidas a fim de dar cabo dela, sem nenhum resultado. A onça escapava sempre. Como, então, fora vítima dos netos de Dona Benta, simples crianças? Era espantoso, não havia dúvida. E se essas crianças haviam matado a onça dominadora da mata, com muito maior facilidade matariam a qualquer outro filho das selvas, fosse veado, paca, tatu ou mesmo capivara.

— A situação é bastante grave — disse, por fim, o animalão, depois de muito pensar e repensar. — Vejo que esses meninos constituem um grande perigo para nós aqui. Vou reunir uma assembléia de todos os bichos, para discutirmos o caso e tomarmos as medidas necessárias à nossa segurança.

Ia passando pelo céu azul um gavião perseguindo dois bem-te-vis. A capivara chamou-os.

— Parem com essa eterna briga e venham ouvir o que tenho a dizer. A situação de todos os viventes da floresta é muito séria.

Quando a vida dos animais selvagens se vê ameaçada de perigo geral, as velhas rivalidades cessam. A jaguatirica deixa de perseguir as lebres. A lontra esquece a fome e pode até conversar amavelmente com os peixes de que se alimenta. O cachorro-do-mato passa perto do porco-espinho sem que este erice as agulhas. Assim, ao ouvirem as palavras da capivara, tanto o gavião como os bem-te-vis esqueceram a briga e vieram sentar-se diante dela, um ao lado do outro, como se nada tivesse havido entre eles.

— Os meninos de Dona Benta mataram a onça da Toca Fria — começou a capivara. — Ora, se mataram a onça, que era a rainha da floresta, o mesmo farão, com a maior facilidade, a qualquer outro bicho menos forte do que a onça. Estamos pois com as nossas vidas ameaçadas de grande perigo e temos de tomar providências. Por isso quero convocar uma reunião de todos os animais. Vocês, que voam, sejam meus mensageiros.
Voem sobre a mata e avisem a todos para que estejam aqui reunidos, amanhã à noitinha, debaixo da Figueira-Brava.

O gavião e os bem-te-vis obedeceram. Voaram de árvore em árvore, dando uns pios que significavam reunião geral na Figueira-Brava no dia seguinte.

Essa figueira parecia ter mil anos de idade. Era a maior árvore da zona. Em seu tronco o tempo abrira um enorme oco, no qual dez homens poderiam abrigar-se perfeitamente. Erva nenhuma crescia debaixo dela, porque as ervas não crescem onde não bate sol e ali havia séculos que não batia um raio de sol.

No dia seguinte, à tarde, os animais foram chegando. Vieram as pacas, tão medrosinhas; vieram os veados ariscos; as antas pesadonas; os quatis sempre alegres e brincalhões; os cachorros-do-mato e as irarás de olhar duro; as jaguatiricas de movimentos macios. Vieram os tatus encapotados em suas cascas rijas; as lontras embrulhadas em suas capas de pele macia como o veludo; as preás assustadinhas. Também vieram cobras — as jibóias enormes que engolem um bezerro taludo; as cascavéis de guizos na ponta da cauda; as lindas corais-vermelhas; as muçuranas que se alimentam de cobras venenosas sem que nada lhes aconteça. E sapos — desde o sapo-ferreiro, cujo coaxo lembra marteladas em bigorna, até a pequenina perereca, que vive pererecando pelo mundo. E aves, desde o negro urubu fedorento, até essa jóia de asas que se chama beija-flor. E ainda insetos — borboletas de todos os desenhos e cores, besouros de todas as cascas, serra-paus de todas as serras. E joaninhas e louva-a-deus e carrapatos...

Os macacos empoleiraram-se nos galhos da figueira e no rebordo inferior do oco. Enquanto esperavam, divertiam-se fazendo cabriolas das mais complicadas, e caretas.

Logo que os viu reunidos, a capivara tomou a palavra e expôs a situação perigosa em que se achavam todos.

— Quem faz um cesto faz um cento — disse ela. — O fato de terem matado a onça vai encher de coragem esses meninos e fazê-los repetir suas entradas nesta floresta a fim de nos caçar a todos. O caso é bastante sério.

— Peço a palavra! — gritou o bugio, que estava de cabeça para baixo, seguro pelo rabo no seu galho. — Acho que o melhor meio de vocês escaparem à fúria desses meninos é fazerem como nós fazemos: morar em árvores. Quem mora em árvores está livre de todos os perigos do chão.

— Imbecil! — resmungou a capivara, furiosa de tamanha asneira. — Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens. Esta reunião foi convocada para discutir-se a sério, visto que o caso é muito sério. Quem tiver uma idéia mais decente que a deste idiota pendurado, que tome a palavra e fale.

Um jabuti adiantou-se e disse:

— O meio que vejo é mudar-nos para outras terras

— Que terras? — replicou a capivara. — Não há mais terras habitáveis neste país. Os homens andam a destruir todas as matas, a queimá-las, a reduzi-las a pastagens para bois e vacas. No meu tempo de menina podíamos caminhar cem dias e cem noites sem ver o fim da floresta. Agora, quem caminha dois dias para qualquer lado que seja dá com o fim da mata. Os homens estragaram este país. A idéia do jabuti não vale grande coisa. Impossível mudar-nos, porque não temos para onde ir.

— Amor com amor se paga — disse uma jaguatirica. Matando a nossa rainha esses meninos nos declararam guerra. Paguemos na mesma moeda. Declaremos guerra a eles. Reunamos todos os animais de dentes agudos e garras afiadas para um assalto ao sítio de Dona Benta.

A capivara ficou pensativa. Isso de assaltar um sítio era realmente coisa que só onças e jaguatiricas podiam fazer, porque são animais guerreiros.

— Sim — disse a capivara —:, a idéia não me parece de todo má, mas semelhante guerra só poderá ser feita por vocês, onças, ajudadas pelos cachorros-do-mato e irarás. Eu, por exemplo, e também as pacas e veados e lontras e borboletas e serra-paus e carrapatos, não entendemos nada de guerra.

— Pois que fique a luta a nosso cargo — disse a jaguatirica. — Encarregar-me-ei de reunir todas as onças e jaguatiricas e cachorros-do-mato e irarás da floresta para um ataque ao sítio de Dona Benta. Havemos de vencer aqueles meninos e comer a todos da casa — inclusive as duas velhas.

A assembléia aprovou a lembrança. “Muito bem!”, pensaram os animais. As onças fariam a guerra. Se vencessem, a bicharia inteira das selvas estaria salva de novas incursões dos meninos. Se não vencessem, a vingança deles iria recair sobre as onças, não sobre os outros. Ótimo!

— Está aprovada a idéia — disse a capivara. — A Senhora Jaguatirica encarregar-se-á de falar com as suas companheiras, com as onças grandes, as irarás e cachorros-do-mato, combinando do melhor modo os planos estratégicos. E nós, animais pacíficos, comedores de ervas, ficaremos de lado, ajudando os guerreiros com as nossas “torcidas”.

A assembléia dissolveu-se. Cada qual foi para sua casa, enquanto a jaguatirica disparava em procura das companheiras a fim de combinar os meios de conduzir a guerra.
----------------------
continua ... IV – Os espiões da Emília
---------------------
Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_San

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to