quarta-feira, 29 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 24 *


Os aplausos me arrebatam!
Mas perdem toda a valia
quando os meus olhos constatam
tua poltrona vazia...
Almira Guaracy Rebelo
Belo Horizonte/MG
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Se há pedras na encruzilhada
do sucesso que procuras,
faze dela uma escada
para galgar as alturas
Antonio Valentim Rufatto
Bauru/SP
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Vou, saudoso e abandonado,
tão sozinho pela rua.,,
Meu olhar, enfeitiçado,
busca teu rosto na rua.
Auxiliadora de Carvalho Lago
Belo Horizonte/MG
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Querendo o mundo alegrar,
Deus juntou perfumes, cores,
e, para o poeta sonhar,
sorrindo criou as flores...
Célia Martins
Bauru/SP
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- "Onde está a felicidade?"
E sinto ouvir do Senhor:
" -Onde existir igualdade...
- e aonde existir o amor!"
Giovana Campos de Oliveira
Bauru/SP
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Das mensagens que mandaste
o tempo apagou as linhas,
mas lembranças que deixaste
jamais se apagam, são minhas...
Graziella Lydia Monteiro +
Belo Horizonte/MG
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Eis um conselho eficaz
que proclamo com fervor:
somente se encontra a paz
pelos caminhos do amor!
Hélio de Aguiar
Bauru/SP
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Um grande amor não se esquece!
Nada no mundo o destrói!...
- Quanto mais longe, mais cresce!
- Quanto mais perto, mais dói!
Helvécio Barros +
Bauru/SP
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No brilho do sol ardente,
que expressa tanta alegria,
eu faço do amor ausente
a volta da fantasia.
Ieda Marine Souza Oliveira
Belo Horizonte/MG
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Nossa vida é dom divino,
cabe-nos cuidá-la bem
com amor e muito tino;
vivenciá-la também...
Irma Rangel Martins
Bauru/SP
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Sem alarde, sem barulho,
procuro um mundo perfeito...
Não deixo que o véu do orgulho
cubra a humildade em meu peito.
Ivone Taglialegna Prado
Belo Horizonte/MG
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Canta, canta o bem-te-vi
procurando por seu par.
Por que eu nunca me atrevi
cantar para te encontrar?
José Marques
Bauru/SP
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Na estrada, a perder de vista,
não vou caminhando a esmo,
cada passo é uma conquista
para o encontro de mim mesmo.
José Roberto Pereira de Souza
Bauru/SP
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Para o encontro da esperança,
eu procuro, num segundo,
ser apenas a criança
que acreditava no mundo.
José Valeriano Rodrigues +
Belo Horizonte/MG
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Nos momentos de incerteza,
eu renovo a confiança
de transformar a tristeza
em motivo de esperança.
Lucília Cândida Sobrinho
Belo Horizonte/MG
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"O que machuca é a saudade";
é o que todo mundo diz -
Só não a sente, em verdade,
alguém que não foi feliz...
Lucy Rangel Fraga +
Bauru/SP
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Se tens culpa, nunca apontes
com teus dedos a ninguém.
Existem dedos aos montes
a te apontarem também.
Lucy Sother de Alencar Rocha +
Belo Horizonte/MG
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Encanto maior não há
que a pureza da criança
soletrando o beabá
na cartilha da esperança.
Luzia Aparecida João
Bauru/SP
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Uma lágrima sentida,
um sorriso, um bem-querer,
são detalhes de uma vida
que vale a pena viver!
Maria Dolores Paixão Lopes +
Belo Horizonte/MG
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Saudade! Guardo-a num lenço
que um dia orvalhei de pranto...
Tem o perfume do incenso:
misto de amargo e de santo!
Martinho de Abreu Carvalho +
Bauru/SP
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Sou poeta e trovador,
componho lodos os dias,
cantando alegria e dor
no compasso da Poesia.
Nelson Coimbra +
Bauru/SP
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Da placidez dos teus olhos,
negros como a escuridão,
encontrei, vencendo escolhas,
meu porto de salvação
Nidoval Reis +
Bauru/SP
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Toma o lenço. Enxuga o pranto...
Ninguém precisa saber
que, por amor, sofres tanto
e que eu te faço sofrer...
Pedro Coltro +
Bauru/SP
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Estamos nós dois juntinhos,
olhando o tempo passar,
felizes, nós dois, velhinhos.
que ainda somos um par!...
Perez Filho +
Bauru/SP
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É do romance envolvente
entre a terra e o lavrador
que a esperança da semente
se torna seara em flor.
Relva do Egypto Rezende Silveira
Belo Horizonte/MG
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Quando eu te encontrei na vida
vinha calmo e consolado:
e agora levo, querida,
o amor e a dor a meu lado
Rodrigues de Abreu +
Bauru/SP
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O dia estava passando
num silêncio tão profundo,
que escutei Deus conversando
do outro lado do mundo!...
Ronaldo Benevenuto +
Bauru/SP
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São testemunhas caladas
do nosso amor e carinho
as duas letras bordadas
no velho lençol de linho.
Thereza Costa Val +
Belo Horizonte/MG
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A vida nos faz promessas
de amor, sucesso, dinheiro;
nunca se sabe qual dessas
é descumprida primeiro...
Vânia Maria Menezes de Figueiredo
Bauru/SP
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Fonte:
Colaboração de Carolina Ramos.
Carolina Ramos (org.). A Trova: raízes e florescimento. Santos/SP: 3D Stúdio, 2013.

Raquel Pivetta (A família do século XXI)


A sociedade mudou. As famílias que eram tradicionalmente formadas pelo modelo nuclear (casal com filhos) estão ganhando novas configurações. É casal que não quer ter filho, é filho que não quer casar, é casal sem filhos que adota um animal de estimação, é família monoparental, é família reconstituída, é casal de pessoas do mesmo sexo, e assim são formadas as famílias modernas.

Atrelada a essa variedade de arranjos, uma realidade inevitável: famílias cada vez mais enxutas. Segundo o Censo do IBGE de 2022, a família brasileira encolheu, em média, para menos de três pessoas por domicílio.

Diante desse novo cenário de diversidade e flexibilidade, não dá para continuar com a mesma mentalidade de décadas atrás. Já deu para perceber que a sociedade está em constante movimento. É dinâmica. Muda em virtude de uma interação complexa de fatores econômicos, sociais, políticos, tecnológicos. É a mulher conquistando o mercado de trabalho, é o aumento do custo de vida, é a mudança nas normas e nas legislações de família, é a facilidade de acesso a informações.

Então, é preciso estar atento e adaptável às mudanças de tempo, às marés de transformação que movimentam a sociedade. É preciso compreender e aceitar esses fenômenos, sob pena de ser arrastado pelas ondas enquanto está mergulhado na inércia; ou, o que é pior, enquanto espera na fila do orelhão, impaciente, como este sujeito aí:

— Mas que canseira… — murmura seu Constantino. — Essa fila que não anda!

O tempo não para, o tempo corre, o tempo muda, o sol ressurge, e o seu Constantino se mantém estático na fila do orelhão, esperando a sua vez.
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RAQUEL MACHADO PIVETTA é uma cronista, revisora de textos e analista de sistemas contemporânea. Diferente de nomes canônicos e históricos do Modernismo (como Cecília Meireles), ela representa uma vertente de autores independentes que conciliam com maestria carreiras na área de tecnologia e exatas com a sensibilidade da escrita literária e o amor pela língua portuguesa. Vive e atua em Brasília. Graduou-se em Análise de Sistemas pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Especializou-se em Sistemas Orientados a Objetos pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Possui ampla experiência prática na área técnica, trabalhando com ferramentas de Business Intelligence (BI), Data Studio e Power BI. Unindo a lógica da tecnologia à paixão pela linguagem, buscou formação especializada e concluiu pós-graduação em Revisão de Texto também pelo UniCEUB. É a idealizadora e fundadora do portal e perfil intelectual Viva Gramática. O espaço nasceu do desejo de criar um ambiente digital leve para discutir a norma culta, compartilhar artigos, dicas de português e crônicas autorais fora dos moldes rígidos das gramáticas tradicionais.
Dedica-se predominantemente à crônica e a contos curtos. Sua escrita é marcada pelo tom confidencial, pelo uso de ironias finas e pela observação minuciosa do cotidiano, abordando a maturidade, as relações humanas e dilemas modernos. É vinculada ao ecossistema da Plataforma de Escritores iniciativa ligada ao programa Formação de Escritores e Oficinas de Escrita Criativa). Por ser uma autora contemporânea focada em publicações digitais, jornalísticas e independentes, Raquel não pertence às academias tradicionais de letras (como a ABL) e não possui registros de prêmios literários institucionais de grande porte históricos. Sua validação ocorre diretamente por meio de leitores digitais e coletividades literárias modernas.
É autora da obra Crônicas agudas, café sem açúcar e outras ironias, coletânea que sintetiza seu estilo literário focado em extrair humor e verdades das rotinas cotidianas; Crônicas Notórias: Entre seus textos amplamente divulgados em seu portal e redes estão: "A sina de Sara" (uma releitura contemporânea do clássico conto "Um homem célebre", de Machado de Assis); "Fogacho coletivo" (uma reflexão bem-humorada sobre a chegada aos cinquenta anos e a quebra de tabus femininos); "Ele tem suas virtudes"; "Só se for...".
A relevância de Raquel Pivetta reside em mostrar que as barreiras entre a lógica da computação e a sensibilidade da escrita criativa são perfeitamente transponíveis. Ela representa a nova geração de produtores de conteúdo que utiliza plataformas digitais para democratizar o acesso à boa literatura e ao uso correto da língua. Sua contribuição literária se dá na preservação da crônica — um gênero tipicamente brasileiro — adaptado aos tempos de redes sociais, provando que reflexões profundas e humor inteligente ainda encontram espaço em meio ao imediatismo da internet.

Fontes:
Viva Gramática. 09.12.2023
https://vivagramatica.com.br/a-familia-do-seculo-xxi/
Biografia: Viva Gramática, Plataforma de Escritores, Escrita Criativa, etc.

Cecília Meireles (A quinhentos metros)


A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!), mas, a quinhentos metros, tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa – e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.

Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, – bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas, para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para o outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista.

É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos chamásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas, que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram?

Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, com a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos dizer que existe. É como, nos mapas, o desenho de um rio que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos.

A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… – É assim em quinhentos metros!
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CECÍLIA BENEVIDES DE CARVALHO MEIRELES foi uma das mais importantes escritoras e poetas do Brasil, amplamente reconhecida como a voz feminina mais expressiva da segunda geração do Modernismo brasileiro. Marcou a história do país não apenas pela profundidade de seus versos metafísicos, mas também por sua atuação pioneira na educação e no jornalismo cultural. Nasceu em 1901, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1964 (aos 63 anos), vítima de câncer. Órfã de pai antes de nascer e de mãe aos 3 anos, foi criada por sua avó materna açoriana, Jacinta Garcia Benevides. Passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro (inclusive residindo no bairro do Cosme Velho). Devido ao seu prestígio intelectual, passou temporadas no exterior dando palestras e cursos, como na Universidade do Texas (EUA), além de viajar por Portugal, Índia, México, Israel e outros países das Américas. Formou-se professora primária em 1917 pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Lecionou no ensino básico e, mais tarde, foi professora de Literatura Luso-Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Em 1934, fundou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do Brasil. O espaço acabou fechado anos depois pela censura do regime de Getúlio Vargas. Escreveu intensamente sobre educação e cultura para jornais como o Diário de Notícias e produziu crônicas para programas da Rádio MEC e Rádio Roquette-Pinto.
Cecília estreou na literatura aos 18 anos com o livro Espectros (1919). Embora tenha surgido na época do Modernismo, sua poesia possuía características muito singulares. Teve forte influência do Simbolismo e Neosimbolismo (através do grupo da Revista Festa). Seus temas centrais giravam em torno da efemeridade do tempo, a solidão, a melancolia, a transitoriedade das coisas, o misticismo e a busca espiritual. Destacou-se pela musicalidade rigorosa e pelo uso de sinestesia (mistura de sentidos) em seus versos. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Cecília Meireles não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva — as mulheres só foram admitidas na instituição a partir de 1977. Contudo, manteve uma relação próxima com a ABL, que reconheceu oficialmente sua genialidade por meio de prêmios máximos. Ela fez parte de comissões de folclore e agremiações culturais pelo mundo. Prêmio de Poesia Olavo Bilac (1939) – Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo livro Viagem (foi a primeira mulher a receber uma distinção desse nível pela instituição). Título de Doutora Honoris Causa (1953) – Concedido pela Universidade de Délhi (Índia) em reconhecimento à sua relevância literária e traduções da obra de Rabindranath Tagore. Prêmio Jabuti de Poesia (1943/1964) – Pelo livro Solombra. Prêmio Machado de Assis (1965) – Concedido postumamente pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Cecília publicou mais de 50 obras ao longo da vida, englobando poesia, crônicas e literatura infantil:
Poesia Lírica/Metafísica: Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto (1945).
Obra-Prima Histórica: Romanceiro da Inconfidência (1953), um longo poema épico-narrativo que recria a história da Inconfidência Mineira com lirismo impecável.
Literatura Infantil: Ou Isto ou Aquilo (1964), um clássico absoluto da poesia para crianças, que explora a sonoridade e o lúdico sem o tom moralista da época.
Cecília rompeu barreiras em um cenário literário majoritariamente masculino, consolidando-se pelo puro rigor técnico e estético, sem precisar se prender a panfletarismos. Ela rejeitava o termo "poetisa" por considerá-lo segregador, definindo-se simplesmente como "poeta". Enquanto o Modernismo de 1922 buscava romper radicalmente com o passado, Cecília uniu a liberdade moderna com a tradição clássica e a musicalidade simbolista, criando um estilo único e atemporal. Foi responsável por humanizar o livro didático e a poesia infantil no Brasil, tratando a criança como um ser poético e inteligente. Sua poesia trata de dores humanas universais — o tempo que passa, a perda, o sonho —, o que faz com que sua obra continue atual, viva e traduzida no mundo inteiro.

Fontes:
Cecília Meireles, Rubem Braga, Fernando Sabino e Manuel Bandeira. Quadrante 1. Editora do Autor, 1962.
Biografia = Prefeitura Municipal de Caraguatatuba, de São Paulo, Brasil Escola, Wikipedia, Toda Materia, Grupo Ediotorial Global, Ebiografia, Museu da Educação, etc.

Interlúdio * 11 *



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JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Nelson Rodrigues (Terreno Baldio)


Ah, como é falsa a entrevista verdadeira! Não sei se me entendem. Eis o que eu queria dizer: — trabalho em jornal desde os treze anos e tenho 55 anos. Façam as contas. São 42 anos. Depois de 42 anos de redação, o sujeito acumulou uma experiência em nada inferior às obras completas de William Shakespeare. Posso ir à boca de cena, alçar a fronte e anunciar para a plateia: — “Eu vi tudo e sei tudo”. Não vejam imodéstia nas minhas palavras. Qualquer repórter de polícia, em fim de carreira, terá a mesmíssima vidência shakespeariana. O mérito não é nosso, mas estritamente profissional. E, depois de 42 anos de vida jornalística, posso repetir: — nada mais cínico, nada mais apócrifo do que a entrevista verdadeira.

Não me esquecerei nunca do meu primeiro entrevistado. Se não me engano, era o diretor da Casa da Moeda (ou seria da Imprensa Nacional?). Mas não importam os títulos do homem, nem suas funções. O entrevistado é sempre o mesmo, variando apenas de terno e de feitio de nariz. No mais, há uma semelhança espantosa. Nem importa o assunto. Seja batalha de confete, ou Hiroshima, um cano furado ou os Direitos do Homem. O que vale é o cinismo gigantesco. O sujeito não diz uma palavra do que pensa, ou sente. E o pior é o gesto, é a ênfase, é a inflexão. O diretor da Casa da Moeda, que também podia ser da Imprensa Nacional, recebeu-me no seu gabinete. Falou uma hora, ou mais. Hora e meia. Mas fosse um Bismarck e daria no mesmo. Ele se perfilava para falar, como se a sua palavra fosse o próprio Hino Nacional.

Fiz outras entrevistas, centenas, dezenas de entrevistas. E todas me deixaram a mesma sensação de cinismo. No fim de alguns anos, eis a minha certeza definitiva, inapelável: — ninguém devia ser entrevistado, nem os santos. Até que, um dia, na crônica, ocorreu-me a ideia das “entrevistas imaginárias”. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. Fascinou-me a “entrevista imaginária”. Precisava, porém, arranjar-lhe uma paisagem. Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências. Restava o problema do horário. Podia ser meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Nada do que se diz, ou faz, à meia-noite, é intranscendente. Boa hora para matar, para morrer ou, simplesmente, para dizer as verdades atrozes.

Fiz “entrevistas imaginárias” com jogadores, dirigentes de futebol, literatos. Ainda anteontem, o Antonio Callado foi meu convidado no terreno baldio. Mas eu sentia, de maneira obscura, quase dolorosa, que faltava alguém no capinzal. “Mas quem?” — eis o que me perguntava. — “Quem?” E, súbito, um nome ilumina minhas trevas interiores: — “D. Hélder!”. De todos os vivos ou mortos do Brasil, era ele o mais urgente, o mais premente. E, de mais a mais, uma batina é sempre paisagística. Ontem, finalmente, houve, no terreno baldio, a “entrevista imaginária”. À meia-noite, em ponto, chegava d. Hélder. Lá estava também a cabra, comendo capim, ou, melhor dizendo, comendo a paisagem. À luz do archote, começamos a conversar.  

Primeira pergunta: — “O senhor fuma, d. Hélder?”. 

Resposta: — “A entrevista é imaginária?”. 

Acho graça: — “Ou o senhor duvida?”. 

E d. Hélder: — “Se é imaginária, fumo. Qual é o teu?”. 

Digo: — “Caporal Amarelinho”. 

Cuspiu por cima do ombro: — “Deus me livre! Mata-rato!”. 

Faço a pergunta: — “Que notícias o senhor me dá da vida eterna?”. 

Riu: — “Rapaz! Não sou leitor do Tico-Tico nem do Gibi. Está-me achando com cara de vida eterna?”. 

No meu espanto, indago: — “E o senhor acredita em Deus? Pelo menos em Deus?”. 

O arcebispo abre os braços, num escândalo profundo: — “Nem o Alceu acredita em Deus. Traz o Alceu para o terreno baldio e pergunta”. Ele continuava: — “O Alceu acha graça na vida eterna. A vida eterna nunca encheu a barriga de ninguém”.

D. Hélder falava e eu ia taquigrafando tudo. Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real. 

E disse mais: — “Vocês falam de santos, de anjos, de profetas, e outros bichos. Mas vem cá. E a fome do Nordeste? Vamos ao concreto. E a fome do Nordeste?”. 

Não me ocorreu nenhum outro comentário senão este:  — “A fome do Nordeste é a fome do Nordeste”. 

D. Hélder estende a mão: — “Dá um dos teus mata-ratos”. 

Acendi-lhe o cigarro.  

D. Hélder não pára mais: — “Diz cá uma coisa, meu bom Nelson. Você já viu um santo, uma santa? Por exemplo: — Joana D’Arc. Já viu a nossa querida Joana D’Arc baixar no Nordeste e dar uma bolacha a uma criança? As crianças lá morrem como ratas. E o que é que esse tal de São Francisco de Assis fez pelo Nordeste? Conversa, conversa!”.

Lanço outra isca: — “É verdade que o senhor vai para o Amazonas?”. 

Riu: — “Onde fica esse troço? Ó rapaz!  Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão? E o Amazonas é terra de jacaré. Tenho cara de jacaré?”. 

Concordo em que ele não tem nenhuma semelhança física com um jacaré. Indago: — “E o comunismo?”. 

D. Hélder conta: — “Quando estive nos Estados Unidos, bolei um cartaz assim: O arcebispo vermelho! Era eu o arcebispo vermelho, eu!”. 

Insinuei a dúvida: — “Mas esse negócio de comunismo é meio perigoso”. 

Nova risada: — “Perigosa é a direita. A direita é que não dá mais nada. O arcebispo vermelho fez um sucesso tremendo nos Estados Unidos”.

Pede outro cigarro. Fez novas confidências: — “Sou homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do Sobrenatural. Fui um santo. É o que lhe digo: — cada época tem seus padrões. Benjamim Costallat, no seu tempo, era o Proust. O Charleston já foi a grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem da vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costallat, nem o Charleston. Entende? É Guevara. O santo é Guevara. E acompanho a moda”. 

Desfechei-lhe a pergunta final: — “E a Presidência da República?”. 

D. Hélder respira fundo: — “Depende. A fome do Nordeste é o barril de pólvora balcânico. Fome, mortalidade infantil, muita miséria e cada vez maior. Chegarei lá”. 

Era o fim da “entrevista imaginária”. 

Despedi-me assim: — “Até logo, presidente”. 

Respondeu: — “Obrigado, irmão”. 

E antes de partir fez a última declaração: — “Olha, as donas de casa têm uma simpatia para curar dor de barriguinha em criança. Acredito mais na simpatia do que na ressurreição de Lázaro”. 

Disse isso e sumiu na treva.
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NELSON FALCÃO RODRIGUES foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas e escritores do Brasil, revolucionando o teatro nacional com seu estilo provocativo e realista. Nasceu em 1912, no Recife (PE) e faleceu em 1980, no Rio de Janeiro (RJ), aos 68 anos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916, quando tinha quatro anos. Viveu na zona norte carioca, em bairros como Aldeia Campista e Tijuca, locais que serviram de cenário e inspiração para suas futuras obras de "crônicas de costumes". Começou a trabalhar aos 13 anos como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã. Inovou o jornalismo de futebol, trazendo drama e paixão para as crônicas esportivas. Escreveu para grandes jornais como O Globo, Última Hora e Manchete Esportiva.
É considerado o pai do teatro moderno brasileiro. Sua importância reside na ruptura com o teatro clássico e na introdução do subconsciente humano nos palcos, misturando tragédia, obsessões e o cotidiano da classe média. Ele dividiu sua própria obra teatral em três categorias: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
Não pertenceu à Academias, costumava ironizar as formalidades acadêmicas. Recebeu o Prêmio de Teatro do PEN Clube do Brasil e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Sua produção literária abrangeu o teatro, romances e crônicas:
Mulher sem Pecado (1941) – Estreia no teatro; Vestido de Noiva (1943) – O grande marco do teatro moderno; Álbum de Família (1946) – Teatro; A Falecida (1953) – Teatro; Beijo no Asfalto (1960) – Teatro; Toda Nudez Será Castigada (1965) – Teatro.  
Romances e Crônicas: Meu Destino é Pecar (1944) – Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag; Asfalto Selvagem / Engraçadinha (1959); A Vida Como Ela É... (1961) (Coletânea de crônicas publicadas originalmente no jornal).

Fontes:
Nelson Rodrigues. A cabra vadia. Publicado em 1970. A crônica aparecera anteriormente no jornal carioca Correio da Manhã, em 1967.
Biografia – Wikipedia, Teatro Limeira, Ebiografia, Renato Essenfelder, Jornal da USP, Museu do Futebol, Folha de São Paulo, Itaú Cultural, et

Hans Christian Andersen (A sopa de espeto) Parte 2


FALA A SEGUNDA RATINHA

   - Nasci na biblioteca de um palácio - começou ela. - Eu e meus parentes não conhecemos o luxo de entrar em uma sala de jantar, e menos ainda em uma despensa. Só vi uma cozinha uma única vez, nesta viagem que fiz, e agora vejo esta. É certo que na biblioteca sofremos muitas privações, e até fome passávamos de vez em quando, mas também adquirimos muitos conhecimentos. A notícia da recompensa real, oferecida a quem fizesse a sopa de espeto, chegou até lá. Minha avó foi logo examinar um manuscrito; ela não sabia ler, é claro, mas ouvira alguém ler nele esta passagem: "Um poeta é capaz de fazer sopa até de um espeto".

    " Perguntou-me se eu sabia fazer versos. Disse-lhe que era completamente ignorante nesse assunto; mas a avó insistiu, dizendo que eu devia procurar os meios de ficar poetisa. Perguntei-lhe como havia de consegui-lo, pois era tão difícil, para mim aprender a ser poetisa como a fazer a sopa. Mas minha avó tinha ouvido ler muitos livros, e explicou-me que três coisas eram imprescindíveis: inteligência, imaginação e sentimento. E terminou assim: " Se conseguires meter essas três coisas no bestunto, serás poetisa, e então essa história de sopa de espeto te virá naturalmente, por si mesma.

   " E assim foi que saí a correr mundo, para ser poetisa. E dirigi-me para o lado do oeste.

   " Sabia que dos três requisitos a inteligência era considerada como o mais importante. Sim, mas onde encontrá-la? "Dirige-te à formiga e aprenderás sabedoria" - disse o grande rei dos judeus. Aprendera isso na biblioteca. E não descansei enquanto não vi um grande formigueiro. Ali chegada, parei à espreita, para me apoderar da sabedoria..

    "Constituem as formigas uma raça muito respeitável. Compreendem as coisas  sem dificuldade nenhuma. Resolvem tudo com precisão matemática - e todas as questões ficam bem esclarecidas." Trabalhar e pôr ovos - dizem elas - é cuidar da vida presente e preparar o futuro". E o que dizem, executam. Dividem-se em categorias, conforme a aptidão de cada uma para trabalhos delicados ou grosseiros. São todas numeradas, de acordo com a importância na comunidade, e a rainha tem um número um. Só o que a rainha pensa é sensato, pois que resume em si toda a sabedoria - e era muito importante para mim aprender com ela. Mas a rainha falava com tamanha profundidade e acerto, que a mim me parecia tolice tudo quanto dizia.

   " Declarava, por exemplo, que o seu formigueiro era a coisa mais elevada do mundo - e , no entanto, ali perto havia uma árvore evidentemente mais alta. E tão mais alta que não era possível negá-lo - por consequência isso jamais se mencionava. Ora, um dia, já ao escurecer, uma formiga extraviou-se e subiu ainda assim aonde nenhuma outra chegara jamais. Quando voltou e contou que descobrira uma coisa mais alta do que o próprio formigueiro, as outras formigas consideraram essas palavra como insultuosas, e ela foi amordaçada e condenada a prisão perpétua. Alguns dias depois outra formiga subiu à mesma árvore e fez a mesma descoberta; mas essa falou do caso com muitas reticências prudentes, com certo receio mesmo. Era, além disso, uma formiga da aristocracia - uma das que se encarregavam de tarefas limpas. Deram-lhe, pois inteiro crédito, e quando ela morreu erigiram-lhe um monumento de casca de ovo, em sinal de admiração, e de apreço ao seu amor pela ciência.

   " Vi muitas vezes as formigas andando daqui para ali com seus ovos ás costas. Uma delas um dia deixou cair o que levava, e, por mais esforços que fizesse, não conseguia erguê-lo de novo. Acudiram então duas outras; mas quando viram que iam quase deixando cair os seus fardos naquela tentativa, desistiram de lhe prestar auxílio, porque a caridade bem entendida começa por casa. A rainha declarou que ambas, neste caso, tinham dado prova não só de coração, como de inteligência.

   " - Essas duas virtudes - explicou ela - colocam as formigas acima de todos os outros seres racionais. Mas a inteligência é e será sempre o mais importante atributo, e eu o possuo em maior grau que qualquer outra criatura.

   "Ao dizer isso, ergueu-se sobre as patas traseiras, para que todos vissem bem que era a rainha que estava falando. Sim, eu vi bem quem era ela e estirei a língua: comi-a. "Dirige-te à formiga e aprenderás a sabedoria". Pois bem: eu já tinha engolido a rainha.

   "Aproximei-me então da árvore que já me referi. Era um carvalho de tronco enorme e copa vastíssima e frondosa. sabia que ali devia albergar-se um desses espíritos viventes a que chamam dríades, que nascem com a árvore e com ela morrem. Ouvira dizer isso na biblioteca, e agora via diante de mim uma árvore dessas, com um desses espíritos. A ninfa estremeceu, apavorada, ao ver-me tão perto, porque, como outras mulheres tem um medo pavoroso de ratos. Contudo o seu receio tinha mais fundamento, pois sabia que eu podia roer a casca da árvore de que dependia sua vida. Falei-lhe em tom cordial e palavras amistosas, e disse-lhe que nada a tinha a recear.

  "Segurou-me então nas mãos delicadas, e, quando a inteirei do motivo de minha viagem pelo vasto mundo, disse-me que talvez naquela mesma noite me fosse dado encontrar uma ou duas das virtudes que procurava com tanto empenho. Contou-me que Fantásio era um de seus bons amigos, belo como o deus do amor, e que muitas vezes vinha repousar na copa da árvore, cujos galhos ciciava, então mais suavemente sobre as suas cabeças. Chamavam-lhe a sua dríade, e  à árvore também chamava sua, porque queria bem aquele esplêndido carvalho. Gostava de suas riquezas, que desciam tão profundamente, tão firmemente, terra dentro: e do tronco que se erguia tão alto que podia sentir a neve que cai, e o vento que sopra, e o sol ardente, como devem se sentidos - em toda a sua plenitude.

    " - Sim - continuou a dríade - os passarinhos que pousam na copa contam coisas de terras distantes. E a cegonha que fez ninho no único galho seco, dando assim à árvore um caráter pitoresco, fala-me da terra das pirâmides. Fantásio gosta de ouvir tudo isso, mas ainda não lhe basta, e eu tenho de lhe contar a minha vida na floresta, desde o tempo em que eu era pequenina, e a árvore tão delgadinha que uma urtiga bastava para lhe dar sombra - até os dias de agora, em que o carvalho alcançou esta robustez e força. Senta-te debaixo daquela moita de tomilho, e presta atenção. Quando arrancar uma pena, uma peninha pequenina. Apanha-a. Um poeta não pode receber maior dom. E é isso justamente que precisas.

   " Quando veio o Fantásio a pena lhe foi arrancada, e eu apanhei. mergulhei-a na água, para amolecê-la. Pois assim mesmo não me custou pouco engoli-la! Mas afinal conseguiu mordiscá-la e roê-la. Não! não á nada fácil a gente ficar poetisa, tendo de se empanturrar com tanta coisa!

   " Tinha eu pois agora inteligência e imaginação cá dentro; por elas soube que a terceira virtude se encontrava na biblioteca. Porque um grande homem disse e escreveu que há romances no mundo que tem o único propósito de aliviar as pessoas de suas lágrima supérfluas. Romances que fazem o papel de esponjas -absorvem as emoções. Vieram-me à memória alguns que vira, e que sempre me pareceram especialmente apetitosos de tão velhos, e tão manuseados, e estavam completamente engordurados. Deviam ter absolvido quantidade incalculável de lágrimas! Voltei à biblioteca e devorei uma novela inteira - quero dizer, aquela parte macia e substancial: a casaca, isto é, a encadernação, não comi. Digerida aquela novela, e mais outra que também engoli, senti uma agitação interior. Devorei ainda terceira novela, e então...sim! Era poetisa! Foi o que disse comigo mesma, e o que repeti a quem me quis ouvir. Tinha enxaqueca, sentia dores no estômago...nem me lembro mais de quanta dores diferentes senti então.

    " Fiquei-me a pensar em todas as histórias que a gente pode fazer para aplicar a um espeto. Vieram-me à lembrança muitas espécies da varas - que afinal o espeto não passa de uma vara, seja de pau ou de ferro. Que magnífica inteligência do homem que engoliu um espeto. Daquele outro que tirava da boca uma varetinha branca e ficavam logo invisíveis - ele e a vareta. Lembrei-me também das varetas de guarda-sol; das espingardas; e também nos pergaminhos de sapateiro, que são, por sinal, de pau. E afinal me lembrei de que " em casa de ferreiro o espeto é de pau". Todas as minhas ideias iam sempre acabar num espeto. É que quando a gente é poetisa - como eu sou, porque trabalhei como louca para consegui-lo - pode virar tudo isso em assuntos de poemas. E assim cada dia poderei distrair Vossa Majestade com um espeto diferente, isto é, com uma história  diferente. Sim - esta é a minha sopa".


   - Vamos ouvir o que diz a terceira - ordenou o rei.

   Ouviu-se então um ruído, vindo da porta da cozinha.

  - Cuic, cuic!

   E a quarta ratinha - aquela que era dada por morta - entrou como uma flecha, chiando, e deitou ao chão o espeto coberto de crepe. Correra a noite e dia, e quando viu que se arriscava a chegar tarde, viajou até num trem de carga. Mesmo assim, quase que não chegou a tempo. Abriu caminho aos encontrões, e apresentou-se, sem muita esperança de ser bem sucedida. Perdera o espeto, mas a língua não perdera, pois tomou imediatamente a palavra, como se todos estivessem ali somente para ouvi-la - e ela e a mais ninguém - e como se nada mais tivesse importância na vida. Falou imediatamente, e disse tudo o que tinha para dizer. Tão repentina, fora a sua aparição, que ninguém teve tempo de detê-la, para que esperasse sua vez.
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Biografia do autor na parte 3, final

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1857. Disponível em Domínio Público

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Asas da Poesia * 206 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Fazer trova? Que alegria!
É poesia que se injeta
na veia da fantasia
da inspiração do poeta.
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Poema de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Vivendo um Mundo de Ilusões

Viver num mundo feito de quimeras,   
onde o real não pode me alcançar,   
é construir castelos e esferas,   
que o vento insiste em sempre derrubar.   

Os olhos veem o que o coração deseja,   
a vida veste o ouro que não tem,   
e cada sonho, ainda que fraqueja,   
transforma a dor em algo que vai além.   

No palco falso de brilhos e miragens,   
eu danço, leve, sem medo de cair,   
pois, mesmo sendo frágeis as paisagens,   
há liberdade em poder fingir.   

As ilusões são doces, mas traiçoeiras,   
prometem tudo e nada vão deixar,   
e quando caem, deixam suas poeiras,   
que um coração ferido vai guardar.   

Mas, se o real é duro e tão escasso,   
prefiro a máscara que posso usar,   
pois, entre enganos, vivo e faço o passo,   
de quem só quer o sonho habitar.   
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Vigie seu verbo!

Precavenha-se da ação irrefletida,
deixe de maledicência contumaz;
esta, tão danosa no marchar da vida,
de você um mau-caráter ela faz.

Policie o pensamento com rigor,
analise o que você tem a dizer.
Por palavras, que não seja um infrator;
tenha calma, Deus ajuda a proceder.

Fale manso quando for dialogar, 
que seu tom de voz não seja uma barreira;
se a concórdia sempre nos cabe buscar,
por que não o fazer da melhor maneira?

Não se inflame e se contenha na eloquência,
o silêncio muitas vezes ganha a luta;
vencedor sai quem, com múltipla frequência,
fica mudo no calor de uma disputa.

Persevere com seu gênio agradável,
pois má índole só causa desatino.
Tenha em conta que um caráter responsável
traz sadia formação em seu destino.
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Trova de
PAULO CEZAR TÓRTORA
Rio de Janeiro/RJ

O meu tristonho poente
transformou-se em paraíso,
quando encontrou, de repente,
a aurora do teu sorriso.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/ RO

Mágico portal

Cintilam fagulhas na grande cortina 
que tem pendurado vistoso pingente
e bailam chumaços, a brisa envolvente 
desenha nos ares moldura divina.

A luz que atravessa a vidraça ilumina 
o riso marcado no rosto inocente,
transforma a janela em portal novamente,
o quadro resplende envolvido em neblina.

Assim, o bordado de estrelas e lua
enfeita o infinito, fascina, flutua,
profundas veredas do espírito alcança.

A noite celebra a ternura da imagem:
os sonhos alegres, pedindo passagem,
aos poucos, dominam o olhar da criança...
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Soneto de
LUCIANO DÍDIMO
Fortaleza/CE

As pedras no meio do caminho

As pedras que aparecem no caminho,
tentando atrapalhar meus pobres passos,
muitas vezes se tornam descompassos
e furam os meus pés igual espinho.

Mas não serão a causa de fracassos
as pedras desviadas com jeitinho,
se todos os percursos, esquadrinho,
eu consigo pisar em bons espaços.

Entre as pedras, encontro alguns regalos,
por isso a cada passo louvo e brindo,
são triunfos, preciso celebrá-los.

E assim, saltando pedras, vou seguindo,
calçado nas feridas e nos calos,
pois sei que no final serei bem-vindo!
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Trova de
MASSILON SILVA 
Aracaju/SE

Seu porte de realeza
e este seu dom de encantar,
igualam sua beleza
à de uma aurora polar.
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Soneto de
EDY SOARES
Vila Velha/ES

Menino de rua

Seu olhar se fechou para o mundo dos vivos,
e velório não houve, e não houve lamento...
sem um nome sequer que constasse em arquivos,
sepultaram-no, enfim, sem qualquer sentimento.

Não trazia consigo os sinais delitivos,
que se pode encontrar em um mau elemento
e se aos vícios letais, em momentos furtivos
se entregou foi, talvez, por faltar o alimento.

Ah, menino, quem sabe haja mesmo um lugar
onde quem morre aqui possa rir e brincar
sem dormir ao relento e morrer flagelado!

Seu olhar se fechou para um mundo cruel;
se ganhou um brinquedo ou um lar, foi no Céu,
pois na Terra viveu, mas  sequer foi notado!
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Trova de
GIVA DA ROCHA 
São Paulo/SP

O rosicler desta aurora
e o renascer deste sol
trazem saudade de outrora,
de um lindo e antigo arrebol!
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Soneto de
SILMAR BOHRER
Itapoá/SC

Oh! Magia

Ninguém a desafinar,
a orquestra cedo cantando,
corruíras, tico-ticos, sabiá,
joão-de-barro, bem-te-vi vibrando.

Uma sabatina em festa
então cá(aqui) amanheceu,
os passarinhos na sua gesta
dão ao mundo o que Zeus lhes deu.

Eis-me loguinho a perguntar
nesta insólita romaria
em que vamos nós a navegar,

Que outra mágica magia
haverá que se possa igualar
aos passarinhos em sinfonia.
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Soneto de
ERIGUTEMBERG MENESES
Blumenau/SC

Uma manhã

Uma manhã nascendo de uma rosa
Iluminando a doce primavera
Do rosto é a última quimera
A granjear minha alma ansiosa.

Dois sóis em vibração harmoniosa
Suspensos pelos ramos de uma hera
Do paraíso dá toda atmosfera
Dessa manhã de classe radiosa.

Um anjo incendiou-se em vertigem
E humanizou-se neste corpo virgem
A se render impávida a meus cortejos?

Em minhas mãos decai o anjo e tenho
De uma mulher em gozo todo o empenho
Da manhã orvalhada de desejos.
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Trova de
OLGA MARIA DIAS FERREIRA 
Florianópolis/SC

Albores da juventude
traçam a aurora da vida;
lentos passos, senectude
preconizam a partida.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Bem assim…

Daquele “ontem” sem vida,
restou a  triste saudade!
Essa maldita que me invadiu
o coração... num salto...
Bem sei, ele não suportará, 
tamanha e degradante 
se fez a adversidade
que dentro em  breve 
e, aos goles poucos, 
me aniquilará…
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
TELMA BRILHANTE
Recife/PE

Outono

não me sinto aquela
que se mirou no espelho
e se viu menina
as rugas precipitaram
o ocaso nebuloso
cinzento
de folhas murchas

quisera que o tempo
desvendasse todos
os segredos
e me devolvesse a paz
de que minha alma
necessita
para flutuar em mim
e me dizer aqui estou
– sempre estive -
maturando incertezas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
RICARDO CAMACHO
Rio de Janeiro/RJ

Vigília eterna

Enquanto vago numa escura bolha,
Sob o estelário deste céu profundo,
Conclamo "ó luz de prata" que me acolha,
Imerso pela insônia do meu mundo.

É madrugada! Cai mais uma folha
No chão que espelha a treva, o abismo fundo
Chamando o meu olhar sem luz e escolha,
Refém do imaginário astral, fecundo.

Acorrentado na vigília eterna,
Não sinto os passos nem a minha perna
Na escuridão que nunca vai embora...

E enquanto, no horizonte, a flor dourada
Não despontar no palco da alvorada,
Aumenta o meu desejo pela aurora.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
TELMA REGINA DA SILVEIRA NOGUEIRA 
Juiz de Fora/MG

Saudades da terra

Meus pensamentos viajam,
Ao longe vão te encontrar.
Sonhos que pela vida ecoam,
Sonhos que vou buscar

Casa pequena, mas um lar,
onde se vê o Sol nascer.
Floresta de perfume a rodear,
É essa casa que quero ter.

Meus pensamentos e ais
procuram te alcançar,
O cheiro das flores e dos currais,
cheiro da terra a cultivar

Minhas lembranças vagueiam
E me levam a escutar
Canto de pássaros e de carros de bois
Canto do caboclo a meditar.

Tudo isto são saudades.
Saudades que c bom lembrar.
E por senti-las tão forte
Pra terra eu quero voltar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
NELCI LOURDES BACK OLIVEIRA
Porto Xavier/RS

Aviãozinho de papel

Dentro da mochila
Meu aviãozinho prateado
Se torce e retorce
Com uma asa dobrada.

Desamassei a asa
Falei do luar
O aviãozinho agora
Só quer voar.

Encheu-se de alegria
Meu aviãozinho de papel
E num impulso
Subiu para o céu.

O aviãozinho prateado
Não quer mais voltar.
Para a Lua sorriu!
— Meu aviãozinho eu quero pilotar.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MAURILIO TADEU DE CAMPOS
Santos/SP

Poeta

No exílio branco
das folhas brancas
a escrita disforme
distorce, levemente,
a pena.

As dores corroídas,
contidas no silêncio,
mantidas em cada verso,
escondem a dor do poeta,
embora esteja
a descoberto, relevado
pelas forças desarmadas,
inúteis e gastas,
mantidas no cerne carcomido,
encarceradas nos porões
do coração descompassado
do trovador envelhecido.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Discreta madrugada

Horas intensas… Quando o labor se atenua,
a tarde lenta, pouco a pouco, traz benesse,
na trégua… E o pôr do sol, que encanta e desfalece,
põe noite na cidade e campo… estrada e rua.

Vestida em véu de prata, abraça a luz da lua;
nublada ou estrelada, induz à grata prece.
Na madrugada fria o orvalho se intumesce,
mas o silêncio impera e a calma se acentua.

O sono, um bem previsto e envolto em parcimônia,
às vezes, foge e deixa atrás de si a insônia
que atrai a angústia, o pranto e a mágoa, noite afora…

E a saudosista, triste e longa madrugada 
– do amor, a testemunha, “in loco,” e a mais calada –
se desvanece, toda, ante o irromper da aurora!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MÁRCIA MARIA RODRIGUES LOPES RIGATO
Promissão/SP

Deu no que deu

Embriaguei o tempo. Ou ele me embriagou?
E ficamos revirados, desmontados um sobre o outro,
Na noite que não terminou.
E rimos, rimos muito, gargalhadas de embebedados,
Sobre as trapalhadas todas, crises de identidade,
Crises sobre a idade, saudade.
Tiramos sarro na cara um do outro,
Baforadas de álcool, atiramos,
Insuportável cheiro de álcool.
Estômago e íntimo revirados,
Depois, ressaca. Arrependimento.
Fui brindar com o tempo.
Fui brincar com o tempo.
Mas ele não brincou.
Aproveitou-se do meu momento de fragilidade,
E passou sobre minhas vontades,
Dei muita chance ao tempo, muita liberdade,
Muito tempo ao tempo.
= = = = = = = = = = = = = =