Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A. A. de Assis (Revista Trovia n. 196 - Outubro de 2016)




Já que tens alma de artista,
vive teus sonhos em paz;
mas que não percas de vista
o feio mundo em que estás!
Archimimo Lapagesse

Na conquista de troféus,
um só quero merecer:
chegar às portas dos céus
e a mão de Deus me acolher.
Aurolina de Castro

No portão os namorados
são como barcos no cais:
pelos beijos amarrados,
querem ir e ficam mais.
Cleonice Rainho

A dor é o caro pedágio
que é pago na ponte erguida
de um estágio a outro estágio
na travessia da vida.
Clóvis Maia

Todo o teu corpo estremece
se te falo – que doidice!
Que dirá se eu te dissesse
aquilo que eu não te disse...
Djalma Andrade

Pode o homem ser vassalo,
desde porém que a mulher
não pense nunca em trocá-lo
por outro escravo qualquer...
Jorge de Pádua

Deixa a criança correr
descalça pelos caminhos!
Ela precisa aprender
a pisar sobre os espinhos...
José Maria M. de Araújo
 

Miséria de pão maltrata...
Mas quanta gente, Senhor,
sabeis que morre ou se mata
quando há miséria de amor!
Lilinha Fernandes

Quero falar... retrocedo...
pois tenho um pavor medonho
de que ao contar meu segredo
você destrua o meu sonho!
Luiz Otávio

Senhor, escuta os cicios
dos excluídos, sem teto...
Troca seus ninhos vazios
por ninhos cheios de afeto!
Milton Nunes Loureiro

E’ tanto o amor que me invade
quando em seus braços estou,
que cada instante é saudade
do instante que já passou!
Newton Meyer

A trova é tão pequenina
mas quanta beleza encerra;
feliz de quem tem a sina
de espalhá-la pela Terra!...
Sônia Martelo – PR
 



Em tempos de forte apego
a e-books e outros afins,
os vírus tomam o emprego
das traças e dos cupins.
Arlindo Tadeu Hagen – MG

Fio dental, na verdade,
com seu cercado pequeno,
delimita a propriedade,
mas não esconde o terreno!
Edmar Japiassú Maia – RJ

Vida boa, de ricaça,
passa o dia enchendo o bucho:
morar em sebo, pra traça,
é condomínio de luxo.
Eliana Jimenez – SC
 

A pulga e o “pulgo” a brigar...
Foi enorme a confusão!
A pulga deixou o lar
e... foi morar noutro cão!
Renato Alves – RJ

Marchando, na estante, em bando,
numa balbúrdia infernal.
– Eram traças protestando
contra o livro virtual!
Pedro Ornellas – SP

Tanto erotismo continha
o livro, do início ao fim,
que o pai proibiu a tracinha
de comer o folhetim!
Therezinha Brisolla – SP

A esposa numa pirraça
diz ao marido “rueiro”:
– Se “de graça” não tem graça,
me passa a grana primeiro.
Wandira F. Queiroz – PR



 
Pecado é o não cumprimento
da missão que a gente tem;
é ser dono de um talento
sem usá-lo para o bem.
A. A. de Assis – PR

Meu pai, muito te agradeço
por tudo que me ensinaste.
Não existe nenhum preço
pelo tanto que me amaste.
Agostinho Rodrigues – RJ

Este amor que é meu tormento
bate em casa abandonada;
responde, na voz do vento,
somente o eco – mais nada!
Amaryllis Schloenbach – SP

Das juras que ambos fizemos
sobre a rede a balançar,
belos frutos nós colhemos:
nossas filhas, nosso lar.
Alberto Paco – PR

O tempo voa, bem sei,
nos dias da mocidade;
mostra onde errei e acertei,
tem remorso e tem saudade ...
Almir de Azevedo – RJ

Quando, então, do céu descer
um brilho no teu olhar,
é porque no entardecer
meus sonhos vão te buscar.
André Ricardo – PR

Meus bons anos se passaram,
com a leitura aprendi...
Hoje as letras se apagaram
mas o saber não perdi.
Ari Santos de Campos – SC

A praia é sempre pisada,
mas nos dá grande lição,
pois, mesmo sendo humilhada,
massageia o coração.
Arlene Lima – PR

Tudo em ti pede carinho,
pela graça que tu és...
– Amo o teu corpo inteirinho,
beijável da testa aos pés!
Bruno Pedina Torres – RJ
 

Não prolongues a partida...
Vai... não olhes para trás;
dói bem mais a despedida,
quão mais longa ela se faz!
Carolina Ramos – SP


Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto sofro por você!
Conceição de Assis – MG

A trova não envelhece,
assim é toda a poesia.
É perene como a prece,
imortal a cada dia!
Cônego Telles – PR

Doy un beso agradecida
al árbol que está sembrado.
¡Con su vida nos da vida
aun despúés de ser cortado!
Cristina Olivera Chávez – USA

Um coração que se isola
cava a própria solidão
e não há melhor escola
que o convívio com o irmão.
Dáguima Verônica – MG

Nos momentos mais diversos,
sonho minha vida assim:
– Chuva de rimas e versos,
florindo  trovas em mim!
Delcy Canalles – RS
 

Ser feliz é ser poeta;
mais feliz, só trovador:
ambos, sendo um só esteta,
dizem tudo com amor!
Diamantino Ferreira – RJ

Procure espalhar, na vida,
alegria em sua estrada,
que a alegria dividida
é sempre multiplicada!
Domitilla Borges Beltrame – SP

Uma trova, um poema, um fado...
Quanta beleza se encerra
no meigo arrulho encantado
da língua de nossa terra!
Dorothy Jansson Moretti – SP

Lendo um bom livro, pressinto
que há entre mim e o autor
um sentimento indistinto
que é quase um caso de amor.
Élbea Priscila – SP
 

É tão forte a intensidade
das loucuras da paixão,
que no amor a insanidade
é o que eu chamo de razão!
Elisabeth Souza Cruz – RJ
 

Olho a tapera habitada
e em minha fé me concentro:
– Feita de restos de “nada”!...
e quanta paz tem por dentro!!!
Ercy Marques de Faria – SP

Em silêncio, a noite fria
dorme com a luz do luar...
Comigo dorme a magia
do brilho do teu olhar!
Eva Yanni Garcia – RN

Minha casa é meu cantinho,
onde tudo é natural;
no beiral fizeram ninho
as aves do meu quintal.
Evandro Sarmento – RJ

Gerador de paz e calma,
que dispensa cerimônia,
o livro é o jantar da alma
nas noites claras de insônia.
Flavio Stefani – RS

A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
Francisco Garcia – RN

No coração de quem ama
transborda felicidade,
mas, quem perdeu essa chama
vive a chorar de saudade.
Gasparini Filho – SP

Não julgue alguém pela imagem,
pois muitos fazem de tudo
para esconder na “embalagem”
a falta de conteúdo.
Gérson César Souza – PR

Um mundo melhor... queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
Gislaine Canales – RS

 
No aconchego do regaço,
aquele que aqui chegou
foi trabalhando com os braços
que o progresso semeou.
Hulda Ramos – PR

Debruçado na lagoa,
qual Narciso a se mirar,
pescador jamais enjoa
de sonhar e de pescar...
Jaqueline Machado – RS

Ao conforto acorrentado,
quem se prende corta acesso
ao caminho acidentado
que levaria ao sucesso!
JB Xavier – SP

Por medo de te perder,
não errei – pobre aprendiz!
– Não soube me conceder
o risco de ser feliz...
Jeanette De Cnop – PR

Viva intensamente quem
tem um sonho a ser vivido,
que a saudade sempre vem
atrás de um sonho perdido…
João Costa – RJ

Largo sorriso é o recado
nascido do coração:
aquele abraço apertado
no reencontro com o irmão!
Jorge Fregadolli – PR

Mandando a carta da prece
com destino à Divindade,
quanta gente não se esquece
do envelope da humildade!
José Fabiano – MG

Ontem... florestas... encanto...
flores a desabrochar.
Hoje... pinheiros em pranto,
um grito parado no ar!
José Feldman – PR

A idade, a chegar de manso,
respeitando o meu cansaço,
põe cadeiras de balanço
nas tardes por onde eu passo!
José Ouverney – SP

Partiu, deixando o seu traço
no meu caminho dos sós...
A saudade é esse espaço
que existe sempre entre nós.
José Valdez – SP

Enquanto houver um luar
e um sol cheio de esplendor,
há de se ouvir o cantar
da lira de um trovador!
Lisete Johnson – RS
 

Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
Lucília Decarli – PR

Não foi perto, nem distante
o nosso amor ideal;
nasceu da luz de um instante
e se tornou imortal!
Luiz Carlos Abritta – MG

Na estrada das aventuras
vemos quedas sem guarida,
algumas tão prematuras,
outras no fim da corrida.
Luiz Damo – RS

Na renúncia à própria vida
pra gerar os filhos seus,
uma mãe tem, garantida,
outra vida junto a Deus.
Luiz Hélio Friedrich – PR

Espera... se eu demorar,
quando eu voltar, certamente,
o sonho que eu te sonhar
te habitará... novamente.
Luiz Poeta – RJ

Longe vão minhas andanças
e, em meu trêmulo cansaço,
tento fazer das lembranças
bastão... e assim firmo o passo.
Mª Conceição Fagundes – PR


Qual boca sensual, a onda
beija as areias da praia.
Ao final de cada ronda
volta ao seu leito... e desmaia.
Mª Luíza Walendowski – SC

Retorno ao fim da jornada
e encontro alguém na memória,
que foi noite e madrugada,
que foi fracasso e vitória...
Mª Thereza Cavalheiro – SP

Tenho por certo, em verdade,
bem vivo, embora pungente
que a mais pungente saudade...
é aquela de alguém presente!
Maurício Friedrich – PR
 

Tua amizade aguardei
com muito amor e afeição.
Quando de ti precisei,
fui buscar no coração.
Neiva Fernandes – RJ

Esperar muito da vida,
das pessoas, é ilusão.
É um beco sem saída
que termina em decepção.
Nilsa Alves de Melo – PR

Mira a “boneca” o “pendão”,
que a contempla lá de cima...
– É o milho em fecundação
pra safra que se aproxima!
Olga Agulhon – PR

Verga o galho num lamento
que a noite fria produz
sofre e range com o vento
da tristeza que o conduz.
Renato Frata – PR

Dos instantes devotados
a cada luta vencida,
todos estão retratados
no painel da minha vida.
Roberto Acruche – RJ

O vento, com peraltice,
leva folhas pelo espaço.
Que bom se um dia o sentisse
levando as preces que faço...
Ruth Farah – RJ
 

Quando a inspiração vagueia
à procura de um motivo,
o meu passado passeia
em cada verso que eu vivo.
Selma Patti Spinelli – SP

Seu trabalho, agricultor,
classificam-no “primário”,
mas nada tem mais valor
nem é tão prioritário.
Talita Batista – RJ

A vida não vale nada
se a gente nada produz.
Tanto a pena, quanto a enxada,
abrem veredas de luz!
Thalma Tavares – SP

Os poetas, em repentes,
se unem num elo de luz...
Suas trovas são correntes
de amor, que a todos seduz.
Vanda Alves – PR

É tão vazia a paisagem,
e nem um vulto se vê...
Mas, sem ver qualquer imagem,
consigo enxergar você!
Vanda Fagundes Queiroz – PR
 

Vence valores, de fato,
quando em meio à discussão,
se revolta de imediato,
mas, na ofensa... dá o perdão!!!
Vânia Ennes – PR
 

Somos velhos caminhantes...
a doçura nos invade;
namoricos vão distantes,
fica o flerte da saudade!
Wagner Lopes – MG

Sem outra opção que a rotina
de esperar-te sempre em vão,
minhas noites de neblina
só gotejam solidão...
Wanda Mourthé – MG

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Clarice Lispector (Dos palavrões no teatro)

Eu própria não uso palavrões porque na minha casa, na infância, não usavam e habituei-me a me exprimir através de outro linguajar. Mas o palavrão – aquele que expressa o que uma palavra não faria – esse não me choca. Há peças de teatro, como A volta ao lar (Fernanda Montenegro, excelente) ou Dois perdidos numa noite suja (Fauzi Arap e Nélson Xavier, excelentes), que simplesmente não poderiam passar sem o palavrão por causa do ambiente em que se passam e pelo tipo dos personagens. Essas duas peças, por exemplo, são de alta qualidade, e não podem ser restringidas.

Além do mais, quem vai ao teatro em geral já está pelo menos ligeiramente informado, por rumores até, da espécie de espetáculo a que assistirá. Se o palavrão lhe dá mal-estar ou o escandaliza, por que então comprar a entrada? E mais ainda: as peças de teatro têm censura de idade, e o mais comum é só permitir a entrada de menores a partir de dezesseis anos, o que é uma garantia. Embora mesmo antes dessa idade os palavrões sejam conhecidos e usados pela maioria da juventude moderna.

Qual é então o problema que o uso do palavrão adequado a um texto poderia suscitar? E sem falar que, agrade ou não, o palavrão faz parte da língua portuguesa.

Chacrinha?! De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora. E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante – falta-lhe imaginação ou ele é obcecado.

E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi.

Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha? Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios.

Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu queria um povo mais exigente.

Fonte:
Clarice Lispector. Cronicas de Descoberta do Mundo.

Lenda Africana (A Mensagem Perdida)

A formiga teve desde tempos imemoriais muitos inimigos, e porque ela é muito pequena e destrutiva, tem havido um grande número de mortes entre elas. Não só a maioria das aves são suas inimigas, mas o tamanduá se alimenta quase que exclusivamente só de formigas, e a centopeia ficava tocaiando elas em todas as oportunidades e lugares que tivessem chance.

Então entre algumas delas surgiu a ideia de fazer um conselho e juntos eles imaginarem uma solução para ver se eles podiam ser mudar para um lugar seguro, quando atacados por pássaros e animais ladrões.

Mas na conferência as opiniões foram as mais discordantes possíveis, e eles não chegavam a nenhuma decisão.

As formigas não se entendiam e cada uma resolveu fazer sua casa onde bem entendesse.

Lá estavam a formiga vermelha, a formiga do arroz, a formiga preta, a formiga alvéola, a formiga cinza, a formiga brilhante, e outras variedades. A discussão foi uma verdadeira babel de diversidades, que continuou por um longo tempo e não deu em nada.

Uma parte desejava que todos fossem morar em um pequeno buraco na terra, e viver lá, outra parte queria ter uma casa grande e forte construída no chão, onde ninguém pudesse entrar, além de formigas; ainda outros queriam morar nas árvores , de modo a se livrar do tamanduá, esquecendo completamente que eles seriam a presa das aves; outra parte parecia inclinada a ter asas e voar.

E, como já foi dito, não houve acordo quanto a nada, e cada partido resolveu ir trabalhar de sua própria maneira, e sob sua própria responsabilidade.

As facções se dividiram em pequenas partes separadas e se espalharam em todo lugar do mundo, e cada um tinha a sua própria tarefa, e cada uma fez o seu trabalho de forma regular e bem. E todos trabalharam juntos no mesmo caminho. Dentre eles, escolheram um rei, e devemos dizer que alguns dos grupos fez e eles dividiram o trabalho para que tudo corresse tão bem como podia.

Mas cada grupo fez de sua própria maneira, e nenhum deles pensou em se proteger contra o ataque de pássaros ou tamanduá.

As formigas vermelhas construíram sua casa sobre a terra e viveram sobre ela, mas o tamanduá jogou no chão em um minuto o que lhes custou muitos dias de trabalho precioso. As formigas do arroz viviam debaixo da terra, e, com eles, não houve sorte melhor. Pois quando eles saíram, o tamanduá apareceu, tirando eles do buraco e metendo numa mochila. As formiga alvéola fugiram para as árvores, mas em muitas ocasiões a centopeia estava esperando por eles, ou os pássaros os devoravam. As formigas cinza tinha a intenção de salvar-se de extermínio, alçando voo, mas isso também não lhes valeu de nada, porque o lagarto, a aranha caçadora, e as aves foram muito mais rápidos do que eles.

Quando a formiga rei ouviu que não chegariam a acordo nenhum, ele lhes mandou uma unidade de formigas em segredo, com a mensagem de trabalharem em conjunto. Mas, infelizmente, ele escolheu o besouro como mensageiro, e até hoje ele não chegou às formigas, de modo que eles ainda hoje são a personificação da discórdia e, consequentemente, a presa dos inimigos.

Fonte:
http://www.sacred-texts.com/afr/saft/ Disponível em https://casadecha.wordpress.com/category/lendas/

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A. A. de Assis (Haicai de Primavera)


Conto Japonês (O nome da gata)

Há muitos e muitos anos, numa pequena cidade no interior do Japão vivia um casal de velhinhos. Eles levavam uma vida feliz e tranquila e amavam a natureza. Certo dia quando os velhinhos visitavam um templo, o monge deu a eles uma gatinha que havia nascido sob o assoalho do pavilhão de orações.

O velhinho e a velhinha receberam a linda gatinha como quem recebe uma graça divina. Eles não tinham filhos e sentiram que podiam criar aquele pequeno animal com todo carinho e dedicação. Enquanto voltavam para casa foram discutindo qual nome dariam para a gatinha.

- Vamos dar o nome de uma pessoa forte e valente para que nossa gatinha seja sadia e corajosa - disse o velhinho.

- Sugiro que seja Musashi-bo Benkei, pois é um forte e valente guerreiro e ao mesmo tempo, um monge dedicado - respondeu a velhinha.

- Seria um nome perfeito se Benkei não fosse nome de homem. Nossa gatinha tem que ter nome de mulher.

- Que tal Tomoe Gozen, nome da mais forte mulher guerreira do Japão. Ela participou de várias batalhas cavalgando pelos campos, vestida de armadura e brandindo sua mortal naguinata (alabarda). Lutou ao lado do marido Minamoto no Yoshinaga, até tomar a capital do Japão e expulsar os poderosos de Heian-kyo (capital do antigo Japão).

- Tomoe Gozen, pode ser um nome interessante, porém é um nome muito comprido. Para chamar nossa gatinha será preciso repetir - Tomoe Gozen, Tomoe Gozen, Tomoe Gozen...ah! é comprido demais.

Assim os velhinhos continuaram pensando em qual nome colocar na gatinha, quando chegam em casa. Um vizinho que os viu chegar foi logo perguntando.

- Oh! Que linda gatinha, qual é o nome dela?

- Pois estávamos pensando exatamente em qual nome dar para ela. Tem alguma sugestão?

- Deixe-me ver...acho que Tora (tigre) combina com as manchas na pele dela.

- Pensando bem é um bom nome, pois o tigre é um animal forte e destemido.

Assim a gatinha passou a ser chamada de Tora, sendo tratada com muito carinho.

No dia seguinte o casal brincava com a gatinha chamando Tora pra cá e Tora pra lá. Nisso a mulher do vizinho que observava do portão perguntou:

- Por que deram o nome de Tora para um bichinho tão delicado?

- A sugestão foi de seu marido, e nós aceitamos porque queremos que nossa gatinha cresça muito forte.

- Ah! Meu marido não sabe nada. O animal mais forte que existe é o ryu (dragão). Se lutarem dentro d’água, o dragão vence o tigre facilmente.

O casal concluiu que a vizinha tinha razão e mudaram o nome da gatinha para Ryu.

Alguns dias depois, passou por ali um andarilho e comentou:

- É a primeira vez que ouço uma gatinha sendo chamada de Ryu (dragão). Por que puseram um nome tão diferente para uma gatinha?

Mais uma vez o velhinho explicou que era um nome sugestivo para a gatinha crescer forte.

- Realmente o dragão é um animal muito forte, porém, todos nós sabemos que em dia de grande tempestade, o dragão sobe nadando na chuva e penetra numa nuvem para chegar ao céu. Portanto, se não fosse a nuvem ele jamais chegaria ao céu. Isso significa que a nuvem é mais forte que o dragão.

O casal pensou, pensou e concluíram que o andarilho tinha razão. Assim mudaram o nome da gatinha para Kumo (nuvem). O andarilho seguiu sua caminhada e chegando ao castelo mais próximo comentou o que tinha acontecido.

Na época havia na corte muitos debates culturais. Os intelectuais discutiam incansavelmente durante anos à fio, qual era a estação do ano mais bonita: a primavera ou o outono. Também faziam debates para saber qual a flor mais bonita: a cerejeira (Sakura) ou a ameixeira (Ume). Houve então, grande interesse em sugerir o nome da gatinha pelos intelectuais do castelo. Um deles foi até o vilarejo e sugeriu ao casal que mudasse o nome da gatinha que agora chamava Kumo (nuvem), para Kaze (vento).

- Por que Kaze?, perguntou o velhinho.

- Ora, pense bem. Um sopro de vento e a nuvem dissipa-se toda. Por isso é melhor dar o nome de Kaze (vento).

O bom velhinho pensou um pouco e concluiu que o cortesão tinha razão. Assim o nome da gatinha foi mudado para Kaze.

Nisso chegou outro intelectual da corte e questionou:

- Ora, Kaze não me parece forte suficiente. Estive observando no último vendaval que o vento destelhou muitas casas, mas não conseguiu derrubar as paredes. Isso significa que Kabe (parede) é mais forte que Kaze (vento).

O argumento pareceu muito convincente ao velhinho e mais uma vez o nome da gatinha foi mudado para Kabe (parede).

- Acho que Kabe será seu nome definitivo, disse o velhinho olhando satisfeito para a gatinha.

Nisso a velhinha fez uma observação:

- Parede não é tão forte assim. Veja ali aquele buraco. Foi o Nezumi (rato) quem fez.

- Então precisamos mudar o nome dela para Nezumi.
- Gato com nome de rato não fica muito bem, e rato tem medo de Neko (gato)...

- Realmente, o gato é mais forte que o rato. Então vamos chama-la de Gatinha. E assim passaram a chamar a gatinha de Gatinha e parece que foi uma medida acertada, pois ninguém mais deu palpite no nome dela.

Fonte:
Gisele Keiko Yamasaki. Contos e Lendas Japonesas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Delcy Canalles (Anita Garibaldi)

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Lenda Aborígene Australiana (Os Sapos Arautos)

Quando Baiame deixou de viver nesta terra e voltou pelo caminho que o levava para Bullima, subindo a escada de pedra espiral até o cume do Oobi Oobi, a Montanha Sagrada, apenas os wirinuns, ou homens sábios, foram autorizados a dirigir-lhe a palavra e apenas através de seu mensageiro, Walla-guroon-bu-um.

Pois Baiame estava agora fundido à rocha de cristal onde ele sentava, em Bullima, e assim também estava Birra nulu, sua esposa. A parte superior dos seus corpos permaneciam como tinham sido na terra, mas as partes inferiores estavam mergulhadas no cristal de rocha.

Somente Walla-guroon-bu-um e Beili Kunnan foram autorizados a aproximar-se deles e transmitir seus comandos para os outros.

Birra-nulu, a primeira esposa, era a criadora das inundações. Quando os riachos estavam secando e os wirinuns queriam uma inundação viesse, estes homens subiam até o topo da Oobi Oobi e aguardavam em um dos círculos de pedra a vinda de Walla-guroon-bu-um. Ouvindo o que eles queriam, ele ia e dizia a Baiame.

Baiame dizia a Birra nulu, que, se ela estivesse disposta a dar sua ajuda, ele iria enviar Kunnan-Beili aos wirinuns, dizendo para avisar lhes: “Depressa diga a tribo Bun-yun  Bun-yun para ficar pronta. A bola de sangue será enviada para rolar em breve. ”

Ouvindo isto, os wirinuns iriam rapidamente descer a montanha e atravessar os woggi, ou planícies, abaixo, até chegaram a Bun-yun Bun-yun, ou Rãs, uma poderosa tribo com braços fortes para arremessar e vozes incansáveis.

Esta tribo ficou esperando, ao comando dos wirinuns, ao longo das margens de cada lado do rio seco, a partir de sua fonte a alguma distância. Eles fizeram grandes fogueiras, e colocaram essas pedras enormes para gerar calor. Quando estas pedras se aqueceram os Bun-yun Bun-yun colocaram algumas nas cascas, diante de cada homem.

Então eles ficavam na expectativa, aguardando a bola de sangue alcançá-los. Logo que via essa bola de vermelho-sangue de tamanho fabuloso rolando na entrada para o rio, cada homem se abaixava, pegava uma pedra quente e, gritando, jogava com toda sua força contra a bola. Em tal quantidade e com toda a força eles jogavam as pedras e quebravam a bola.

De dentro corria um riacho de sangue fluindo rapidamente para o leito do rio. Cada vez mais alto levantava-se o clamor dos Bun-yun Bun-yun, que carregavam pedras com eles, seguindo o fluxo do rio, que passava correndo. Eles corriam aos trancos e barrancos ao longo das margens, lançando pedras e gritando sem cessar.

Aos poucos, o fluxo de sangue, purificado pelas pedras quentes, se transformava em enchente, e os gritos dos Bun-yun Bun-yun alertava as tribos da enchente, para que eles pudessem mover os seus acampamentos para terrenos elevados antes que a água chegasse até eles.

Enquanto a enchente corria, os Bun-yun Bun-yun não paravam de gritar em em voz alta. Até hoje, quando uma inundação está por vir, são ouvidas as suas vozes, e ouvindo-lhes os Daens, ou Aborígenes, dizem, “O Bun-yun Bun-yun está chorando. A inundação deve estar chegando.” Então, “o Bun-yun Bun-yun está chorando. Águas de inundação estão aqui.”

E se a água da inundação vem grossa, vermelha e com  lama, os Daens dizem que os Bun-yun Bun-yun ou rãs-de-inundações deixaram as águas passarem sem purificá-las.

Fonte:
A.W. Reed, Aboriginal Fables and Legendary Tale Disponível em https://casadecha.wordpress.com/category/lendas/page/2/

Sinclair Pozza Casemiro (Mundo Guarani e Literatura) Parte III, final

3. Um pouco do histórico sobre a autoria e a produção discursiva indígena

Pela incapacidade de se compreender que os índios não são incapazes, mas culturalmente diferenciados, em 1916 foi promulgada uma lei chamada Código Civil (Lei 3.071/16), afirmando que "todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem civil", considerando, no entanto,que algumas pessoas não tinham a mesma capacidade de exercer seus direitos. O art. 5º dessa lei afirmava são absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 anos, os loucos de todo o gênero, os surdos-mudos, que não puderem exprimir sua vontade. E também que eram relativamente incapazes para certos atos os maiores de 16 anos e menores de 21, os pródigos (pessoas que assumem comportamentos irresponsáveis) e os silvícolas, ou seja, os índios. E, como considerava que os índios não eram totalmente capazes de exercerem seus direitos, esta lei determinava que eles fossem tutelados até que estivessem integrados à civilização do país. Essa tutelagem implicou a negação de sua autoria e do próprio uso de seus conhecimentos tradicionais, sendo suas criações apresentadas sob a tutela de pesquisadores e/ou responsáveis legais como representantes e tradutores do seu dizer e do seu saber.

Na época em que se escreveu esse Código Civil, a sociedade não indígena acreditava que os índios seriam extintos e que, portanto, não precisariam de direitos. Índio significava passado, mesmo no presente remetiam à ideia de não pertencimento a essa sociedade. Imaginava-se que os índios eram seres primitivos que iriam se educar, adquirir a cultura dos brancos até se integrarem de vez à sociedade brasileira, deixando de ser índios.

A Constituição de 1988, no entanto, em seus Artigos 231 e 232, ao reconhecer os direitos e a autonomia das culturas e territorialidades indígenas, estabeleceu que apolítica de transformar os índios em brancos não poderia continuar, pois uma outra concepção a fundamentou: eles viveriam para sempre índios, independente do acesso que tivessem ao mundo da sociedade envolvente. E assim deveriam ser respeitados e considerados pela sociedade brasileira como tais, em sua língua, crença, seus usos, costumes, tradições, suas formas de vida e de organização.

Hoje os esforços são no sentido de que o governo dê proteção e apoio de que os índios precisam, para que possam tomar suas próprias decisões, ou seja, não sendo mais tutelados, nem considerados relativamente incapazes.

3.1 A propriedade intelectual indígena

Salvaguardando a autoria indígena e os direitos e proteção sobre os seus conhecimentos tradicionais, o Projeto de Lei 2.057/91(em decorrência da Constituição de 1988) e a proposta alternativa a ele, apresentada pelo Governo, não só garantem direito autoral ao indígena, a proteção ao conhecimento tradicional, a representação segundo seus usos e costumes, o direito de participação em todas as instâncias oficiais de discussão da questão indígena, a proteção aos recursos naturais como seu patrimônio legítimo, como consideram crime o uso indevido desses conhecimentos tradicionais.

Assim, a propriedade intelectual indígena se vê assegurada. A importância disso se dá especialmente pela característica singular de suas narrativas. Como vimos, a palavra tem, para o indígena, um valor de Verdade, assim,produções discursivas indígenas se destacam pela sua singularidade.

Há, em todas elas, um encantamento e uma valorização da palavra, do discurso, que não permite sua leitura despreparada. É preciso compreender esse sentido que a palavra, o discurso, empresta a essas culturas, interpretando-as com a solenidade que exigem, diante dos seus signos carregados dessa Verdade, ou seja, um novo dizer se autoriza no país, um dizer outro, marcado por radicais diferenças culturais. Falar por si representa a legitimidade dessa diferença e uma nova realidade jurídico-social para os indígenas e também para os não indígenas.

Mas, autores indígenas como Jekupé, reconhecido e premiado na Literatura Brasileira, vem desvelando, como vimos acima, a realidade política que está implícita no apagamento das vozes indígenas em seus discursos e o novo momento histórico para a autoria e uso do seu saber tradicional. E há hoje, além de Jekupé, vários escritores indígenas, nas mesmas condições autorais e levando o conhecimento de sua cultura a outras culturas indígenas e a toda a sociedade não indígena pelas suas obras. Há um centro de escritores indígenas, o Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas-NEARIM, do qualJekupé é Presidente.

Daniel Munduruku, diversas vezes premiado na Literatura Brasileira e mesmo internacional, da etnia Munduruku, das terras indígenas de Cayabi, Munduruku, Manduruku II, Praia do Índio, Praia do Mangue e Sai-Cinza, no sudoeste do estado do Pará; as terras indígenas Coaté-Laranjal e São José do Cipó, no leste do estado do Amazonas e a Reserva Indígena Apiaká-Kayabi no oeste de Mato Grosso percorre o mundo e leva sua mensagem de autonomia e amor à cultura indígena, à Palavra que lhe é cara:
As sociedades indígenas são movidas pela poesia dos mitos – palavras que encantam e dão direção, provocam e evocam os acontecimentos dos primeiros tempos, quando, somente ela, a Palavra, existia.

E foi por causa dela, de sua ação sobre o que não existia, que tudo passou a existir. Foi como um encantamento, um vento que passa ou o sopro sonoro de uma flauta, e... pronto...tudo se fez.

Assim é a palavra, que flui em todas as direções e sentidos e que influenciou e influencia todas as sociedades ao longo de sua história. Ela cria, enfeitiça, embriaga, gera monstros, faz heróis, remete-nos para nossa própria memória ancestral e dá sentido ao nosso estar no mundo. Mesmo vivendo na época em que a tecnologia impera e coloca a Palavra – aqui como sinônimo de Verdade – em segundo plano, percebemos que ainda há esperança, pois ela vivifica a poesia dos mistérios que nos emocionam e fazem buscar, dentro de nós mesmos, a certeza de que vale a pena colorir o mundo.

Foi com esta paixão e certeza que este livro foi escrito. Ele traz a magia dos mitos narrados pelos anciãos de cada povo aqui apresentado. E mesmo que não queira abraçar todo o universo da sabedoria indígena, ele traz uma grande amostra daquilo que tem guiado nossas sociedades até nossos dias. Mas, não sem desafios o novo momento histórico é vivenciado pelos indígenas. Sobre a dificuldade que tiveram e têm em se adequar à realidade bilíngue pela força da colonização, bem como a sua superação, sem perder a indianidade, a narrativa do Cacique Miguel KaraiTataxiBenite é esclarecedora (2009,pp 44,45). Falando dela e falando da língua aprendida na colonização, fala de si, fala do ser Guarani em nossa sociedade atual:
Vivi muitos anos com a língua entortada,
Porque fui obrigado a falar palavras estranhas de uma outra língua.
Por isso, durante muito tempo fiquei emudecido.
Tentaram tirar de mim aquilo que havia guardado como um tesouro:
A palavra, que é o arco da memória.
Diziam que me faltava a inteligência,
Porque antes de gaguejar as palavras certas
Eu tinha de pensar, duas vezes, numa língua estranha.
O tempo passou. Agora, tenho duas línguas.
Uma língua nasceu comigo, no colo de minha mãe.
É a língua que expressa a alma guarani.
É a língua do tekoha, da opy.
O nome que tenho, foi ela quem me deu na cerimônia do Nhemongarai.
Com ela nomeio as plantas, as flores, os pássaros, os peixes,
os rios e as pedras, o sol e a chuva, a roça e a caça.
Tudo isso com ela eu faço: rio e choro, rezo e canto.
Com ela, eu sou o que falo: guarani.
A outra língua que tenho é a que
Sobrou de uma guerra de muitas batalhas.
Ela trouxe a espada e a cruz, o livro e as imagens, o sermão, o
catecismo, a doutrina, as leis.
Ela me ensinou a aprisionar o som,
Como quem pega a fumaça com a mão e a guarda no ajaka.
Com ela, aprendi a riscar as letras. E a desenhar as palavras
no papel.
Quando saio da aldeia, é ela quem me ajuda.
Com ela, procuro escola e biblioteca,
Mercado e igreja, posto de saúde e hospital, cartório e tribunal.
É com ela que me comunico com índios de outras línguas.
Com ela navego na internet,
Descubro o pensamento do juruá,
Caminho pelas ruas, leio as cidades,
Entro nos ônibus,
Embarco e desembarco na rodoviária,
Vendo o artesanato e converso com as pessoas.
Agora já não posso mais viver sem as duas.
Estou sempre trocando de língua,
Com um pouco de medo, como se
Fosse um caso de bigamia.
Uma língua sabe coisas que a outra desconhece,
Acham graça uma da outra fazem
Gozação e às vezes se zangam.
Afora isso, elas se dão bem que
Sonho nas duas ao mesmo tempo.
Às vezes, a palavra de uma soa
Engraçado na outra.
Às vezes, quando me perguntam
Numa, respondo na outra.
Às vezes fico com uma delas tão
Engasgada que se permaneço calado
Tenho a impressão de que vou explodir.
Há dias em que quero traduzir uma para a outra, mas as
palavras se escondem de mim, fogem para bem
Longe e gasto muito tempo correndo atrás delas.
Ambas pensam, mas há partes do
Coração em que uma delas não
Consegue entrar e quando se
Aproxima da porta, o sangue se põe a jorrar com as palavras.
Cada uma foi professora da outra:
O guarani nasceu primeiro e eu me
Habituei a dormir embalado por sua
Suave sonoridade musical.
O guarani não tinha letra, é verdade, mas era o dono da palavra falada.
Ensinou ao português os segredos da Oralidade, guiando-lhe a voz.
Já o português, nascido na ponta dos meus dedos, ensinou o guarani a
Escrever, porque este nunca havia
Frequentado a escola.
Tenho duas línguas comigo. Duas
Línguas que me fizeram e já não vivo sem elas, nem sou eu,
sem as duas.
A sua narrativa, toda ela poética, é um saber indígena contemporâneo. Se pretendêssemos situá-la na perspectiva não indígena, poderíamos afirmar que ela se realiza num misto de conto, mito, poesia e narrativa histórica. Conto, pois a sequência de fatos faz um enredo e traz um conflito, perfazendo-se de todos os elementos que compõem a narrativa, ou seja, tempo, espaço, trama. Possui apenas um personagem, escolhe o foco narrativo de 1ª pessoa e obedece a um dos fatores de total relevância para a tipologia conto, que é o enredo apresentado de forma condensada e sintética, centrado em um único conflito, o que é chamado de unidade de impressão.

Também se realiza no mito, pois fala da origem, dos símbolos de culturas diversas entre si significando o modo de vida atual, traduzindo uma realidade antropológica fundamental,na medida que não só representa uma explicação sobre as origens do mundo em que o autor está vivendo, como traduzindo, por símbolos ricos de significado, o modo como sua civilização entende e interpreta a civilização sua e a do outro.

E se realiza na poesia, pois se estrutura em versos e manifesta o belo pela forma, pela escolha de palavras,pelos jogos de linguagem como, entre tantos, catacreses (língua entortada), metáforas (a palavra que é o arco da memória), comparações (trocando de língua com um pouco de medo como se fosse um caso de bigamia), antropomorfizações ([as línguas] acham graça uma da outra, fazem gozação, às vezes se zangam) , pelos muitos sentidos figurados que provoca no seu descrever de fatos reais, históricos.

Nesse belo, traz o percurso da vida do Guarani, no percurso da sua linguagem sendo atravessada e finalmente parceira da língua do não indígena, colonizador. Traz a saga e o percurso da constituição da subjetividade do indígena Guarani, em que a cultura do outro se impõe e se interpõe pela língua estrangeira, que já então se faz necessária – já não vive sem elas (a sua e a do outro). Nesse sentido, é uma narrativa histórica.

O conjunto poético dessas tipologias emaranhadas no texto do Cacique Guarani Miguel Karai Tataxi Benite , pela polissemia que engendra e pelo amálgama que o constitui, produz um discurso próprio, singular. Diferente. Esse conjunto em que se notam marcas do conto, do mito, da poesia,revela algo único, indivisível, algo que se repete nas vozes indígenas em geral. É o seu modo de dizer, totalizante, como uma unidade de sentido cosmogônica como é o modo de ser indígena em qual tempo e lugar. Um modo de dizer singular que se pode compreender como saber indígena.

Considerações finais

O mundo Guarani e a Literatura se confundem, ao tempo em que vão ainda além, pela singularidade do discurso Guarani, poético, totalizante, cosmogônico e as tipologias que normalmente traduzem esse seu saber indígena não dão conta de traduzir os sentidos que os abarcam pela sua magia e subjetividade. Nhë’e – palavra-alma, linguagem Guarani e nhë’eporä, belas palavras, Ayvuporä, a bela linguagem, as palavras enfeitadas, encantadas produzem sentidos musicais e cheios de mistérios, únicos.

Escritores Guarani hoje divulgam seu saber, sua narrativa encantada, pela Literatura Nativa, como propõe o escritor Jekupé, diferenciando-a da Literatura Indígena. A primeira, de autoria dos próprios indígenas, a segunda, de escritores não indígenas. Essa divisão marca um novo tempo, o tempo da autoria, do reconhecimento dos seus conhecimentos tradicionais e da propriedade intelectual indígena, o que se materializa pelo Projeto de Lei 2.057/91. Independente desse projeto, a vida Guarani, sempre livre, porque sua palavra é alma, é eterna e intocável, indisciplinada e rebelde nos seus encantos, se faz ecoar pelas páginas da Literatura nacional, enriquecendo e tornando mais humana a convivência da nossa sociedade.

O mundo Guarani e a Literatura, assim como os mundos de todas as etnias indígenas do país estão por todos os cantos, distribuindo sua poesia na territorialidade que é tão sua. A sua poesia, pela Palavra –Verdade, como nos diz Munduruku, encantada, acostumada a povoar esse Brasil de seus mistérios, de seus encantos e personagens tão únicos, mesmo no silêncio a que foi submetida por longos séculos. E aquela Palavra, finalmente, poderá ser vivida de verdade, aquela que ainda não se ouviu, mas que a cultura indígena impõe na sua grandeza, singeleza e docilidade: alteridade.

REFERÊNCIAS

BENITE, Cacique Miguel KaraiTataxi. Duas línguas. In:Maino’ i rapé. RJ, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2009.
CASEMIRO, 2013. O mito do Tatu. Disponível em: www.caminhodepeabiru.com.br.Captado em 20.9.2013.
CLASTRES, Hélène. Terra Sem Mal – o profetismo tupi-guarani. São Paulo, Editora Brasiliense, 1978.
CUNHA, Antonio G. da.Dicionário Etimológico Nova Fronteira. RJ, Nova Fronteira, 1982.
DUARTE, Miguel B. Liceu Aristotélico. In:http://liceuaristotelico.blogspot.com.br/2010/02/contos-proibidos-iii.html. Captado em 20.9.2013.15h37.
ELIADE, Mircea. O mito e a Filosofia, 2010. In: http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/08/o-mito-e-filosofia.html. Capatado em 20.9.2013. 17h50.
FRAGOSO, Vera M. Os mitos e a psicanálise: o debate. In: http://www.searchgol.com/?q=psicanalista+fragoso&babsrc=SP_ss&mntrId=F8 9100234D48917B&affID=121225&tl=gkn539325&tsp=5016. Captado em 20.9.2013.17h28
HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário Aurélio. RJ, Editora Nova Fronteira, 1974.
MONTOYA, Antonio R. de. Tesoro de lalengoa guarani. In: CLASTRES, Hélène. Terra Sem Mal – o profetismo tupi-guarani. São Paulo, Editora brasiliense, 1978.
MUNDURUKU, Daniel. Contos Indígenas Brasileiros. SP, Global Editora, 2005.
STRAUSS, Levi. O mito e a Filosofia, 2010. In: http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/08/o-mito-e-filosofia.html. Captado em 29.9.2013.18h04
JEKUPE, Olívio. In: Literatura Indígena x Literatura Nativa (2010) http://www.youtube.com/watch?v=xGXcQ_Bb_7g.captadoem30.9.20137h31
SGAMBATTI, Milton Junior. Literatura Indígena. In: http://sgambatti.wordpress.com/2009/04/23/literatura-indigena. Captado em 20.9.2013.
InfoEscola. Mito ou Lenda? Disponível em: http://www.infoescola.com/redacao/mito-ou-lenda/02. Captado em 02.9.2013.12h30.

Fonte:
Anais do I Encontro de diálogos literários: um olhar para além das fronteiras. Campo Mourão: Fecilcam, 2013. 453 p.
Imagem = www.vermelho.org.br

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    Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Clarice Lispector (Primavera ao correr da máquina)

Os primeiros calores da nova estação, tão antigos como um primeiro sopro. E que me faz não poder deixar de sorrir. Sem me olhar ao espelho, é um sorriso que tem a idiotice dos anjos.

Muito antes de vir a nova estação já havia o prenúncio: inesperadamente uma tepidez de vento, as primeiras doçuras do ar. Impossível! impossível que essa doçura de ar não traga outras! diz o coração se quebrando.

Impossível, diz em eco a mornidão ainda tão mordente e fresca da primavera. Impossível que esse ar não traga o amor do mundo! repete o coração que parte sua secura crestada num sorriso. E nem sequer reconhece que já o trouxe, que aquilo é amor. Esse primeiro calor ainda fresco traz: tudo. Apenas isso, e indiviso: tudo.

E tudo é muito para um coração de repente enfraquecido que só suporta o menos, só pode querer o pouco e aos poucos. Sinto hoje, e também mordente, uma espécie de lembrança ainda vindoura do dia de hoje. E dizer que nunca, nunca dei isto que estou sentindo a ninguém e a nada.

Dei a mim mesma? Só dei na medida em que a pungência do que é bom cabe dentro de nervos tão frágeis, de mortes tão suaves. Ah, como quero morrer. Nunca ainda experimentei morrer – que abertura de caminho tenho ainda à frente. Morrer terá a mesma pungência indivisível do bom. A quem darei a minha morte? que será como os primeiros calores frescos de uma nova estação. Ah, como a dor é mais suportável e compreensível que essa promessa de frígida e líquida alegria da primavera. É com tal pudor que espero morrer: a pungência do bom. Mas nunca morrer antes de realmente morrer: pois é tão bom prolongar essa promessa. Quero prolongá-la com tal finura. Eu me banho, nutro-me da vida melhor e mais fina, pois nada é
bom demais para me preparar para o instante dessa nova estação. Quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas – tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão.

Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto quem em mim se prepara, dentro desse fruto que é suculento, há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para apenas pressentir. ah, pressentir é mais ameno do que o intolerável agudo do bom. E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria.

Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir. E não consigo, nesse adestramento contínuo, me apoderar do primeiro regozijo da vida.

Conseguirei captar o regozijo infinitamente doce de morrer? Ah, como me inquieta não conseguir viver o melhor, e assim poder enfim morrer o melhor. Como me inquieta que alguém possa não compreender que morrerei numa ida para uma tonta felicidade de primavera. Mas não apressarei de um instante a vinda dessa felicidade – pois esperá-la vivendo é a minha vigília de vestal. Dia e noite não deixo apagar-se a vela – para prolongá-la na melhor das esperas. Os primeiros calores da primavera. . mas isso é amor! A felicidade me deixa com um sorriso de filha.

Estou toda bem penteada. Só que a espera quase já não cabe mais em mim. É tão bom que corro o risco de me ultrapassar, de vir a perder a minha primeira morte primaveril, e, no suor de tanta espera tépida, morrer antes. Por curiosidade, morrer antes: pois já quero saber como é a nova estação.

Mas vou esperar. Vou esperar comendo com delicadeza e recato e avidez controlada cada mínima migalha de tudo, quero tudo pois nada é bom demais para a minha morte que é a minha vida tão eterna que hoje mesmo ela já existe e já é.

Fonte:
Clarice Lispector. Cronicas de Descoberta do Mundo.

Sinclair Pozza Casemiro (Mundo Guarani e Literatura) Parte II

2. O mundo Guarani e um pouco do seu saber tradicional: a palavra-alma, a palavra poética

Estudiosos do Guarani, como Hèlène Clastres, que viveu entre os Guarani do Paraguai em 1963 e entre os Guarani do Brasil em 1966, deixaram um legado importante ao registrar sua cultura, o que permite um olhar mais crítico sobre a realidade atual. Esses estudiosos ouviram o Guarani de seu tempo, sua língua, seus costumes, suas crenças,registraram essas informações. Fundamentando-nos em seus escritos e na vivência com indígenas Guarani do estado do Paraná, passaremos a apresentar algumas discussões sobre a Palavra Guarani na busca de entendimento de sua Literatura e do seu mundo.

A palavra, como vimos, é sagrada para o Guarani: nhë’ e –palavra-alma define a linguagem Guarani, em que o sentido místico é parte intrínseca de sua significação.Quem a nega se torna um jaguar – tekoachykoe-jaguar (Clastres, 1978,p.96); ou tatu (CASEMIRO, 2013). E há ainda a categoria das palavras nhë’eporä, as belas palavras numa dimensão ainda mais elevada de espiritualidade, e ayvuporä- as palavras sagradas, enfeitadas, reservadas aos Xamoíe Caraíe à Opy- Casa de Reza. Mas, o sentido de enfeitada não é simples metáfora, maneira de dizer que se sobrepõe como uma máscara ao sentido da coisa: é a própria coisa. Ou seja, em Guarani o adjetivo porä qualifica o enfeite, a beleza do que é enfeitado. No dicionário de Montoya Tesoro de La lengua guaraní, segundo Clastres (1978, p.91) se registra o termo como Póràng:hermoso, ornato. Assim, não é natural esse sentido, de enfeitado, é algo que foi elaborado com a intencionalidade de ter beleza, adornado: a forma poética da composição das palavras em expressões, em discurso, o seu arranjo sonoro no redobrar das vogais ao ser pronunciada, acentuando a sua musicalidade. O ornamento das palavras é necessário para se falar com justeza, o belo e o verdadeiro estão unidos, amalgamados no sentido do sagrado que a que elas servem, ou mais que isso, que elas são (CLASTRES, 1978, p.86).

Existem distinções a serem respeitadas e seguidas entre os Guaraninas suas lideranças e uso das palavras, ou dos cantos, que são sacralizadas por sua cultura, cujas presenças foram atestadas por missionários e viajantes do período colonial. Essas lideranças são imbuídas do poder da palavra-alma em diferentes níveis de autoridade.Nimuendaju (apud Clastres, 1978, p.34,35,36) também as atestou na convivência que teve com os Apopocuvas- Guarani desde as primeiras décadas de 1900. Ainda hoje essa presença pode ser atestada, entretanto, entre os Guarani, resguardando-se as mudanças que se fizeram necessárias no tempo e na territorialidade pelas condições de contato com a sociedade não indígena, difíceis, que inviabilizam muitas vezes a prática fiel de suas tradições mais antigas e mais caras.

De qualquer modo, adaptam-se aos novos tempos e permanece o prestígio do Caraí, do Xamoí, do Cuidador das Ervas (homem-medicina) bem como se identifica o abusante - aquele que duvida ou não crê na Terra Sem Mal a quem, portanto, não se autoriza o discurso. Costumam dizer, hoje, os Guarani, quando perguntados sobre as migrações à Terra Sem Mal, dantes uma prática vivida com as facilidades da liberdade de ir e vir numa territorialidade absolutamente livre de não indígenas, que a vivem no coração. E alguns não escondem o desejo de repetirem essa possibilidade real de migração, adaptando-a às condições modernas. Também presenciamos em nossas visitas aos Guarani do Paraná que, quando não conseguem construir sua Opy ou vivenciarem-na, dizem que a levam no coração. Pudemos atestar esse fato na nossa convivência entre os Guarani de Laranjinhas, YvyPorä, Verá Tupã’i, Ocoy, Tamarana, do Paraná.

Interessante descrever a experiência de Nimuendaju (apud Clastres, 1978), o que pode trazer entendimento para o contexto atual dessas lideranças e na construção do discurso Guarani em dias atuais. O autor relata que se podem perceber quatro categorias no que chamou de dons xamanísticos, e que, na verdade, abrange toda a população Guarani, como se vê em seu relato, desde os não crentes aos mais crentes: a primeira, negativa, reunindo aqueles que não possuem nenhum cântico, ou seja, os que não receberam ou que ainda não receberam inspiração: a maior parte dos adolescentes, alguns raros adultos decididos a não se comunicarem com os espíritos, que nunca poderiam dirigir as danças(Nessa categoria, hoje, pelas nossas experiências entre os Guarani do Paraná, existem ainda as divisões entre aqueles que ainda não a receberam por serem crianças ou adolescentes e aqueles que a negam. Esses últimos são hoje conhecidos como abusantes, conforme depoimento de Vó Almerinda (que é Xamoí), sobre o Caminho Sagrado para a Terra Sem Mal. A segunda categoria compreende todos aqueles que possuem um ou vários cânticos, homens ou mulheres, mas, isoladamente, sem o poder de utilizá-los em fins coletivos. Alguns desses até podem eventualmente dirigir algumas danças, são os que se aproximam mais da terceira categoria (Também já observamos essa realidade no tekoha Verá Tupã’i). A terceira categoria é a dos capazes de dizer as palavras enfeitadas, as belas palavras- nhë’eporä, de curar, de prever, de descobrir o nome dos recém-nascidos, são os Xamãs para Nimuendaju (hoje conhecidos como Xamoí), os Pajés. A essa categoria pertencem homens e mulheres com direito ao título de Ñanderu ou Ñandesy (Hoje se escreve Nhanderu e Nhandesy) – nosso pai, nossa mãe. À quarta categoria pertencem a dos grandes xamãs, cujo prestígio vai além da comunidade e apenas os homens podem a ela ascender. Além de possuírem as palavras enfeitadas, as belas palavras - nhë’ e porä, ainda só eles podem dirigir a cerimônia do batismo, conhecida como Nimongaraí (hoje falado Nhemongarai), a mais importante festa Apapocuva.

(Hoje ainda se pode observar essa prática, é ainda a sua maior festa, mas, as mulheres também podem pertencer a essa categoria, Vó Almerinda é uma delas, visita e reza em todos os tekoha e dirige o Nhemongarai. Esse quadro revela alguns dados sobre a autoria do discurso Guarani.

Em primeiro lugar, o significado de nhë’ ë para o Guarani é, para quaisquer indivíduos, palavra-alma. É um significado que remonta à sua narrativa de criação, na qual Nhamandu se pôs ereto e pronunciou as palavras das quais surgiram todos os homens e mulheres e toda a criação. A partir dela, toda cultura Guarani se constitui: a criança é desejada e, antes do nascer, já possui um espírito guia que se vai revelar quando essa criança se puser ereta e que vai lhe indicar o que será: um Xamoí, um Cuidador de Ervas, etc., conforme a direção de onde esse deus veio: zênite, leste ou oeste. E é na cerimônia que descrevemos acima - do Nhemongarai que essa revelação ocorre, por meio dos cânticos e rezas do Xamoí. Ou seja, todo o Guarani pode receber seu nome, está incluído nesse ritual, por pertencimento ao grupo, é apto ao discurso da ñe’e (palavra-alma). E quando o Xamoí não consegue a revelação é porque a criança não irá sobreviver. Mas, como vimos, há a categoria dos abusantes–tekoachykoe, daqueles que não acreditam na Terra Sem Mal.

Esses não portadores da palavra sagrada, não são autorizados ao seu discurso, aos cânticos, estão na condição de animalidade. Podemos, pois, perceber que a autoria das palavras é permitida de acordo com a posição ou condição espiritual do Guarani: pode ser autorizado a cânticos, a pronunciar as palavras nhë’ee também as belas palavras nhë’eporä eventual e solitariamente, como pode ser autorizado a discursos coletivos, de grandeza circunscrita ao tekoha ou ainda de maior grandeza, em discursos de uma coletividade maior, que abranja número maior de tekoha. Ou destituídos da nhë’e, os tekoachykoe, os abusantes. Os discursos sagrados e discursos sobre temas sagrados sofrem ainda outras restrições, como a de lugar-só podem ser tratados na Casa de Reza- Opye diante de Guarani. Diante de juruá apenas quando aceito pelo Xaoi como digno de ouvi-lo nesse espaço, de fazer parte de sua cultura.

Falantes e alegres, ruidosos, brincalhões, sempre risonhos entre si, emudecem diante dos não indígenas ou de indígenas abusantes. O silêncio Guarani, compreensível diante das contínuas perdas que lhe infringiram a sociedade não indígena, adquire significados próprios, que não merecem sequer ser especulados, mas respeitados. Pelo histórico que descreve Nimuendaju, entre outros que, como ele, com eles viveram experiências de longos anos, muito desse silêncio está ligado ao sagrado e ao modo como se constituem os seus discursos, como se produzem, para quê e para quem, de que lugar, sempre a partir de uma perspectiva mitossimbólica advinda da sua cosmovisão.

No contato inevitável e cada vez mais constante com a sociedade não indígena, outros discursos, com outras condições de se produzirem se fizeram necessários. Mas, de qualquer forma, a palavra para o Guarani sempre se revestiu e reveste de Verdade e beleza, é poética por natureza.

Tratando-se de autoria diante da sociedade não indígena e extrapolando o universo Guarani, a questão vem sendo, inclusive, polemizada, em termos de propriedade do que se diz, das consequências desse dizer pelos próprios indígenas.Costuma-se atribuir a autoria de um discurso indígena a toda a coletividade, como se um falasse por todos. E essa autoria se mascara na designação de informante. Assim, uma narrativa contada por um Guarani de determinado tekoha será creditada a seu grupo, desse tekoha. Isso, principalmente, quando se destinam direitos autorais, mesmo valorizando o indígena que se manifestou, a sua fala é como que creditada e distribuída a todo o grupo, também na questão de benefícios que dela possam surgir. E o termo informante (ou similar) decorre da prática conservadora de se considerar o indígena objeto de pesquisa e não sujeito de pesquisa. A pesquisa não é dele, é do sujeito que o interpela. Tal situação vem gerando algumas dificuldades e está sendo questionada. Sgambatti relata a seguinte cena, provocada pelo CaciqueGuarani Olívio Jekupe, da aldeia Krukutu, no Estado de São Paulo:

Essa é minha mulher – me disse Olívio Jekupe.
E lhe perguntou:
- Você sabe ler?
E ela respondeu:
- Não.
E continuou:
- Você sabe escrever?
E ela:
- Não.
Então ele voltou-se para mim e perguntou:
- Mas se você vier à nossa aldeia, ela te contar uma história, uma lenda ou algo de Nossa cultura e você como um antropólogo registrar essa história tal e qual ela te contou em um livro, quem é o escritor, você ou ela?
Eu fiz cara de: pois é…
E ele concluiu:
- Não é porque ela não sabe escrever em português ou guarani que ela não pode ser uma escritora. Tem alguns índios em nossa aldeia que só falam e escrevem guarani, não é porque sou eu, o cacique ou outro índio que escrevemos o texto deles em Português que somos os autores da história deles, não é mesmo? (SGAMBATTI, 2009)

Olívio Jekupe é escritor de livros infantis e juvenis, viaja por todo o Brasil divulgando a cultura Guarani. Como autor de livros, ele se assume como sujeito enunciador e de direito,indígena, possuindo os mesmos direitos que qualquer outro cidadão brasileiro, mas questiona quanto ao discurso da sua cultura, quanto à autoria desse discurso conforme seria,na cena citada, o da sua mulher, que não domina a escrita e se concedesse uma narrativa ao pesquisador, como informante.

Jekupe não fez esse questionamento inocentemente. E nem inocentemente Sgambatti fez cara de: pois é.... Ambos sabiam que falavam de autoria numa implicação muito mais complexa. Formado em Filosofia pela PUC, São Paulo, ele compreende, na condição de professor e intelectual reconhecido, a condição outra da maioria dos indígenas brasileiros. Sujeitos constitutivos da nacionalidade brasileira, não passam em muitos casos de meros informantes, objetos de pesquisa sobre o conhecimento que trazem.

Essa cena que Jekupe provocou nos faz pensar sobre a condição de autoria, de sujeito, não apenas do discurso narrativo de suas origens, cosmogônicos, como teria sido o caso, que recebem a tipologia de mitológicos,mas do discurso constitutivo da nacionalidade como um todo. Do discurso de pertencimento, capaz de interagir nas interlocuções sociais que decidem os seus próprios destinos dentro e fora da aldeia. Que possui implicações políticas sobre a voz indígena e propriedade intelectual de seus conhecimentos tradicionais, de seu saber. Um pouco dessa questão vamos discutir no próximo item.
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continua
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Fonte:
Anais do I Encontro de diálogos literários: um olhar para além das fronteiras. Campo Mourão: Fecilcam, 2013. 453 p.
Imagem = www.vermelho.org.br

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    Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ógui Lourenço Mauri (A Cor dos Olhos Dela)

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Clarice Lispector (Amor imorredouro)

Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica. E, além de ser neófita no assunto, também o sou em matéria de escrever para ganhar dinheiro. Já trabalhei na imprensa como profissional, sem assinar. Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma.

É verdade. Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito. Embora uma amiga médica tenha discordado: argumentou que na sua profissão dá sua alma toda, e no entanto cobra dinheiro porque também precisa viver. Vendo, pois, para vocês com o maior prazer uma certa parte de minha alma – a parte de conversa de sábado. Só que, sendo neófita, ainda me atrapalho com a escolha dos assuntos. Nesse estado de ânimo estava eu quando me encontrava na casa de uma amiga. O telefone tocou, era um amigo mútuo. Também falei com ele, e, é claro, anunciei-lhe que minha função era escrever todos os sábados. E sem mais nem menos perguntei: “o que mais interessa às pessoas? Às mulheres, digamos.” Antes que ele pudesse responder, ouvimos do fundo da enorme sala a minha amiga respondendo em voz alta e simples: “O homem.”

Rimos, mas a resposta é séria. É com um pouco de pudor que sou obrigada a reconhecer que o que mais interessa à mulher é o homem. Mas que isso não nos pareça humilhante, como se exigissem que em primeiro lugar tivéssemos interesses mais universais. Não nos humilhemos, porque se perguntarmos ao maior técnico do mundo em engenharia eletrônica o que é que mais interessa ao homem, a resposta íntima, imediata e franca, será: a mulher. E de vez em quando é bom lembrarmo-nos dessa verdade óbvia, por mais encabulante que seja. Hão de perguntar: “mas em matéria de gente, não são os filhos o que mais nos interessa?” Isto é diferente. Filhos são, como se diz, a nossa carne e o nosso sangue, e nem se chama de interesse. É outra coisa. É tão outra coisa que qualquer criança do mundo é como se fosse nossa carne e nosso sangue. Não, não estou fazendo literatura. Um dia desses me contaram sobre uma menina semiparalítica que precisou se vingar quebrando um jarro. E o sangue me doeu todo. Ela era uma filha colérica.

O homem. Como o homem é simpático. Ainda bem. O homem é a nossa fonte de inspiração? É. O homem é o nosso desafio? É. O homem é o nosso inimigo? É. O homem é o nosso rival estimulante? É. O homem é o nosso igual ao mesmo tempo inteiramente diferente? É. O homem é bonito? É. O homem é engraçado? É. O homem é um menino? É. O homem também é um pai? É. Nós brigamos com o homem? Brigamos. Nós não podemos passar sem o homem com quem brigamos? Não. Nós somos interessantes porque o homem gosta de mulher interessante? Somos. O homem é a pessoa com quem temos o diálogo mais importante? É. O homem é um chato? Também. Nós gostamos de ser chateadas pelo homem? Gostamos.

Poderia continuar com esta lista interminável até meu diretor mandar parar. Mas acho que ninguém mais me mandaria parar. Pois penso que toquei num ponto nevrálgico. E, sendo um ponto nevrálgico, como o homem nos dói. E como a mulher dói no homem. Com a minha mania de andar de táxi, entrevisto todos os choferes com quem viajo. Uma noite dessas viajei com um espanhol ainda bem moço, de bigodinho e olhar triste. Conversa vai, conversa vem, ele me perguntou se eu tinha filhos. Perguntei-lhe se ele também tinha, respondeu que não era casado, que jamais se casaria. E contou-me sua história. Há catorze anos amou uma jovem espanhola, na terra dele. Morava numa cidade pequena, com poucos médicos e recursos. A moça adoeceu, sem que ninguém soubesse de quê, e em três dias morreu. Morreu consciente de que ia morrer, predizendo: “Vou morrer em teus braços.” E morreu nos braços dele, pedindo: “Que Deus me salve.” O chofer durante três anos mal conseguia se alimentar. Na cidade pequena todos sabiam de sua paixão e queriam ajudá-lo. Levavam-no para festas, onde as moças, em vez de esperar que ele as tirasse para dançar, pediam-lhe para dançar com elas.

Mas de nada adiantou. O ambiente todo lembrava-lhe Clarita – este é o nome da moça morta, o que me assustou porque era quase meu nome e senti-me morta e amada. Então resolveu sair da Espanha e nem avisar aos pais. Informou-se de que só dois países na época recebiam imigrantes sem exigir carta de chamada: Brasil e Venezuela. Decidiu-se pelo Brasil. Aqui enriqueceu. Teve uma fábrica de sapatos, vendeu-a depois; comprou um bar-restaurante, vendeu-o depois. É que nada importava. Resolveu transformar seu carro de passeio em carro de praça e tornou-se chofer. Mora numa casa em Jacarepaguá, porque “lá tem cachoeiras de água doce (!) que são lindas”. Mas nesses catorze anos não conseguiu gostar de nenhuma mulher, e não tem “amor por nada, tudo dá no mesmo para ele”. Com delicadeza o espanhol deu a entender que no entanto a saudade diária que sente de Clarita não atrasa sua vida, que ele consegue ter casos e variar de mulheres. Mas amar – nunca mais.

Bom. Minha história termina de um modo um pouco inesperado e assustador. Estávamos quase chegando ao meu ponto de parada, quando ele falou de novo na sua casa em Jacarepaguá e nas cachoeiras de água doce, como se existissem de água salgada. Eu disse meio distraída: “Como gostaria de descansar uns dias num lugar desses.” Pois calha que era exatamente o que eu não devia ter dito. Porque, sob o risco de enveredar com o carro por alguma casa adentro, ele subitamente virou a cabeça para trás e perguntou-me com a voz carregada de intenções: “A senhora quer mesmo?! Pois pode vir!” Nervosíssima com a repentina mudança de clima, ouvi-me responder depressa e alto que não podia porque ia me operar e “ficar muito doente”(!). Dagora em diante só entrevistarei os choferes bem velhinhos. Mas isso prova que o espanhol é um homem sincero: a saudade intensa por Clarita não atrasa mesmo sua vida.

O final dessa história desilude um pouco os corações sentimentais Muita gente gostaria que o amor de catorze anos atrasasse e muito a sua vida. A história ficaria melhor. Mas é que não posso mentir para agradar vocês. E além do mais acho justo que a vida dele não fique totalmente atrasada. Já basta o drama de não conseguir amar ninguém mais. Esqueci de dizer que ele também me contou histórias de negócios comerciais e de desfalques – a viagem era longa, o tráfego péssimo. Mas encontrou em mim ouvidos distraídos. Só o que se chama de amor imorredouro tinha me interessado. Agora estou me lembrando vagamente do desfalque. Talvez, concentrando-me, eu me lembre melhor, e conte no próximo sábado. Mas acho que não interessa.

Fonte:
Clarice Lispector. Cronicas de Descoberta do Mundo.

Sinclair Pozza Casemiro (Mundo Guarani e Literatura) Parte I

RESUMO: O mundo Guarani, por ser poético, se confunde com literatura, arte, ao tempo em que superam essas e quaisquer classificações. Tipologias serão apresentadas, tendo em vista as produções culturais Guarani, respeitando a sua singularidade ao colocarem nelas, os Guarani,a própria alma, a verdade, a partir do sentido que a palavra nhë’e (palavra-alma) possui para sua cultura. Já existe uma significativa produção escrita de Literatura Guarani, em que autores indígenas vêm se destacando, como o Guarani Jekupe, que propõe o entendimento da Literatura,ao tratar das produções indígenas, em duas divisões:a Literatura Nativa, escrita pelos próprios indígenas e a Literatura Indígena, escrita por não indígenas. Também se destaca Munduruku em Contos Indígenas Brasileiros(2005): ao apresentar o valor da Palavra- que encanta e dá direção à cultura indígena, sinônimo de Verdade para essa cultura, de poesia e encantamento, por meio de seus mitos,faz um apanhado deles em várias aldeias do Brasil e os denomina Contos Indígenas Brasileiros. A Palavra, espiritualizada e cosmogônica, empresta a culturas indígenas, desenfornadas e livres de preocupação com classificações, a constituição de sua própria identidade.

Introdução


Quando lemos as narrativas que os Guarani contam, ou que são contadas por autores não indígenas a partir do que deles ouvem, transcritas em diferentes aportes textuais, percebemos a dúvida na indefinição de sua tipologia: mito, lenda, fábula, conto, poesia. Ocorre que essas denominações são utilizadas na perspectiva não indígena do entendimento do mundo Guarani. Na perspectiva Guarani, tais narrativas têm um sentido cosmogônico, de Verdade, como diz Munduruku (2005). Mesmo quando ficcionais, seus objetivos são de encaminhar as vivências tradicionais, dirigir a sua espiritualidade, continuar essa tradição na resistência material e espiritual de sua cultura ou mesmo marcar sua identidade e subjetividade no convívio multiétnico da sociedade nacional. A tipologia de mitos, contos, lendas, etc., fruto da racionalidade ocidental e aprendida no contato, é recurso a que se apegam para equacionar a comunicação, adequá-la, tornar possível suas leituras no universo literário não indígena, porém isso não interfere no sentimento que experimentam ao vivenciá-las enquanto estruturas não apenas de textualidade, mas da própria vida. E, por outro lado, essa tipologia, de perspectiva não indígena, tem uma razão que extrapola os limites dessa adequação. Isso tem razões históricas, que resultam da concepção política
que orientou até então o contato entre as culturas indígenas e não indígenas.

O autor Guarani Jekupé (2010) esclarece a diferença entre Literatura Indígena e Literatura Nativa, partindo principalmente do critério de autoria: a Literatura Indígena é aquela contada e escrita pelo não indígena sobre o que ouviu dos indígenas. E a Literatura Nativa é aquela contada e escrita pelos próprios indígenas, são autênticas e partem de sua vivência, mesmo sendo narrativas de ficção.

Após a Constituição de 1988, que finalmente reconhece o indígena como sujeito autônomo, que reconhece as culturas indígenas como constitutivas da realidade nacional, ou seja,reconhece uma nacionalidade brasileira plural e multiétnica, legitima tardiamente, muito embora, a voz indígena na sua autonomia, singularidade. O que, então, significa dizer que suas tradições de contar, tradição de saberes, de narrativas envoltas num sagrado e espiritualizado, num poder de magia que encantam e que as diferenciam radicalmente, sejam manifestadas sem restrição alguma, sem equações ou adequações ao dizer não indígena, salvo por desejo criativo e/ou recurso poético do autor indígena, livre para se posicionar, imaginar e contar a quem, como, quando e por que quiser. Assim, conhecer um pouco do mundo Guarani e da sua Literatura Nativa, toda ela poética, se faz necessário para entendermos o que, por trás dela, se omite: uma cultura outra, autônoma, que muito tem a enriquecer o universo brasileiro e a Literatura nacional com a sua diferença, mas que permanece pouco conhecida.

Convidamos a essa reflexão e sugerimos pensar em sentidos livres,que não descaracterizem o valor de Verdade que seu discurso carrega. Uma denominação que seja apropriada, nesse intento, para abordar o conceitual de suas narrativas e seus demais discursos, numa unidade de sentido que leve essa Verdade na sua mensagem única e singular, para além das fragmentações tipológicas da perspectiva não indígena. Mas, sentimos, principalmente pelo dizer de autores indígenas como Jekupé, Cacique Benite, Munduruku e pela vivência no tekoha Verá Tupã’i de Campo Mourão-PR, que essa preocupação vai além da cultura indígena Guarani, ela vale para as culturas indígenas em geral. E extrapola a diversidade de tipologias, porque o sentido que possuem é totalizante, sendo manifestado numa unidade conceitual em que apenas a Palavra compreendida de forma cosmogônica e mágica pode dar suporte. Dessa forma, pensamos compreendê-los como saber indígena.

Por saber indígena entendemos as narrativas e demais produções discursivas indígenas, ficcionais ou não, de conhecimentos práticos ou não, de conhecimentos científicos e tecnológicos próprios, conhecimentos cosmogônicos, que são tradicionalmente contadas nas aldeias como valor constituinte de sua cultura, que dão direção e sentido a toda a sua vivência. E que são contadas aos não indígenas por outros objetivos, sendo que esses não indígenas, como estudiosos, pesquisadores e seus representantes legais ou mesmo como visitantes, repassam à sociedade não indígena como um todo. Entre os indígenas há narrativas que nem sempre são permitidas à divulgação seja na oralidade ou na escrita. Entre os Guarani, por exemplo, algumas dessas narrativas só são permitidas dizer e ouvir no seu espaço sagrado que é a Casa de Reza –Opy. E é ali onde apenas eles e apenas aqueles não indígenas-juruás, dignos ou aceitos pela sua cultura podem escutá-las pela voz do Xamoí. São esses discursos, esse saber que permitiram e permitem a continuidade de suas existências, de suas culturas.

1. Mitos, Fábulas, Lendas, Contos, Poesia

    Não raras vezes uma mesma narrativa indígena é transcrita para a Literatura não Indígena como Mito ou Lendaou Conto ou Fábula ou Poesia. Vamos brevemente fazer uma apresentação dessas tipologias. Mito etimologicamente vem do grego, mythus, “fábula”, pelo latim mythu (CUNHA, 1982,p.525;AURÉLIO, 1974, p.931). Para o etimologista Cunha:“sm. ‘narrativa, geralmente de origem popular, sobre seres que encarnam simbolicamente as forças da natureza, aspectos da condição humana´’fábula’ ‘representação idealizada de um estado da humanidade em um passado remoto ou num futuro fictício”. Etimologicamente, pois, mito e fábula se confundem num traço de não realidade. Na atribuição geralmente de origem popular, a definição atribui diferenças entre culturas erudita e popular, deixando entrever um traço hierárquico entre ela se creditando esse tipo de narrativa à última em especial. Quanto ao tempo, é passado ou futuro a representação que o mito traz e ela é fábula sempre idealizada, metafísica por entidades não definidas: seres que encarnam simbolicamente a natureza e a condição humana. Ou seja, contempla a dimensão humana fragmentariamente (aspectos da condição humana) e a condição metafísica; o tempo é nãopresente, não-real e fábula, como seu sinônimo, traz um traço de não-verdade.

Para o dicionarista Aurélio (1974,p.931), mito é narrativa de tempos fabulosos ou heroicos, de significação simbólica, geralmente ligada à cosmogonia e referente a deuses encarnadores da força da natureza e/ou aspectos da condição humana, representação de fatos ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela tradição popular, enfim, mito traz também traços de um tempo que não é este, de uma realidade que não é esta, de uma não verdade para os critérios de nosso mundo da razão. Quando fala em mito da caverna, na filosofia, de Platão, define o mito como figurando o processo pelo qual a alma passa da ignorância à verdade.

Enfim, o que percebemos é uma disjunção da razão, da objetividade com relação à imaginação, à subjetividade, contemplando-as de forma opostas, contraditórias e atribuindo ao racional, objetivo aspectos de uma cultura superior - a erudita em detrimento de uma cultura popular, o que também se faz de forma disjuntiva.

Mircea Eliade (2010), mitólogo, apresenta o seguinte conceito:
O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros temos, o mito narra como, graças à façanha dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição.

O mitólogo remete ao sagrado e a um tempo passado, de princípio,em realidades totais ou fragmentadas e mesmo institucionais. Lévi Strauss, como antropólogo que estudou diversas comunidades indígenas na América do Norte e na América do Sul (no Brasil), apresenta um conceito mais historicizado, sem perder a ideia de origem: “O mito é a história de um povo, é a identidade primeira e mais profunda de uma coletividade que se quer explicar.” LEVY-STRAUSS, 2010).

Na definição da psicanalista Fragoso, o mito tem também a marca de origem e é tradutivo da forma como cada civilização se entende e se interpreta assim como entende e interpreta outras civilizações: “O mito constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo, em que vive, como traduz, por símbolos ricos de significado, o modo como um povo ou civilização entende e interpreta a civilização” (FRAGOSO, 2013).

A fábula - mithu em latim, que levou ao grego o sentido de mythus, para Cunha (1982,p.342) e Aurélio (1974, p.604) tem o sentido explícito de alegoria, imaginação com fins morais e via de regra com personagens animais, trazendo como sinônimos lenda, mito. Há também outra origem etimológica: do lat. Fari (falar) e do gr. Phaó (dizer, contar algo), que traz a mesma definição.

A lenda em Aurélio (1974,p.829) tem a etimologia de “coisas que devem ser lidas” e a tradição popular. Cunha, em seu dicionário etimológico (1982,p.469) remete diretamente ao verbo ler, onde a define como narrativa, conto, legenda. Na literatura,as lendas inicialmente contavam histórias de santos, mas ao longo do tempo o conceito se transformou em histórias que falam sobre a tradição de um povo e que fazem parte de sua cultura. Narrativas transmitidas oralmente com o objetivo de explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. Assim, há mistura de fatos reais com imaginários, história e fantasia; vão sendo contadas ao longo do tempo e modificadas pela imaginação do povo.

A definição de conto é apresentada pelos dicionarista Aurélio (1974,p.174) como uma forma deverbal de contar e o autor remete conto a uma narração falada ou escrita, um engodo, embuste, mentira, invenção, peta, puerilidade. O etimologista Cunha (1982,p.211) remete conto a contar(p.210), como relatar e narrar. Para os literatos, a tipologia conto tem sem sempre uma definição convergente. Duarte (2013), assim o define:
Perfaz-se de todos os elementos que compõem a narrativa, ou seja, tempo, espaço, poucos personagens, foco narrativo de 1ª ou 3ª pessoa, corroborando em uma sequência de fatos que constituem o enredo, também chamado de trama.. É um dos fatores de total relevância, é que o enredo apresentase de forma condensada e sintética, centrado em um único conflito. Tal característica tende a criar o que chamamos de unidade de impressão (DUARTE, 2013).

Essa definição marca uma tipologia estruturada em conflito e busca de resolução, nem sempre presente, algumas vezes a se complementar pelo leitor.O conto remete geralmente à realidade presente, mas também se marca pela narrativa de um passado histórico, real, ou mesmo irreal, surreal. Porém, sempre em torno do conflito único, de poucos personagens e de forma sintética.

Conforme percebemos, as definições de mito, fábula, lenda e conto apresentam em comum a disjunção entre o que é real e imaginário, o que pertence ao tempo primordial, de origem e o que pertence ao tempo histórico.

Ainda o sentido de realidade se procura separar entre o que é pertencente a uma dimensão do mundo real, surreal, físico e o que é pertencente ao mundo sagrado, metafísico, entendidos esses últimos como sendo uma dimensão não racional, não própria do mundo objetivo, terreno. Os dicionaristas remetem a destinação dessas tipologias geralmente à cultura popular, fazendo também uma disjunção entre as culturas como sendo erudita ou popular. Nesse sentido, o mitólogo, o antropólogo e a psicanalista divergem do dicionarista e etimologista, pois nenhum deles, ao definirem mito, hierarquiza as culturas, fica implícito ou não o sentido de civilização. Fábula e conto trazem o sentido, no dicionarista, a não verdade, o engodo, muito mais em conto, embora esse sentido esteja presente também em mito,lenda e fábula para o dicionarista e o etimologista. Para o literato, conto é narrativa de ficção.

Na perspectiva indígena Guarani, a Palavra é cosmogônica e leva a essas denominações um sentido totalizador, misterioso e com magia traduz a sua vivência, sem fragmentação. A Palavra, sendo sagrada, é mística e está em primeiro plano para a sua cultura, acima dessas denominações tipológicas.

Munduruku (2005,p.4), ao apresentar os mitos de várias etnias indígenas brasileiras que selecionou para narrá-los como contos, em Contos Indígenas Brasileiros, esclarece que para a cultura indígena em geral o que importa é a magia e o encantamento que ela, a Palavra, revela e a que ela conduz “Mesmo vivendo numa época em que a tecnologia impera e coloca a Palavra – aqui como sinônimo de Verdade – em segundo plano...” Mais adiante (p.5),assim se manifesta:
Muitos dos personagens que por aqui passam não são criação de uma mente insana, mas são personagens vivos de uma realidade repleta de mistérios com seus seres, espíritos, duendes, encantados, bruxas; seres com os quais as pessoas se relacionam, aprendem, crescem, brincam, brigam; seres que metem medo nas crianças e adultos; seres que embalam a fantasia e alimentam os mistérios da própria existência. Ou seja, a vivência indígena se povoa de mistérios e misteriosos seres, encantamentos, o poético está em sua Palavra e em sua existência real.

Por fim - continuando as tipologias -, a poesia, na perspectiva não indígena é conceituada como: “a arte de escrever em versos, aquilo que desperta o sentimento do belo” (CUNHA, 1982, p. 617). A segunda parte dessa definição vale para a perspectiva indígena em geral. E vale especialmente para o Guarani, considerando a sua língua como um todo, já que toda ela é poética,melódica e sagrada, bela, pela própria definição de linguagem: nhë’ e – palavra-alma e que se intensifica nas suas intenções continuadas conforme a autoria de quem as pronuncia: nhë’e – palavra-alma; nhë’eporä – belas palavras; ayvuporä- palavras sagradas, enfeitadas. Quem se deixa destituir danhë’e - palavra-alma se torna um tekoachykoe – o que confunde a natureza e o sobrenatural, que se torna um jaguar, um ser animalizado (Clastres, 1978,p.94). O sobrenatural para os Guarani fica entre a natureza e a cultura (id. p.29). Para os Nhandeva de Laranjinhas-PR, o tatu simboliza esse animal sob o qual o abusante se transmuda quando perdido de sua palavra-alma (CASEMIRO, 2013).

Dessa forma, percebemos que a palavra, para a perspectiva indígena, espiritualizada e cosmogônica, sinônimo de Verdade e que dá direção e sentido a sua cultura, como escreveu Munduruku, não se deixa aprisionar sob o signo das classificações racionalizadas e enformadas em tipologias da cultura não indígena. As tipologias da cultura não indígena, como as conhecemos, não foram pensados para esse discurso Guarani, que permanece inteiro e totalizante na relação palavra-alma/alma-palavra, por isso cheio de poesia, encantamento, verdade e imaginação, mistério. Contendo a sua verdade, o seu mundo, discurso essencialmente espiritualizado. A tentativa de aprisioná-lo resulta risco. O sentido maior de Literatura enquanto Arte, porque poética, inesgotável fonte de sentidos pode tentar estabelecer alguma aproximação possível à compreensão desse saber indígena. Não dizível, o sentido da Literatura Nativa Guarani, do discurso Guarani em nossos dias, permanece sagrado, intocável, porque poético na sua essência e natureza.

Mesmo após tantos séculos de tentativa de subjugação cultural, o seu discurso, a sua Literatura Nativa, como escreveu Jekupe, não se deixou apropriar, não se domesticou nem se acomodou, não se colonizou, resistiu e não se assimilou ao racionalismo não indígena. O que significa dizer que a sua alma nunca foi roubada: o Guarani, pois, pela sua Palavra, continua livre...
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continua
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Fontes:
Anais do I Encontro de diálogos literários: um olhar para além das fronteiras. Campo Mourão: Fecilcam, 2013. 453 p.
Imagem = www.vermelho.org.br
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    Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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