Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Monteiro Lobato (Histórias de Tia Nastácia) V – A defesa estratégica


— Eles mataram minha esposa! — clamava com voz trêmula de cólera um enorme onção (como dizia a Emília). — Estou viúvo da minha querida onça por artes daqueles meninos daninhos do sítio de Dona Benta. Mataram-na e levaram-na de arrasto, amarrada com cipós, até o terreiro da casinha onde moram. Tiraram-lhe a pele, que depois de esticada e seca ao sol está servindo de tapete na varanda. Ora, isto é crime que pede a mais completa vingança. Guerra, pois! Guerra de morte a essa ninhada de malfeitores.

— Guerra! Guerra! — exclamaram as jaguatiricas e suçuaranas e cachorros-do-mato e irarás ali reunidas (como queria a Emília).

O onço agradou-se daquele entusiasmo.

— Combinemos o seguinte — disse ele. — Amanhã de manhã cercaremos a casa de modo que ninguém escape. As irarás e cachorros-do-mato guardarão os lados e nós, onças, atacaremos pela frente.

— Bravos! Bravos! Assim o faremos! — gritaram, em coro, as feras.

— Assaltaremos a casa — prosseguiu o viúvo — e mataremos todos os seus moradores.

— Sim, matá-los-emos a todos! — repetiu o coro.

— E depois os comeremos um por um!

— Sim, sim, comê-los-emos a todos, um por um! — uivou a bicharia, com as línguas vermelhas a lamberem a beiçaria feroz.

A assembléia dissolveu-se, indo cada qual para sua toca sem que nenhuma daquelas feras pensasse em caça naquele dia. Estavam a preparar uma fome especial para o almoço de carne humana que iam ter no dia seguinte.

Os besouros espiões tudo ouviram do seu galhinho e lá se foram, a zumbir, dar parte a Emília dos grandes acontecimentos. A boneca estava ansiosa por eles, visto como não os tinha visto na véspera.

— Então? — perguntou logo que os dois sonsos entraram na varanda como se fossem besouros à-toa, desses que se deixam atrair pela luz dos lampiões.

— É amanhã o ataque — responderam os dois besouros, que eram gêmeos e sempre falavam e agiam juntos. —- As onças acabam de resolver isso numa reunião que tiveram debaixo da Figueira-Brava. Os cachorros-do-mato e as irarás guardarão os lados da casa, e as onças, guiadas pelo onço viúvo, darão o assalto. Também juraram matar e comer a todos.

Emília não empalideceu de susto, nem tremeu que nem vara verde, como aconteceria se ela fosse gente de verdade. Emília era a mais corajosa boneca que ainda existiu no mundo. Apenas disse:

— Isso de dizer que cerca e assalta e mata e devora é fácil. O difícil é cercar, assaltar, matar e devorar realmente. Nós saberemos defender-nos. Que venham as tais onças duma figa!

Os dois besouros não deixaram de admirar-se daquele espantoso sangue-frio.

— Mas de que armas dispõem vocês para lutar contra tantas feras raivosas? — perguntaram eles gemeamente, isto é, cada um dizendo uma palavra. O modo dos besouros conversarem com a boneca era esse. Um dizia as palavras pares e o outro dizia as palavras ímpares.

— Não sei — respondeu Emília. — Isso é com Pedrinho, o nosso generalíssimo. Ele está estudando o assunto — e eu também. Não sei ainda o que o General Pedrinho vai fazer, mas sei o que vou fazer. Pensei, pensei e repensei sobre o caso e já tenho cá uma idéia que vale ouro em pó.

— Qual — disse o primeiro besouro, é — disse o segundo, essa — continuou o primeiro, idéia? — concluiu o segundo.

— Não posso dizer em voz alta — respondeu Emília.

— Só ao ouvido — e chegando-se bem pertinho dos gêmeos cochichou-lhes ao ouvido a sua idéia pelo mesmo sistema, isto é, dizendo a palavra par ao besouro número 1 e a palavra ímpar ao besouro número 2.

Os besouros admiraram-se da esperteza da boneca e partiram — zunn! — a fim de cumprir as ordens recebidas.

Logo que os viu se sumirem no espaço, Emília foi correndo contar a Pedrinho o que acabava de ouvir dos seus espiões de casaca preta.

Pedrinho já havia resolvido o problema da defesa.

—- Como não temos armas de fogo para enfrentar as onças — disse ele — lembrei-me do seguinte. Faço uma porção de pernas de pau bem compridas; um par de pernas para cada morador do sítio, inclusive o Marquês e as galinhas. Quando as onças nos atacarem, subiremos sobre essas pernas de pau, bem lá no alto — e quero ver!...

— E se as onças também subirem pelas pernas de pau acima? — perguntou a menina.

— Impossível — respondeu ele. — Além de serem pernas muito compridas e de bambu, que é liso, ainda serão ensebadas. Cada uma corresponderá a um verdadeiro pau-de-sebo. Nem macaco será capaz de subir.

Foi considerada ótima a idéia e Pedrinho correu em busca da foice e do serrote. Com a foice cortou no bambuzal próximo meia dúzia de compridas varas de bambu, e com o serrote serrou-as do tamanho necessário. Depois, com um formão, abriu furos, nos quais fixou um estribo, isto é, uma travessinha em que um pé pudesse apoiar-se.

Prontas que foram as pernas de pau, tinham de exercitar-se um bocado. Nada mais fácil do que o equilíbrio sobre pernas de pau, mas mesmo assim não dispensa um pouco de prática. Quem começou foi Pedrinho, e como as pernas fossem muito altas teve de trepar a uma escada para colocar-se sobre elas. Assim fez, dando em seguida umas passadas tontas pelo terreiro, até acertar o equilíbrio. Em poucos minutos ficou tão hábil naquele pernilonguismo que até parecia ter anos de experiência.

Vendo a facilidade, Narizinho imitou-o. Trepou à escada e ajeitou-se sobre o par de pernas que lhe cabia. Também em minutos ficou adestrada a ponto de dar carreirinhas.

Emília e o Visconde não ficaram atrás. Eram jeitosos. Restava Rabicó.

— Vai começar a encrenca — disse Narizinho, quando chegou a hora do ilustre Marquês.

Assim aconteceu. A dificuldade principiou com aquele negócio de Rabicó ter quatro pernas, em vez de duas, como todas as criaturas decentes — os homens, as galinhas, as escadas. Rabicó tinha duas pernas mais que os outros, inutilíssimas pernas, porque se uma criatura pode viver muito bem com duas, ter quatro é ter pernas demais.

— Se eu tivesse clorofórmio e instrumentos cirúrgicos, fazia uma operação em Rabicó, transformando-o em bípede. Não deixa de ser uma vergonha um quadrúpede em nosso bando — disse Pedrinho.

Seguramente uma hora foi gasta naquilo de amarrar quatro pernas de pau nas perninhas do leitão e fazê-lo equilibrar-se sobre os espeques. Bem que ele esperneou, gritou, como se o estivessem matando com uma faca de ponta bem pontuda. Atraída pelos seus gritos, Tia Nastácia apareceu na porta da cozinha para ver o que era — e quase desmaiou de susto vendo o bandinho lá em cima, pernejando pernilongalmente pelo terreiro.

— Corra, sinhá! — gritou para dentro. — Venha ver o “felómeno” que aconteceu com a criançada. Está tudo pernilongo!...

Dona Benta apareceu à janela e assombrou-se da habilidade com que seus netos corriam e brincavam sobre pernas daquele comprimento, como se tivessem nascido pernaltas.

— Cuidado! — exclamou ela. — Se um de vocês perde o equilíbrio e vem ao chão, esborracha o nariz para o resto da vida. Mas que idéia foi essa, meninos?

Não houve remédio senão explicar-lhe tudo, mesmo porque Dona Benta e Tia Nastácia tinham também de colocar-se sobre tais pernas quando as onças chegassem.

—- Às onças vão atacar o sítio amanhã, vovó, umas cinqüenta — disse Pedrinho — e como não temos carabinas com que nos defender, a defesa que achei foi esta.

— Onças? Cinqüenta? — repetiu Dona Benta, com os olhos arregaladíssimos. — Quem contou semelhante coisa?

— Os besouros gêmeos da Emília, vovó — disse Narizinho. — Acabam de nos avisar que as onças, para vingarem a morte da que matamos, organizaram um ataque ao sítio para amanhã.

As duas pobres velhas ficaram na maior aflição do mundo, como era natural. Com semelhantes travessuras, o terrível bandinho acabaria dando cabo delas, não havia dúvida. Tia Nastácia, de olhos arregalados do tamanho de xícaras de chá, até perdeu a fala. Limitava-se a fazer pelo-sinais, um em cima do outro.

— Mas isto não tem propósito, Pedrinho! — ralhou Dona Benta. — Vocês põem-me doida. Onças e logo cin-qüen-ta!... Como irei arranjar-me aqui embaixo, sozinha com Tia Nastácia?

— O remédio, vovó, é a senhora e Tia Nastácia meterem-se em pernas de pau também. Olhe, as suas já estão ali prontinhas, feitas sob medida — e as de Tia Nastácia são aquelas acolá...

A aflição das duas velhas cresceu ainda alguns pontos. O medo de serem comidas pelas onças se somou ao medo de caírem de cima de tão compridas pernas. Mas que fazer? Ficarem embaixo, sozinhas, era suicídio puro, porque seriam fatalmente comidas pelas onças.

Dona Benta cocou a cabeça, desanimada.

— Inútil procurar outra saída, vovó — disse Pedrinho.

— As onças amanhã de manhã estarão aqui para o assalto e ou a senhora se utiliza desta defesa pernil que inventamos, ou deixa-se devorar viva. Escolha.

Não havia escolha possível e, apesar dos seus sessenta anos e dos seus vários reumatismos, a pobre Dona Benta teve de trepar na escada e ajeitar-se sobre o par de andaimes que Pedrinho lhe destinara.

Custou! Além de ter os músculos emperrados, a boa velhinha era medrosíssima. Por várias vezes quis desistir, e só não desistiu porque os meninos não cessavam de lembrar que nesse caso seria fatalmente devorada, como a avó da Menina da Capinha Vermelha. Afinal aprendeu o equilíbrio, dando uns passos muito desajeitados pelo terreiro.

— Serve — disse Pedrinho, que dirigia a aprendizagem. — Já dá para escapar de onça. Tratemos agora de Tia Nastácia.

Aí é que foi a dificuldade. A pobre negra era ainda mais desajeitada do que Rabicó e Dona Benta somados. Quando depois de inúmeras tentativas, ia se tenteando sobre as pernas de pau, perdeu de súbito o equilíbrio e veio ao chão, num berro. Felizmente caiu sobre um varal de roupa e não se machucou.

— Não trepo mais nesses andaimes — exclamou ela, ainda enganchada no varal. — Prefiro que as onças me comam viva. Figa, rabudo!...

Mas isso de preferir que as onças nos comam vivos é conversa. Na hora em que onça aparece, até em pau-de-sebo um aleijado é capaz de subir. A pobre da Tia Nastácia ia ficar sabendo disso no dia seguinte…
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continua ... VI – Aparece uma nova menina
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_San

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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