Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Jangada de Versos do Ceará (8) Nilto Maciel

NILTO MACIEL
Baturité, 1945


DOMADOR

E essa cabeça dura,
teimosa, olhando além do lombo,
esses pés inquietos,
sofridos, pisando em brasa,
esse corpo pesado,
dormente, retorcendo-se na cama.

De que adianta
escancarar a boca,
como porta de igreja,
se dentro a descrença
bate contra o teto,
desassossegado morcego?

 Se não é possível
bordejar de novo
o primeiro gemido,
quando essa palavra torpe
não passava de invenção
de menino-prodígio?

 Calo-me, feito um bode mudo
que não esqueceu de remoer
as próprias vísceras,
teimosas, presas aos dentes.

E mordo o travesseiro
– animal travesso –,
chuto a sombra
– doido varrido –,
aperto a cabeça
para domar essa coisa
que me atravessa a vida
como a ferrugem da faca.

INSÔNIA

Foge, demônio secular, maldito,
deixa dormir serenamente e só
este menino de ilusões refeito,
deixa-o sonhar seus anjos coloridos.

 Pela janela deste quarto foge,
invade a noite e seu silêncio breve,
e esquece este menino sonhador,
que se deitou para sonhar comigo.

 Arreda, pois este inocente ser
feito de fantasia é bem capaz
de te domar, de te fazer dormir.

 É bem capaz de transformar-te, e já,
num anjo bom, numa mulher, talvez,
e se perder contigo em sonhos maus.

IMAGENS

Eu olhava para a Lua
e via São Jorge
e um dragão em luta.
Faz tanto tempo aquilo
que ate penso
ser nova a lua de agora.

Olho de novo para o céu.
Há nuvens, muitas nuvens,
como se fosse desabar
uma tempestade.
E faz frio, muito frio,
ao meu redor.

 É como se a lua fosse
uma imagem
dentro de outra imagem.
E eu a imagem
da grande imagem
de mim mesmo.

CONTEMPLAÇÃO

Para além daquelas escuridões,
cobras destilam veneno
e se entre-devoram.
Horror!!!

 A beira do precipício,
sondo-me.
Eu, o mais próximo de mim,
pouco me vejo,
tão insondável me sinto..

 O meu abismo sou.

O TEMPO

Não passa o tempo lento
que a gente nunca vê.
É como o vasto vento
que passa na tevê.

 Frio cedo fazia,
faz agora calor.
Antes tudo doía,
já nem me dói a dor.

 Tempos idos sonhei,
ninguém me viu sonhar.
Hoje, que me acordei,
não sei como acordar.

 Faz anos fui nascer.
Ninguém me percebeu.
O destino a não ser,
e eu mesmo, apenas eu.

 O tempo corre, corre,
e desce, sobe, desce,
e, enquanto a gente morre,
ele desaparece.

INDEFINIÇÃO

O homem não é sua sombra
por mais que assim queira a luz.
Nem o cachorro sarnento
é sua pálida sombra.
Nem a mais cálida árvore
é sua sombra soberba.

 Não são os contornos do homem
a sua essência, sua alma,
e muito menos seu todo.
Há, entre a luz penetrante
e a rarefeita e delgada
sombra estendida, o cachorro,
a imóvel árvore presa,
há o homem livre e liberto.

 Há no princípio luz-alfa,
como há no fim sombra-ômega.
A própria morte talvez,
ou sua véspera vil.
E aquele homem mortal
antes da sombra dá luz.

ALMA

Ó meus amigos
que rimos e choramos solidários:
noss'alma triste não vale a tristeza,
nem a alegria que trazemos nela.

 Noss’alma não vai além da vida,
por mais que dure a inocência
ou a dor de ser mortal, de carne feito.

Nossa pequenina alma
não cabe sequer dentro da lágrima
ou do brilho dos olhos de quem ri.

 Nossa alma, meus amigos,
é o desespero vão
de não podermos rir do próprio fim.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Navegador: poemas. Brasília: Editora, 1996.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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