sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Marques de Carvalho (Conto do Natal)

O velho padre Jacinto estava já abroquelado (protegido) na dupla couraça da virtude e da idade. Não havia cara bonita de mulher nova que lhe atraísse um olhar mais demorado, assim como não existia pecado, venial ou mortal, cuja denúncia pudesse conturbá-lo. Tinha o sacerdote ouvidos castos para quantos delitos lhe segredavam as beatas, através da lâmina de folha esburacada do confessionário.

E era sempre com a mais tranquila meiguice, toda paternal, que monotonamente prescrevia um Padre-Nosso e uma Ave-Maria como penitência às mais reincidentes pecadoras.

Trinta anos de pastoreio de ovelhas espirituais haviam-lhe dado, com a calma imperturbável, o anestésico da sensualidade. Dentre as suas mais assíduas confessadas distinguia-se, pelo ameno rosto e fervorosa devoção, uma jovem mulatinha, filha de um fazendeiro da comarca de Chaves. Era um primor, a Maricota, requestada por muitas léguas em torno, na cálida terra marajoara, onde o amor bebe roborantes (confirmados) filtros aperitivos, na doce emanação das gordas pastagens restolhadas.

Ninguém mais atenta do que ela aos deveres do culto católico e ao cumprimento de suas obrigações domésticas: "rapariga da ponta", consagrava-a a opinião da comarca, pelo órgão competentíssimo do conspícuo juiz de direito.

Quando chegou dezembro, Maricota combinara com o vaqueiro Antônio, seu namorado de infância, que a fosse pedir em casamento no dia de Natal. Tinha fé na data, que havia de angariar-lhe maior messe de venturas; e ainda em obediência à inclinação religiosa, abalou campos a fora, até à residência do clérigo, a quem confiou a tarefa de formular perante seus progenitores o pedido sacramental em nome do rapaz.

Ao trêmulo pastor d'almas agradou aquela incumbência intencional, como lisonjeira homenagem à sua dupla autoridade de confessor e velho amigo da família.

Que fosse com Deus e ficasse certa de que, no dia de Natal, pela tarde, lá estaria a representar o maganão.
                                               ***
À porta da casa principal da fazenda, à beira-rio, em Marajó. Tarde assoalhada pomposamente, na magnificência vencedora do grande astro a descambar pelo espaço translúcido. Chovera uma hora antes e o céu, azul e brunido, estava ermo de nuvens. Dos campos infinitos, muito verdes ao perto, gradativamente azulados à medida que a vista buscava o horizonte, subiam olores adocicados, o bom cheiro dos fortes pastos ensopados d'água. E do lado dos estábulos, era um retinir jovial de cavaquinhos e violas, o ardente sapateio das danças campesinas.

Toda a família da Maricota, sentada no alpendre em derredor da secular mangueira frondosa da esquerda, palestrava contente, ouvindo as boas chalaças inofensivas do sacerdote.

Os dois noivos - noivos desde meia hora antes - conversavam a alguns passos de distância do grupo principal. Para o vaqueiro, esse instante era o mais feliz da vida. Pulava-lhe o coração desencontrado no peito arfante, rebrilhavam-lhe as pupilas, que refletiam a imagem, sempre meiga e adorada de sua querida Maricota.

Parecia-lhe que a voz da rapariga, nesse primeiro colóquio já realizado com o assenso da família, e por isso dotado de um sabor novo, possuía inflexões desconhecidas, entonações estranhas, um aveludado espesso como o refresco do açaí.

À moça, entretanto, como que um pensamento fixo a preocupava. Duas vezes já, deixara sem resposta, ou respondera demoradamente, a uma apaixonada interrogação do noivo, ternamente segredada em trêmulo balbucio de emoção.

Notou-o o velho padre, ao observá-los de longe. Erguendo a voz, perguntou-lhe num sorriso:

- Que tens, filha? Em que pensas?

E a Maricota, levantando-se de ao pé do noivo, acercou-se da família e:

- Penso, explicou, que por ser hoje dia de Natal, o sr. padre bem poderia obter para mim a graça de ficar sempre "virgem antes do parto, no parto e depois do parto"...

E voltando-se para o vaqueiro, a sorrir - inocente ou maliciosa? Ninguém poderia reconhecê-lo, no meio da estupefação geral, - acrescentou:

- Não deves zangar-te com isso: Jesus foi filho de Deus, e São José não “deu o cavaco”*!
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* Dar o cavaco = irritar-se, zangar-se.

Fonte:
Marques de Carvalho. Contos do Norte. Publicado originalmente em 1907.

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