Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Teófilo Braga (Contos Tradicionais do Povo Português) O Mágico

Recolhido no Algarve

Havia numa terra um homem entendido em artes mágicas, que nunca queria tomar criado que soubesse ler para lhe não apanhar o segredo dos seus livros. Foi um moço oferecer-se dizendo que não sabia ler, e assim ficou-o servindo, e leu todos os livros da livraria do mágico, e quando já podia competir com ele, fugiu com todos os livros. Um dia o discípulo achou-se mestre e quis viver das suas artes; disse a um criado que fosse à feira vender um lindo cavalo que devia de estar na estrebaria, disse-lhe o preço, e ordenou-lhe que assim que o vendesse lhe tirasse logo o freio.

À hora da feira o criado foi à estrebaria e lá achou um lindo cavalo e partiu com ele para o mercado. Estava na feira o mágico que tinha sido roubado, e conheceu logo debaixo da forma do cavalo o seu antigo discípulo; foi ajustar o preço, pagou a quantia tão depressa, que o criado se esqueceu de tirar o freio ao cavalo. Quando o quis fazer já não foi possível, porque o mágico disse que o contrato estava fechado desde que lhe entregara o dinheiro. O mágico levou o cavalo para casa, muito contente por se poder vingar à vontade do seu inimigo que lhe tinha roubado toda a sua sabedoria. De uma vez disse ao criado que fosse à ribeira levar o cavalo a beber, mas que não lhe tirasse o freio. O cavalo andava muito triste, cheirava a água mas não bebia; o criado lembrou-se de lhe tirar o freio, pensando que ele assim beberia. De repente o cavalo transforma-se numa rã, e some-se pela água. O mágico que estava à janela de sua casa viu aquilo, e transformou-se em um sapo, para ir apanhar a rã. O discípulo, que sabia a sorte que o esperava se tornasse a cair em poder do mestre, transformou-se em uma pomba, e voou, voou por esses ares; o mágico transformou-se em um milhafre, e correu atrás da pomba para tragá-la.
   
Lá ia muito cansada a pomba, e quase que estava para ser agarrada, quando viu uma princesa que estava em um terraço, e foi-lhe cair no colo, transformando-se em um anel de grande preço. A princesa pasmada com o que viu, e com a lindeza da joia, meteu-a no dedo; o mágico, viu que nada podia fazer, e como ainda estava na forma de milhafre entra pelo quarto do rei dentro e bota-lhe um cabelo no copo de leite que ele estava para beber. O rei, já se sabe, teve uma grande doença, foram chamados todos os médicos, mas nenhum era capaz de o curar; o mágico apareceu sob a figura de médico e prometeu dar saúde ao rei, mas só se lhe desse o anel que a princesa trazia no dedo. O rei disse que sim; então o anel transformou-se em um lindo rapaz e pediu à princesa que quando o rei lhe mandasse entregar o anel ao mágico, que lho não desse na mão, mas que o atirasse ao chão, para ele o levantar. O rei passados dias ficou bom, e assim que o médico veio à corte, pediu o anel; o rei chamou a filha e disse que lhe entregasse o anel.

A princesa mostrou-se triste mas obedeceu; tirou o anel e deitou-o ao chão, como se estivesse zangada. O anel transformou-se em uma romã que toda se esbagaçou pela sala; mas o mágico mudou-se em galinha, e num instante foi engolindo todos os grãos. Ficou um único grãozinho de trás de uma porta, e esse transformou-se numa raposa, que se atirou à galinha e a comeu num instante. A princesa ficou muito pasmada com aquilo, e pediu à raposa que se tornasse em príncipe que casaria com ele. E ele assim fez e foram muito felizes.

Fonte:
Contos Tradicionais do Povo Português

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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