Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Nilto Maciel (Hipnose)

Andrew Albee chegou a Palma numa tarde quente. Maleta à mão, desceu do ônibus. Um menino ofereceu ajuda. “O senhor vai para o hotel?” O americano perguntou onde ficava o melhor hotel. “Aqui só tem um. Ali do outro lado da praça. Hotel Canuto.”

            Após o banho, Andrew se dirigiu à sala de jantar. Pediu o menu. O hoteleiro gaguejou, andou pela sala, olhou para a hoteleira, ofereceu água e café ao visitante. “Mulher, você viu o menu?” A arrumadeira saiu em seu socorro. “Já trabalhei num restaurante na capital. Menu, cardápio, relação dos nomes dos pratos. Aqui não tem isso, né?” O hoteleiro sentou-se de novo. Não serviam jantar no hotel. Nem almoço. Porém, havia um restaurante na praça. O estrangeiro sorriu. Se a moça não se importasse, poderia fazê-la dormir naquele momento. Ela também sorriu. Ninguém a faria dormir àquele hora. “Eu não sou galinha para dormir tão cedo.” De qualquer forma, aceitou o desafio. “O senhor quer me hipnotizar, não é?”

            Cinco minutos depois do início da sessão, Maria dormia, sentada na cadeira, diante de Andrew e sob os olhares de espanto dos donos do hotel. O hóspede dava ordens e a arrumadeira obedecia. Pareceu comer um frango inteiro, lambuzar-se de gordura, lavar as mãos e a cara. O hoteleiro nem sequer piscava. Coisa do demo. Minutos depois, a moça acordou, a um bater de palmas  do estrangeiro. Um gato parou à porta e cravou o olhar no mágico.

Dizendo-se faminto, Andrew se dirigiu ao restaurante. Bebeu cerveja e jantou, sem parar de conversar com garçons e fregueses. Quem aceitava ser hipnotizado? Um dos garçons duvidou de seus poderes. Dois minutos depois parecia um robô. A plateia bateu palmas. Um rapazote se apresentou ao visitante. Queria ser hipnotizado. Novo sucesso. “João, você comeu uma barata.”

Feitos amigos, o americano e João saíram para a praça e se puseram a caminhar. As moças olhavam para Andrew e diziam coisas, baixinho: “Bonitão!” “Que louro bonito!” “Valha-me , Deus!”. Ele sorria e andava. João olhava para o alto e conversava. “Vamos tomar uma cerveja, gringo?” Uma das moças da praça aceitou a proposta de hipnotização. E até levantou a saia, sentada num banco.

A cidade se preparava para eleger prefeito e vereadores. Ananias, o prefeito, chamou o estranho ao seu gabinete. “Meu filho é candidato a prefeito.” E apresentou uma proposta a Andrew: mordomias, mulheres, passeios, segurança, tudo, em troca da hipnotização geral dos eleitores no dia da votação. O gringo sorriu. Como era o rapaz? O pai disse maravilhas de Sainan: estudioso, bonito, inteligente. João, Maria e outros eleitores disseram cobras e lagartos do filho do prefeito. Estroina, vagabundo, safado. Se dependesse do votos deles, o novo prefeito seria o  candidato da oposição. Ou qualquer outro, menos Sainan. Nunca o filho do prefeito. Preferiam votar num burro, num cachorro, num bode, em nada.

 Chamado de novo à Prefeitura, Andrew fez Ananias dormir por alguns minutos. E se retirou pé ante pé. Encontrou João à calçada. “Vamos tomar cerveja.” Jamais o prefeito se deixaria hipnotizar. Sono artificial naquele homem - nunca. Porém, no dia da eleição, Sainan e seu pai dormiram muito. E Andrew Albee fugiu da cidade, às pressas.

Fonte:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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