quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Contos Populares do Tibete (O Moço que se Negava a Matar)

Era uma vez um moço que se chamava Tashi. Tashi não era capaz de se ajustar aos costumes do mundo. Por mais que seu pai se esforçasse, jamais havia conseguido que o moço caçasse para obter comida. Tashi se negava a tirar a vida de quem quer que fosse, e tampouco comia a carne que seu pobre pai levava para casa para a panela familiar.

Tashi tinha três irmãs, que se haviam casado com homens ricos. Amiúde seus pais se lamentavam da má sorte que haviam tido por terem ficado sozinhos com um filho que não seria capaz de sustentá-los em sua velhice, um filho que não queria caçar, e que era, por natureza, muito dócil e pacífico.

— Deveria ter-se tornado monge — dizia a mãe —, porque, de que nos serve este nosso filho? Quando formos velhos, teremos que mendigar às nossas filhas e aos nossos vizinhos para não morrermos de fome.

Esta era a queixa constante dos pais de Tashi, mas, mesmo assim, o moço se negava a tirar uma vida.

— Toda vida é sagrada — dizia; não posso matar outro ser.

Certo dia, o pai de Tashi insistiu para que o rapaz saísse com ele para caçarem juntos. Caminharam durante muitos quilômetros e o pai já estava muito cansado. Havia sido um dia bastante ruim, pois tudo o que havia conseguido pegar tinha sido um coelhinho. E o pai pensou: "É este meu filho, ele me da azar".

O moço estava sentado numa rocha, e enquanto comia sua pobre ração de fruta e queijo, ia gravando a oração de Chenrezik — OM MANI PADME HUM — numa rocha que havia ao lado. Ao largo do caminho, havia outras rochas, nas quais os viajantes também tinham gravado esta oração, pois o caminho conduzia a um santuário muito visitado pelos que passavam por ali.1

Chenrezik, a divindade tutelar e padroeira do Tibete, o Senhor da Compaixão, recebia uma grande devoção da parte do povo.

Quando o pai de Tashi viu o que seu filho estava fazendo, também se pôs a articular em silêncio a poderosa oração, e o fez repetidas vezes, enquanto desfiava, em suas mãos, as contas já gastas do seu rosário. Tirar a vida de alguém era uma coisa contrária às suas crenças como budista, mas ele precisava conseguir comida para a sua mulher; por isso, tratava de matar os animais o mais humanamente possível, rogando por eles ao fazê-lo. Mas era evidente para o pai que nunca iria conseguir que seu filho raciocinasse como ele. O rapaz jamais tiraria uma vida, por mais fome que passassem, e o pai não via saída alguma para esta situação.

Pai e filho seguiram caminhando ainda um pouco mais, sempre atento, o primeiro, para ver se conseguia descobrir algum animalzinho ou ave. De repente, por entre as árvores, viu algo que lhe fez conter a respiração. Ali, no campo que beirava o caminho, estava uma enorme lebre. Era realmente a melhor oportunidade que se havia apresentado para ele, desde há muitas semanas; por isso, decidiu não deixá-la escapar de maneira alguma. Pegando a sua funda, arrastou-se entre as árvores para ter uma perspectiva melhor do animal. A lebre corria em direção a eles, e suas pernas traseiras davam-lhe tal velocidade, que era impossível ao pai fazer bem a pontaria.

De repente, a lebre se deteve, como que percebendo que havia perigo. Mexeu nervosamente o nariz, olhou para um lado e para o outro e aguçou o ouvido. Estava tão perto que o rapaz podia vê-la perfeitamente. O mesmo acontecia com o pai, que já estava prestes a atirar uma grande pedra com a sua funda. Mas Tashi se levantou e gritou: "Não, pai, não! Não a mate!" E a lebre, dando um grande salto no ar, desapareceu num segundo e se escondeu de seu irritado agressor num campo de cevada.

O pai ficou como que atônito durante uns minutos. Sua cara estava pálida e lufadas de cólera subiam-lhe desde dentro. "Por quê?, perguntou ao filho. Por que você fez aquilo?". Tashi ficou perturbado, pois viu que seu pai estava mais irado do que nunca e que, provavelmente, a maior surra da sua vida já estava esperando por ele.

O pai não pôde dominar-se por mais tempo. Apanhando uma grande rocha, avançou em direção ao filho. "Eu vou matar você" — disse —, eu vou matar você, você, meu único filho". Dizendo isto, o pai se dispôs a lançar a pedra na cabeça de Tashi, mas este retrocedeu assustado, rogando ao pai que lhe poupasse a vida. Bem ao lado do caminho, havia uma encosta rochosa, e, ao lado desta, se abria uma pequena caverna. A abertura era somente uma estreita rachadura, mas o rapaz se enfiou por ela e conseguiu escorregar até o seu interior, antes que o pai lhe atirasse violentamente a pedra na cabeça. A pedra atingiu Tashi na perna e o moço gritou de dor.

Uma vez dentro da caverna, Tashi viu que estava a salvo, pois a abertura era demasiado pequena para que seu pai pudesse passar por ela. Tashi não podia fazer idéia das dimensões do seu cárcere de rocha, pois estava escuro e era muito difícil enxergar dentro dele. Avançando palmo a palmo, ao longo de uma das pontiagudas paredes, chegou ao fundo da caverna, que estava apenas a uns metros da entrada. AJi, com a perna sangrando, se estendeu no solo e... perdeu a consciência.

Muitas horas depois, Tashi voltou a si ao ouvir o ruído de passos, e se levantou. A dor o fez recordar tudo o que o havia levado até ali. O ruído de passos se tornava mais forte. Quis gritar pedindo ajuda, mas sua voz estava muito fraca e somente um leve murmúrio saiu dos seus lábios. Algum tempo depois, reunindo todas as forças que pôde, Tashi gritou, e desta vez mais alto. Os passos se detiveram e ele pôde escutar vozes que falavam em voz-baixa desde o exterior da caverna.

De repente, apareceu uma cabeça na abertura, dois olhos procuraram caverna adentro e uma voz gritou para que saísse.

— Não posso mover-me — disse Tashi, estou ferido, e me é difícil caminhar os poucos metros que me separam da entrada da caverna.

A cabeça desapareceu e logo foi substituída por outra. Depois, um pequeno corpo vestido com um hábito passou pela abertura e avançou de rastros pela caverna até Tashi. Este pôde ver que se tratava de um monge, que avançava até ele com os braços estendidos para levantá-lo e levá-lo a um lugar seguro. Uma vez fora da caverna, Tashi viu que eram três monges. Eles viajavam juntos em peregrinação aos lugares santos.

Os monges o levaram a um matagal de plantas delicadas, puseram-no no solo e cuidaram da sua perna. Depois de repartirem com ele a sua comida, os monges pediram a Tashi que lhes contasse a sua história, como havia chegado àquela situação tão penosa. O moço contou-lhes tudo, referindo-se à sua recusa a caçar, e dizendo-lhes como, no fim, seu pai, desesperado, havia pensado em matar a seu único filho.

Os monges escutaram em silêncio. Depois, o monge principal convidou o moço a acompanhá-los em suas viagens. E Tashi assim o fez, vestido com o hábito de um monge mendicante.

Ao fim de alguns dias, os peregrinos chegaram à casa da irmã mais velha de Tashi. O monge principal se aproximou da casa, chamou à porta e, quando apareceu a moça, pediu-lhe uma esmola. Depois de dar comida aos monges errantes, quando estes já se preparavam para partir, a moça perguntou se não teriam encontrado, por seu caminho, seu irmão desaparecido. Disse-lhes que estava desaparecido há muitos dias e que a família estava muito preocupada. O monge principal respondeu-lhe que não o haviam visto, mas que, se isso viesse a acontecer, logo tratariam de dar alguma notícia aos familiares.

A irmã mais velha de Tashi não reconhecera o irmão com o hábito de monge.

Pouco depois, chegaram à casa da segunda irmã do rapaz. De novo, o monge principal se aproximou da casa e pediu uma esmola. Esta lhes foi dada. E foi-lhes perguntado, também, se haviam encontrado o irmão desaparecido. O monge principal respondeu que não e seguiram seu caminho.

Quando chegaram à casa da irmã menor de Tashi para pedir uma esmola; ela reconheceu imediatamente o irmão desaparecido e o estreitou em seus braços, pedindo-lhe que permanecesse com os que lhe queriam bem.

As três irmãs se reuniram na casa da irmã menor e fizeram um banquete para celebrar a volta de Tashi. Os monges foram muito obsequiados pelos parentes do rapaz, os quais lhe pediram que permanecessem como convidados todo o tempo que quisessem. Os monges, entretanto, agradeceram o convite e deixaram a casa da irmã mais nova de Tashi para prosseguirem a sua viagem.

Tashi agradeceu às irmãs por toda a sua ajuda e por todo o seu interesse, mas pediu-lhes que o abençoassem, pois desejava partir e levar a sua própria vida. As irmãs se entristeceram ao ver seu único irmão sair para enfrentar o mundo e deram-lhe, como presente, um cavalo mágico que falava.2 Tashi pegou o cavalo e se dirigiu para as regiões mais remotas do país.

Ainda não havia ido muito longe, quando alcançou uma vasta planície. O cavalo lhe disse, então: — Mate-me. Estenda a minha pele sobre a planície e espalhe as minhas cerdas por todas as partes, para que o vento as leve aos confins desta planície.

O rapaz ficou horrorizado e negou-se a matar o cavalo. Em lugar disso, depositou seu fardo no chão, comeu o que suas irmãs lhe haviam dado e se dispôs a passar a noite ali. Mas, durante a noite, enquanto Tashi dormia, o cavalo lançou-se de um precipício escarpado e matou-se.

Quando Tashi se levantou, pela manhã, procurou o cavalo, mas não o encontrou em parte alguma. Explorando toda a planície, o rapaz chegou ao precipício e, olhando para baixo, viu o corpo destroçado do cavalo. Sentindo invadir-lhe uma tristeza enorme e pensando na conversa na noite anterior, Tashi decidiu fazer o que o cavalo lhe havia pedido. Pegou a pele, estendeu-a no centro da planície, e depois espalhou as cerdas do cavalo por todas as partes, lançando-as ao ar para que o vento as levasse até os confins mais distantes da planície.

Imediatamente, a pele do cavalo se converteu numa grande mansão e as cerdas se converteram em ovelhas e iaques, que pastaram pela planície até se perderem de vista. O cavalo tornou a aparecer a Tashi e assim lhe falou:

— Você tem mostrado uma grande compaixão para com todos. Esta é a sua recompensa.

Dizendo estas palavras, o cavalo partiu a galope e desapareceu ao longe. E Tashi notou que no chão, por onde os cascos do cavalo haviam tocado, haviam aparecido montinhos de ouro.

Inspecionando a sua nova casa, Tashi pensou nos pais e se perguntou como estariam se arranjando para sobreviver. Decidiu-se a ir vê-los e a trazê-los para viverem com ele na mansão. "Meus pais nunca hão de precisar buscar por comida, nunca mais", disse a si mesmo.

E assim pensando, o moço se vestiu novamente com o hábito de monge, pois não queria que seus pais soubessem de sua recém-adquirida fortuna. Depois, apanhou duas tortas e se dirigiu à casa dos pais. Ao chegar a esta, encarapitou-se no telhado, espiou por uma pequena janela e viu os pais acocorados diante do fogo. Tashi deixou cair uma das tortas. Sua mãe a agarrou, dizendo: "É um presente dos deuses!" Mas o pai, esfaimado, arrancou a torta das mãos da mãe, e se pôs a comê-la com avidez. Tashi deixou cair, então, a outra torta para a mãe. Depois, desceu do telhado e chamou à porta. Sua mãe abriu-a e, imediatamente, reconheceu o filho. Estreitou-o nos braços e pediu-lhe que não voltasse a deixá-los. O pai, embargado de emoção, pediu perdão a Tashi.

Tashi contou-lhes sobre sua nova casa e sobre sua riqueza, e os levou a viver com ele, na planície. Ali, colocou a mãe num trono de ouro puríssimo; fez o pai sentar-se num trono de prata puríssima. E quanto a ele, o único filho varão, sentou-se num trono de madrepérola puríssima, também.
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Notas
1. A propósito do mantra de Avalokitesvara (Chenrezik), a fórmula sagrada por excelência do budismo tibetano, gostaríamos de citar as palavras do Lama Anagarika Govinda: "Está nos lábios de todos os peregrinos, na reza dos moribundos, na confiança dos vivos. É a melodia eterna do Tibete, que o homem religioso percebe no murmúrio dos regatos, no rumor das cascatas ou no fragor das tempestades; e que saúda o ser humano desde os rochedos e desde as pedras-mam, que o acompanham por todas as partes, ao largo dos caminhos e dos escarpados desfiladeiros". (Fundamentos da Mística tibetana, Madri, 1975, p. 29). É numa dessas "pedras-mani" que grava Tashi em nosso relato; existem em grande número no Tibete e nas regiões limítrofes, Podem tratar-se de pedras isoladas ou de pequenos muros, e quando um budista passa junto a uma delas, deve contorná-la no sentido das agulhas do relógio, deixando-a sempre à sua direita, como se faz com os chôrten e outros símbolos sagrados. Para uma boa ilustração de uma pedra-mani, consulte-se Javier Gómez Rea e Dedvan Sen: Himalaia, os mosteiros dos auras. Coleção "O Universo do Espírito", n." 1, Madri, 1985, pp. 20-21.
2. O tema do "cavalo que fala" é muito frequente nas lendas tibetanas, e se encontra vinculado, em particular, à figura do rei Gesar de Ling e ao mito de Sambhala.


Fonte:
Jayang Rinpoche. Contos Populares do Tibete. (Tradução: Lenis E. Gemignani de Almeida).

Silvana da Rosa (A mulher escritora e personagem nos contos de fadas) Parte XIV

      Segundo Warner, referindo-se a Beaumont, é relevante a habilidade da escritora em atribuir aos contos de fadas a importância devida, tornando-o recurso necessário à educação, bem como transformar o rude, o homem selvagem em cortesão e, além disso, mostrar que o amor é possível, até mesmo em uniões nada convencionais, como entre uma mulher e um animal, pois esse sentimento é a essência da vida e está além de diferenças, preceitos e preconceitos.

Mas foi essa governanta sensível e bondosa, madame Leprince de Beaumont, em meados do século XVIII, a primeira a usar os contos de fadas para educar os jovens desse modo. Sua visão do amor e simpatia femininos redimindo o selvagem que há no homem tornou “A Bela e a Fera” um dos contos de fadas mais estimados do mundo, que nunca deixou de inspirar em meninas – e meninos – sonhos de experimentar o poder do amor. (WARNER, 1999, p. 333)
                     
      Além de Beaumont enfatizar a importância da leitura para a educação, em 1687, é lançado um livro específico para as meninas, ou seja, voltado à educação feminina, o Tratado da Educação das Meninas, escrito por Fénelon. Nessa obra o ensino doutrinário é característico, visto que as meninas são preparadas para serem esposas e mães.

      A seguir, Mlle. L’Héritier de Vilandom, defensora das fábulas contadas pelas velhas senhoras, adepta do Preciocismo e seguidora de Mme d’Aulnoy, publica Obras Misturadas em 1696.

Em 1774, Mme. Le Prince de Beaumont, em tradução de Joaquim Inácio de Freitas, publica a obra Thesouro de Meninas. Nesta, o próprio título da obra a identifica como sendo instruções educacionais específicas para o sexo feminino.

Já foi visto que o passo inicial para o ingresso e a difusão intelectual feminina deu-se com Mme. de Rambouillet, em 1608, na França, uma vez que a vida mundana dos salões tornou-se mais refinada, através de apresentações literárias que lá aconteciam. Entretanto, muito antes disso, tem-se a presença da participação feminina e também “feminista”, segundo Moacyr Scliar. Scliar cita uma data, bem remota. Segundo ele, em A primeira transgressora36, a primeira transgressora feminina e “feminista” foi Lilith, uma personagem bíblica que, adepta de hábitos e valores nada convencionais, escandalizou a sociedade da época. Essa mesma personagem figura no cenário folclórico da Suméria e da Babilônia, mas representando o caráter demoníaco das mulheres.

Por sua vez, de acordo com Scliar, as feministas a transformaram em um modelo representativo de suas aspirações: “Existe nos Estados Unidos uma revista chamada Lilith (independente, judaica e francamente feminista). Um livro sobre feminismo chama-se A Ascensão de Lilith. Um festival feminista tem como denominação Lilith Fair, a Feira de Lilith” (2008, p. 17).

As idéias de Scliar confirmam o que J.D. Eisenstein afirmara em O Livro de Lilith (1991), citado por Eduardo de Assis Duarte (1997). Desse modo, Eisenstein narra em sua obra a história da criação da primeira fêmea, Lilith, obra do Divino, concebida para acompanhar Adão na Terra. No entanto, a personagem não ficou subjugada às ordens de Adão e preferiu percorrer o mundo, criando asas que a levariam para bem longe de seu companheiro.

      Convém salientar que a personagem Lilith faz lembrar As meninas más, de Margaret Atwood e Lucía Etxebarría, que nada mais são do que mulheres que se fizeram fortes, devido aos muitos tormentos familiares e sentimentais que sofreram durante suas histórias de vida. Na verdade, através de seus anseios íntimos, seus conflitos, culpas, sonhos, as personagens refletem a vida difícil da mulher que decide se opor a uma sociedade machista. Consequentemente, elas se tornaram exigentes e determinadas, não aceitando a vida medíocre que, provavelmente, elas teriam se vivessem o papel de uma bela eternamente adormecida imposto pela sociedade. E, de acordo com Lélia Almeida:

O romance da espanhola Lucía Etxebarría, Amor, curiosidad, prozac y dudas, de 1996, não conta a história de uma vilã, como o de Atwood. Mas talvez conte, da mesma maneira, das vontades das mulheres de serem diferentes das princesas e boas meninas dos contos de fadas e das novelas sentimentais [...] (ALMEIDA, 2003, p.31)
                     
      Desse modo, nos contos escritos entre os séculos XVII e XVIII é perceptível o anseio primeiro da mulher escritora, que consiste em não mais reproduzir a mesma imagem “insossa” feminina de tempos distantes. A mulher escritora, recém chegada neste contexto literário masculino, está preocupada em descobrir, em determinar os reais valores e compor a identidade feminina em suas obras, distante do já tão conhecido, escrito por mãos e conceitos masculinos.

Nota:
Louise Mary Alcott e Eleanor Hodgman Porter não redigiram contos de fadas, mas fizeram diferença enquanto escritoras de Literatura Juvenil, por isso foram citadas.

No século XX, cabe ressaltar também a presença de Simone de Beauvoir que não escrevia contos de fadas e, pelo contrário, a eles mostrava-se avessa. Beauvoir escreveu sobre as mulheres, tornando-se um ícone feminista, o modelo da mulher liberal moderna, seguida fielmente por mulheres escritoras que se espelharam nela para embrenharam-se no mundo intelectual e literário sem preconceitos. Desde cedo, a referida escritora participou de grupos de filósofos que estudavam o Existencialismo, uma vez que as causas humanas, existenciais e sociais referentes à mulher interessavam-na muito.
Juliana Albuquerque, estudiosa da vida e obra de Beauvoir, salienta que a própria autora afirma:
“O certo é que até aqui as possibilidades da mulher foram sufocadas e perdidas para a humanidade: já é tempo, em seu interesse e no de todos, de deixá-la enfim correr todos os riscos, tentar a sorte.” (BEAUVOIR apud ALBUQUERQUE, 2009 p. 29)

3.2 Percalços que retardaram a efetiva inserção feminina no mundo intelectual

[..] se conhecemos as condições de vida da grande maioria das mulheres nos séculos passados, os obstáculos que enfrentaram - das teses médicas “provando” sua incapacidade    intelectual, ao esforço dos filósofos e governantes incentivando o recolhimento - não podemos nos admirar do reduzido número de escritoras hoje conhecido. LIMA DUARTE, 1997, p. 56-7.
                                        
      Além das escritoras já citadas no subcapítulo anterior, algumas outras se destacaram no final do século XIX e início do XX: a russa Sophie Rostopchine, Condessa de Ségur, com os Novos contos de fada (1856); a americana Louise Mary Alcott37, com Little women (1868), e a norte-americana Eleanor Hodgman Porter, com Pollyana (1915).

      Já no Brasil, em meados do século XIX, quando o povo sentiu repulsa por modelos estrangeiros, uma literatura brasileira surgiu e, com isso, inúmeras obras infantis, tais como: Contos infantis (1886), de Júlia Lopes de Almeida; Livro das crianças (1897), de Zalina Rolim, e O Livro da infância (1899), de Francisca Júlia da Silva Munster.

      A romancista Júlia Lopes de Almeida foi membro atuante do movimento nacionalista, buscando uma literatura essencialmente brasileira e, com esse espírito, lançou o livro Contos infantis, composto por sessenta narrativas em verso ou prosa.

      Entretanto, Zalina Rolim, apesar de escrever para crianças, foi quem se destacou efetivamente no incipiente movimento feminista iniciado em São Paulo. Novaes Coelho, caracterizando a escritora Zalina Rolim, afirma:
                       Figura que teve significativa participação no movimento feminista que mal se iniciava, em São Paulo, e também nos projetos de inovação do ensino básico, a paulista Zalina Rolim (1869/1961) escreveu principalmente poesia. O volume Livro das Crianças, coletânea de contos e estorietas em versos, foi publicado pelo Governo de São Paulo, tornando-se com essa divulgação um dos grandes sucessos na literatura escolar da época. (COELHO, 1991, p. 216)
                     
Já Francisca Júlia da Silva Munster sobressaiu-se pela luta em favor da disseminação da cultura e da literatura para as crianças, bem como pela renovação do ensino propiciado a elas.

Além das escritoras já mencionadas, as quais publicaram suas obras em meados do século XIX, destinadas ao público infantil, ainda soma-se a mineira Alexina de Magalhães Pinto, com As nossas histórias, em 1907. Ela irmanou-se a Francisca Júlia Munster, quanto à busca pela renovação do ensino primário e, acresceu, ainda, a renovação das leituras infantis.

A seguir, Presciliana Duarte de Almeida, com Páginas infantis, publicada em 1908, associa suas idéias às de Zalina Rolim, uma vez que divulgou em suas obras os novos anseios feministas38 e educacionais. Consoante a isso, Novaes Coelho cita que Presciliana Duarte foi uma figura de destaque em âmbito literário e educacional, enquanto mulher e feminista:

Figura feminina de destaque no movimento cultural, literário e educacional paulista, no entre-séculos, a mineira Presciliana Duarte de Almeida (1867/1944) teve ação importante na divulgação das novas idéias feministas e educacionais. Incentiva a criação da revista estudantil A Aurora (no Ginásio Sílvio de Almeida – SP), escreve peças de teatro que leva à encenação pelos escolares e, em 1908, publica Páginas Infantis, coletânea de estorietas referendadas por uma carta-prefácio de João Kopke. Em 1914, escreve o livro de leitura O Livro das Aves (crestomatia em prosa e verso), adotado em várias escolas paulistas. (NOVAES, 1991, p. 219)
                     
      Percebe-se que, timidamente, as mulheres se inserem no mundo intelectual, porém o número de homens escritores ainda é maior. No Brasil, Júlia Lopes de Almeida, Zalina Rolim, Francisca Júlia da Silva Munster, Alexina de Magalhães Pinto e Presciliana Duarte de Almeida eram, realmente, consideradas as pioneiras que, provavelmente, incentivaram muitas crianças, jovens e leitoras de várias idades a se tornarem escritoras no século seguinte.

Contudo, não é de se surpreender com o número inexpressivo de escritoras, devido à pressão em relação à mulher, em observância ao cultivo dos padrões tradicionais da época e isso se verificava de tal forma que, até mesmo o que ela devia ler era “sugerido”.    Mas essa realidade não era só vivida no Brasil, Laura Cavalcanti Padilha (1997) mostra um dado importante, porém quanto a escritoras de poesias, na década de 50, em Angola, Cabo Verde e Guiné Bissau.

[...] a poesia angolana feminina começa a surgir na década de 50, fato este confirmado também com respeito a Cabo Verde onde, em 36 (trinta e seis) poetas, só há uma mulher. No caso de Angola, há 6 (seis), para 53 (cinquenta e três), enquanto em São Tomé e Príncipe, para 7 (sete), há duas e nenhuma em Guiné Bissau, onde, aliás, só se registra o nome de um poeta [...] (PADILHA, 1997, p. 63)
                     
      No Brasil, mudanças lentas começaram a surgir a partir da semana da Arte Moderna, em 1922, quanto às novas formas de linguagem e expressão. Consequentemente, obras novas surgiram no mercado, mas a acessibilidade das mesmas às mulheres continuava a ser demasiadamente lenta e, além disso, o tipo de leitura era lhe sugerido, uma vez que alguns livros não poderiam faltar em sua biblioteca, como a Bíblia, de cunho religioso e de higiene pessoal (relacionada à criança e à purificação espiritual da mulher). Esses livros eram os indicados para a leitura feminina, entre outros.

      Conforme o exposto anteriormente, faz-se interessante ressaltar uma curiosidade que talvez invada a mente de todo pesquisador ou leitor, ou seja, por que as escritoras francesas são sempre postas em destaque quando se buscam as mulheres escritoras de contos de fadas? Várias respostas para este questionamento podem surgir, como, por exemplo: porque a França foi o berço de inúmeras descobertas e lá surgiu o Iluminismo o que pode ter propiciado o caminho para a mulher se inserir no campo literário. De outro modo, Sara Castro-Klarén, citada por Márcia Hoppe Navarro, menciona uma alternativa mais condizente. Segundo Márcia Navarro, a escritora Sara Castro-Klarén sugere que:

[...] a escritura de mulheres latino-americanas está historicamente marcada pelos sinais da marginalidade social, das hierarquias raciais e, como tal, “feminismo” no âmbito de tais segmentações sociais, historicamente determinadas. Essa autora compara a discriminação que a mulher sofre com outros tipos de opressão, apontando que a exclusão da mulher do discurso patriarcal não difere da exclusão resultante do racismo: “o eterno feminino” se assemelha ao eterno “bom selvagem” [...] (NAVARRO, 1997, p. 44-45, grifos da autora)
                     
      Como se não bastassem as questões preconceituosas a que a mulher era submetida, um outro fator também vem justificar o número reduzido de escritoras em relação aos homens, ou seja, algumas se esconderam à sombra de pseudônimos ou desistiram de escrever visando não serem repreendidas e punidas. Além disso, em épocas anteriores, as mulheres eram consideradas seres não inteligentes e, para tanto, as histórias que elas escreviam eram queimadas ou roubadas pelos maridos ou familiares (até mesmo para publicá-las como se fossem escritas por eles mesmos). Era comum a existência de escritoras anônimas ou a utilização de pseudônimos, frequentemente masculinos, como exemplo, as irmãs Brontë que, inicialmente, ficaram conhecidas como os irmãos Bell, para que elas pudessem se proteger da opinião pública ou porque foram desaconselhadas a desenvolver tal atividade, considerada estritamente masculina.

      Virgínia Woolf, citada por Constância Lima Duarte (1997, p. 58), sugere que muitos escritores anônimos que publicaram seus textos em diversos suportes em tempos passados, na verdade, seriam elas, as anônimas.

      Constância Lima Duarte menciona inúmeras histórias que comprovam as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ao tentarem tornar-se escritoras. Um exemplo será citado somente como detalhe ilustrativo à questão, uma vez que a escritora mencionada não escrevera contos de fadas, mas poesia:

Para falar de literatura de autoria feminina e de cânone, lembro algumas histórias de mulheres, à guisa de ilustração. Começo com a última que tive notícia e que foi publicada recentemente no jornal Folha de São Paulo. Era uma pequena nota e trazia a informação de um artigo recém publicado em Londres afirmava que vários poemas incluídos em The Waste Land, de T. S. Eliot, não seriam de sua autoria e sim de sua primeira esposa, Vivien Haigh Eliot, também escritora. O autor do artigo afirma que Vivien havia publicado muitos dos poemas sob o pseudônimo de Fanny Marlowe, na revista Criterion, e que Eliot, “diante da instabilidade emocional da esposa”, a havia internado em um manicômio britânico, onde ela ficou até falecer [...] (LIMA DUARTE, 1997, p. 53)

Além do caso citado, há um característico no Brasil, envolvendo a escritora Auta de Souza, ou seja, em sua família, composta por homens escritores, não se permitia o surgimento de uma escritora. Provavelmente, não só o preconceito tumultuava a mente masculina, como também o medo da concorrência com o trabalho feminino. Sendo assim, os escritos dela foram reprovados, não agradando em nada seus familiares que, curiosamente, também eram poetas e intelectuais.


Inserido no rol dos homens escritores que, de certa forma, aceitavam o preconceito em relação à exclusão do pensamento feminino literário brasileiro e, consequentemente, a exclusão da mulher na literatura, estava o escritor Graciliano Ramos, citado por Constância Lima Duarte. Na verdade, quando o referido escritor se deparou com a obra O Quinze, de Rachel de Queiroz, duvidou ter sido escrito por uma mulher, pois a cultura patriarcal estava tão arraigada em seu ser, principalmente em seus conceitos e preceitos, que ele não acreditou que o estilo adotado pela escritora fosse um processo natural feminino.

O Quinze caiu de repente ali por meados de 30 e fez nos espíritos estragos maiores que o romance de José Américo, por ser livro de mulher e, o que na verdade causava assombro, de mulher nova. Seria realmente de mulher? Não acreditei. Lido o volume e visto o retrato no jornal, balancei a cabeça: – Não há ninguém com este nome. É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado. Depois conheci João Miguel e conheci Rachel de Queiroz, mas ficou-me durante muito tempo a ideia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as mulheres da literatura. Se a moça fizesse discursos e sonetos, muito bem. Mas escrever João Miguel e O Quinze não me parecia natural. (RAMOS apud LIMA DUARTE, 1997, p. 59, grifos da autora)
                     
      A história confirma que, também em âmbito mundial, havia poucas mulheres que puderam tornar-se escritoras, devido ao preconceito que envolvia a figura feminina e, nesse sentido, firmar-se como escritora não era uma tarefa nada fácil. Evidentemente que, ao conhecer as condições de vida, as dificuldades por elas enfrentadas, os atestados médicos comprovando a insanidade e a incapacidade intelectual feminina, é de se compreender a sua escassa participação antes da década de 40.

      No entanto, percebe-se que devido ao trabalho realizado por essas mulheres escritoras é que novos horizontes se abriram para elas e para tantas outras que estavam por vir. Tanto que    homens escritores engajaram-se em sua causa emancipatória, presenteando o meio literário com personagens femininos inovadores que inspiraram o mundo intelectual.

continua...

Fonte:
Silvana da Rosa. Do tempo medieval ao contemporâneo: o caminho percorrido pela figura feminina, enquanto escritora e personagem, nos contos de fadas. Dissertação de Mestrado em Letras. Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), 2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Aparecido Raimundo de Souza (Três Lágrimas)

EU CHOREI PELA PRIMEIRA VEZ NA MINHA VIDA quando meu casamento com a Dalva desmoronou, soterrado por visões sonâmbulas, no árduo facho da angústia dos estertores mais sombrios. Contava vinte e poucos anos, era muito jovem e imaturo. Entre rastros de violências mal cuidadas, parecia um nômade na busca constante da plenitude pessoal. Nenhuma experiência me conduzia à frente, principalmente a de convivência a dois. Na cabeça, um vazio de múltiplas formas não deixava os pensamentos tomarem chão. Se às vezes cogitava abrir o peito, na tentativa de modificar as coisas mais corriqueiras, secretos ventos sopravam contrariamente, e levavam, para longe, esses desejos mais veementes. Por isso, não havia a quem recorrer para pedir conselhos. Fazia o que dava na telha, como Lúcifer nas trevas, o espírito resistindo às fúrias do inferno, batendo, constantemente, com os costados n’água. Morávamos em um subúrbio apodrecido de São Paulo, e, nessa época, eu prestava serviços a meu pai. Estudava faculdade à noite. A cidade, demasiadamente provinciana, consumia a existência dos dias numa luta suprema de atribulações mórbidas. O povo, em si, tacanho e restrito a dogmas antigos, não oferecia condições de perspectivas melhores. Tudo girava em torno de enervante rotina. Um belo dia, acorrentada dentro do próprio ego, Dalva partiu. Foi embora como o vento gasoso transformado em furacão. Levou mala e cuia, e, a tiracolo, arrastou nosso filho Eduardo.

Por esse motivo, pouco ou quase nada recordo dele. O que guardo, são frágeis mimos, retratos intermediários do único aniversário que conseguimos realizar juntos, nada mais. Se olho no espelho e questiono respostas, o silêncio exaurido me cerca e violenta bem fundo o coração. Se penso no garoto ou experimento arrancar lembranças do passado, apenas flui a negação de um grito sufocado na garganta seca. A toda hora, fantasmas iracundos transpõem os umbrais do imensurável e me amedrontam. Geram, no meu cérebro, cenas abjetas de um filme triste e melancólico que não gostaria de rever.

Deparo com feridas abertas cujas chagas não cicatrizaram. Resumo esse tempo observando que muito cedo, na minha vida, ficou tarde demais. Comecei a namorar, andavam altas, as horas no relógio da desesperança. Aos vinte, portanto, o húmus da solidão denegrida, já havia envelhecido os dias e escurecido, sobremaneira, meu risonho e cálido amanhã...

EU CHOREI PELA SEGUNDA VEZ NA MINHA VIDA quando meu relacionamento amoroso e afetivo com a Carla complicou mais do que devia. Naufraguei,de repente, nas águas gélidas de um mar enfurecido e me acorrentei em porões mal cheirosos, onde lâmpadas e grades se confundiam com despojos de um fim de aurora traçado por mãos incógnitas. Nessa época, já diplomado, nascia do estardalhaço do anel de grau à vontade de seguir carreira e me tornar um advogado brilhante. Na casa dos trinta, ganhava a vida sepultando os meses com os poucos clientes que apareciam no escritório. Carla, a jovem esposa, moldava seus projetos a instintos soltos; construía um universo sem subterrâneos. Nas horas de folga, trabalhava comigo na função de secretaria. Também estudava as ciências jurídicas e pretendia, mais à frente, ser alguém de raízes, pontilhando caminhos em busca de crepúsculos não fecundados. Antes de providenciar o divórcio com Dalva (a primeira mulher), passamos a dormir interiorizado sono, acordar com a alquimia do pôr do sol, a dividir tarefas e afazeres embaixo do mesmo teto. Dessa união, olhos e pensamentos navegando idêntico curso, futuro e pretérito interligados em igual verbo, nasceu Narjara. Todavia, o destino se esvaiu nos contornos da repetição e dividiu espaços. De súbito, veio o fim. Com ele, rusgas, gritos, lágrimas molhando o espelho, reservando, uma vez mais, novas incertezas e dissabores.

Cada um seguiu por sendas opostas. Ânsias solfejando rimas desconexas desenharam um poema melancólico em derredor do que restou de um amor que parecia eterno. Na verdade, foi dura a visão que entrou pela janela na qual me debrucei cansado, vencido, magoado, tentando ver lá fora, na multiplicação do pesado silêncio, o vazio que permaneceu depois que ela (igualmente de bolsas e malas) passou a mão em Narjara, bateu a porta de casa alçando voo em direção a incerto porvir...

ENTÃO EU CHOREI PELA TERCEIRA VEZ NA MINHA VIDA. Desta feita, não por casamentos destruídos, ou por invasões de sofrimentos no alagadiço da alma em frangalhos. Derramei lágrimas em trêmulo mistério pelo nascimento de Amanda, minha filha com Marlúcia. A miudinha chegou, num mastim sonoro, bebendo o orgulho que crescia ao meu redor. Abriu os olhinhos assistida por bons médicos, maternidade de primeira linha, tudo a tempo e a hora. Eufórico, nutrindo a certeza do mortal esplendor, não cabia, no corpo, o contentamento que fluía de dentro do meu coração. Preparei sonhos para o esperado dia. Ensaiei piqueniques, acordei quimeras de um adormecido desejo de explosão refreado na alma. Deixei que florescesse a esperança, como uma canção inocente rasgando o crepúsculo. E ela coroou eterna estrela, efêmera luz divinal, anjo descido do espaço. Mas trouxe, porém, no lábio superior, um pequeno corte desfigurando o rostinho de boneca. Foi, na verdade, um choque, um baque tremendo que consumiu parte de mim. Senti-me como o faminto sem o pão para aplacar a fome visceral, como a dor incômoda na pele do enfermo descrente, como a fé que se matou de tédio no peito de um condenado à pena de morte. Senti-me como se alguém atirasse, inopinadamente, um balde de água fria, com afoiteza descomedida, em noves meses de espera, cercados de preparações e surpresas. Todavia, Amanda, meses depois, cirurgiada, voltou ao normal. Do quadro antigo somente fotos selecionadas em álbuns de família. Uma fita de vídeo mal gravada. Um pedaço da história, da pureza, da infância que logo se tornou remota. Evidentemente que essa lacuna não ficará adormecida, ou esquecida no “para sempre’’.

Amanhã, ou depois, já mocinha, Amanda, irá por certo, indagar por essa fase da sua estrada. É o livro que ao ser folheado não poderá estar faltando nenhuma página, mesmo que essa página traga, à tona, acontecimentos e lembranças que deveriam ficar enterradas.

Amanda, hoje, grita o universo a plenos pulmões. É flor em botão, barco de alegrias singrando águas tranquilas. Minha filha saltita, pula, corre, ri o rostinho marcado por uma tênue e quase apagada cicatriz. Ingênua pétala misturando esperança e perdão em flashes endereçados a Deus. Seu olhar é um pouquinho triste, com certeza, é um pouquinho triste. Quando a vejo (o dedinho polegar esquerdo na boca), me ponho a imaginar o que fiz de errado para ser castigado através dessa inocente? Ao mesmo tempo, me alegro interiormente, porque numa determinada intermitência do destino, entre espinhos e chagas, entre acertos e desacertos, entre idas e vindas, nesse encontro especial (por que não?), ela chegou como uma esperança sem par, iluminando com fulgor descomedido, meus passos incertos. Essa mocinha quer queira eu, ou não, mudou radicalmente os horizontes que pairam sobre minha cabeça -, e, mais que isso -, me fez acreditar piamente que lá do alto, bem acima das nuvens visíveis, alguém gosta um bocadinho assim, de mim. Barriguinha (como a trato carinhosamente) me consagra ao seu esbanjamento de vida plena e eu me sinto inteiramente realizado e feliz por ter tido a sorte de ser escolhido para ser seu PAI.

Fonte:
SOUZA, Aparecido Raimundo de. Havia uma ponte lá na fronteira. São Paulo/SP : Ed. Sucesso, 2012.

Luiz Máximo de Souza (Caderno de Trovas)



A gente mesmo procura,
a gente mesmo perfaz,
o caminho da amargura,
ou o caminho da paz.
 -
Ame o bem!  O amor estude!
Seja justo, honesto e honrado!
Quem não vive de virtude,
pode morrer de pecado!
-
As lágrimas e os sorrisos
dão-nos a prova evidente
dos caminhos indecisos
porque anda a vida da gente.
-
Colhendo rosas, vi Rosa
entre as rosas do jardim;
era a rosa mais formosa
que sorria para mim…
-
Crianças abandonadas
nas nossas grandes cidades,
tristes fotos estampadas
do abandono das bondades.
-
Do teu carinho, querida,
eu preciso inteiramente;
como preciso da vida,
como preciso ser gente.
-

É bem possível que eu seja
um indiscreto qualquer...
Mas, quem é que não deseja
um carinho de mulher?
-
Levando sempre no "papo"
quase toda secretária,
o patrão pegou um "guapo",
disfarçado de Rosária…
-
Não cruzemos nossos braços
pelos caminhos da vida!
Se os frutos estão escassos,
a lavoura está florida!
-
Não quero ser emotivo,
porém, percebo e adivinho:
– sem teu carinho não vivo,
não vives sem meu carinho.
-
Nariz espetacular...
é o nariz do seu Diniz:
– quando se põe a roncar,
todo mundo pede... bis!
-
Neste abandono em que estamos
destruindo nosso amor,
nós próprios alimentamos
as chamas de nossa dor.
-

O abandono desabona,
desacredita e degrada
mais aquela que abandona
que a pessoa abandonada.
-
O amor, quando é verdadeiro,
neste lema se resume:
- não existe por dinheiro,
não se agrada com perfume.
-
O desamor dos humanos
é realmente o culpado
da existência dos tiranos,
da obstinação do pecado.
-
Olhe o nariz da Ermengarda
e observe que narigão!
É, perto de uma espingarda,
um verdadeiro canhão!
-
Os caminhos da amargura
e os caminhos da esperança,
você mesmo é que os procura,
você mesmo é que os alcança…
-
Pelos caminhos da vida
encontrei você, meu bem,
sem esse encontro, querida,
eu não seria ninguém.
 -

Perfumes, como atitudes,
ninguém pode avaliar...
Que as suas totais virtudes
não irá, nunca, encontrar…
-
Se eu tiver os teus carinhos
e tu tiveres os meus,
viveremos mais juntinhos
e bem mais perto de Deus.
-
Sejamos todos irmãos,
bons amigos, bons vizinhos;
estendamos nossas mãos,
ao cruzarmos os caminhos.
 -
Se não queres que o abandono
te envileça e te degrade,
não subas tanto no trono
da desumana vaidade.
-
Se te amar pecado fosse,
se é pecado ainda te amar,
esse pecado é tão doce
que vale a pena pecar.
-
Se te contemplo a me olhar,
bem nos meus olhos, sorrindo,
é o mesmo que contemplar
botões de rosas se abrindo…
-

Se te fechas no egoísmo,
se abandonas pais e irmãos,
forjando estás teu abismo,
com as tuas próprias mãos.
-
Seu salário era curtíssimo,
e o remédio pro Correia
foi pedir ao Meritíssimo
para dormir.. na cadeia…
-
Simplesmente não me atinge
o abandono inconsequente
do amor que somente finge,
do amor que odeia somente.
-
Sobre o nariz discutiam
sua posição funesta...
E, ao final, se divertiam:
- E se ele fosse na testa?
-
Tens, minha deusa formosa,
nos teus lábios de carmim,
todo o perfume da rosa
mais bela que há no jardim.
-
Todo excesso de requinte
não surte bom resultado;
carinho, por conseguinte,
também tem que ser dosado.
-
Todo perfume é um poema,
cujas estrofes floridas
cantam a essência suprema
das flores de nossas vidas.
-
Vou lhe dizer a verdade,
a verdade, nua e crua:
– sem carinho a sociedade
conjugal não continua...