quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) O Casamento De Narizinho – VII – Vem Vindo o Socorro


Pedrinho suava na maior aflição. O socorro que pedira não vinha nunca. Quando chegasse, talvez Rabicó já estivesse estrangulado pelo monstro. O que estava retardando isso era a curiosidade do polvo. Parecia divertir-se em olhar para o focinho aterrorizado do mísero marquês de língua de fora, que revirava os olhos para todos os lados em procura da salvação. Pedrinho, que espiava a cena por uma fresta do camarote, fazia-lhe sinais para que não morresse antes da chegada do socorro. Quanto ao Visconde, estava, por ordem de Pedrinho, trepado à gávea do mastro grande para dar aviso logo que avistasse as tropas do príncipe. Mas foi coisa que nada adiantou. O Visconde era um verdadeiro sábio e os sábios são muito distraídos. Logo que chegou ao alto do mastro, distraiu-se com uma baratinha do mar que andava por ali, ficando a parafusar que nome científico poderia ela ter. Por isso não viu a chegada dos couraceiros, nem pôde dar o aviso. Eram os tais couraceiros uns terríveis caranguejos rajados, de casca rija como a da tartaruga e armados de pinças piores que boticão de dentista. Por serem muito vagarosos, vinham montados em peixes-elétricos. Chegaram, apearam. O comandante perguntou ao menino onde estava o senhor Marquês.

— No camarote número 7, bem no fundo – respondeu Pedrinho em voz baixa para que o polvo não ouvisse.

Os couraceiros foram avançando, pé ante pé. Foram avançando e, de repente, deram um pulo, todos ao mesmo tempo, e “fulminaram” o polvo. Sim, fulminaram. Como viessem montados em peixes elétricos, tinham ficado carregadíssimos de eletricidade, como pilhas, e assim, mal seus ferrões tocaram o polvo, produziu-se o terrível choque elétrico que o fulminou. E não fulminou Rabicó também? Não. Rabicó tinha-se agarrado por acaso a um pára-raio que havia ali. Isso o salvou. E mal escapou do monstro, correu, coin, coin, coin, para onde estava o menino. Mas apesar de salvo continuava, coin, coin, coin, como se ainda estivesse sofrendo alguma coisa. Pedrinho examinou-o. O pobre marquês estava com um siri ferrado na pontinha da cauda!

— Escapei dum mas caí noutro! — gemia o mísero. – Este polvinho que me está agarrado à cauda é duas vezes mais doído que o grande...

Em vez de livrá-lo do siri, Pedrinho achou graça no caso.

— Você fica lindo assim, marquês! Esse siri na cauda vai muito melhor que o laço de fita vermelha — e deixou-o como estava.

Pedrinho foi dali examinar o polvo moribundo, naquele momento rodeado dos valentes couraceiros. Nisto viu o Visconde que vinha descendo do mastro com a baratinha dentro da cartola.

— Acho que esta baratinha deve ser um Balabera gigantea das Índias Ocidentais, começou ele a explicar.

O menino ficou danado.

— E eu acho que o senhor Visconde é um perfeito palerma. Foi para pegar baratinha que eu o mandei subir ao mastro?

— É verdade! — exclamou o Visconde batendo na testa. — Esqueci-me completamente da sua recomendação. Mas não faz mal, volto para lá outra vez e assim que as tropas do príncipe apontarem ao longe darei sinal.

— Vai voltar mas é para o palácio, isso sim. Não vê que as tropas do príncipe já vieram e Rabicó já está salvo? — e pondo o marquês em marcha tomou rumo do palácio.

O Visconde seguiu atrás, com a baratinha na mão. “Será uma Balabera ou uma Stylopyga? Que pena estar tão longe aquele livro de dona Benta...” — ia pensando ele, todo rugas na testa.

Chegando ao palácio encontraram as portas fechadas. O porteiro disse-lhes que o casamento já havia começado. Pedrinho aborreceu-se.

— Essa é boa! Será que terei de assistir ao casamento de Narizinho aqui da rua? Abra a porta! — ordenou ao porteiro.

— Só com ordem do príncipe — respondeu este. Pedrinho armou o bodoque; mas mudando de idéia disse a uma minhoca do mar que estava de prosa com o porteiro:

— Senhorita, faça-me o favor de passar pelo buraco da fechadura e ir dizer ao príncipe que mande abrir a porta incontinenti, pois estou esperando aqui na rua...

Partiu a minhoca e Pedrinho, ansioso por saber o que estava se passando, trepou a uma das janelas para espiar lá dentro. E viu tudo.

Viu Narizinho deslumbrante no seu vestido cor do mar com todos os seus peixinhos. Na cabeça trazia um diadema feito das mais raras pérolas dos sete mares, e na mão um cetro de nácar todo esculpido.

Ao lado dela caminhava o príncipe no seu maravilhoso manto de rei, feito das mais raras escamas. Atrás vinha a Emília, de vestido de cauda, braço dado a um soleníssimo Bernardo Eremita. Este senhor trazia nas mãos uma salva de escama onde repousava a coroa com que o príncipe ia ser coroado. Firmando a vista, Pedrinho viu que a coroa era a tal rosquinha que a menina lhe havia mandado de presente.

— Esta Narizinho é de muita sorte! — murmurou ele consigo.

— Apanhou um marido que além de príncipe tem idéias muito felizes...

Chegados aos primeiros degraus do trono, os reais noivos principiaram a subir passo a passo, ao som das mais belas músicas que se possam imaginar. Eram cantos de sereias vindas de todos os pontos do oceano. Pedrinho, que jamais vira sereia, arregalou bem arregalados os olhos pensando lá consigo : “E a boba da vovó que não acredita em sereia?” Súbito, o príncipe parou, como se alguém estivesse a lhe mexer no pé. Olhou para baixo. Viu a minhoca com o recado. Entendeu muito bem o que ela disse e, voltando-se para Narizinho, explicou:

— É Pedrinho, o Visconde e o marquês que acabam de chegar.

— Que bom! — exclamou a menina batendo palmas. — Mas agora temos de recomeçar a festa desde o começo, se não Pedrinho fica danado.

Quem mandava no reino já era Narizinho. Um desejo seu valia por ordem terminante, de modo que o príncipe fez parar a festa para começar novamente.

Cada qual foi para o seu posto, todos muito compenetrados, à espera de que Pedrinho, o marquês e o Visconde entrassem e tomassem as poltronas que lhes estavam reservadas. As portas do palácio abriram-se afinal e os três aventureiros surgiram. Emília incontinenti notou qualquer coisa estranha na ponta da cauda do marquês.

— Que é que Rabicó tem na cauda? — interrogou ela firmando a vista. — Parece que o laço de fita virou siri... e correu para ver bem.

Verificando que era siri mesmo, desmaiou de vergonha — Ah!...

Houve grande rebuliço. Toda a corte correu para ampará-la.

Veio à pressa o doutor Caramujo, que lhe tomou o pulso demoradamente.

— Não está morta, não! — disse ele por fim. – Apenas desacordada.

— E como há de ser para acordá-la? — perguntou Narizinho ansiosa. — Não haverá éter por aqui?

— Há coisa melhor — declarou o doutor Caramujo. — Há siris. Para acordar uma criatura desmaiada, não conheço nada melhor do que botar um siri em cima. Tragam-me um siri!...

O príncipe gritou:

— Um siri! Meu reino por um siri!...

— Aqui está um — disse Rabicó voltando-se de costas para o doutor Caramujo, muito contente de ter aparecido aquele jeito de se livrar do incômodo brinco da cauda.

O doutor agarrou no siri, tirou-o da cauda de Rabicó e aplicou-o no nariz da Emília. A boneca imediatamente deu um suspiro.

— Onde estou eu? — murmurou abrindo os olhos, ainda apalermada.

— Sente-se melhor? — indagou o médico.

— Um pouco... Mas tenho a vista turva. Vejo tudo atrapalhado, como se o mundo estivesse cheio de pernas...

Eram as pernas do siri ainda penduradas no nariz dela! O doutor riu-se e, afastando-lhe do nariz aquele pernudo “éter”, guardou-o no bolso para outra emergência, dizendo:

— Um médico deve andar sempre prevenido...

Terminado o incidente, ia a festa começar de novo. Chegou o casamenteiro — outro Bernardo Eremita, muito respeitado no reino pelas suas manhas. Fora convidado não só para fazer o casamento como também para coroar o príncipe com a famosa coroa de rosquinha engastada de diamantes.

— Começa tudo de novo desde o principio! — foi a ordem do príncipe.

E tudo recomeçou desde o princípio. As sereias repetiram os lindos cantos que já haviam cantado e os noivos repetiram a marcha a passos lentos em direção ao trono nupcial! Enquanto caminhavam, uma chuva de pérolas em pó caía sobre eles. Subiram ao trono. Sentaram-se. O venerando Bernardo Eremita pronunciou as palavras sacramentais e os casou, bem casadinhos. Palmas romperam, e gritos, e hurras. Narizinho estava princesa, finalmente! Restava a coroação.

O venerando Bernardo pronunciou outras palavras sacramentais e concluiu pedindo a coroa.

Mas... que é da coroa? Havia desaparecido.

— A coroa sumiu! — murmurou o fidalgo que segurava a salva de escama, mais pálido que uma folha de papel. — Alguém furtou a coroa!...

— Miserável! — rugiu o príncipe, avançando para ele, tomado de súbito acesso de cólera. — Como deixou perder-se a mais rica jóia de meu tesouro? — e deu-lhe uma cetrada na cabeça.

Foi um rebuliço. A corte debandou apavorada. Todos sabiam que quando o príncipe surrava alguém com o cetro era sinal de fim do mundo, pior que tempestade em alto mar. Narizinho e seus companheiros acharam melhor debandarem também. Saíram dali correndo e chegaram pingando ao sítio de dona Benta. Assim que pararam para tomar fôlego, Emília voltou-se para a menina e disse:

— Eu vi, Narizinho! Juro que vi! Foi Rabicó quem comeu a coroa do príncipe!...

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Continua... Aventura do Príncipe – I – O Gato Félix

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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