Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 21 de junho de 2011

Monteiro Lobato (Caçadas de Pedrinho) IV - Os espiões da Emília


Entre os animais da floresta que iam atacar o sítio de Dona Benta havia traidores. Eram os espiões da Emília. A terrível bonequinha fizera amizade com um casal de besouros cascudos, muito santarrões, que viviam fingindo estar a dormir mas que não perdiam coisa nenhuma do que se passava na floresta. Na reunião dos animais também eles estiveram presentes, vendo e ouvindo tudo lá do seu cantinho. Em seguida foram dar parte do acontecido à boneca.

— Eles vão atacar a casa e comer toda a gente do sítio — disse o besouro com voz cautelosa.

— Eles quem? — indagou Emília.

— As onças, as irarás e os cachorros-do-mato.

— Elas, então — disse Emília, que implicava muito com a regra de gramática que manda pôr pronome no masculino quando há diversos sujeitos de sexos diferentes. Elas vão atacar o sítio, não é? Pois que venham. Serão muito bem recebidas. Tenho lá um espeto próprio para espetar onça, irará, jaguatirica e cachorro-do-mato.

Mas os besouros contaram minuciosamente tudo quanto tinham ouvido na assembléia da capivara e a boneca viu que o caso não era de brincadeira. Resolveu lá consigo ir incontinenti avisar Pedrinho, mas para não dar a perceber os seus receios fez-se de valentona.

— Veremos! — disse aos besouros, muito admirados daquele sangue-frio. — Veremos! Nós matamos há pouco uma onça-pintada, a maior que existia por aqui, e faremos a mesma coisa até para leões e hipopótamos, se aparecerem. A bicharia há de convencer-se de que conosco ninguém brinca. Atacar o sítio! Desaforados... E para quando é a guerra?

— O dia ainda não está marcado. A jaguatirica anda a correr a mata para reunir os atacantes.

— Muito bem — concluiu Emília, sem pestanejar. — Continuem espionando e avisando-me de tudo quanto souberem. Vou prevenir Pedrinho.

Emília voltou para casa de carreira e, já de longe, foi gritando pelo menino. Encontrou-o na varanda, a fazer uma arapuca de talos de folhas de embaúva para apanhar rolinhas.

— Largue disso — gritou Emília, ao galgar a escada. — Temos novidade grande. O sítio vai ser assaltado pelas onças, cachorros-do-mato e irarás.

Pedrinho olhou para ela com os olhos arregalados.

— Que bobagem está você dizendo, Emília? Assaltado, por quê? Como?

A boneca desfiou toda a conversa tida com os besouros e concluiu:

— Temos guerra, é isso. Matamos a onça e agora a onçada inteira quer a desforra.

Pedrinho refletiu por alguns instantes. Depois recomendou:

— Não diga nada a vovó, nem a Tia Nastácia, pois são capazes de morrer de medo. Vou estudar o caso e organizar a defesa. Vá depressa ver Narizinho e o Visconde. Diga-lhes que me esperem no pomar, debaixo da jabuticabeira grande. Aqui na varanda não podemos tratar disso. Vovó descobriria tudo.

Minutos depois realizava-se, debaixo da jabuticabeira grande, uma segunda assembléia, menos numerosa que a dos bichos. Compareceram todos, inclusive o Marquês de Rabicó. Pedrinho pediu à boneca que repetisse a sua conversa com os besouros espiões. Emília repetiu-a, terminando assim:

— É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena.

O Marquês de Rabicó sorriu. Se as onças iam devorar todos os bípedes, ele, na sua nobre qualidade de quadrúpede, estaria fora da matança. “Que felicidade ser quadrúpede!”, refletiu, lá consigo, o maroto.

Pedrinho começou a estudar a defesa.

— Sabem do que mais? — disse ele. — Vou abrir uma linha de trincheiras em redor da casa.

— Inútil isso, Pedrinho — objetou a menina. — As onças são umas danadas para saltar. Pulam qualquer trincheira.

Pedrinho achou razoável a observação e refletiu um pouco mais. Depois disse:

— Nesse caso, podemos rodear a fazenda duma cerca de paus-a-pique, bem pontudos. Construir uma estacada, como faziam os índios.

— Impossível — objetou outra vez Narizinho. — Para fazer semelhante estacada teríamos de contratar vários homens para cortar os paus e fincá-los — e vovó desconfiaria e viria a saber de tudo. Com estacada não vai. Temos de descobrir outro meio.

E, voltando-se para o Visconde que ainda não pronunciara uma só palavra:

— Qual a sua opinião, Visconde?

Como tivesse corpo de sabugo, o Visconde jamais mostrou o menor medo de onça, ou de qualquer outro animal carnívoro. Só tinha medo de vaca, bezerro, cavalo e outros animais comedores de sabugo. Por isso, caçoou:

— Ataque de onça! Ora, ora. Que valem onças? Se fosse um ataque de vacas, sim, compreendo que estivéssemos assustados. Mas de onças...

— E você, Rabicó, que acha? — perguntaram ao Marquês.

O Marquês nunca achava coisa nenhuma. Sua preocupação única era descobrir coisas de comer. Quando lhe pediam opinião sobre abóboras, chuchus, cascas de bananas ou mandioca, ele dava opiniões ótimas. Mas sobre onças...

— Eu acho que... que... que... — e engasgou.

— Quequerequeque... Para achar isso não valia a pena ter aberto a boca — disse Pedrinho. — Temos que achar qualquer coisa. Temos que resolver. O caso é dos mais sérios. Nossas vidas correm perigo, bem como as vidas de vovó e Tia Nastácia. Vamos! Venham idéias. Dêem tratos à bola e resolvam.

— Tenho uma idéia excelente! — gritou Narizinho, batendo palmas.

— Qual é? — exclamaram todos, voltando-se para ela.

— É deixarmos isto para amanhã. As grandes coisas devem ser bem pensadas e não podem ser decididas assim, do pé para a mão. A guerra não é para já, pois que a jaguatirica ainda anda a avisar as companheiras. Até que fale com todas e organizem o plano de ataque, passar-se-ão alguns dias. Para agora tenho uma coisa excelente a fazer. Uma surpresa...

Disse e ergueu-se, correndo para a margem do ribeirão, onde na véspera Tia Nastácia havia escondido qualquer coisa. Todos a seguiram, curiosos.

— Que é, que é, Narizinho? Que surpresa é essa?

Em vez de responder, a menina espalhou um montinho de folhas secas que havia junto às pedras do rio e revelou, aos olhos do bando, um lindo cacho de brejaúvas.

— Viva! Viva! — gritou Pedrinho, que se pelava por brejaúvas. — Como arranjou isto, Narizinho?-

— Foi o Antônio Carapina que nos mandou de presente ontem à noite. Tia Nastácia recebeu o cacho e veio escondê-lo aqui para que não acontecesse como da outra vez, que sujamos de cascas a varanda.

— E por que não me disse nada?

— Para fazer uma surpresa. Não acha que foi melhor assim?

Sentaram-se todos em redor do cacho de brejaúvas e começaram a partir os cocos sobre uma grande laje que havia ali.

— Ótimas! — exclamou o menino, comendo com gula a deliciosa polpa branca e macia daqueles cocos no ponto. — O Antônio Carapina tem as melhores lembranças do mundo. Prove, Emília, este pedacinho...

Minutos depois estava o chão coberto de cascas, por entre as quais passeava o focinho de Rabicó, lambiscando o que podia. Enquanto isso, as onças lá na mata marcavam o ataque ao sítio para o dia seguinte. Felizmente os dois besouros encapotados estiveram presentes à reunião e tudo ouviram dum galhinho seco.
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continua ... V – A defesa estratégica
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Fonte:
LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho/Hans Staden. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. III. Digitalização e Revisão: Arlindo_San

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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