Lívia Tucci (Poesia, o Atalho de Magos e Loucos)
A folha que recicla (Antonio Guerreiro)

Afinal, o que é poesia? É uma linguagem orgânica e invertebrada? Sonora...elástica? É poesia a que revela a magia, a alquimia da palavra que transforma tudo o que a vida limita e não pode criar? O que sabe a poesia? Eu, nada sei...serei sempre aprendiz. Vejo a poesia, como o tempo, que está em todos os lugares, mas prefere se deter mais longamente na placidez das coisas simples e duradouras. É a contemplação da alma turbulenta. É poesia a que é pressentida nos símbolos que transcendem o ser e renovam a linguagem indolente. Linguagem extraída da essência poética, de nós mesmos. Onde está a poesia? A poesia está nos livros antigos, velhos e esquecidos. Nos contemporâneos e virtuais. Nas areias da praia. Está nos sebos, nas bibliotecas, nas livrarias. Nas latas de lixo, quando o pensamento vil e homens de pouca fé não comportam em si tanta invasão poética. Está na casa dos amigos, nas suas estantes e banheiros. Em livros esquecidos de serem devolvidos. Está nas ruas, nos bares. Nas gavetas e no seu silêncio. Na anarquia e no inconformismo. No grito afiado dos oprimidos. Em bordéis e lares nem tantos. No avesso e no direito. No sangue e suor transpirado. Na loucura e no inesperado. Na lama e no lótus. A poesia está na primeira impressão, nos versos livres, contidos, contados. No corpo descrito, desnudo, velado, dos cantos e salmos. No sagrado e no profano. Está nos traços, pelo carvão e pincel que desliza, sensual, sua cor e drama na folha branca. O que sabemos da poesia? Muito pouco, por ser ela inconstante, mutante, autofágica...num surpreendente mimetismo. Conhecemos sua partida. Desconhecemos seu destino e chegada...tudo pode ser possível entre uma estação e outra. Há poesia na imagem que se traduz em momentos únicos, líricos, oníricos. Imagens irreversíveis. Instantâneos reveladores. É poesia a que recicla vocábulos, revira signos e movimentos? É poeta o que descobre um novo ritmo, sempre que o coração se encontra e dispara ou repousa na placidez das águas do bem e do mal? São todos os sentidos nas flores do zen, nas cores do mar. Nas festas ao sol, nos saraus ao luar. A poesia é um estado de espírito, de espera e de espanto. Na comunhão universal ou na paz de nossa própria solidão...
Fonte:
http://muraldosescritores.ning.com/
Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)
DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.
Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.
Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?
Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.
Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?
Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.
Não tenho água para beber, e estou tão cansado.
Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.
Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.
Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.
Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.
Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.
Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.
Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.
Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.
Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.
Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.
Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.
Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.
Amém.
Coleção Memória Viva: Trovas
Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul
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Almanaque criado por José Feldman, com artigos nos moldes do blog.
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Especial do número 9 - Francisco Neves de Macedo
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